Shaka notou a mudança brusca de entonação na voz grave do homem, a qual tinha perdido o tom amistoso de momentos antes e ganhado um acento duro. Engoliu em seco em expectativa, mas não mostrou-se de fato surpreso. Os muitos anos já vividos na clausura da cegueira lhe possibilitavam especular alguns pormenores de seus interlocutores. Era capaz de adivinhar a essência de uma pessoa pela entonação de sua voz, e a de Hakurei não se contrapunha a nada do que Mu já não lhe dissera antes. Não tinha calor, sequer uma tímida brasa, era áspera como lixa, mortiça, e como o toque de um fantasma lhe causou arrepio.
O pianista respirou fundo sentindo os olhos de Hakurei fixos em si. Sem saber se deveria dizer algo escolheu ficar calado e esperar ouvir a voz de Mu responder ao pai, ou quem sabe lhe dar algum comando, e essa espera de meros segundos lhe pareceu aterradora, até que finalmente ouviu o estudante de cinema responder com o cuidado de alguém que maneja um frasco de nitroglicerina.
— Pai, esse é o Shaka. — a voz tinha um tom confiante e natural, o que trouxe um pouco de alívio ao pianista — Ele é músico, pianista! — fez uma pausa vendo no rosto do pai uma já esperada expressão de surpresa — Nos conhecemos por causa de um trabalho da faculdade, e hoje eu o trouxe aqui para assistir ao concerto e almoçar conosco. — deu um meio sorriso, e um tanto atrapalhado recuou um passo se colocando ao lado de Shaka. De maneira bem formal pousou a mão fria no ombro dele.
— Ah, aluno de Columbia também? Não me recordo de ter visto música na grade de graduação deles. — perguntou Hakurei arqueando as sobrancelhas ralas, marca da família. Por sorte ele sustentava o olhar no rosto visivelmente aflito do pianista, por isso não percebeu a troca de olhares entre Mu e Shion, tampouco a lividez que tomara conta do rosto do caçula.
Quando Mu preparava-se para engatar outra mentira, ajeitando nervoso na cabeça o boné branco, eis que ouviu a voz de Shaka responder à sentença.
— Não. Eu fui aluno da senhora Johnson, na Salas Klavierschule, no Bronx. — fez uma pausa para engolir um soluço seco, e nessa hora apertou mais a bengala nas mãos e levantou a fronte voltando o rosto na direção em que ouvia a respiração ruidosa do cavalo. Seus olhos estavam fechados e os cílios longos tremelicavam como se neles batesse um forte golpe de ar. — Nos conhecemos na faculdade porque ajudei Mu com uma composição no piano para um documentário, não foi, Mu?
O cineasta estava absorto com a coragem do pianista, mesmo sabendo que ele deveria estar igualmente aflito.
— Sim! Foi sim. — Mu respondeu prontamente enquanto trocava um rápido olhar com Shion antes de voltar a encarar os olhos cinzentos do pai. — Foi... para aquele documentário para a produtora de televisão... Um amigo que temos em comum nos apresentou e... bem, fizemos a parceria. — raspou as unhas no queixo num gesto nervoso. Era difícil, para ele, mentir.
De cima da égua, que vez ou outra balançava a cabeça parecendo impaciente, Hakurei suspirou. Um garoto cego e cabeludo, uma escola de piano da qual nunca ouvira falar, instalada no Bronx... O filho caçula de fato era especialista em lhe surpreender com elementos desagradáveis. Quem dera ele tivesse o mesmo talento para se tornar o centro das atenções em seu círculo social por algo que realmente lhe agregasse status, como aparecer ali montado em seu puro sangue para jogar a partida ao seu lado, ou mesmo acompanhado de uma bela mulher, que preferencialmente estivesse carregando no ventre um neto seu, já que Shion parecia não ter a mínima pressa em perpetuar o legado da família, ou sequer vocação, visto que trocava de namoradas como quem troca de meias. Mas não. Mu aparecia ali com mais um de seus amigos excêntricos, para não dizer estranhos, só que dessa vez ele havia caprichado.
— Está certo. — disse, ainda encarando fixamente o rosto do pianista, quando de repente a mão da esposa lhe apertando sutilmente a coxa o fez mudar o foco.
— Querido, vá guardar a Cristal para almoçarmos. — disse ela aos sorrisos. — Esperamos você na mesa, pode ser? O sol está meio forte, minha pele está começando a ficar ardida.
— Certo. — ele disse lhe dando dois tapinhas na mão, depois olhou para Shion e em seguida para Mu. — Vejo vocês na mesa.
Antes de dar o comando para a égua e sair dali Hakurei ainda olhou uma última vez para Shaka.
Estavam todos juntos no salão luxuoso do clube. Sentados em uma das mesas há pouco mais de uma hora, eles conversavam enquanto saboreavam os pratos preparados especialmente para aquela ocasião. Entre eles, o risoto de frutos do mar e a lagosta na manteiga com ervas eram os que mais agradavam o paladar dos Bharani.
Shaka, no entanto, preferiu os canapés de salmão, porque não tinham aquele sabor acentuado de mar, além de serem a opção de mais fácil manuseio. Bastava-lhe tatear a borda do prato com a pontinha dos dedos, avançar devagar e cautelosamente até o cento e assim que encontrasse os bolinhos redondos apanha-los e coloca-los na boca.
No primeiro momento, assim que chegaram ali e se acomodaram em seus lugares, o pianista teve a sensação de estar em um tribunal, onde ele era o réu e cada ato, cada gesto seu, estaria sob constante julgamento. A vontade de gritar e fugir crescia a cada instante transcorrido, e nas horas em que parecia que suas pernas ganhariam vontade própria e finalmente o levariam para longe dali, não fossem seus olhos inúteis sabotarem o desejo delas, ele respirava fundo e pensava: faça por ele. Faça por Mu. Então ele procurava adestrar o medo, para ao menos mantê-lo acorrentado sob sua constante vigilância, e era nesses lampejos de coragem que ele conseguia concentrar-se em seus outros sentidos. Foi assim que aceitou o champanhe que o garçom lhe oferecera e provou também da lagosta, usando um talher que Mu gentilmente entregara em sua mão. Agradeceu às orientações dadas por Shion, que estava sentado ao seu lado, e provou as torradas com azeite grego e ervas finas, as quais estavam dispostas em uma travessa bem à sua frente. Com a segurança de quem podia ver apanhou a taça ao lado do prato e deu um gole curto no champanhe. A despeito do sabor forte da bebida extra seca, ele gostou do aroma apurado das vinhas, e era incrível como este casava perfeitamente com o sabor da lagosta. Um verdadeiro deleite ao seu paladar tão modesto. Devolveu a taça à mesa com cuidado para não esbarrar em nada, e toda essa concentração focava exclusivamente em seus movimentos lhe fazia perder muitas das conversas que se davam na mesa, em seu entorno, no entanto ele ouviu com nitidez quando a mãe de Mu, com uma voz amistosa e sorridente, disse seu nome.
Ela chamava sua atenção, na verdade.
— Perdão? — ele perguntou voltando o rosto ligeiramente abaixado para a direção de onde calculava vir a voz dela. — Eu estava distraído.
— Eu disse para o Mu leva-lo à nossa casa qualquer dia desses, para o jantar. — ela respondeu enquanto pousava a mão sobre a do caçula, que tinha a fisionomia visivelmente apreensiva, pois que a consciência de que tudo aquilo deveria estar sendo um completo terror para o pianista, como era para si mesmo, o punha atormentado; porém nada podia fazer. — Eu tenho um Steinway&Sons, e gostaria de ouvi-lo tocar.
O pianista levantou a fronte e sorriu acanhado. "Faça por ele. Faça por Mu." Em pensamento rogava a Deus para que estivesse tudo no lugar, sobras de comida no prato e não em seu rosto, cabelos alinhados, roupa limpa.
— Será um prazer tocar para a senhora. — disse com a voz firme. Não conseguia ponderar ainda se estava feliz ou apreensivo com o convite. — Obrigado pelo convite.
— Mu disse que seu talento é impressionante. Fiquei curiosa. — ela disse. Sua curiosidade, porém, residia mais no fato de ele ser um pianista cego do que um pianista talentoso, sendo tão jovem e vindo de uma escola desconhecida de subúrbio.
— A senhora precisa vê-lo tocar La Campanella. — disse Mu procurando dar conforto e segurança ao amado como podia. Era seu modo de lhe dizer "Estou aqui. Vai dar tudo certo." — Ele faz todos os saltos sem esbarrar nas notas brancas. Mal se pode ver seus dedos correndo pelas teclas. É absurdamente incrível!
Yuzuriha levantou as sobrancelhas finas e piscou os longos cílios engrossados por algumas camadas de máscara negra. Sua fisionomia ganhara um ar de surpresa.
— É mesmo? Ora, então temos um prodígio aqui, porque você me parece tão jovem para já ter dominado essa peça! — ela disse, verdadeiramente admirada, visto que aquela era uma composição que exigia alguns anos de estudos e muita prática. — Quantos anos você tem, Shaka?
O pianista levou as mãos para debaixo da mesa a fim de não deixar ainda mais evidente seu nervosismo, embora o rubor em seu rosto facilmente o denunciasse.
— Eu tenho dezenove.
— E já domina as armadilhas dessa peça? — ela sorriu buscando sua taça de champanhe. — Eu tenho certeza de que Liszt a compôs propositalmente para nós, pianistas, errarmos.
— Eu não duvido. Em todas as vezes que tentei tocá-la meus dedos simplesmente se negaram a me obedecer. — Mu completou aos risos. — Liszt devia ser psicopata. O sangue frio que ele teve para criar essa composição...
— Mu! — Yuzuriha riu lhe dando um tapinha nas costas da mão. — Sabia que é dito que naquela época Liszt e Paganini foram acusados de terem vendido suas almas ao diabo em troca de adquirirem tal maestria?
O estudante de cinema deu uma alta gargalhada, a primeira, de fato, desde que chegara ali ainda pela manhã.
— E a senhora acredita nessas coisas, mãe? Na época deles qualquer talento ou habilidade em demasia era suspeito. Acusar os outros de bruxaria ou satanismo era a forma que as pessoas ordinárias encontravam de lidar com a própria mediocridade.
— Eu não duvido do potencial do diabo. — disse ela, agora séria, e em seguida se benzeu fazendo o sinal da cruz. Era cristã fervorosa. — O tom dessa composição é tão alto que é praticamente impossível executá-la sem que se tenha feito mesmo um pacto.
— Bom, talvez por isso Liszt tenha diminuído o tom para lá bemol menor. O risco de esbarrar nas notas e errar nos saltos se tornou menor, e assim as pessoas não precisariam fazer um pacto com o diabo para executá-la com perfeição. Podemos dizer que Liszt então salvou a alma de muita gente. — disse Shaka, sentindo-se um pouco mais solto e confiante, já que o assunto finalmente tinha migrado para um terreno conhecido e adquirido um tom descontraído.
— Sim! Tem toda razão! — concordou Yuzuriha aos risos. — Me perdoe a indiscrição, Shaka, mas como... como faz para estudar partituras de peças tão complexas sendo deficiente visual? Você lê braile?
Mu coçou o queixo incomodado. Não gostava quando usavam aquele termo, deficiente, com o namorado.
— Mãe, justo a senhora fazendo uma pergunta desse tipo a ele? — disse, disfarçando o desconforto com um sorriso ameno. — Sabia que dona Yuzuriha é fã assumida de Ray Charles, Shaka?
— É mesmo? — respondeu o pianista achando graça da alusão feita pelo estudante de cinema, já que Ray Charles também era cego. — Isso só prova que sua mãe tem muito bom gosto. O soul, o jazz e o blues são estilos de incontestável beleza, e Ray Charles é um dos maiores músicos de todos os tempos. — fez uma pausa e então respondeu à pergunta que ela havia lhe feito: — Algumas partituras eu estudei em braile. Minha professora as encomendou para mim, mas quando já estava familiarizado com o piano me bastava ouvir as notas, os tons e arranjos, e então memoriza-los. Quando me ocorre alguma dúvida, meu irmão lê as partituras comuns para mim.
— Ah, o seu irmão também é músico? — ela perguntou.
— Não, ele não é. Mas eu o ensinei a ler as posições das notas. — disse o pianista.
— Na maioria dos casos o Shaka escuta e sai tocando, mãe. É sensacional! — disse Mu, e nessa hora não conseguiu deixar de olhar para Shaka e sentir seu coração bater forte. — A capacidade dele de memorização é algo que eu nunca vi antes.
— Sim, é realmente incrível! — falou Yuzuriha genuinamente admirada.
Nesse momento, sem que ninguém esperasse, o patriarca daquela família tomou a palavra. Vinha acompanhando a conversa, que para ele era totalmente desinteressante, mas com seu entusiasmo renovado pela vitória na partida de polo ele deixou um pouco de lado as pautas empresariais que discutia com o filho mais velho para palestrar com o pianista, uma vez que achou que já era tempo de entender o que, afinal de contas, aquele garoto fazia ali, pois que se Mu o tivesse convidado pelo concerto de violino apenas, não tinha necessidade de ele estar sentado à mesa com sua família. Tal constatação, no entanto, era mais fruto de um legítimo incômodo do que apenas implicância. Desde que chegaram no salão seus olhos analíticos não se desgrudavam do pianista, assim como percebia que outros tantos pares de olhos também tinham um interesse particular nele e fingindo discrição se esticavam até a mesa onde estavam, interessados em ver como um cego se saía fazendo uma refeição em público. Ficou ligeiramente impressionado com a habilidade do garoto, e muito mais aliviado em ver que Mu não teria que servir-lhe comida na boca. Sim, esse esdrúxulo pensamento lhe ocorreu em dado momento.
— Disse que estudou piano em uma escola no Bronx. — ele perguntou com seus modos cerimoniosos, elevando o volume da voz. — É de lá?
Quando ouviu a voz severa de Hakurei, o rosto de Shaka foi tomado por uma suave lividez. Ele estralou alguns dos dedos por debaixo da mesa e procurando fingir tranquilidade sorriu.
— Sim. Moro a algumas quadras da Estação Melrose.
— E essa escola? É uma instituição para cegos? — perguntou, causando imediato constrangimento a Mu e expectativa em Yuzuriha, que mantinha os olhos fitos no pianista.
— Não... Era uma escola mantida por uma brilhante pianista austríaca, a senhora Johnson, e que foi aberta para quem quisesse aprender piano, independente de idade ou gênero, fosse portador de alguma limitação ou não. A senhora Johnson acolhia a todos, bastava o amor pelo piano e pela música. — disse com a firmeza de um habilidoso orador.
Hakurei ergueu o queixo com um ar imponente e grave, depois apanhou a taça de champanhe, deu um gole e encarou o rosto de Mu por um instante. Este imediatamente abaixou os olhos, fugindo do confronto.
— Entendi... Então em sua família só você é músico? Ou há mais alguém?
— Não. Somente eu.
— Imaginei. — disse devolvendo a taça à mesa, e vendo que o semblante do pianista adquiriu um tom de indagação continuou: — É curioso, já que Mu faz tanta questão de frisar o seu talento para o piano, que sua família não o tenha encorajado a cursar um Berklee¹ ou Juilliard². Mesmo com tamanho talento, se é como dizem, o que vale nesse mundo são os títulos, já que só talento não paga as contas, não é mesmo? Não pensa em estudar piano em uma instituição que possa prepara-lo para o mercado de trabalho de fato? Ou... — fez uma pausa, dando atenção à uma constatação óbvia que ascendeu ao seu pensamento. — Bem, certamente existe alguma instituição que conceda bolsas de estudos para, digamos, talentos excepcionais, resta saber se estas estão aptas a receber alunos com deficiência... mas certamente há aquelas que estão, ou que trabalham com algum sistema de cotas para deficientes e...
— Pai... por favor. — Mu finalmente o interrompeu, não suportando todas aquelas cobranças tão implícitas quanto fora de hora. Ele melhor que ninguém sabia de todos os motivos que impediam Shaka de cursar uma escola de música renomada como as citadas pelo pai, e a deficiência era de fato o menor deles. Além disso, estava claro para ele que Hakurei usava seu "amigo" para lhe atingir, como sempre fazia, alias. — Creio que Shaka não esteja preocupado com títulos ou mercado de trabalho. Pelo menos não do modo como o senhor acha que ele deveria estar... Ele é um artista, não um operário.
Hakurei franziu a testa e encarou o filho caçula com um olhar mortificante. Ao lado dele Shion revirou os olhos, já mais do que habituado àquelas discussões. Yuzuriha bebeu mais um gole do champanhe, nervosa.
O confronto estava armado.
— E quem hoje em dia não está preocupado com o mercado de trabalho, Mu? Só você, que se diz artista, mas na verdade é um bom vivam como sua mãe. Arte não paga suas contas no final do mês, nem todos os seus luxos. — disse ríspido — Sabe muito bem que não é a arte de vocês que sustenta essa família, sou eu. O que me faltou em títulos eu compensei com trabalho duro, muito duro, que o seu irmão, sim, soube dar valor, tanto que hoje é ele quem me ajuda a manter o patrimônio dessa família e o estilo de vida elevado que você e sua mãe tanto gostam se esbanjar.
— Ei, vocês dois! Não precisamos entrar nessa discussão pela milésima vez, não é mesmo? — Shion interveio elevando a voz, temendo que aquele bate-boca se prolongasse e acabasse em uma precoce confissão explosiva de seu irmão acerca da revelação de sua sexualidade, já que conhecia bem seu temperamento. — Que tal, ao menos hoje, nós fingirmos ser uma família amorosa, compreensiva, que respeita as diferenças e civilizada? Hum?
Se para Mu a intervenção do irmão fora acolhida com surpresa, para Hakurei o espanto fora ainda maior.
O patriarca dos Bharani encarava o filho mais velho com alarde e austeridade, enquanto Yuzuriha disfarçou o embaraço comprimindo os lábios e ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Filho! — ela o encarou dando um falso sorriso. — Não fale desse jeito. O que o nosso convidado vai pensar?
Ao ser citado, o rosto do pianista corou de constrangimento, mas ele estava tão nervoso que era inviável tentar dizer qualquer coisa.
— Ele não vai pensar nada, mãe. — disse Mu já em tom grosseiro — Diferente de vocês, Shaka não veio aqui hoje para julgar ninguém... ele veio pelo concerto, pelos violinos.
— E também pelos cavalos! Por que não? — exasperado Shion interveio mais uma vez, antes que o pai retrucasse. Agora sua voz tinha um tom bem mais ameno, quase amistoso. — Gostaria de conhecer os cavalos, Shaka?
Pego desprevenido pelo convite, o pianista se demorou alguns instante em responder. Estava perdido, apavorado. Temia ter estragado tudo, fora demasiadamente ingênuo dizendo a verdade. Deveria ter imaginado que o pai de Mu prezaria por uma formação acadêmica cheia de pompas, que somente lhe daria algum crédito se tivesse algum valor de fato; poderia ter dito que era bolsista em Juilliard ou no Curtis³, ele decerto não iria contratar um detetive para checar a legitimidade de suas palavras, mas nem lhe passou pela cabeça mais essa mentira. Bastava o enorme esforço de fingirem serem apenas amigos. Então, ansiando por se ver livre daquela situação constrangedora, respirou fundo para responder à Shion que sim, queria conhecer os cavalos, quando de repente uma nova voz se assomou às demais ali na mesa. Ele a reconheceu na mesma hora, e seu coração deu um salto dentro do peito. Era a voz crua de sentimentos e recheada em cinismos de Kanon Thálassa, que cheia dos cerimoniais chegou cumprimentando a todos com um gentil boa tarde e logo depois centrou-se em Shion e Mu, que em seu lugar na mesa já esfregava o rosto enquanto soltava um longo e enfadado suspiro. Diabo. Só faltava mesmo isso! Era o que o estudante de cinema pensava.
— E aí, cara! — disse Shion ligeiramente se levantando da mesa para apertar a mão que o advogado amistosamente lhe oferecia. — Não o vi na partida. O seu irmão estava em campo!
— É eu não pude vir a tempo de assistir à partida, mas o almoço não iria perder por nada! — ele respondeu cheio dos sorrisos dissimulados. — Como vai, Mu?
Depois de encarar firme por um momento o par de olhos ardilosos fitos em si, Mu esticou o braço e respondeu ao cumprimento com um aperto de mão forte e grosseiro.
— Bem. — disse seco, sustentando fixo o olhar nos olhos de Kanon, como se somente através desse pudesse lhe advertir de que não fizesse nenhuma gracinha ali.
— Que bom! — o advogado respondeu com um risinho debochado, depois olhou para Shaka, e esforçando-se para conter a raiva que passou a lhe corroer as entranhas desde que tinha entrado naquele salão e visto o pianista ali, na mesa dos Bharani, recolheu as mãos ao bolso da calça de alfaiataria e também o cumprimentou: — Olha só quem está aqui! Como vai... Shaka, não é mesmo? — disse como se tivesse dificuldade de se recordar do nome.
— Muito bem, Kanon. — o pianista respondeu, extremamente surpreso com a presença dele ali, e temendo que ele dissesse o que não devia, afinal ele não sabia sob que condições estava ali, se passando por amigo de Mu.
O estudante de cinema tinha o mesmo temor, por isso apressou-se em deixar claro ao advogado o que se passava ali. Sabia que ele pegaria a situação no ato, portanto foi direto e categórico; arrastou a cadeira para trás e se levantou apressado.
— Pai, o senhor se lembra do Kanon? — disse, e assim fez com que o advogado voltasse sua atenção para o pai na mesa. — Ele defendeu uma causa um tempo atrás para a empreiteira. Eu o indiquei.
— Sim, eu me lembro. — disse calmamente Hakurei estendendo a mão ao advogado, que prontamente e apressado retirou a dele do bolso e correspondeu.
— O caso Wholler, das promissórias! — disse Kanon com um sorriso rasgado de canto a canto do rosto. Sua fisionomia perdeu o tom cínico para ganhar notas de euforia. — Como vai, senhor Hakurei?
— Bem. — ele respondeu recolhendo o braço. — Me lembro do caso. Você fez um excelente trabalho... E não teria como esquecer o seu rosto. É impressionante a semelhança entre você e o seu irmão. Quando entrou no meu escritório achei que Mu estivesse me pregando mais uma de suas peças me mandando um polista no lugar de um advogado. Aliás, falando no seu irmão, ele estava muito bem em campo hoje, mas não bem o suficiente para vencer minha equipe.
Kanon deu uma risada polida e forçada.
— Muitos nos confundem por sermos gêmeos idênticos, mas Saga também é advogado, e pelo que está dizendo ele deve ser melhor advogado do que polista. — riu dissimulado — Nós somos sócios.
Aproveitando a deixa, Mu deu dois toques no ombro de Shaka e lhe sussurrou para que se levantasse, depois chamou a atenção do indigesto visitante indo até ele e parando ao seu lado.
— Kanon, quando chegou Shion e eu estávamos mesmo indo mostrar os cavalos ao Shaka. Venha conosco! — fez o convite quase entredentes e o encarando nos olhos, deixando claro para ele que não aceitaria uma recusa como resposta.
— Certo! Por que não? — o advogado lhe sorriu com deboche.
Antes de deixarem a mesa, Shaka usou da formalidade recém aprendida naquele dia e agradeceu ao almoço e à gentileza do convite de Yuzuriha para tocar o piano em sua casa. Com sorrisos amenos e uma sutil mesura deixou a mesa guiado por Mu e Shion, que iam lhe orientando pelo caminho enquanto tateava o chão com a bengala. Kanon também se despediu logo depois, usando dos mesmos cerimoniais.
Hakurei e Yuzuriha os acompanharam com os olhos até que deixassem o salão.
— Você não dá mesmo uma chance sequer para o Mu. — ela suspirou pedindo ao garçom mais uma taça de champanhe. Punha-se tão indiferente ao advogado quanto ele fora a ela. — Meu Deus do céu, Hakurei, depois de tanto tempo nosso filho vem assistir a uma partida sua, e ainda fica para o almoço com a gente...
— Do que está falando? Que chance? Eu dei, e ainda dou, todas as chances a esse moleque, e o que ele me dá em troca? O deixei fazer a porcaria do curso que queria, pago todas as mordomias dele, sustento sua vida de luxo... Deve ser esse o meu erro, isso sim! — resmungou chamando o garçom. — Mu nunca vai se tornar um homem de verdade, responsável, maduro, enquanto tiver na cabeça esse papo furado de cinema, de arte. Essa frescura toda está estragando ele. — bufou.
— Que frescura, homem? — Yuzuriha indagou.
— Essa história de que ele é artista.
— Mas ele é! Você que se nega a enxergar e aceitar. Mu tem a arte na alma, meu marido, e você deveria reconhecer os talentos do nosso menino.
Ele a encarou com um olhar severo.
— Que talentos? Saber tocar algumas músicas no piano? Sair por aí com uma câmera na mão filmando as coisas? Qualquer um que não seja um ignóbil é capaz disso... Você que colocou essa coisa de artista na cabeça dele, Yuzuriha. Mu é um Bharani! Meu filho! Meu herdeiro! Ainda que com uma cabecinha avoada e sonhadora ele tem o meu sangue correndo nas veias dele. Com essa idade já deveria ser um homem maduro engrenando em uma carreira de verdade, à frente das empresas que um dia serão dele e depois dos filhos dele, e não um merdinha de um estagiário medíocre em uma emissora de televisão.
A elegante senhora se remexeu incomodada na cadeira. Ela não queria confrontar o marido e lhe acentuar a cólera, mas não concordava com as palavras dele, por isso a seu modo polido e educado tentou, como sempre tentava, abrir sua mente.
— Os tempos mudaram, querido. Mu ainda é muito jovem para ser chefe de família. É até injusto cobra-lo disso se nem mesmo Shion é.
— Não use Shion para defende-lo. — ele ergueu o indicador em riste, apontado para ela. — Shion é um libertino, mas ao menos compensa suas irresponsabilidades pessoais com competência profissional.
— Está bem. Me desculpe, tem razão, mas voltando ao Mu... ele tem tantos sonhos... Nada o impede de herdar as empresas e colocar alguém competente para dirigi-las em seu nome enquanto é feliz na profissão que escolheu.
— Ah, quanta bobagem. Vou fingir que não ouvi isso, mulher. — bateu com a mão na mesa acompanhando com os olhos o garçom no salão. — Desde quando ser artista é profissão? É coisa de desocupado, isso sim. De gente que só se torna famosa e gera algum dinheiro depois que morre. É isso que você quer para o nosso filho? — perguntou efusivo, mas nem a deixou responder — Essa merda de arte só serve para fazê-lo acreditar em um mundo de fantasias, a não levar nada a sério, e a conhecer essa gente esquisita que ele vira e mexe nos apresenta. Já reparou que Mu só tem amigo transgressor?
— Está falando do pianista ou do advogado cabeludo? — ela olhou para ele com desdém.
— Do pianista, mulher, óbvio. O advogado não tem nada de transgressor... embora pudesse cortar um pouco daquele cabelo.
— E o que o pianista tem de transgressor, homem? O rapaz é um doce! É porque é cego e de classe baixa, não é?
Hakurei respirou fundo, irritado, enquanto ajeitava a gola da camisa polo.
— Não... claro que não. — disse sem nenhuma convicção. — Mas é mais um moleque que não quer nada com nada da vida... Estudou música em uma escolinha de uma velha austríaca no Bronx? Ah, pelo amor de Deus. Não é a classe, é a falta de perspectiva de futuro, o conformismo. Aposto que nem ensino superior deve ter.
— Pois eu o achei uma graça, além de extremamente educado e esperto. — ela sorriu.
— Tudo para você é um graça, até aquela cor ridícula da cabeleira do seu filho. — ele virou-se para o garçom que acabava chegar ali. — Pode retirar a mesa e me trazer a sobremesa, por favor? Dupla. Se tiver sorvete quero com muita calda. Preciso de açúcar!
Sentada ao seu lado Yuzuriha pediu mais uma taça de champanhe, e enquanto o garçom se afastava para buscar o pedido, outra pessoa se aproximava, com um andar lento e regrado como o de um autômato. Tinha no rosto uma fisionomia indecifrável, mas um bom observador seria capaz de ver que em seus olhos verdes ardia a chama de uma fúria genuína.
Kanon estava possesso de raiva.
Assim que ele, Mu, Shion e Shaka deixaram juntos o salão, do lado de fora o estudante de cinema pediu para que trocassem uma palavra a sós, então se afastaram alguns passos e aos cochichos Mu o colocou à par da situação toda ali. Dissera que tinha trazido Shaka para que os pais o conhecessem, mas que não havia revelado a eles ainda que era gay, tampouco que Shaka era seu namorado, e que contava com o seu bom senso e alguma dignidade para manter-se calado. Embora lhe fosse tão difícil controlar o ímpeto de despejar meia dúzia de impropérios e insultos descabidos ao advogado, Mu manteve o autocontrole e conseguiu conduzir a conversa sem se exaltar, mesmo assim descarregou dezenas de ameaças sobre ele caso ousasse se intrometer. Terminada a conversa, o estudante de cinema regressou sozinho até onde Shion e Shaka o aguardavam, e então seguiram somente os três para os estábulos. Para o irmão mais velho Mu disse que fora uma conversa amistosa, que apenas tinha pedido a Kanon para manter a discrição e este certamente cooperaria, mas Shaka sabia que de amistosa aquela deliberação entre eles nada tivera, no entanto ali não era hora nem lugar para discutirem a respeito.
Parado frente à entrada do salão, Kanon os acompanhou com os olhos flamejantes de raiva até que estivessem bem distantes, então entrou e caminhou direto até a mesa dos Bharani.
Ao aproximar-se de Hakurei, este já lhe fitou o rosto com um semblante curioso e indagador. Yuzuriha fazia o mesmo.
— Mas já voltaram? Acabaram de sair! — o empresário questionou.
— Ah, pois é. — disse Kanon todo simpático — Eu senti que eles queriam muito fazer esse passeio aos estábulos sozinhos, especialmente Mu e o pianista. Fiquei com receio de incomodá-los... Depois, eu já perdi a partida do meu irmão, me ausentar também do almoço com ele é um pouco descaso demais. — riu como quem ri de uma anedota sem graça.
— Você já conhecia o rapaz pelo jeito, o tal pianista. — Hakurei indagou curioso.
— Ah! Sim. Ele está sempre com o Mu, nas festas da universidade, e também nas do time... Foi inevitável ignorar a presença do jovem e talentoso pianista amigo do seu filho. — disse mordaz, e com uma ironia que seria captada apenas por si mesmo — Bom, eu passei aqui só para dizer que foi um prazer revê-lo, senhor Hakurei, e que a Thálassa´s Advocacia está a seu dispor. Já tem nosso contato. Tenham um bom dia... Senhora. — fez uma mesura à Yuzuriha e então se afastou finalmente, indo à mesa onde estavam o irmão com alguns amigos.
Já há alguns minutos caminhando pelas baias onde a égua Cristal descansava junto dos outros animais da família, Mu finalmente conseguiu relaxar de seu estado de tensão e alerta. Longe do pai, até o ar que respirava lhe parecia bem mais leve, e com calma agora podia enfim conversar normalmente com Shaka, enquanto lhe apresentava os cavalos.
Sabendo que o irmão precisava desse momento, Shion fazia o caminho inverso, e para deixá-los à sós caminhava pelo outro lado dos estábulos, entre as baias mais afastadas.
Diante da égua puro sangue, que no passado fora do estudante de cinema antes do pai reclama-la para ele, e que de tão mansa se deleitava com os toques gentis da mão do pianista em seu pescoço e orelhas balançando docemente a cabeça e emitindo barulhinhos engraçados, Mu sorria, ainda que seu riso carregasse todo o pesar de seu coração. Ele tinha nutrido esperanças de que aquele encontro fosse diferente, de que o pai fosse se encantar com o pianista como ele se encantara. Às vezes sua própria ingenuidade o surpreendia.
— Ela gostou de você. — disse Mu dando tapinhas no pescoço da égua.
Shaka deixou escapar um riso fraco.
— Eu também gostei dela... A orelha é tão macia! — disse, e logo em seguida voltou a ficar sério. — Eu estraguei tudo, não foi?
Mu olhou para ele com surpresa.
— Não! Não estragou nada. Por que está dizendo isso?
Shaka deu de ombros.
— Eu tentei, de verdade... Também não importaria o que eu dissesse, não é mesmo? O seu pai é uma pessoa prática, que anda em linha reta... Nunca que ia desviar para novos caminhos... pelo menos não do jeito tão fácil e rápido que esperávamos.
Mu suspirou.
— Uma hora ele vai ter que desviar. — disse o cineasta, e atreveu-se a aproximar-se mais dele. Num gesto afetuoso lhe acariciou os cabelos loiros acomodando-lhe uma mecha atrás da orelha — Você não fez nada de errado. Eu sei o quanto tentou acertar... O erro não está em você, não está em mim, está nele... tão somente nele e em tudo que o levou a ser como é.
— Então, ele foi sempre assim? — perguntou, mesmo que já soubesse a resposta. Hakurei era tão absurdamente diferente do próprio pai... mas ainda lhe restava uma esperança de que houvesse algum calor na relação dele com Mu.
— Até que hoje ele estava de bom humor — Mu riu sem graça. No fundo nem mesmo ele entendia a própria relação com o pai e o motivo da aprovação dele lhe ser tão desesperadamente crucial — Meu pai é aquele poço de gentileza mesmo.
— Ele me pareceu bem gentil com Kanon. — disse o pianista, e sua observação foi seguida de um prolongado silêncio, até que ambos, em sincronia perfeita, o quebraram com uma explosão de gargalhadas.
— É, Kanon faz bem o tipo dele: Oportunista. Mal sabe ele o traste que estava chamando de excelente advogado! — disse Mu aos risos.
— É, ele pode ser um traste, mas tem títulos! — caçoou Shaka. — Falando no traste, o que ele fazia aqui?
Mu suspirou cansado e irritado.
— Ele e o irmão são sócios do clube. Saga joga polo. Hoje a partida era de confraternização e o almoço foi organizado pelos sócios. Ao menos uma vez por mês eles fazem esses eventos aqui e ele quase sempre vem em todos... Nem me passou pela cabeça que ele poderia aparecer aqui hoje.
— Hum... isso é bom sinal. — Shaka sorriu.
— Por que é bom sinal?
— Porque significa que você está a cada dia ignorando mais a existência dele.
Mu olhou para ele e finalmente riu descontraído.
— Eu já ignoro a existência dele há muito tempo, é ele quem faz questão de me dar o desprazer de lembrar dela as vezes, como na festa do Camus.
— Deixa isso para lá... Ao menos o seu pai pareceu gostar dele. Não é bem o Bharani que ele queria, né? — brincou o pianista.
— Ah... as vezes eu tenho é pena do meu pai. Ele dá muita importância para o que não deveria, e quase nada para o que deveria... Títulos? — bufou ficando sério — A verdade é que ninguém nunca será bom o suficiente para o velho Hakurei... Eu nunca serei bom o suficiente para ele. Não importa o que faça, nunca serei o motivo de orgulho dele.
Percebendo o pesar na voz do namorado, Shaka estendeu o braço até seus dedos encontrarem o ombro dele, então com um toque gentil tentou confortá-lo.
— Ei, não fala assim... Ele é seu pai, tem mesmo que esforçar-se para dar orgulho a ele, mas da sua maneira, sendo você mesmo... Mas primeiro precisa fazê-lo enxergar quem você é, e não esperando que ele enxergue em você o que ele idealiza. Tem que ensiná-lo, Mu, e tem que esperar o tempo dele.
Mu lançou um olhar enternecido para o namorado, embora sem nenhuma esperança.
— Gostaria muito que as coisas fossem assim, mas há muito tempo já me conformei com a realidade. O Hakurei é irredutível, e eu sou a imagem do fracasso dele.
— Às vezes as pessoas só precisam ser reprogramadas... O seu pai não nasceu assim, então talvez seja preciso apenas fazê-lo deixar de olhar um pouco para o céu, para tudo o que a vida colocou diante dos olhos dele nesse anos todos, e ensina-lo a voltar a olhar para dentro, para seu coração.
— É, mas para isso é preciso ele querer aprender, ou ao menos se dispor a me ouvir. E ele não quer. Ele nunca quis.
— Pode dar um pouco de trabalho, mas ele vai te ouvir. Ele é seu pai, ele te ama. Tem coisas que desprendem mais tempo apenas, mas nem por isso devemos desistir delas.
— É, quem sabe, espero que sim... Bem, não foi o encontro dos sonhos, mas pelo menos ele não relutou quando a mãe convidou você para jantar conosco na casa deles.
Nessa hora Shaka afastou a mão do animal e se voltou ao namorado, piscando algumas vezes num gesto nítido de nervosismo.
— Tem certeza de que essa é uma boa ideia? Digo... continuar mentindo desse jeito aos seus pais pode ser pior.
Mu sorriu e lhe tomou um das mãos com imenso carinho. Depositou nela uma escova macia, a qual apanhou dentre os objetos para os cuidados dos cavalos que ficavam dispostos ali na baia.
— Tenho. Infelizmente a mentira se faz necessária, pelo menos por enquanto. — disse, e em sua voz não havia sequer sombra de indecisão, então lentamente, e com cuidado, guiou a mão do pianista até o dorso da égua e juntos agora escovavam seu pelo — Minha mãe está louca para ouvi-lo tocar o piano. Deve uma boa apresentação a ela. Já adianto que dona Yuzuriha é uma pianista exigente e dificilmente se impressiona, então sugiro que capriche no repertório, senhor pianista. — brincou.
— Ah, isso mesmo, me deixe bem tenso. Como se já não fosse perder o sono pensando em como faço para impressionar sua mãe. — disse, agora ele usando do tom jocoso. — Que namorado legal você!
— O melhor de todos! — Mu riu divertido — E nem vai ser preciso se esforçar para isso, para impressioná-la. Só de ela querer você lá em casa significa que já a impressionou. Logo eles vão estar acostumados com sua presença cada vez mais constante, então acho que vai ser mais fácil lhes dizer que estamos juntos... — respirou fundo — Vai dar tudo certo, confie em mim.
A voz de Mu estava alegre, descontraída e cheia de esperanças, o que mandou para longe algumas nuvens escuras que teimavam em pairar sobre o coração aflito do pianista. Com um sorriso e um leve aceno de cabeça Shaka concordou e seguiu deixando-se guiar pela mão dele sobre a sua a escovar o pelo da égua, permitindo-se viver aquele momento a dois e gozar da incrível experiência nova de conhecer de perto um animal tão imponente quanto dócil. Ali na baia de Cristal, sozinhos logo se distraíram e passaram a agir com a naturalidade de duas almas que se amavam, com toques mais íntimos, risos alegres e sorrisos cumplices, acreditando estarem longe dos olhares preconceituosos que porventura os pudessem julgar.
Ledo engano.
Distante o bastante para não ser visto por quem andasse pelos estábulos, oculto por uma das árvores frondosas que permeavam o campo aberto onde eram realizadas as partidas de polo, Hakurei os observava.
Quando Kanon Thálassa deixou a mesa, as palavras que ele lhe dissera ficaram grudadas em sua pele. Enquanto comia a sobremesa, Hakurei perguntava-se que tipo de amizade era aquela do filho com o pianista para chegar ao ponto de um estranho, já que para ele Kanon era um mero conhecido de Mu, sentir que eles queriam ficar a sós no passeio aos estábulos. Súbito, ele mesmo achando um despautério tal raciocínio tratou logo de enxota-lo, mas seu empenho em livrar-se dele fora tão pouco convincente que logo este estava de volta a lhe aporrinhar os pensamentos feito um inseto insistente; foi quando decidiu ele mesmo tirar a limpo aquela azucrinação, mesmo porque tinha certeza de ser apenas isso: um pensamento descabido. Pediu a Yuzuriha que aguardasse alguns instantes e desceu até os estábulos, parando alguns metros antes de chegar às baias assim que os avistou ali. Procurou por Shion correndo os olhos pelo perímetro que sua visão alcançava, mas não o viu em ponto algum, então focou nos dois garotos.
Havia algo naquela cena que fez seu estômago revirar. A intimidade, os sorrisos, as mãos unidas sobre o dorso do animal... Era certo que o filho caçula poderia apenas estar querendo dar uma experiência sensorial ao garoto cego lhe orientando através do tato como deveria escovar a égua, mas existia alguma coisa no modo como ele olhava para o outro que lhe desconcertava; seu olhar era de contemplação resignada.
Sentindo como se um buraco no estômago se abrisse, e dele o fel amargo escorresse para fora subindo-lhe pela garganta até tomar a boca, cujos lábios formaram um arco com as pontas voltadas para baixo, Hakurei engoliu em seco aquela sensação ruim, que ao descer pelo nó da garganta chegou lhe causar dor. Deveria ser apenas impressão. Pensou. Truques da sua mente velha, impaciente e paranoica, pensamentos aflitos de um pai frustrado pela falta de netos. Tinha dois filhos adultos e nenhum deles ainda havia se firmado com uma boa mulher, mas era apenas questão de tempo. Os intragáveis tempos modernos.
Respirando fundo ele tratou logo de afastar aquele pensamento como quem afasta uma mosca intrometida, com um balançar de cabeça. Mu podia até ser inconsequente, mas estava longe de cometer tal atrocidade consigo. O caçula, apesar de tudo, era inteligente, fora bem criado, bem educado, e estava certo de que impunha limites até mesmo às suas excentricidades. Era mesmo coisa de sua cabeça. O garoto loiro era cego, incapaz, Mu estava sendo apenas benevolente. Sim, Mu era muito bom com as pessoas, até mais do que deveria, e os gestos que via eram apenas isso, benevolência para com uma pessoa deficiente, nada mais. Deveria se orgulhar ao em vez de lhe fazer mal juízo.
Hakurei devaneava entre aflições quando Shion o trouxe de volta, se pondo à frente de seus olhos esgazeados.
— Pai? Está fazendo o que aqui parado nesse sol? Cozinhando os miolos? — disse o executivo, que não suspeitava das deliberações íntimas que o pai fazia consigo mesmo.
— Eu... Não estou fazendo nada. — ele respondeu ríspido ao dar as costas para a cena distante e iniciar a caminhada de volta ao salão — Vá chamar seu irmão e o amigo dele. Vou mandar fechar os animais e vamos embora.
Sozinho ali, Shion o acompanhou com o olhar por um tempo e então lhe deu as costas, voltando-se para a direção em que ele olhava. Vasculhou com os olhos as baias e avistou Mu junto de Shaka, que descontraídos se divertiam enquanto davam algumas cenouras para a égua Cristal.
Um pensamento lhe veio imediato à mente.
— Merda!
1 A Berklee College of Music é uma conceituada escola musical localizada em Boston, Massachusetts, fundada em 1945.
2 A Juilliard School é um conservatório localizado no coração da cidade de Nova York, e é considerada a melhor instituição de artes performáticas no QS World University Ranking de 2016. Tem mais de cem anos de história.
3 O Instituto de Música Curtis é um conservatório que fica na Filadélfia, Estados Unidos, oferece cursos de graduação em Música e Certificados de Estudos Profissionais em Ópera. É frequentemente considerado o melhor conservatório dos Estados Unidos e uma das instituições de ensino de música de maior prestígio no mundo.
