Na manhã de terça-feira, Asmita acordou sentindo um latejar incômodo na cabeça. Aquela dorzinha constante na verdade começou no dia anterior, quando no café da manhã perguntou a Shaka como havia sido o almoço com os pais de Mu no clube de polo no domingo. Não que fosse necessário ele lhe relatar os pormenores, pois que só a fisionomia abatida, a falta de apetite e as poucas palavras, que lutavam para sair sua boca, já lhe eram resposta suficiente.
Depois do café, ele precisou receber, conferir e catalogar dezenas de encomendas que chegaram ao mesmo tempo em seu endereço. As queria lançar no Ebay ainda naquela semana, antes que se esgotasse sua pequena reserva financeira daquele mês e mais uma vez a Internet fosse cortada. Não podia arriscar ficar sem sua principal ferramenta de trabalho. No entanto, quem dera fossem as contas prestes a vencer a sua maior preocupação.
Na segunda-feira Shaka havia saído com Mu para uma entrevista de emprego e finalmente dessa vez ele tinha conseguido uma resposta positiva. Tocaria piano no restaurante em Manhattan que fora algumas vezes com Mu. A vaga era apenas para cobrir as férias do pianista contratado, mas se o público, e os donos da casa, o aprovassem seria efetivado. A alegria de Shaka por ter conseguido um emprego arrancou a máscara de melancolia que lhe cobria o rosto desde domingo, quando chegara em casa vindo do clube de polo, mas decididamente não afugentou a apreensão impiedosa que contorcia a face de Asmita.
Com uma prancheta na mão, uma caneta de tinta preta na outra e mais uma caneta encaixada atrás da orelha, em seu quarto, rodeado por pilhas de todos os tamanhos de caixas de papelão seladas e já endereçadas, ele conferia os últimos recibos e lotes das mercadorias antes de começar a segunda fase de seu fastidioso e solitário trabalho, as intermináveis viagens até o correio, quando ouviu a campainha. Saiu do quarto e foi atender à porta. No caminho ainda anotava alguma coisa nos papéis presos à prancheta, enquanto concentrado murmurava uma ou outra nota mental, mas eis que no momento em que abriu a porta sentiu como se tomasse um soco na boca do estômago, dado pelo mais competente dos pugilistas.
Se concentração fosse um líquido, a dele tinha evaporado no instante em que seus olhos azuis fitaram incrédulos a cara encantadoramente dócil do filhote de Golden Retriever amarelo no colo de Mu. Este, então, tinha no rosto um sorriso que só perdia em exuberância para o laço imenso em cetim vermelho que enfeitava o pescoço do cachorrinho. Ambos estavam tão felizes que pareciam irradiar boas novas.
— Bom dia, cunhado! — disse Mu, tendo por acompanhamento um encantador e sutil uivo do filhote — Olha só! Ele também está te dando bom dia! Não é, amigão? Isso, diga oi para ele, porque logo vocês serão da mesma família. — com sua já tão conhecia espontaneidade, segurava na patinha do cachorro e o fazia acenar para Asmita.
— Mas o que é isso? — bufou Asmita, em sua típica falta de modos.
Com ironia, o estudante de cinema aproveitou-se da posição do outro, meio de lado grudado à porta feito um bicho-pau, e usou o vão livre na passagem para entrar.
— Para sua informação, isso é um cachorro — disse Mu já na sala, depois ficou de frente para ele o vendo fechar a porta num misto de surpresa e indignação — O Shaka está no quarto?
— Eu sei que é um cachorro... — Asmita aproximou-se e jogou a prancheta junto da caneta sobre o sofá. Tinha o rosto em brasa, e o latejar da cabeça se agravava a cada minuto que olhava para aquele animal adorável no colo do outro. — E eu sei também que tipo de cachorro é esse... — apontava com o indicador para o filhote, mas seus olhos faiscantes mantinham-se fixos em Mu.
— Ah, que bom que sabe, Asmita... Que tal, então, a gente pular toda a parte do drama e do sermão, que eu já conheço tão bem, e irmos direto ao que de fato importa? Shaka está no quarto? Quero que ele conheça o futuro cão-guia dele, e que principalmente lhe dê um nome! — sorriu animado.
Por meros segundos Asmita fez um tremendo esforço para se manter calmo. Respirou fundo dilatando as narinas, coçou o queixo coberto por uma barba rala e arruivada, de uns cinco dias sem ver uma lâmina, e então se aproximou de Mu num caminhar lento.
— Shaka não está em casa. Saiu com Shijima. Foram ao mercado comprar algo para comer. — disse com aparente tranquilidade.
— Ah... não tem problema, eu espero. Eu não o avisei que viria porque queria fazer surpresa — dizia o estudante de cinema quando Asmita lhe colocou a mão sobre o ombro e deu um forte apertão, no estilo grandes amigos.
— Então é este o consolo da vez? — ele disse desviando o olhar para o cachorro, logo depois o cravou novamente nos olhos verdes de Mu — Ontem foi o emprego no restaurante, hoje esse... bicho.
De certo modo o cineasta já esperava por aquela reação, por isso sua resposta fora mais um ato espontâneo do que de surpresa.
— Asmita... — suspirou fechando os olhos por um momento — Por favor... Não vamos começar com isso de novo.
— Ah! Nós vamos sim! Você pode ter certeza que vamos! — respondeu recolhendo a mão e recuando um passo — Até onde você pretende ir com isso?
— Com isso o quê?
— Até quando acha que vai compensar com o seu poder e o seu dinheiro as mancadas que vêm dando com o Shaka?
— Que mancadas? — Mu perguntou incrédulo.
— Olha aqui, eu conheço o meu irmão mais do que qualquer pessoa nessa porra de mundo, e embora ele não tenha me falado com todas as letras, porque estava claramente com vergonha de admitir, eu sei que o lance com o teu pai e a tua mãe não foi bem como ele imaginou que seria — bufou Asmita.
— Não foi nem como eu imaginei que seria. — Mu o interrompeu, e nessa hora colocou o cachorro no chão, porque imaginou que a conversa seria longa. — Sinceramente? Achei que ia ser bem pior — deu de ombros. Não iria cair naquela provocação.
Asmita por sua vez, como de praxe entendeu aquela resposta como mero sarcasmo.
— Você é um belo de um cretino. — disse trincando os dentes — Admita para si mesmo que é um covarde.
— O que? — Mu arregalou os olhos em sobressalto. Era incrível como as coisas com o cunhado sempre degringolavam para o absurdo.
— Vocês estão juntos há meses. Há meses que você vem dando presentes caros para o meu irmão, celular novo, roupa de marca, leva ele para passear em lugares que ele jamais iria, e agora até arrumou um emprego para ele e... comprou a merda de um cão-guia! — apontou para o cachorrinho que passeava pela casa balançando o enorme laço vermelho em torno do pescoço, enquanto cheirava os cantinhos dos móveis. Deu uma sonora gargalhada do mais puro nervosismo — Ah, meu Deus! Sabe quantos anos fazem que eu inscrevi o Shaka no programa de doação de cães-guias?
— Eu imagino que muitos — disse Mu.
— Pois é. E você sabe o trabalho que deu para conseguirmos comprovar que seríamos capazes de manter financeiramente o animal? Toda a burocracia envolvida nisso? E ainda assim, sabe quantas pessoas existem na fila, na frente do Shaka, para receber um?... Provavelmente ele iria passar a vida esperando, como muitos outros cegos passam, e aí vem você, o todo poderoso Mu Bharani, e resolve tudo com um cheque assinado apenas!... — suspirou ruidoso e forte — Esse bicho vai ser treinado exclusivamente para o Shaka, não é? E eu duvido que seja por uma instituição que fará isso de graça, por benevolência tão somente, certo?
Mu respirou fundo, sem desviar os olhos do olhar inquisidor que Asmita lhe dirigia.
— Sim. Esse filhote já passou nos testes iniciais e é apto a ser adestrado como cão-guia. Eu o escolhi pessoalmente por ele se encaixar no perfil do Shaka. Ele é calmo, e já é familiarizado com música, então sim, eu o comprei e vou pagar pelo adestramento. — outra sonora gargalhada de Asmita fez o estudante de cinema fazer uma pausa para depois continuar: — Qual é o problema, Asmita? Eu não vejo por que não posso usar o meu dinheiro para facilitar a vida do meu namorado.
— Ah! Agora você tocou no ponto que eu queria! — respondeu o outro de imediato, aproximando-se do cineasta até que seu indicador lhe tocasse o peito — Você quer saber qual é o problema? O problema é que o seu dinheiro não é seu. É do seu pai. Um homem rude e preconceituoso, pelo que bem sei, que não faz a mínima ideia que está bancando tudo isso.
— Asmita, auto lá! Não é bem assim que... — tentou se defender e explicar, embora no fundo soubesse que as palavras dele tinham uma pitada de verdade.
— Como não é bem assim? Essa sua postura molenga e mimada pode soar ao Shaka como prudência, mas eu sei bem como isso funciona. Ah, se sei! Ou vai me dizer que você contou ao seu pai que o Shaka não é só um amiguinho que conheceu por acaso? Você contou ao poderoso senhor Bharani que está torrando a grana dele com seu namorado cego e pobre, Mu? Não, você não contou, e não vai contar, porque além de você saber que ele jamais aprovaria isso, você também tem muito a perder!
Mu se enfureceu.
— Você está sendo injusto e manipulador! — retrucou, sentindo-se muito ofendido.
— Ah, vai mesmo querer virar o jogo? — debochou Asmita.
— Não se trata de virar o jogo. Você só não precisa se prestar a esse papel. Sabe muito bem que meus pais não sabem ainda sobre mim... sobre eu ser gay, e sobre o Shaka. Eu estou justamente preparando o terreno para contar a eles...
Asmita baixou a cabeça e riu. Num gesto nervoso levou as mãos aos olhos e os apertou com força.
— Ah, sim... você vai contar... — disse em voz baixa.
— Vou! Eu vou contar, Asmita. É tudo o que eu mais quero — disse o cineasta com um semblante de angustia no rosto lívido — O seu irmão, ao contrário de você, entendeu bem minha situação e concordou em irmos devagar.
— Ora, óbvio que ele concordou. — disse prontamente, voltando a fita-lo nos olhos — Que outra escolha você deu a ele? Hum? Shaka te dá todo o tempo que você precisa e em troca você compensa a frustração e aplaca a insegurança dele lhe enchendo de mimos... — apontou para o cachorrinho que agora cheirava a ponta gasta de seu tênis — Coisas que ele não poderia ter nem que eu trabalhasse uma vida inteira sem pausa ao menos para dormir... Você está comprando o meu irmão, seu burguês de merda. E ele está caindo feito um patinho.
Aquilo bastou para que Mu também deixasse de se controlar e assumisse uma postura igualmente agressiva.
— Chega! Quer saber? Eu cansei de te ouvir me chamar de burguês. Cansei dessa sua porra de postura preconceituosa.
— Preconceituoso? Eu?
— Isso mesmo! Você está sendo preconceituoso, porque por si só já estabeleceu um pré-conceito sobre mim, sobre o meu caráter, baseado na minha posição social. Desde o início você coloca o meu dinheiro acima de mim! Acima de quem eu sou! E não importa o que eu faça, não importa o que diga, você continua agindo como um babaca ignorante, Asmita!
— Como é que é, ô idiota?
— Dinheiro serve para realizar sonhos, para facilitar a vida de quem precisa, sim!
— O seu dinheiro serve para isso, porque o meu, o do meu pai, o do Shaka, e da maioria das pessoas nessa porra de mundo, serve para pagar as contas, para não morrer de fome, para ter um teto sobre a cabeça para dormir...
— Não distorça a questão! — Mu o interrompeu — Eu não vejo por que não usaria o meu, sim o meu dinheiro, já que metade de tudo que meu pai tem é minha por direito, para dar uma vida melhor ao cara que eu amo! Qual é o seu problema, Asmita? Será que não quer ver o seu irmão feliz? — bufou a poucos palmos de distância do outro, lhe apontando indicador em riste.
Asmita olhava para ele com surpresa e raiva. Cada fibra de seu rosto pálido tremia. As narinas dilatas inspiravam e exalavam uma respiração forte, rápida. Se ele fosse um touro, quem para ele olhasse poderia jurar que estava prestes a entrar na arena para a derradeira investida no malfadado toureiro.
— A única merda de desejo que eu tenho na porra da minha vida é ver o Shaka feliz, seu cretino. Mas eu não vejo como isso seria possível com você. Não com esse abismo que separa o mundo de vocês dois, e que faz tanta questão de fingir que não existe — disse num rosnado.
— É? Olha, não parece não, viu? Não parece nada que quer ver o Shaka feliz. — Mu provocou. — Parece mais é que você sente inveja.
— Inveja de que, ô idiota? De você?
— Não, de mim não, mas de tudo o que eu posso dar a ele que você não pode.
Asmita fechou os olhos, riu, e baixando a cabeça a balançou devagar.
— Mas que cretino imbecil. — murmurou, suficientemente alto para que Mu lhe pudesse ouvir.
— Na verdade, você não suporta ter de admitir que eu posso cuidar do Shaka melhor do que você cuida.
Asmita ergueu novamente a cabeça e olhou para Mu.
— Ora, mas eu pensei que quisesse ser o namorado dele, não um cuidador. Aliás, Shaka sabe disso? Que quer pegar ele para cuidar? Porque se ele souber vai ficar muito puto! Muito! — debochou.
— Não se faça de idiota. Sabe bem do que estou falando. — Mu retrucou — Shaka está desatando esse nó de marinheiro que você deu nele para mantê-lo preso à você, e isso está te matando. Você não é capaz de aceitar que o seu irmão seja independente de você.
Asmita cruzou os braços num gesto brusco e estreitou os olhos.
— Ah, veja só que coerente! Eu não posso querer proteger o meu irmão do mundo porque fazendo isso eu o estou prendendo a mim, o tornando dependente, mas você sim, pode fazer isso usando seu dinheiro e seus privilégios.
— Como é que é? — Mu deu um passo à frente.
— Você pode acostuma-lo a uma vida de conforto e luxo, e assim fazê-lo se sentir obrigado a aceitar toda e qualquer patifaria da sua parte, porque Shaka pode ser tudo, mas mal-agradecido ele não é. Então, quando ele estiver bem dependente de você, física e psicologicamente, você não precisará nem mais sair do armário, certo? Porque ele vai engolir toda e qualquer exigência descabida sua.
Mu franziu o cenho, incrédulo no que acabara de ouvir.
— Mas que merda você está falando? Você enlouqueceu? Quantas vezes eu vou ter que repetir para você que só preciso de mais tempo, caralho! Que eu vou dizer aos meus pais que sou gay, que vou assumir meu relacionamento com o seu irmão, porra! — Mu berrou em plenos pulmões.
— Não, você não vai! — Asmita vociferou de volta. — Você não tem coragem! E sabe por que, Mu Bharani? Porque você já sabe qual vai ser a reação do seu pai quando você abrir o jogo, e isso te apavora. Você vai seguir com esse seu plano idiota de fingir que o Shaka é seu amigo, o qual você bem sabe que não vai adiantar de nada, até chegar o dia em que irá se dar conta de que não vale a pena arriscar tudo o que você tem, seus privilégios, sua boa vida, sua paz de espírito, por causa de um namoro besta de adolescente.
Mu piscou os olhos repetidas vezes e bufou com raiva, voltando a apontar o indicador para ele. Sim, a simples menção do dia em que finalmente contaria ao pai que era gay lhe apavorava, lhe fazia tremer até os ossos. Se possível, preferiria que esse dia nunca chegasse, mas desse enfrentamento dependia muitas escolhas que fizera na vida.
— Você veja bem como fala comigo, Asmita. Eu não sou nenhum covarde, muito menos um leviano inconsequente. Eu amo o seu irmão, e ele me ama — fez uma pausa estreitando os olhos para o outro. — Eu sinto muito te desapontar, mas o nosso relacionamento não é um namorico de adolescente, como você espera que seja... Eu não vou desistir dele... É esse todo o problema, não é? Eu sei o que está fazendo! — fez um aceno frenético com a cabeça.
— Ah, sabe? — Asmita retrucou avançando alguns passos até ele — Diga-la, burguesinho, o que você sabe?
— Na sua cabeça eu estou tirando o Shaka de você, e se eu tirá-lo de você, Asmita, em quem você irá expiar a sua culpa?
Súbito, e para a surpresa do estudante de cinema, Asmita ficou sem palavras. Seus lábios até se mexeram, mas nenhuma sílaba sequer saiu deles. Sua respiração tornara-se mais acelerada e profunda. Mu estava entrando em um terreno perigoso e mal se dera conta disto.
— É isso! — o cineasta arregalou os olhos surpreso — Então você se culpa mesmo!
— Cala a porra da sua boca... seu moleque. — Asmita sussurrou em meio a tremores. Suor espesso lhe brotava na testa e escorria pelas têmporas. — Eu fiz... tudo o que de melhor eu podia fazer por ele.
— Mas o seu melhor não foi o suficiente! — Mu retrucou agressivo — Você transformou o seu irmão, um garoto brilhante e talentoso, em uma pessoa insegura, dependente, que acreditava nunca poder ter uma vida normal, ou sequer viver longe de você!
— CALA A BOCA! — Asmita berrou enquanto bruscamente levava ambas as mãos aos ouvidos, os tapando, num gesto que soou para Mu como no mínimo curioso. Mas o cineasta mal teve tempo para ponderações, pois que imediatamente em seguida Asmita avançou sobre ele lhe agarrando a gola da camisa com ambas as mãos, dando um solavanco violento. A essa altura, Mu já o percebia visivelmente alterado. — Seu merdinha, você não faz a mínima ideia do que nós passamos, do que eu passei para cuidar dele.
— Asmita, solte a minha camisa... agora. Eu não quero partir para as vias de fato com você. Não com você. — Mu rosnou segurando com força extrema os punhos do outro. Percebeu que ele tremia em demasia.
— Você, seu cretino de merda, não faz ideia do inferno que se tornou nossas vidas depois que... depois que...
— Depois que você o deixou cego?
A pergunta teve em Asmita o mesmo efeito de um tiro à queima roupa.
Ele sentiu-se súbito ser tomando por uma languidez mórbida. Uma forte ânsia lhe embrulhou o estômago e o fez sentir o fel amargo lhe subir para a boca, o forçando a contrair os lábios e engolir à contra gosto aquela saliva ocre. Dentro do peito uma mão fantasmagórica feita de mármore gélido parecia lhe apertar o coração e congelar a alma. Ele sentiu um calafrio de morte na mesma hora em que suas pernas fraquejaram e ele tombou de joelhos no chão, como se por algum tipo de encanto seus ossos tivessem sido transformados em algodão doce. Sua queda brusca só não lhe causou nenhum dano físico porque Mu ainda o segurava firme pelos pulsos.
Surpreso e absorto com aquela reação inesperada, o estudante de cinema soltou-lhe os punhos e ajoelhou-se ao lado dele, examinando concentrado suas feições isentas de qualquer emoção. Asmita tinha no rosto uma lividez agonizante, e seus olhos azuis, tão parecidos com os de Shaka, olhavam súplices diretamente para um ponto qualquer no assoalho de tacos. Estava absolutamente imóvel.
— Asmita... — Mu chamou, olhando para ele. Agora seu tom de voz era ameno, isento de qualquer agressividade. — Por favor, o que aconteceu com você e com Shaka?... Por que ele ficou cego?... Por que... por que você se culpa?
Imediatamente, mas ainda imóvel, Asmita olhou para Mu, e seus lábios se contraíram e tremeram.
— Ele... não contou a você? Ele nunca contou a você? — perguntou aflito, porém com uma resignação lenitiva.
— Não. Ele não gosta de falar sobre isso. Só me disse que foi um acidente. Mas... eu preciso saber, Asmita, por favor! Se você se culpa por isso, precisa procurar ajuda e parar de punir a si mesmo, porque fazendo isso indiretamente também está punindo ao Shaka... Vocês eram crianças, e acidentes acontecem a todo momento.
— Não foi um acidente. — disse Asmita, com a voz despedaçada. Novamente baixou a cabeça e fitou o assoalho.
Nessa hora Mu viu os olhos dele tornarem-se dois rios caudalosos, mas seu rosto continuava isento de qualquer expressão.
— Não foi? Você... tem certeza? — o estudante de cinema perguntou quase num sussurro. Sentia as mãos geladas, e seu coração começou a dar saltos dentro do peito quando viu o outro fazer um aceno afirmativo com a cabeça.
— Eu sabia o que estava fazendo... e eu quis fazer... Eu só nunca... nunca quis machuca-lo de verdade, eu não queria machuca-lo, não queria... era só para ele me devolver a bicicleta...
Mu engoliu em seco.
— O que você fez, Asmita?
O irmão do pianista ficou um momento em silêncio contemplativo, depois respirou fundo.
— No Natal de 2005 o meu pai me deu uma bicicleta. — ele falava sem soluçar, sem ofegar, com as palavras escorrendo de sua boca feito notas musicais fúnebres tocadas num perfeito compasso. Ele na verdade nunca falou desse episódio com ninguém desde que ele ocorrera. Aquela memória lhe era como um sapato novo que esperara a ocasião certa para calçar. — Eu já sabia que o Papai Noel não era real, que era o meu pai quem comprava os presentes, mas o Shaka ainda acreditava em Papai Noel. Ele também pediu uma bicicleta a ele naquele ano, mas o Papai Noel trouxe uma apenas, a minha... minha primeira bicicleta!... A minha mãe sofria de um tipo agressivo de diabetes. Ela tomava muitos remédios, insulina, tinha que seguir uma alimentação controlada, e duas bicicletas definitivamente não cabiam no orçamento do meu pai... Ele então comprou uma para mim, porque eu já tinha 11 anos e nunca tinha tido uma bicicleta. Para o Shaka o que ele conseguiu comprar foi um só um quebra cabeças. — fez uma pausa piscando os olhos hirtos. Os acontecimentos daquele Natal desfilavam diante deles tão nítidos quanto o rosto de Mu à sua frente — Óbvio que o meu irmão ficou frustrado com o presente... Me lembro que ele chorou e fez birra durante toda a ceia, e também jurou o Papai Noel de morte. Shaka era... terrível. Imagina que ele disse que no ano seguinte iria espera-lo com um espeto de churrasco de pé na lareira, e que se o velho não lhe trouxesse uma bicicleta então ele o espetaria bem no traseiro.
Nessa hora Asmita esboçou um sorriso parco, e Mu o acompanhou, rindo junto dele. Shaka pouco falava de sua infância, e nas confraternizações em família esse parecia também ser um assunto evitado, tanto por senhor Nilo, quanto pelo próprio Asmita. Imaginar que o namorado, aquela pessoa tão doce e amável, outrora fora uma criança tinhosa lhe causou surpresa e curiosidade. Contudo, como a paisagem na janela do trem que passa tão rápida ao registro preciso dos olhos, aquele sentimento que aprazia o coração de Mu se foi no momento em que ele se deu conta de que a cegueira para Shaka tinha resultado de algo tão terrível que ela praticamente moldou sua personalidade por completo, lhe causando uma mudança drástica. O sorriso em seu rosto então morreu, junto ao de Asmita, que continuava o relato.
— Shaka era uma criança que não suportava injustiça... e eu... eu era uma criança que não suportava que pegassem o que era meu. — passou a língua entre os lábios sentindo o sabor salgado das lágrimas, e Mu, ajoelhado à sua frente, sentiu uma leve vertigem. Estava em pânico à espera do que viria — No dia seguinte, enquanto nossa mãe fazia o almoço e o meu pai arrancava algumas ervas daninhas do jardim que ficava na frente da casa, o Shaka pegou a minha bicicleta. Ele não sabia andar, e ela era grande para ele, mas ele se sentava no cano e assim conseguia alcançar os pedais com a pontinha dos pés... O danado achou um jeito de conseguir andar na minha bicicleta, e por isso ficou horas com ela. Eu fiquei enciumado. Era o meu presente de Natal, você entende? — olhou para Mu, para bem dentro de seus olhos verdes, mas era como se olhasse para si mesmo — Aquele era o presente que eu tinha pedido, ano após ano, e que finalmente havia ganhado, mas eu nem havia conseguido desfrutar dele ainda como gostaria, porque o Shaka tirou ele de mim... Eu pedi a ele, inúmeras vezes, para que me devolvesse, para que me deixasse brincar com ela, mas ele não me devolveu. Ele chorava, me chutava e fazia birra... Pedi a minha mãe que o mandasse me devolver, e pedi ao meu pai, mas ambos me mandaram deixa-lo brincar até que se cansasse... Ele era só uma criancinha, afinal, mas eu já era um menino grande, eu tinha que entender. — fez uma pausa e voltou a fitar o chão — Esperei mais um tanto de minutos, então algo dentro de mim me fez sentir uma raiva que nunca tinha experimentado na vida. Era a minha bicicleta, o meu presente de Natal... Eu senti raiva dele... Senti muita raiva dele... Então eu dei a volta pelos fundos da casa... Subi no muro que separava o meu quintal do quintal do vizinho... Ele era bem alto, acho que uns 4 metros ou mais, mas do lado oposto ao da minha casa era fácil de subir, porque tinha uma pilha grande de tijolos de concreto ali. — fez uma pausa e respirou fundo. Na frente dele Mu tinha o rosto lívido e o coração disparado. A cada palavra dita uma cena tenebrosa ganhava forma na mente do cineasta, e ele já conseguia prever o desfecho daquele filme de terror — A casa vizinha estava em reforma... De cima do muro eu podia ver o quintal da nossa casa, e o Shaka andando na minha bicicleta... Era Natal e eu ainda nem tinha conseguido brincar com o meu presente... Eu peguei um dos tijolos de concreto... Ele era tão pesado que eu me lembro que só consegui ergue-lo até o topo do muro com a ajuda do meu joelho.
— N-Não! — Mu balbuciou balançando a cabeça num movimento frenético. Era como se com sua negação veemente ele pudesse, de alguma forma fantástica, alterar o passado e impedir o que sua mente acelerada já lhe adiantava. — Por favor... não. — repetiu, depois tapou a própria boca com uma das mãos. Seus dedos ficaram molhados das lágrimas que desciam incessantes de seus olhos absortos.
A súplica de Mu, somada à dor das lembranças vivas, fizeram Asmita dar outra pausa ao relato, então ele baixou a cabeça e fechou os olhos, apertando com força as pálpebras molhadas. Já não chorava silencioso como antes.
— Eu só... eu só queria poder andar na minha bicicleta... — seu pranto agora era convulso, e sua voz saia embargada dos lábios trêmulos. — Era só para fazer ele cair dela e desistir de brincar, era só para... era só para ele ter ralado o joelho... Quando ele passou com a bicicleta perto do muro eu empurrei o tijolo... Eu... eu não vi onde o tinha acertado... de onde eu estava... não deu para ver que eu o acertei na cabeça...
— Meu deus! — exclamou o estudante de cinema, que agora se deixava cair sentado sobre o assoalho de tacos.
— Ele caiu da bicicleta... como eu previa e como eu queria, mas logo percebi que havia algo errado, porque... ele não chorou... ele não gritou, ele não chamou pela minha mãe... Eu fiquei ali ainda alguns minutos, olhando para ele caído no chão, tentando entender o que tinha dado errado... Ele não se mexia... Então eu comecei a chorar e corri aos berros para chamar o meu pai...
Com as costas amparadas no braço do sofá, sentado no chão Mu ainda tinha as mãos a cobrir-lhe a boca e o olhar congelado preso ao rosto transtornado de Asmita. Foi com severa incredulidade que seguiu o ouvindo relatar as minúcias daquele fatídico dia, e assim ele soube que após o incidente, senhor Nilo, guiado pelo filho mais velho, correu até o quintal tão rápido quanto um relâmpago corta o céu e tomou Shaka nos braços. Só então ele percebeu que o tinha acertado na cabeça, pois que os cabelos dourados do irmão estavam tintos de vermelho vivo. Encharcadas também estavam as roupinhas de algodão branco que ele vestia, as quais havia ganhado na noite anterior, na ceia de Natal.
— Quando meu pai o tirou do chão eu senti o cheiro do sangue... forte, ferroso... Havia tanto sangue!... Não teve um só dia da minha vida, desde esse dia, em que eu não tenha sentido esse cheiro. — Asmita seguia — A minha mãe gritava alguma coisa da porta da cozinha que eu não pude ouvir, enquanto meu pai entrava correndo com Shaka no colo. Eu fiquei ali, no quintal. Eu não queria entrar. Então eu fui até a minha bicicleta e a levantei do chão, mas de repente toda aquela vontade eufórica de andar nela tinha sumido... Eu tinha machucado o meu irmãozinho... Encostei a bicicleta no muro, olhei para o tijolo. Me chegou a passar pela cabeça escondê-lo e não dizer nada aos meus pais, mas eu devia isso ao Shaka... Eu corri para dentro de casa e minha mãe estava procurando as chaves do carro. Meu pai segurava uma toalha branca na cabeça do Shaka, que já estava quase toda vermelha, então minha mãe, assim que achou as chaves, veio até mim. Ela me perguntou o que tinha acontecido e eu contei. Sem esconder nada, nem a raiva que eu tinha sentido dele por ter pego minha bicicleta... Ela me deu dois tapas na cara, um em cada lado. O meu pai chorou e me perguntou por que eu tinha feito aquilo... Eu respondi dando de ombros... — ele sentou no chão de taco, cruzando as pernas e enxugando o rosto com as palmas das mãos — Deus! Eu também queria saber por que fiz aquilo!... Ficamos algumas horas no hospital e tudo o que eles fizeram foi um monte de perguntas, uma sutura no corte aberto para estancar o sangue e um Raio X. Foi constatado um traumatismo craniano leve. Eles o medicaram com analgésicos e anti-inflamatórios, deram algumas receitas e nos mandaram para casa.
Mu enfim retirou as mãos que lhe cobriam a boca e inclinou-se ligeiramente para frente, incrédulo.
— O que? Ele teve traumatismo craniano e eles o mandaram para casa? Não foram feitos exames para investigar melhor a lesão? Tomografia? Ressonância?
Asmita olhou para ele e sacolejou de leve os ombros.
— Você tem noção de quanto isso custa?... É claro que não tem... Ele foi atendido na emergência, fez o Raio X, foi medicado e só isso já acumulou uma dívida enorme para o meu pai pagar ao hospital. Nós nunca tivemos plano de saúde, apenas minha mãe tinha, por causa da diabetes dela... Me lembro que meu pai discutiu bastante com um dos médicos, implorou para que o hospital internasse o Shaka e aceitasse notas promissórias como garantia de pagamento, mas não teve acordo... Ainda tentamos interna-lo em outros dois hospitais, mas nada feito. — Asmita olhou para Mu e ficou um instante em silêncio analisando sua fisionomia em choque — Sei que para você, um burguesinho que sempre teve tudo na mão, o que vou dizer vai parecer chocante, mas é a mais pura realidade. Não existe saúde para quem é pobre. Não apenas aqui, em Nova York, mas em qualquer parte dessa merda de país, do mundo. Médico é um luxo para quem trabalha para comer. Um luxo que não podíamos pagar.
Mu contraiu os lábios e engoliu em seco.
— Mas mesmo nos exames de emergência ninguém percebeu que ele estava... cego? — perguntou com peso na voz.
— Não. Porque ele não estava. — Asmita novamente baixou o rosto e olhou para as próprias mãos — Eles examinaram os olhos dele no atendimento, parecia tudo normal. Aparentemente fora um grande susto apenas. Nos disseram para observá-lo, e se não acordasse em 24horas era para voltarmos ao hospital, mas ele acordou 12 horas depois, e só reclamou que sentia-se meio tonto e com dor de cabeça... Nos dias que se seguiram o meu pai precisou vender o carro, que era financiado, para quitar a dívida com o hospital e comprar os remédios do Shaka. Ele também vendeu a minha bicicleta, porque... eu nunca andei nela. Eu na verdade nem podia olhar para ela... Estava sendo uma fase difícil, mas nós íamos superar, até que poucos dias depois do incidente, quando Shaka ainda estava na fase de recuperação em casa, a minha mãe o viu pegando um dos livros preferidos dele, um que tinha uma história ilustrada sobre um menino que soltava pipas em um campo de lavandas, e percebeu que ele aproximava tanto o livro do rosto para conseguir ver as figuras que seu nariz até encostava na página. Isso a preocupou de imediato. Foi então que nos demos conta de que o meu irmão já não enxergava as coisas a certa distância... Naquele dia mesmo, o meu pai pediu dinheiro emprestado ao patrão dele e levaram o Shaka a um especialista. A notícia caiu como uma bomba bem em cima de nossas cabeças. — fez uma pausa sufocando um soluço, e Mu, que chorava copiosamente, buscou algum conforto no cachorrinho com o laço vermelho, o qual viera até seu colo como se por instinto tivesse percebido que ele precisava de consolo — Mesmo sem exames precisos, só com o Rai histórico que meu pai relatou a ele, claro que omitindo o meu papel de algoz, o médico levantou a suspeita da formação de um coágulo causado por um edema cerebral que se formou decorrente da pancada, e esse coágulo provavelmente estaria pressionando o quiasma óptico do Shaka, causando uma compressão que estava lesionando o nervo. Essa era a provável causa da perda progressiva da visão.
— Então ele não perdeu a visão de uma vez! — Mu exclamou — Me desculpe, mas... Shaka chegou a me explicar que área do cérebro dele havia sido afetada, mas eu... eu não entendo! Não havia como evitar essa perda progressiva?
— Havia. — Asmita respondeu com um suspiro e severo pesar na voz — O quiasma é a junção exata onde os dois nervos ópticos se cruzam formando um X. Ele fica bem no meio da cabeça... Lesões nessa região afetam diretamente a visão dos dois olhos. Eu li, em vários livros... O único acesso a um possível tratamento é cirúrgico. — encarou Mu nos olhos antes de continuar: — Uma cirurgia cerebral das mais caras, e que deveria ser feita com urgência, ou a perda da visão seria total e irreversível... Uma cirurgia que exigiria uma bateria de exames igualmente caros para poder ser feita... Entendeu agora? — havia ironia e uma dose de raiva em sua voz. Não de Mu. Do mundo. De si mesmo.
Mu fechou os olhos e soluçou.
Nunca a realidade lhe soou tão repulsiva quanto naquela hora.
Durante o curto tempo em que ficou ali de olhos fechados ele viu. Viu todo o desespero da família de Shaka. Viu senhor Nilo se desdobrar, desfazendo-se do pouco que tinha para cuidar do filho. Viu a mãe frágil e preocupada, a qual nem conhecera, mas que em seus pensamentos tinha o mesmo cabelo dourado que lembrava os campos de trigo banhados pelo sol da manhã e os mesmos olhos azuis profundos que nasciam da junção entre o oceano e o firmamento. Viu a felicidade de Asmita se transfigurar em tormento por causa de um ato impensado de criança. Viu a bicicleta que ele tanto desejou e nunca andou. Ele mesmo tivera tantas bicicletas...
Por isso eles não comemoravam Natal. Tinha achado estranho quando já em meados de dezembro nem ao menos uma guirlanda enfeitava a porta da casa do namorado. Julgou que devido à cegueira de Shaka, seu Nilo e Asmita também não faziam questão dos enfeites... Antes fosse isso. Por fim, um desalento corrosivo o fez soltar o cachorrinho e abraçar com força os joelhos. Chorava convulso.
Em seu íntimo não conseguia aceitar que Shaka havia ficado cego por algo tão...
Na mesma hora abortou o pensamento, pois que chamaria a falta de dinheiro de algo estúpido.
Era estúpido para ele.
Dinheiro era algo estúpido em seu mundo, onde ele era abundante, onde nunca lhe faltara. Não na realidade em que aquela família vivia.
— Ridículo, não é? Eu sei que é isso que está pensando.
A voz dura de Asmita trouxe Mu de volta aquele momento tão difícil.
— Não, eu...
— Uma pancada na cabeça. Um hematoma craniano que foi negligenciado... e o mundo se apagou para sempre para o meu irmão. — disse ele — Mas, isso foi apenas o começo do nosso tormento. Você não faz a mínima ideia do que realmente foi... O meu pai e a minha mãe ficaram desesperados com o prognóstico do médico especialista, e o desespero nos torna tolos. Se deu então o início de uma corrida contra o tempo. É claro que meus pais não iam permitir que o Shaka ficasse cego. Meu pai tentou pedir um empréstimo no banco, mas sem o carro como garantia nada foi feito. Ele também tentou hipotecar a casa, mas na época tinha um processo ainda correndo em justiça junto do antigo dono e não foi possível fazer a hipoteca sem as documentações exigidas... Ele então começou a trabalhar por fora, fazendo jornada dupla, como ajudante de pedreiro. Minha mãe, que trabalhava em um mercadinho que ficava há duas quadras daqui, nos disse que tinha conseguido algum dinheiro fazendo horas extras. Ela chegou a procurar alguns programas de televisão, mas são tantos os miseráveis, e em maior quantidade ainda são os necessitados... Eu ficava com Shaka em casa, mas todas as tardes, enquanto ele dormia, eu vendia limonada na calçada. Também vendi todos os meus brinquedos, tudo para conseguirmos juntar o mais rápido possível o valor mínimo para dar de calção ao hospital pelos exames preparativos para a cirurgia, antes que a perda da visão do Shaka fosse irreversível. Fizemos algumas rifas também, e alguns amigos do meu pai emprestaram dinheiro, mas uma parte a gente precisava usar para comprar os remédios do Shaka, porque eram eles que estavam atrasando o processo de perda da visão. Meu pai chegou a procurar um agiota um dia antes do exame marcado... Mas infelizmente todo nosso esforço e pressa foram em vão... Nunca chegamos a juntar o dinheiro necessário, porque em poucas semanas, quando conseguimos pagar pelo primeiro exame preparatório para a cirurgia, este acusou que o coágulo havia desaparecido, se desmanchou, mas a compressão quiasmática havia lesionado e atrofiado os nervos ópticos de maneira irreversível, e o meu irmão, aos 5 nos de idade, foi diagnosticado com amaurose, cegueira total dos dois olhos... Isso foi... demais para a minha mãe... As horas extras no mercadinho eram mentira... Nós só descobrimos quando, semanas depois, não chegou a cobrança do plano de saúde dela. Ela tinha cancelado o plano, e também tinha deixado de comprar os remédios e a insulina, para ajudar a pagar a cirurgia do Shaka... Ela estava tão desesperada... Quando o médico disse que meu irmão tinha ficado cego para sempre, ela começou a passar mal... A carga emocional foi alta demais para ela... Então, três dias depois ela teve um pico de diabetes e foi internada. Uma parada cardíaca levou a minha mãe, mas antes ela segurou a minha mão e disse que me perdoava... que eu nunca deveria me sentir culpado porque... eu era também uma criança... mas que agora eu não era apenas irmão do Shaka, eu era também seus olhos... ela me fez prometer que cuidaria dele, que nunca o deixaria sozinho no mundo, e que o protegeria enquanto ele não fosse capaz de se proteger sozinho.
Mu não dizia nada. Estava em estado de choque.
Ficou sentado abraçado aos joelhos, o nariz e a boca ocultos pelos dois montes cobertos pelo jeans claro desgastado. Seus olhos encharcados agora fitavam o chão de tacos, enquanto seus pensamentos se reorganizavam em sua cabeça.
Tudo agora fazia sentido.
A devastação e culpa de Asmita se refletia em sua superproteção.
— Os primeiros dias foram os piores... — ele continuou, agora as palavras pareciam pedras em sua boca. Lhe machucava dize-las — Ele não dormia. Sem ter noção de quando era dia ou noite ele só conseguia descansar mesmo quando seu corpo já estava esgotado, ou quando minha mãe o encaixava no peito dela e o fazia parar de chorar lhe pedindo que tivesse paciência, porque isso ia passar, ele ia voltar a enxergar... Ela claramente estava em negação. Às vezes penso que ela se foi para não ter de falar a verdade a ele, que ele nunca mais iria ver. — Mu nessa hora ergueu os olhos para ele e seu coração pesou dentro do peito — Então, quando ela morreu, uma assistente social veio aqui prestar solidariedade e nos dar algumas instruções de como cuidar do Shaka. Obviamente ela sugeriu um monte de coisa que implicava tempo e dinheiro, e agora sozinho o meu pai era a nossa única fonte de renda. Ele não podia deixar o emprego para sair pela cidade atrás de instituições e programas para crianças cegas, e eu só tinha 11 anos... Nós também estávamos de luto... A assistente social nos deixou uma cartilha com dicas e seus votos benevolentes de boa sorte. Em poucos dias, nós adaptamos a casa para o Shaka e então meu pai voltou ao trabalho. As contas já estavam se acumulando sobre a mesa de cabeceira dele, e os cabelos brancos no topo de sua cabeça... O meu pai envelheceu anos em dias... Ele precisou fazer algumas jornadas duplas para pagar a internação da minha mãe e o funeral, e eu deixei a escola por dois anos para ficar em casa com o Shaka em tempo integral, porque ele passou a ter medo de tudo, mas principalmente de ficar sozinho... Nesses anos, não teve um só dia que eu tenha saído do lado dele. — inconscientemente apertava a camisa por sobre o peito, sentindo no coração o peso e a dor de todos aqueles anos — Eu o amava tanto, e não suportava vê-lo naquela situação. Quando ele chorava, de medo, dor e desespero, sem saber o que fazer para lhe aplacar o sofrimento eu o pegava no colo e chorava junto com ele... Quando ele se machucava, suas feridas doíam como se fossem em mim. Eu o pegava pela mão todos os dias e caminhava pela casa com ele, narrando todo o percurso – Agora estamos indo para a cozinha, tem um degrau à sua frente. Coloque a mão na parede e conte os passos... Em alguns meses ele já conseguia se orientar sozinho dentro de casa, mas na rua ele ainda tinha medo e vergonha... Nem crianças escapam da crueldade das pessoas. Riam dele, faziam piada, jogavam objetos... Os garotos da rua não quiseram mais brincar com ele. Eu era tudo o que ele tinha.
Mu enxugou os olhos uma vez mais pensando que, de fato, se Asmita e Nilo tivessem tido auxílio profissional tudo seria diferente. Shaka talvez teria estudado em uma escola comum, convivido com crianças e adolescentes sem deficiência, o que o ajudaria muito no presente. Mas a realidade deles era bem diferente do alcance de seu julgamento. Agora ficava evidente a sobrecarga em cima de Asmita, que com apenas 11 anos se tornou cuidador de uma criança que perdeu a mãe e a visão.
— Você entende agora por que eu não posso, e não vou, deixar que nada, nem mesmo você, Mu Bharani, machuque o meu irmão? Eu já o machuquei o suficiente para uma vida toda... Não vou permitir que ninguém mais o faça sofrer. — sentenciou Asmita com entonação visceral.
Mu olhava para ele agora como quem acabara de desvendar um enigma, e realidade se mostrava ainda mais grave, pois na verdade Shaka é que era tudo o que Asmita tinha. Mas quando pensou em dizer que jamais faria Shaka sofrer, dois motivos o impediram; ele sabia que estaria mentindo, ou no mínimo fantasiando, e a porta da frente se abriu de supetão.
O pianista adentrou a sala sorridente. Logo atrás dele vinha Shijima com algumas sacolas de mercado.
— Asmita cheguei! Mu está aqui? — perguntou enquanto encostava a bengala de alumínio próximo ao cabideiro do lado da porta. — Shijima disse que seu carro está estacionado ai na frente!
Não houve resposta.
Da porta ainda aberta, Shijima trocou um olhar de espanto com Mu. Estranhou ver os dois sentados no chão. Asmita de costas para a entrada, cabeça pensa e sem se mover. O estudante de cinema com os olhos vermelhos, inchados e o rosto em brasa.
— Mu? Sei que está ai. Estou sentindo seu perfume. — disse o pianista ainda aos sorrisos, pois que interpretou o silêncio do namorado como uma travessura. Mu quase nunca aparecia ali pela manhã por causa da faculdade, então só poderia estar querendo lhe fazer uma surpresa. Talvez tivessem cancelado alguma aula e ele foi lhe fazer uma visita.
Vendo que não teria escolha, Mu enxugou o rosto rapidamente e tentou se recompor.
— Sim, Shaka, eu estou aqui. — o estudante de cinema respondeu em voz baixa.
O sorriso do pianista se desmanchou por completo quando ele ouviu a voz pesada e embargada do namorado, e orientando-se pela direção de onde viera o som avançou alguns passos, alarmado.
— Você... está chorando? — perguntou enquanto caminhava até o sofá com passos precisos e ligeiros, mas eis que de repente esbarrou em algo no meio do caminho. Em um reflexo rápido, já que não era para haver nada ali, curvou-se para baixo com os braços esticados, então suas mãos encontraram os cabelos desmazelados do irmão. Levou um susto! Aflito correu a palma para o rosto dele e o percebeu molhado — Asmita!
Como se fosse arrancando de um transe de modo repentino, Asmita girou a cabeça para o lado com brusquidão, livrando-se dos toques do irmão, e quase num salto se levantou do chão o deixando com os braços estendidos no ar e as mãos espalmadas a tatearem o vazio.
— ASMITA? — Shaka chamou em voz alta e entonação aflitiva. Seu coração já palpitava alucinado. Seus olhos azuis acompanhavam vagos os sons dos deslocamentos de ar e farfalhar de roupas que se davam à sua volta — Ei! Asmita! O que aconteceu? Vocês dois estão chorando?
Vendo o pianista transtornado e desorientado, enquanto Asmita deixava a sala sem nada dizer, saindo pela porta com tanta pressa que esbarrou em Shijima o fazendo derrubar uma sacola, Mu rapidamente se levantou e o tomou pelas mãos.
— Shaka, se acalma... ele saiu. — disse o estudante de cinema, e no instante seguinte Shaka levou as mãos trêmulas a seu rosto e o tocou em desespero.
— Saiu para onde?
— Eu não sei.
— Por que meu irmão está chorando? Vocês brigaram? Você bateu no meu irmão, Mu Bharani? — perguntava enquanto palpava nervoso cada traço da face aturdida do outro à procura de algum sinal de agressão.
— Eu? Eu não! — o cineasta respondeu reforçando a afirmativa com balançar de cabeça. — Você acha que eu ia bater no seu irmão?
— Eu não sei! Ele bateu em você então?
— Não! Ninguém bateu em ninguém!
— Pelo amor de Deus, o que houve? — inquiriu em desespero, mas antes que Mu dissesse qualquer coisa, enfiou a mão no bolso da calça jeans e apanhou o celular acionando o aplicativo que usava para falar com o amigo — Shijima, vá atrás dele, por favor. Não deixa ele sozinho.
Assim que Shijima leu a mensagem, deixou as sacolas ali mesmo, no chão, e partiu atrás do irmão do pianista. Enquanto isso, na sala Mu respirou fundo, uma, duas vezes, passou as palmas das mãos no rosto e delicadamente tomou o braço de Shaka, o conduzindo até o sofá.
— Vem, sente-se aqui.
— Vocês brigaram? Foi isso? — ele perguntava no curto espaço entre galgar poucos passos e se sentar, de frente para Mu, que agora lhe segurava ternamente as mãos.
— Não... quer dizer, no começo sim... — o cineasta fez uma pausa, então se viu perdido mais uma vez naquelas feições de Apolo, naqueles olhos azuis que súplices olhavam através de si. Não havia o menor traço de mágoa neles, ou rancor. Deveria haver? Por um momento ele pensou que sim, mas logo percebeu que estava sendo mesquinho. Sem aviso, segurou o rosto do pianista com ambas as mãos e o beijou, com suavidade e retidão, e quando se afastou lhe acariciou os cabelos e uma lágrima escorreu de um de seus olhos — O seu irmão me contou como aconteceu, como... como você perdeu a visão. Ele me contou tudo.
Surpreso, Shaka piscou os olhos algumas vezes e entreabriu a boca em sobressalto, finalmente entendendo o estado em que encontrara Asmita. Somente depois de um momento em silêncio foi que conseguiu fazer com que as palavras saltassem para fora.
— Ele... Ele não teve culpa, Mu. Foi um acidente. Ele não queria me acertar, ele queria acertar a bicicleta. Ele era só uma criança.
De fato ele não culpava o irmão. Nunca o culpou. Nem no dia em que este lhe confessou o que fizera. Ele tinha 10 anos e estava voltando da sua primeira aula de piano, encantado pela descoberta daquele novo mundo. Sua devastação então se tornou resignação.
— Eu sei — disse Mu — Eu sinto tanto por você...
Shaka abaixou o rosto por um momento e deu um longo e pesaroso suspiro.
— Sinta por ele — disse Shaka levando a mão até o pescoço de Mu. O puxou suavemente, lhe beijou os lábios e depois encostou sua testa na dele — Eu perdi a visão, mas Asmita... Asmita perdeu tudo. Ele perdeu a paz. E o que mais me dói é ainda não saber como ajuda-lo a reencontrá-la.
Mu não soube o que responder de início, mas estava certo de que não deixaria aquela confissão ser em vão.
— Nós vamos descobrir um jeito, meu amor. Vamos fazer isso juntos. Vamos ajuda-lo... — disse, e logo em seguida um som inusitado para o local e a ocasião o interrompeu e chamou a atenção imediata de Shaka, que endireitou a postura e virou o rosto para a direção de onde ele veio.
— Isso foi um... latido de cachorro? Tem um cachorro aqui? — perguntou surpreso e curioso. — Ou eu estou delirando?
O som havia sido bem nítido e alto o suficiente para deixar o pianista desconcertado e acabar imediatamente com o clima de pesar entre eles.
Mu olhou para Shaka e depois para o cachorrinho que vinha aos saltinhos trazendo um chinelo na boca. Enxugou uma última lagrima solitária e espantou como conseguiu aquela tristeza de seu coração.
— Amor, se você virar o corpo um pouco para esquerda, se abaixar e esticar os braços, vai tocar no seu delírio — disse, e sua voz tinha um tom amável e feliz. Olhava terno para o filhotinho serelepe que abanava afoito o rabinho enquanto mastigando a borracha — Ele está bem perto dos seus pés... E sugiro que faça isso rápido, ou o seu chinelo já era.
Atrapalhado e ainda um tanto confuso, Shaka seguiu as orientações do namorado, e quando seus dedos tocaram os pelos macios do filhote ele se assustou e se contraiu ligeiramente, mas por meros poucos segundos.
— Oh meu Deus! Oh meu Deus! Não pode ser! Mu!... É o que estou pensando? — perguntou com euforia e um sorriso largo no rosto. Com o coração aos pulos sentia encantado o focinho molhado soprar seus dedos e ouvia em êxtase os barulhinhos que ele emitia.
— Se está pensando sobre o que conversamos algumas semanas atrás, então é sim. Esse é o seu cão-guia. — disse Mu, finalmente conseguindo dar um sorriso de satisfação e alegria depois de toda aquela tormenta.
Exultante com aquela confirmação, o pianista mais que depressa pegou o filhote e o trouxe para seu colo.
— Mu! Eu... eu não acredito! Não pode ser verdade!
— Pode sim! — Mu riu satisfeito e feliz, então de repente se calou e olhando para Shaka deu um longo suspiro, emocionado.
O pianista chorava compulsivamente abraçado ao cachorrinho. Lágrimas de emoção, de uma felicidade que com palavras não seria capaz de descrever, mas que certamente era sentida pelo filhote em seu colo que atarantado lhe lambia o rosto e fazia festinhas. Aquele era um sonho que de tão distante nunca de fato esperou que se tornasse real.
— Ah meu deus! Não chora, amor! — Mu o abraçou, abobado. Sentia-se bem mais leve, apesar do pranto do namorado. Shaka tinha essa propriedade de transfigurar dor em alegria — Te ver chorando vai me fazer chorar também. — ameaçou, já sentindo os olhos marejarem novamente.
— Desculpa... eu estou chorando de alegria! — fungou enxugando os olhos com as costas da mão, depois abraçou o cachorrinho com força e cuidado, enfiando o rosto em seus pelos dourados para sentir o cheirinho gostoso que vinha dele. — Como você conseguiu? Isso é algo quase impossível!... A gente tem tentado por anos, mas sempre alguma coisa dá errado.
— Shion tinha alguns contatos, não foi tão difícil. — Mu sorriu abertamente, agora também acariciando o animal eufórico no colo do namorado.
— Agradeça a ele por mim, por favor. Mas... ele não é pequeno demais? Como a guia vai caber nele?... Ele está usando um laço?
O estudante de cinema riu alto da confusão momentânea de Shaka.
— É um filhotão ainda, amor. — disse ainda aos risos — Ele vai crescer, e bastante! A raça dele chama Golden Retriever. Os pelos são de um tom amarelo meio dourado, os olhos caramelos escuros e o nariz bem preto.
— Ah! Eu confundi porque ele é tão pesado! — disse Shaka surpreso — Minha nossa, ele vai ficar enorme!
— Vai.
— Vai ser grande e forte! Eu acho que já até o amo. — brincou.
— Eu sabia que iria ama-lo. Ele é a sua cara. — disse divertido — Ele já passou nas primeiras seletivas e é apto ao treinamento. Agora, enquanto ele cresce vai ser treinado especialmente para você, para as suas necessidades e a sua rotina. Eu acho que em no máximo uns oito meses ele já pode vir morar aqui na sua casa.
— Oito meses? Puxa vai demorar... Mas é bom, porque até lá eu já estarei efetivado pelo restaurante e poderei pagar pela ração e cuidados veterinários dele.
— Com certeza!... Já sabe que nome vai dar a ele?
Shaka pensou por alguns instantes, enquanto acariciava o pelo macio e sentia aquele cheirinho gostoso e característico de filhote.
— Khan.
Mu franziu as sobrancelhas curioso.
— Khan? Que diacho de nome é esse?
— É o som que eu ouvi quando ele latiu. — disse o pianista trazendo o cachorrinho até seu rosto e lhe fazendo uma festinha.
— Bom, eu é que não vou questionar, porque quem tem ouvido perfeito aqui é você. — disse Mu. — Khan! Porque é o som do latido dele. Ótimo! Você vai ter um cão guia e um Pokémon.
Shaka riu alegre como poucas vezes estivera na vida, em seguida virou-se para o namorado. Buscou seu rosto e ao tocá-lo lhe fez uma carícia.
— Obrigado. Pelo Khan, que é um sonho realizado, por você estar na minha vida, por me amar e me deixar amá-lo, mas principalmente... por não ter desistido do meu irmão. — sua voz se tornou mais baixa e séria — Asmita não é uma pessoa fácil, muito menos agradável, mas eu o amo de todo o meu coração. Se ele se abriu com você e contou tudo, como aconteceu, isso significa que ele confia em você, significa que de alguma forma você o tocou onde ninguém mais conseguiu, assim como fez comigo.
Mu olhou para ele e suspirou. Não respondeu nada, não tinha o que responder.
Eles se abraçaram forte. Khan ficou entre os dois se aconchegando confortável.
Asmita voltou para casa somente quando teve certeza de que Mu já tinha ido embora. Não queria reencontrar-se com ele. Não ainda. Não antes de ter certeza que nunca mais o chamaria de burguesinho ou de covarde.
Durante todo o tempo que ficou fora, Shijima lhe fez companhia, e surpreendentemente sem "falar" nada. Foi embora apenas quando o deixou seguro e salvo na porta de casa.
Quando Asmita entrou, Shaka o esperava sentado no sofá. Caminhou lento até ele, sentou-se a seu lado, e sem dizer nenhuma palavra encostou a cabeça em seu ombro.
O pianista então tomou-lhe a mão e cruzou seus dedos com os dele.
Ficaram assim por longos minutos.
Em silêncio e de mãos unidas, apenas ouvindo a respiração pesada um do outro.
Era isso. Não existia nada a ser dito. Eles apenas precisavam do conforto um do outro.
Como tantas vezes quando ainda eram crianças, em que o único refúgio que encontravam para amenizar a dureza de suas vidas era naquele laço, naquele contato. No amor imensurável entre irmãos.
