Quando Afrodite Wernbloom passou pela entrada do Bard Graduate Center, o pequeno museu e galeria de arte de quatro andares e arquitetura emblemática, localizado em uma zona residencial longe da agitação do centro da cidade, uma grande alegria, misturada a um friozinho na barriga, tomou conta dele. No corredor largo e extenso de piso de madeira em tom terroso, tão bem encerado que ao refletir os pontos de luz das luminárias perfiladas nas paredes brancas lembrava uma pista de pouso, haviam alguns expositores de vidro com peças de roupas antigas, o que de pronto chamou sua atenção e o desviou do verdadeiro propósito de estar ali. Curioso ele apertou o passo e parou diante de uma das vitrines. Seus olhos azuis aquamarine passearam interessados e analíticos pela peça de lã em tom de cinza esverdeado, já bem puída e desbotada. Era um conjunto de casaco e saia longa em corte godê, bem grosseiro, por sinal, como era de se esperar de uma peça militar. Então ele baixou os olhos para a etiqueta ao pé do manequim.
"A moda francesa das mulheres na Primeira Guerra Mundial. Suas contribuições para a indústria à medida em que os estilos mudavam do frívolo para o funcional.
Como a Primeira Guerra Mundial mudou a moda feminina."
Quando acabou de ler a etiqueta por completo, conferindo o acervo de onde viera aquela peça, o responsável pela exposição e outras tantas informações pertinentes, Afrodite voltou a olhar para ela, e seus olhos brilharam. Era tão diferente estudar a moda em seus processos históricos, de vê-la assim, de tão perto... Eufórico ele logo passou para o próximo expositor, onde um vestido de seda em tons de coral tinha muito menos tecido do que o esperado para o início do século XX, já que com a guerra vigente e a falta de matéria-prima, o fechamento de grande parte das fábricas era uma realidade; a adaptações na indumentária feminina se fez necessária. As saias ficaram mais curtas dada a escassez de tecidos, as mulheres tiveram que se lançar ao mercado de trabalho, pois que os homens estavam na guerra e muitos nem voltavam dela. A incorporação dos uniformes à vestimenta feminina já era uma realidade irrefutável. Calças, jaquetas, cintos, palas...
E estavam todas expostas lá. Cada uma das peças contava sua história, e Afrodite ouvia encantado uma a uma.
De repente, enquanto lia a etiqueta de outro estande, onde estava exposto um uniforme feminino de operário feito em linho grosseiro já corroído pelo tempo, Afrodite tomou um susto com a abordagem repentina de uma das funcionárias da galeria e deixou cair a pasta de desenhos, a qual trazia pendurada em um dos ombros, sobre o chão de madeira. Ela tinha ido até ali verificar se ele precisava de algum auxílio ou guia para acompanhar a exposição.
Alguns de seus carvões e pinceis rolaram indo parar na ponta das sapatilhas de verniz vermelho dela.
— Oh, me desculpe, não queria assustá-lo. — a voz forrada de embaraço da garota quebrou o silêncio do corredor, enquanto ela prontamente se abaixava para ajudá-lo a apanhar os matérias esparramados.
— Que isso, não foi culpa sua, meu bem. Eu é que estava distraído. — Afrodite respondeu piscando os olhos como se para sair do sonho.
— Eu posso ajudá-lo? Encontrou a exposição que procurava, ou precisa de um guia? — ela perguntou enquanto lhe entregava o material recolhido do chão, o vendo jogar tudo rapidamente de volta para dentro da pasta. Estava um tanto atrapalhada, como ele. O motivo pelo qual o visitante lhe parecia nervoso e atabalhoado ela não tinha como saber, mas o dela era a beleza desconcertante dele; os bíceps por debaixo do tecido fino de algodão da camisa justinha que ele vestia, os lábios ligeiramente carnudos e de contorno perfeito. Não se recordava, nos dois anos que trabalhava ali, de ter visto um rapaz tão bonito.
— Ah, sim... Quer dizer, não... — Afrodite deu uma olhada no local onde estavam, procurando placas de sinalização ou informativos — Na verdade, eu não vim pelas exposições. Eu sou... — fez uma pausa, agora voltando a olhar para ela. Não poderia deixa-la perceber que iria mentir, mas como era péssimo mentiroso desviou o olhar e fingiu procurar pelo celular dentro da pasta — Eu sou aluno da aula de pintura do programa de voluntariado... Eu... estou um pouco atrasado... Sei que a aula já deve ter começado, mas eu não me lembro em que sala era...
— A da ONG Vida e Acessibilidade? — ela perguntou franzindo as sobrancelhas finas modeladas por lápis marrom, um tanto surpresa, com a boca ligeiramente aberta e o olhar encantado de quem olha para um sonho de padaria que acabou de ser colocado na vitrine.
— Essa mesmo! — Afrodite respondeu entusiasmado. Retirou a mão da pasta sem trazer celular nenhum, mas a funcionaria nem se deu conta.
— Fica no quarto piso. Sala 11... Caso não possa usar a escada tem um elevador virando o corredor à direita. — ela suspirou enrolando os dedinhos finos no cabelo tingido de loiro com ondas perfeitas moldadas por babyliss.
— Muito obrigado. Você é uma gracinha. — ele respondeu com seu sorriso mais gentil e verdadeiro, e ela corou instantaneamente enquanto o via se afastar apressado em direção ao elevador.
— Quer que te acompanhe até lá? — ela perguntou em voz alta, e tencionou segui-lo, mas precisou desistir quando viu chegar ali outros visitantes, infelizmente não tão atraentes.
Quando chegou ao quarto piso, ao descer do elevador Afrodite respirou fundo e ajeitou a gola da camisa. Não que fosse preciso, pois que já tinha repetido o gesto pelo menos umas quatro vezes desde que chegara ali. Fora as tantas vezes em que parou em frente a qualquer superfície refletora para verificar o cabelo preso em um coque ou mesmo procurar algo de errado em seu rosto, como uma espinha amarela nojenta, migalha de alguma coisa que haveria comido, algum inseto amassado...
— Só vai lá e bate na porta, Afrodite... Você já fez isso tantas vezes! Qual é? Não é diferente das outras... — murmurava para si mesmo enquanto caminhava até a sala 11 — Claro que é diferente das outras vezes, idiota. Você não quer só trepar com ele, você quer dormir de conchinha no domingo à tarde, quer levar o cachorro dele para passear no Central Park, quer viajar com ele para Sidney... — parou em frente à porta e hesitou por um tempo — Deixa de ser ridículo, ele nem tem cachorro! — reprendeu-se fazendo uma careta, então enfim deu três toques na madeira.
Quando a porta se abriu, um par de olhos cor de avelã, que ostentavam longos cílios de um tom de cobre ferroso, debaixo de sobrancelhas finas e expressivas de mesmo tom, o fitou com a incredulidade de quem está prestes a arrumar uma briga.
— Eu non acredito!
— Bonjour professeur! — o sueco lhe sorriu atrevido.
Camus piscou os olhos e abriu um pouco a boca. A curiosidade diante das palavras do outro momentaneamente o deixaram mudo.
— Pardon? Como disse? — a pergunta tinha claramente um tom irônico.
Afrodite deu um suspiro ligeiro e ruidoso, sem desviar os olhos dos dele.
— Professeur. Não é isso que você é aqui, Camus? Professor de arte?
O francês lançou para ele um olhar intimador, daqueles dizem mais do que um insulto soletrado com pausas dramáticas.
— O que você está fazendo aqui, Afrodite? — Camus perguntou em tom baixo, respirando fundo. — Como soube que...
— Ora, mas não é meio óbvio o que estou fazendo aqui? — o sueco o interrompeu girando ligeiramente o corpo para deixar em evidência a pasta de desenho que trazia pendurada no ombro.
— Non.
Afrodite expirou enfastiado revirando os olhos.
— Eu vim para as aulas de pintura. — olhou para ele e o viu abrir a boca, mas foi mais rápido: — E como eu sei que dá aulas de pintura e desenho aqui na Bard? Milo me disse. Aquele lá sabe mais da sua vida do que imagina.
Camus manteve o olhar fixo no rosto bonito à sua frente por um momento e então baixou a cabeça e suspirou. Levou a mão à fronte e a apertou com os dedos.
— Milo... claro — resmungou.
— Aliás, por que mantém um gesto tão bonito e altruísta como este em segredo, Camus? É porque não quer que pensem que existe um coração bondoso batendo dentro desse peito? — riu encostando o indicador da mão direita no peito coberto por uma fina malha vermelha que ostentava um bordado típico dos trajes mexicanos, com linhas de seda coloridas. — Ou por que gestos humanitários caminham na contramão do conceito de arte? Sim, já que o verdadeiro artista é tão sugado e castigado por seus próprios anseios e demônios que nada mais lhe importa a não ser si mesmo. E o resto do mundo que exista apenas para louvar sua arte! Bom, se esse fosse o caso, então teria que admitir que não é um verdadeiro artista, mas apenas uma pessoa... jeitosa.
Camus olhou bem para ele e contraiu os lábios.
— Você se acha bom em tirar conclusões, non? Mas, non citou a óbvia. — examinou o rosto dele por um momento. Era incrível como tudo nele era perfeito, o que lhe causava certa angústia e desassossego, pois que, para ele, o principal dom do artista era justamente enxergar a beleza nas coisas imperfeitas — Porque non quero ninguém aqui enchendo a porra do meu saco. E se você veio aqui para tentar mais uma vez...
— Alto lá, Camus Chermont. — Afrodite o interrompeu levantando a mão até a altura do rosto dele — Assim você me ofende. — fez uma adorável careta.
Camus cruzou os braços e o encarou firme.
— Então por que está aqui, Afrodite? — perguntou novamente.
— Eu achei que já tivesse dito. — o sueco suspirou — Eu vim para as aulas de pintura.
Houve um breve silêncio entre eles, até que este foi rompido por uma risada genuína e espontânea do francês.
— Que você tem algum problema na cabeça, disso eu nunca tive dúvida, mas daí a querer frequentar minhas aulas gratuitas de pintura para pessoas portadoras de paralisia cerebral já é um pouco demais, non acha? — disse Camus.
— Nossa, como você é engraçado! — o sueco ironizou — Se não der certo como pintor pode tentar uma vaga no circo ou em algum programa ruim de auditório... Ok. Eu vou te mandar a real, Camus.
Afrodite ajeitou a pasta de desenho no ombro e respirou fundo, tomando fôlego.
— Hum.
Camus encostou o ombro no batente da porta, sempre olhando para ele.
— Estou há alguns meses da apresentação do meu trabalho de conclusão de curso, e decidi apresentar uma coleção que tivesse uma identidade própria, a minha, claro. — fez uma pausa e deu uma piscadinha para o pintor — Para isso, quero criar desde a estamparia, sabe? Porque quero fazer algo que seja forte, selvagem, subversivo, ao mesmo tempo que poético e intimista. Algo que faça as pessoas olharem e desejarem estar dentro daquelas peças, não porque são bonitas ou confortáveis, mas porque dialogam com elas e com o meio que vivem.
Camus olhou bem para os olhos dele, que emanavam um brilho de euforia.
— Hum... e o que eu tenho a ver com isso? — perguntou dando de ombros.
Afrodite abriu a boca e fez um gesto negativo com a cabeça.
— O que você tem a ver com isso? — estreitou os olhos o encarando — Vem cá. Você é sempre assim ou o problema sou eu?
Camus levou a mão ao rosto e esfregou os olhos respirando fundo. Hesitou por um instante, depois olhou para ele com firmeza e curiosidade.
— Você quer fazer aulas de pintura comigo para criar a estamparia da sua coleção, certo? — fez uma pausa voltando a cruzar os braços — Num domingo de manhã. Em uma galeria de arte há quilômetros de distância de casa, num curso gratuito e com uma turma de pacientes portadores de PC*, quando você poderia facilmente pagar pelos melhores cursos dessa cidade.
— Sim. Isso mesmo.
— E ainda quer me convencer de que isso non é um flerte.
— Bom... — disse Afrodite também cruzando os braços — Seria um flerte se você baixasse a guarda e me desse uma chance, o que já está claro que não é o caso, mas se prefere continuar bancando o durão, então estou aqui pelas aulas e nada mais mesmo. Veja isso apenas como minha sincera admiração pela sua arte.
Camus franziu o cenho desconfiado.
— Qual é, Camus? Não é de hoje que eu digo o quanto sua arte mexe comigo e me instiga. E seja verdadeiro consigo mesmo. Seu eu fosse até você, em sua casa, no seu ateliê, e pedisse para que, encarecidamente, me desse algumas aulas de pintura, você certamente diria que não, porque aí sim configuraria um flerte descarado. Pensou nisso? Nós dois juntos, sozinhos, no seu ateliê, falando sobre arte, no meio de pinceis e telas, inebriados pelo cheiro forte dos solventes, entorpecidos pelo doce néctar da criatividade...
Camus pigarreou contraindo os lábios.
— Mesmo assim, Afrodite. O curso voluntário que dou aqui non alcança os seus anseios.
— Como pode afirmar que não?
— As pessoas que veem aqui são portadoras de limitações físicas e mentais severas, quanto muito conseguem fazer um borrão na tela, portanto nada que eu faça de mais elaborado seria útil para elas... Elas só precisam mesmo de atenção, de um propósito que non seja apenas existir e sobreviver. Elas precisam se sentir incluídas nessa merde de mundo, fazendo parte dele, e a arte as tira dessa invisibilidade involuntária. É isso que dou a elas, uma chance de se lembrarem que estão vivas, non qualidade artística.
Afrodite estalou o dedo e apontou o indicador para o rosto do francês, depois estendeu o braço e lhe deu dois tapinhas no ombro.
— Está vendo, Camus? É disso que estou falando! — olhou profundamente nos olhos dele — Essa cidade pode ter os melhores cursos de pintura, e certamente eu posso pagar por todos eles, mas nenhum me daria o que procuro. Eu quero fazer uma coleção para todos, mas para isso eu preciso entender o que é chegar até todos, e eu sei que a sua arte pode me levar até lá. — Afrodite ajeitou a postura, tirou a pasta de desenhos do ombro e deu um sorriso luminoso para Camus — E então? Onde eu me sento?
A última semana tinha sido chuvosa e fria. Um clima bem condicente ao que se instaurara na casa do pianista desde que Asmita decidira por abaixo, à golpes de marretadas, o muro que erguera em torno de si mesmo e deixar exposta a Mu a verdade a respeito da perda da visão de Shaka. Tal coragem, ou seria mais adequado dizer, pedido de socorro, porém, fez Asmita fechar-se ainda mais dentro de si mesmo, o que exigiu um esforço hercúleo para ser convencido a aceitar um descompromissado e despretensioso passeio no Central Park, no domingo, quando o canal meteorológico garantiu um dia de tempo limpo e ensolarado.
Talvez o calor reconfortante do sol pudesse afastar por um tempo a tempestade que se dava dentro do coração de seu irmão, rogava o pianista.
A operação, no entanto, exigiu paciência, eloquência e até algumas doses de chantagem por parte de Shaka, que todas as tardes, sem poder sair para ir tocar o piano na estação, se sentava em frente à janela de seu quarto e ficava ouvindo a chuva incessante enquanto estudava partituras, fazendo sempre questão de deixar bem claro em sua fisionomia que poderia morrer de tédio a qualquer momento.
Salvo as visitas de Mu no fim da tarde, e as horas que passava no restaurante a noite tocando o piano, quando estava em casa Shaka dissimulava profundo aborrecimento, especialmente quando Asmita, em seu silêncio obstinado, vinha lhe trazer um copo de suco ou um sanduiche entre os intervalos do café da manhã com o almoço.
O pianista já estava perdendo as esperanças quando, apenas no sábado, finalmente o irmão foi até ele lhe dizer que sim, que iria com ele, Mu e senhor Nilo ao Central Park no domingo. Ele então encaixotou todo o fingimento e na mesma hora abriu um largo e iluminado sorriso de vitória.
A fonte de Bethesda sem dúvida é um dos principais cartões postais do Central Park. Podia-se notar dado o grande número de visitantes que ali estavam naquele domingo de céu azul e limpo, fosse em busca de uma selfie com o imponente anjo que caminha nas pontas dos pés sobre as águas, e que tantas aparições fez nas telas dos cinemas, ou conduzidos ali pela fé, atraídos pela promessa de cura vinda das águas milagrosas.
— Estou no lugar certo? — perguntou Shaka esfuziante de alegria.
— Só um pouco... mais para cima — disse Mu tocando gentilmente seu cotovelo encapado pelo moletom de um tom cinza azulado bem escuro. Estava a seu lado e lhe dava instruções falando próximo a seu ouvido — Assim. Isso. Perfeito!
— Já?
— Já. Lembre-se de apertar o botão até a metade. Você vai escutar a máquina se ajustando, aí quando ela estiver pronta você aperta até o final.
— Está bem.
O pianista ficou parado por um instante, tal qual uma estátua, depois trouxe a câmera fotográfica para mais perto do rosto e concentradíssimo pressionou o botão de liberação do obturador até ouvir o som do qual Mu tinha lhe falado, em seguida, sem muita certeza se a máquina tinha focado mesmo ou não, o apertou até o final. Segundos depois desceu os braços até a altura do peito, mas seus olhos continuaram erguidos e voltados para a imagem que imaginou ver através do visor.
— E aí? Saiu alguma coisa que preste? Eu não sei bem se apertei com o barulho certo — Shaka perguntou aos risos.
Mu olhou rapidamente para o display da câmera e contraiu os lábios levantando as sobrancelhas.
— Hum... Sinceridade?
— Lógico.
— Ficou uma merda. — disse, depois ambos caíram na risada.
— É claro que ficou uma merda. O fotografo é cego!
— Não por isso. Apenas ficou desfocada. Mas acho que o erro foi meu. Me dê a câmera. — pediu o estudante de cinema — Devo ter esquecido de regular o foco e o zoom para o automático. Só um instante.
— Que sentido há nisso, se não posso ver as fotos que eu mesmo tiro? — disse Shaka enquanto o aguardava mexer na câmera.
— Você não pode ver, mas os outros podem. — Mu respondeu dando uma piscadinha para senhor Nilo, que estava ao lado deles sentado na borda da fonte que continha um imenso espelho d´água.
— Mu está certo, filho. — disse o simpático senhor de cabelos brancos. Perdera a conta de quantos anos fazia desde que estivera naquele lugar pela última vez. Sua esposa ainda era viva, Shaka tinha a visão perfeita e Asmita se permitia sonhar. Ele queria ser astronauta. Tantas lembranças lhe acenaram desde que chegaram ali... — Por que não tenta fazer do seu jeito?
— Como assim, do meu jeito? — o pianista perguntou voltando o rosto para a direção de onde vinha a voz do pai.
Mu olhou para Nilo, curioso.
— Ora, do seu jeito, Shaka. — disse Nilo — Quando você era criança, eu te disse que perder a visão não te impediria de fazer tudo aquilo que quisesse fazer, lembra?
— Sim, eu me lembro.
— Você só precisaria aprender a fazer as coisas de um outro modo, do seu modo. Assim você aprendeu a andar sozinho, aprendeu a ler, aprendeu a tocar piano... — agora era ele quem dava uma piscadela para Mu, que lhe respondeu prontamente com um sorriso — Vai aprender a fotografar também.
O pianista refletiu por um instante.
— Tem muita coisa bonita aqui para você fotografar — continuou Nilo, agora correndo os olhos pelo parque, pelas pessoas que iam e vinham com seus sorrisos e rostos alegres, as árvores majestosas, o incrível espelho d´água no pé da fonte; para Asmita, que estava um pouco mais ao longe comprando pipocas.
Nessa hora Nilo respirou fundo, levantou a cabeça e olhou para o anjo no topo do monumento. Seus olhos cinza cansados dialogaram por um instante com a escultura, que dali de onde estava parecia levitar. Quem dera ela tivesse mesmo o poder de abençoar aquelas águas com o dom da cura. Seus meninos precisavam tanto...
— Bom, então me dê aqui a câmera, Mu. — Shaka pediu estendendo as mãos com as palmas viradas para cima.
O estudante de cinema lhe tomou as mãos e depositou cuidadosamente a câmera entre elas.
— Então vamos lá. — disse Mu se posicionando atrás do pianista para lhe tocar os ombros e posiciona-lo na direção do anjo das águas — Levante um pouco a cabeça e os braços até a altura do seu queixo, depois...
— Não. Espere um instante, Mu. — Shaka o interrompeu com a voz em tom baixo e prontamente se virou, parando quando imaginou estar de frente para ele — Eu não vou fotografar o monumento.
Mu piscou os olhos e sorriu distraído.
— Ah... tudo bem. Quer fotografar outra coisa? — perguntou.
— Sim. Meu pai disse que está cheio de coisas bonitas aqui para se fotografar. — disse Shaka, e girando o corpo voltou-se para a direção em que sabia estar Nilo sentado na borda da fonte, então avançou alguns passos num lento vagar, segurou a câmera em uma das mãos e esticou o outro braço à frente.
— Sim, eu disse. — falou Nilo prontamente esticando o braço de encontro ao dele até suas mãos se tocarem — O que não falta aqui é coisa bonita.
Ao lado do pianista, o estudante de cinema apenas observava sorridente e inspirado.
— E a mais bonita delas é o meu pai. — Shaka disse em tom de brincadeira, mas todos ali, inclusive ele, sabiam que falava com o coração cheio de sinceridade — Eu vou tirar uma foto sua, pai. Fique ai parado.
Mu imediatamente sentiu o coração se encher de alegria pela decisão do namorado.
— Tenho certeza de que dessa vez a foto vai ficar perfeita, meu amor. — comentou sorridente.
O pianista concordou com um aceno positivo, então se inclinou segurando firme a câmera em uma das mãos enquanto com a outro tocou o rosto do pai para saber exatamente onde ele estava. Passou os dedos levemente pela mandíbula com a barba espinhenta por fazer e os desceu pelo pescoço até espalmar a mão toda na junção dos ossos da clavícula, depois a mantendo ali esticou o braço até onde conseguia, assim podia calcular a distância e o ângulo que desejava. Quando sentiu-se seguro quanto à imagem formada em sua mente, posicionou a câmera em frente ao seu próprio rosto e recusou três passos.
— Sorria! — disse, ele mesmo sorrindo efusivamente.
— Xiiiiiisss! — Nilo falou com o sorriso aberto.
Guiado pelo som da voz do pai, e dessa vez ouvindo perfeitamente o clic do aviso sonoro, quando o zoom conseguiu focar a imagem, Shaka apertou decidido o botão.
Quando Mu foi conferir o resultado suas sobrancelhas ralas ergueram-se em arco e seu rosto inteiro iluminou-se. O pianista não parava de surpreende-lo, e ele a cada dia se dava mais conta de que não tinha que trazê-lo para seu mundo, tampouco tinha que mergulhar no dele, mas fundir os dois.
— Ficou perfeito!
— Sério? Ficou mesmo? — Shaka perguntou sorrindo animado.
— Sim! A foto está maravilhosa! Dá para ver os raios do sol refletindo na água e nos olhos do seu pai. — disse o estudante de cinema com os olhos pregados àquele sorriso que tinha o poder de lhe aquecer muito mais que o próprio sol daquela tarde de domingo — Te daria um beijo na boca aqui mesmo de recompensa.
Mu brincou, falando em voz sussurrada próximo ao ouvido de Shaka, mas não baixa o suficiente para evitar que Asmita, que acabava de chegar ali, ouvisse.
— Espero que não faça essa idiotice. — resmungou entregando um saquinho de pipocas ao pai, enquanto encarava Mu com um olhar repreendedor.
O estudante de cinema riu e foi mostrar a foto para Nilo.
— Não se preocupe, Asmita. Não vou agarrar o seu irmão em pleno Central Park... embora esteja louco para fazer isso. — disse Mu o provocando, arrancando outra risada de Shaka.
— Ah, pelo amor de Deus! Olha o meu pai aqui, ô garoto! Tenha mais respeito. — disse Asmita roubando algumas pipocas do saquinho e as jogando para dentro da boca.
— Eu não ligo não. Quem ama tem mesmo que beijar. — brincou Nilo.
— Não dá confiança para esses dois sem juízo não, pai. — disse Asmita ajeitando um gorro de lã preta na cabeça. Apesar do sol, batia um vento um tanto frio, e ele detestava sentir as orelhas geladas — O parque está cheio, e eu vou detestar ter que quebrar a cara de alguém hoje. Vocês têm toda a liberdade que quiserem, mas na segurança de casa. Já disse que é perigoso ficarem se agarrando em público.
Shaka suspirou tateando o vazio até encontrar o braço de Mu.
— Não vai ter que quebrar a cara de ninguém, Asmita. Estamos apenas tirando fotografias. Agora mesmo eu ia fotografar a segunda coisa mais bonita desse lugar. — puxou Mu pelo braço até fazê-lo ficar de frente para si — O meu namorado.
Asmita suspirou revirando os olhos, depois foi se sentar ao lado de Nilo para roubar mais algumas pipocas de seu saquinho.
— Ah, mas que honra! — Mu sorriu.
— Honra nada. Realidade!
— Bom, o segundo lugar não é tão ruim assim se o senhor Nilo está em primeiro. Eu não teria mesmo como competir com ele. — o estudante de cinema gracejou arrancando uma gargalhada gostosa do sogro. Asmita mais uma vez revirava os olhos mastigando as pipocas entediado — Quer que eu fique onde?
— Bem... — Shaka pensou um pouco — Estou ouvindo cantos de pássaros em um volume mais alto à minha direita. Tem alguma árvore mais próxima nessa direção? Seria um bom cenário de fundo.
— Tem sim. — Mu respondeu quase que instantaneamente, já caminhando para a direção mencionada e ajudando Shaka a se posicionar — Pronto, agora estou bem à sua frente e com árvore no fundo.
Como fez da primeira vez, o pianista foi até Mu e tocou seu rosto para calcular a posição e a distância que deveria ficar, mas demorou-se muito mais delineando seus traços perfeitos que tanta paixão e ternura lhe despertavam. Roçou discretamente as unhas na mandíbula quadrada, um pouco abaixo da orelha, sentindo a pele dele se arrepiar instantaneamente. Tocou-lhe os lábios úmidos ligeiramente abertos com o indicador, e desejou ardentemente toma-los com os seus, mas puxou o ar profundamente e encolhendo os ombros recuou dois passos, posicionando-se.
Teria que ser ligeiro antes que perdesse completamente a noção do que estava fazendo.
— Está pronto? — perguntou com um ofego. Sentia seu rosto quente.
— Sim.
A voz de Mu era tão sorridente e espirituosa que Shaka teve certeza de que ele lhe fazia alguma gracinha.
— Pai. O que ele está fazendo? — perguntou aos risos.
— Ele está te mandando um beijo. Com direito a piscadinha, bico e tudo! — Nilo respondeu rindo.
Com o coração cheio de amor por imaginar a imagem de Mu lhe mandando um beijo Shaka apertou o botão.
Mais uma foto tirada com sucesso e primor.
Ainda ficaram ali por um tempo. O pianista quis fotografar toda a família. Asmita foi o próximo, depois ele e Mu, ele e o pai, os três juntos... Foram muitas fotografias e uma nova descoberta. Ele podia fazer coisas das quais sempre julgou impossível por ser privado da visão, e mais uma vez era Mu quem lhe provava que podia viver como uma pessoa normal.
Quando a câmera passou para as mãos do estudante de cinema este cedeu o braço para o pianista e juntos caminharam até a borda do lago artificial que ficava próximo à fonte de Bethesda. Lá, enquanto narrava a paisagem para Shaka, não se esquecendo de cada rico detalhe, como a aquarela de cores que compunham as copas das árvores, os patos a deslizarem sobre a água em seu gracioso balé sincronizado, ele tirava fotos. Não que fosse preciso registrar qualquer imagem para se lembrar daquele dia, pois que cada minuto passado ao lado do pianista ele tinha certeza que guardaria para sempre em sua memória.
Em dado momento, Mu apontou a câmera na direção da Bow Bridge; foi quando uma certa movimentação lhe chamou a atenção. Afastando a máquina do rosto ele olhou para lá e viu várias pessoas andando de bicicleta, então se deu conta de que ali ficava um dos pontos onde se podia aluga-las.
Uma ideia, tão audaciosa quanto atrevida, se desenhou na mente do estudante de cinema fazendo seu rosto iluminar-se.
— Mu? Aconteceu alguma coisa?
O repentino silêncio do namorado fez o pianista perceber que algo se dava com ele. Estranhamente, e nessas horas sentia-se um louco apaixonado crente em histórias de fantasia e contos românticos, já conhecia tão bem a Mu que era como se pudesse ler seus pensamentos ou pressentir seus dilemas apenas pelo som de sua respiração.
Depois de um instante Mu olhou para Shaka e lhe tocou o braço, ainda um tanto pensativo e hesitante.
— Meu amor, você confia em mim?
Shaka franziu as sobrancelhas loiras e levantou ligeiramente o rosto. Mantinha os olhos fechados.
— O que? Mas... por que está me perguntando isso? Assim? Do nada?
— Você confia ou não?
— É claro que eu confio. — disse o pianista deixando escapar um riso divertido — Mas que pergunta!
— Então vem comigo. Pega sua bengala porque vamos caminhar um pouco mais. — disse colocando a correia da câmera no pescoço para ter as mãos livres.
— Para onde? — Shaka perguntou já desdobrando a bengala retrátil que trazia no bolso traseiro da calça jeans.
— Aqui mesmo no parque. Venha, segure meu braço.
O pianista não fez mais perguntas até que chegassem ao destino. Sabia que Mu estava tramando algo, mas nem em seus mais desvairados delírios conseguiria ter imaginado o que seria, até pararem e ele ouvir o som do que julgou ser buzinas e correntes ligadas a pedais.
Conhecia bem aquele som. No Bronx o único meio de locomoção de muitas pessoas era a bicicleta. Ficou apreensivo.
— Mu onde estamos? — perguntou com a voz trêmula.
O estudante de cinema virou-se de frente para ele e discretamente segurou em sua mão, a mesma que segurava firme a bengala.
— Shaka, sabe, eu pensei muito sobre tudo que eu ouvi de Asmita naquele dia em sua casa, e também sobre tudo o que aconteceu a vocês dois. — Mu falava baixo, e tinha os olhos verdes fitos no rosto alarmado do pianista — Eu sei que... existem feridas profundas que ainda estão abertas em todos vocês. Você, Asmita, senhor Nilo... Entenda, eu... de modo algum quero desrespeita-los, mas eu acho que precisam começar a tentar fechar essas feridas.
Shaka pensou por um instante e depois abriu os olhos. Imaginou o rosto perfeito de Mu a poucos palmos do seu e era como se pudesse vê-lo aflito.
— Eu... ainda não entendi aonde quer chegar, Mu.
— Nós estamos em um dos pontos do parque que oferecem aluguel de bicicletas. — disse o estudante com visível apreensão.
O pianista apertou mais a bengala de alumínio entre os dedos. Seu rosto ganhou uma lividez fantasmagórica.
Percebendo o abalo do outro, Mu na mesma hora soltou sua mão e lhe segurou os dois braços com firmeza.
— Escute, Shaka. Não precisa fazer nada que não queira, entendeu? Mas me escute com atenção. Pelo que Asmita me disse, nenhum de vocês dois jamais andou de bicicleta desde o seu... acidente. E eu sei que parece uma coisa boba, mas acredite em mim, não é. E por isso mesmo eu o trouxe aqui. Eu acho que... isso pode ajuda-los. Digo, ajuda-los a começar a superar aquele dia e tudo o que está ligado a ele.
Ansioso, e ele mesmo tão nervoso que até parecia partilhar daquele trauma com o namorado, Mu correu as mãos pelos braços de Shaka até tomar as dele e devagar as conduzir até o guidão da bicicleta a seu lado, a qual pretendia alugar.
Quando os dedos do pianista se fecharam, apertando forte o aço frio do guidão, seu coração disparou e ele engoliu em seco.
— Deve ser bonito aqui quando neva. — disse Nilo correndo os olhos pela paisagem verde no entorno do lago.
Ainda estavam sentados no beiral da fonte de Bethesda esperando por Shaka e por Mu para visitarem outro setor do parque.
— Sim, deve ser. E gelado também. — Asmita encolheu os ombros enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta de couro.
— Essa cidade é tão bonita... e vivemos tão pouco ela...
Asmita olhou para o pai.
— Isso é porque além de bonita ela também é bem cara! — resmungou impaciente — Além de cheia de gente inconveniente.
Nilo baixou a cabeça e deu um riso fraco, depois colocou a mão na coxa de Asmita e deu dois leves tapas antes de olhar para seu rosto.
— Cara ou não, estou feliz de estar aqui hoje, com meus dois filhos, além de um terceiro rapaz que considero como meu também. — olhou para a fonte, pensativo — O mundo não é um lugar perfeito, filho, nem é para ser. Caso fosse, então isso aqui seria o Paraíso, e nós sabemos, e acreditamos, que só conheceremos o Paraíso no fim de todas as coisas.
— Hum.
— Você terá a eternidade para viver sua vida perfeita quando for para lá, mas, enquanto estiver aqui, precisa tentar, e precisa querer, viver da melhor maneira que conseguir.
— O senhor acha que eu não tento, não é? — disse Asmita também olhando para a fonte. — Que nunca tentei.
— Não. Eu sei que você tenta, filho, mas eu disse que também precisa querer.
— Hum.
Nilo mergulhou os dedos no espelho d´água e ficou um tempo os mexendo ali, como se estivesse brincando.
— Já faz tanto tempo... Quatorze anos. — disse Nilo baixinho.
Sem sobreaviso algum, Nilo retirou os dedos da água e tocou o queixo de Asmita, que franziu as sobrancelhas com a surpresa de sentir a pele ligeiramente molhada, então quando olhou para o pai viu seus olhos cinzentos marejados.
Nilo fazia uma prece para o anjo das águas.
Ele não era um homem de fé em crenças que prometiam milagres ou lendas populares, mas estava cansado, muito cansado. Shaka parecia enfim ter encontrado o centro de seu mundo no amor pelo piano e pelo estudante de cinema, mas Asmita... Asmita ainda navegava à deriva.
Quando pensou em questionar o pai acerca do que fazia, um repentino, e também estridente, sinal de buzina chamou a atenção de Asmita, que imediatamente olhou para o lado e sentiu a boca secar tão rápido como se tivesse engolido uma colherada de areia.
Mu e o irmão chegavam ali de bicicleta.
Na verdade era uma bicicleta fundida com quadro lugares. O estudante de cinema vinha conduzindo no primeiro banco e o pianista no segundo.
Shaka tinha as maçãs do rosto meio coradas pelo esforço, mas sua fisionomia era exultante e animada.
— Meu Deus do céu! Veja só isso Asmita! — exclamou Nilo se levantando, surpreso e festivo, enquanto batia discretas palmas e sorria esfuziante. Mal conseguia acreditar no que via.
— Ei, pessoal, precisamos de mais dois pares de pernas aqui. — a voz alta e grave de Mu saudou os dois cheia de animação. Com uma manobra cuidadosa guiou a bicicleta até parar de frente com Asmita, que parecia em choque. — Apoie o pé esquerdo no chão, Shaka. Vou tombar um pouco para a esquerda.
— Certo. — o pianista respondeu nervoso executando a manobra.
— Por Deus, será que ainda sei andar nisso? Andei muito quando era jovem, mas isso foi a muito tempo. — brincou Nilo, ainda incrédulo.
— Ah, aposto que nem tanto tempo assim, senhor Nilo — disse Mu sorridente olhando para ele — Essa aqui tem as rodas mais largas para ajudar no equilíbrio, por isso estamos suando para pedalar só em dois. Vamos, é só o senhor subir e dar as primeiras pedaladas que vai se lembrar na hora como se faz.
— Que merda pensa que está fazendo?
A voz grave e as palavras carregadas de zanga de Asmita fez os sorrisos fugirem de imediato dos rostos dos três.
Shaka tentou intervir. Embora estivesse de fato animado, algo dentro dele também o deixava em pânico. Suava frio; podia ouvir o pulsar frenético de seu coração reverberar em seus ouvidos e seu peito estava gelado. Tinha sido muito difícil subir naquela bicicleta, e mais difícil ainda era estar ali, tentando convencer o irmão a fazer o mesmo.
— Asmita...
— Não, Shaka! Pode parar. Aliás, nem precisa começar! — bronqueou o mais velho de pé ao lado deles.
— Filho, não faz assim — pediu Nilo acercando-se dele, e quando lhe tocou gentilmente o ombro percebeu que ele tremia muito. Seu coração então encheu-se de pesar — É só um passeio de bicicleta, comigo, com seu cunhado e com seu irmão.
Asmita olhou para o pai com o canto dos olhos, sem se mover.
— Não, não é! É uma tentativa imbecil e amadora de consertar o que não tem conserto. — disse ele, agora encarando profundamente os olhos verdes de Mu.
— Bom... — disse Mu com falsa calma, trocando um olhar rápido com senhor Nilo — São as duas coisas. Só um passeio de bicicleta com a sua família, e também uma tentativa amadora e imbecil de consertar uma coisa que está quebrada ai dentro de vocês. E que eu diria que pode ter conserto sim, basta você querer tornar possível. Com certeza vai ficar alguns remendos para trás, como quando se junta os cacos de um vaso com cola, afinal tem coisas na vida que a gente nunca esquece, mas se você colar direitinho, se fizer um bom trabalho, se quiser mesmo que o vaso volte a ser funcional, que contenha a água, que abrigue as flores, então ele voltará a ser, mesmo sem poder apagar os remendos feitos na porcelana ou no cristal.
Asmita olhou firme para ele, calado e introspectivo por um tempo, depois fechou a jaqueta nervoso e cruzou os braços.
— Eu vou embora. — disse fazendo menção em sair dali, mas Nilo o segurou pelo braço.
— Filho... não faz isso, por favor.
Mu assistia a tudo muito tenso, embora já soubesse que seria difícil convencer o cunhado.
— Eu não vou subir nessa merda, pai! Eu sabia que não deveria ter vindo aqui hoje... Eu só vim porque o Shaka insistiu, mas é sempre assim com ele! Eu dou a mão e ele quer logo o meu braço inteiro! — falava atropelando as palavras, ofegante, apavorado.
A simples imagem de uma bicicleta trazia a Asmita lembranças dolorosamente terríveis; o fazia vivenciar toda a tristeza e culpa daquele dia fatídico.
Sem que nenhum deles ali esperasse, Shaka pulou do banco da bicicleta o mais rápido que conseguiu e guiando-se pelo som das vozes do pai e do irmão avançou com passos incertos e hesitantes esticando os braços na mesma direção.
Asmita num reflexo rápido veio prontamente ao seu encontro lhe tomando pela mão.
— Asmita, por favor me escute. — pediu o pianista.
— Cuidado, vai cair, seu tonto. — resmungou o mais velho ajudando o irmão a se firmar, então o sentiu segurar com força em suas mãos. Sentiu as dele tão geladas quanto as suas.
— Eu sei o que deve estar sentindo, o que deve estar pensando, e que para você é difícil, mas...
— E para você não é, Shaka? — Asmita perguntou o interrompendo, e com seus olhos azuis cansados e levemente úmidos fitou com angústia o rosto dele.
— Sim, é, mas...
— Foi para isso que insistiu tanto para que eu viesse nessa merda de parque, não foi?
— Não! Não foi para isso. Eu nem sabia que...
— Mas que droga, Shaka! Por que você é assim?
— Eu insisti porque queria sua companhia, queria que participasse da minha vida em algo que fosse além dos muros da nossa casa ou situações de risco e perigo. — disse Shaka efusivo.
— Como é?
— Asmita eu posso contar nos dedos quantas vezes dividiu comigo momentos como esse, de descontração despretensiosa, de alegria, de reunião familiar. Você não é meu guarda-costas, nem minha babá, você é meu irmão, porra!... Eu... eu sinto sua falta.
O mais velho engoliu em seco.
— Consegue entender o que é sentir falta de uma pessoa que mora debaixo do mesmo teto que você, mas que mesmo assim não está lá a maioria do tempo? — Shaka continuou — Está apenas para me servir as refeições, ou para me guiar para algum lugar, para inspecionar se vesti as roupas direito, se não troquei alguma peça, ou se me machuquei sem perceber...
Asmita respirou fundo e baixou a cabeça fechando os olhos. Se recusava a demonstrar qualquer fraqueza ali, especialmente na frente de Mu.
— Depois do dia que me contou o que aconteceu no Natal de 2005, nós nunca mais falamos sobre esse assunto. No entanto, não falar dele não o fez encolher até ficar tão pequeno que desaparecesse, ao contrário... esse silêncio o fez crescer, e crescer, até se transformar num monstro que se senta à mesa com a gente todos os dias para dividir as refeições.
Asmita voltou a olhar para ele, agora firme, sério como um juiz preste a desferir a sentença ao réu.
Shaka sentia os olhos do irmão sobre si, e segurou com ainda mais vigor suas mãos geladas.
— Esse monstro que criamos afastou você de mim... Quantas vezes foi até o Terminal me ver tocar o piano?... Posso contar nos dedos de uma mão, e sempre me seguindo por medo de que algo ruim me acontecesse e nunca para apreciar a minha música — disse com pesar, porém entendia o que impedia o irmão de ir vê-lo tocar — Nesses quatorze anos, Asmita, você tem sido figura constante nos meus piores momentos, quando vai me recolher na rua porque cai, ou quando me leva ao hospital porque me machuquei, quando me defende de ladrões ou agressores... Não acha que já está mais do que na hora de estar presente nos momentos bons também?
— Se isso para você é um momento bom, para mim não é.
— Eu estou disposto a torna-lo um momento bom. Não está sendo fácil para mim também. Quase caímos duas vezes até conseguir chegar aqui, tudo porque eu não conseguia parar de tremer... Foram muitos muros derrubados a cada pedalada só dali da Bow Bridge até aqui. Mas, da próxima vez sei que já será mais fácil, e da próxima ainda mais... E assim até derrubarmos todos os muros, então o monstro que criamos entre nós ficará sem sua proteção, vulnerável, e poderemos, juntos, dar tanta porrada nele que ele será reduzido ao tamanho de um grão de ervilha. Não deixará de existir, mas não nos sufocará mais.
Nilo aproximou-se deles e tocou cada um no ombro, dando um leve aperto.
— Asmita, filho... pode ser uma boa ideia, por que não?
— Escute o seu irmão, Asmita, ele está certo. Não vai consertar tudo, mas é um começo. — interferiu Mu, e na mesma hora ganhou um olhar cheio de raiva do irmão do pianista, porém também viu medo estampado nos olhos dele.
— Você, seu burguesinho folgado. Então eu decido me abrir com você, exponho minha alma, minha maior vergonha, e você acha que pode usar isso para bancar o terapeuta de meia tigela para cima de mim?
— Não! — Mu respondeu de imediato — Até porque eu nem sou terapeuta, mas eu amo demais o seu irmão, e isso faz de você a minha família. Todos que são queridos ao Shaka também são a mim, e como eu me preocupo com ele, também me preocupo com você, quer goste ou não. A bicicleta não é um problema apenas para você, Asmita, é uma ferida dolorosa para o Shaka, no entanto ele decidiu tentar fecha-la, disposto a recomeçar junto de você, do seu pai e de mim. Todos juntos.
Os olhos arrogantes de Asmita fitaram a face de Mu com desmedida seriedade, mas não se demoraram na inspeção mais que meros segundos. Logo ele voltou a olhar para Nilo e então para Shaka. Cada contorno do rosto bonito do irmão bradava de tensão e esperança.
Como poderia ele lhe negar aquilo?
Quem em sã consciência manteria as portas fechadas à redenção?
Com um suspiro longo e a garganta apertada, Asmita acariciou delicadamente a cabeça de Shaka, alisando algumas mechas de seu cabelo loiro desgrenhado pelo vento com imenso carinho, enquanto olhava para seus olhos azuis cristalinos. Refletido nas negras e grandes pupilas congeladas estava ele, o mostro que o irmão mencionara.
Estava mesmo na hora de querer manda-lo embora.
— Está bem. — disse Asmita em voz baixa, engolindo em seco.
Mal ouvira a sentença o pianista piscou os longos cílios loiros, e o azul de seus olhos cintilou à luz do sol, então ele sorriu, um riso pleno de alívio e esperanças renovadas.
Num gesto efusivo Shaka abraçou Asmita com toda força e lhe agradeceu com um sussurro ao pé do ouvido. O mais velho lhe beijou ternamente a fronte e então eles se separaram.
— Vamos, venha! Você nunca mais andou de bicicleta, nem eu, então a gente fica nos dois bancos do meio. Venha! Pai, o senhor fica no último banco. — dizia Shaka o puxando pela mão, tateando o vazio à espera de tocar o guidão.
Mu, que estava tão radiante de alegria quanto o namorado, logo tomou sua mão e a colocou sobre guidão, enquanto senhor Nilo, que nem se preocupou em disfarçar as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, apressadamente foi acomodar-se no último banco, trocando um rápido e grato olhar com o estudante de cinema.
Asmita por sua vez, tremia tanto que quando sentou no banco e tocou o guidão da bicicleta sentiu as mãos formigarem e a visão ficar turva. Apenas não desmaiou ali na frente de todos devido ao seu orgulho, o qual não o permitiu mais esse vexame.
Antes de darem as primeiras pedaladas Nilo lançou um último olhar à fonte de Bethesda, ao anjo que caminhava na ponta dos pés sobre as águas.
Então ele sorriu, e pela primeira vez em quatorze anos a vida lhe sorriu de volta.
*PC – abreviação usada para Paralisia Cerebral
