Não havia uma só vitória do New York Yankees pela Major League que não fosse efusivamente comemorada com uma boa cerveja e tiras de bacon frito, mas naquela noite, tanto a iguaria quanto a bebida ficaram esquecidas na geladeira.
Terminada a partida, Nilo alongou-se no sofá buscando alívio para a dor nas costas que o castigava já há alguns bons anos, desligou a televisão e recolheu-se para dormir.
Já Asmita nem havia esperado o fim da partida. Os Yankees tinham aberto uma grande vantagem sobre o Los Angeles, motivo mais do que suficiente para encaixar a desculpa de que sairia um pouco para caminhar; arejar a cabeça, como gostava de dizer quando precisava sair para fumar um cigarro e tentar preencher com nicotina o sorvedouro famélico que vez ou outra a ansiedade rebentava em seu peito. Como se fosse feita de cimento e cal diluídos em água, ele fingia acreditar que a fumaça tapava esse buraco, e Nilo fingia que não se importava. Bem diferente de Shaka, que só faltava bater-lhe com a bengala ou o que os seus dedos ágeis de pianista encontrassem pela frente sempre que sentia o cheiro do cigarro.
Asmita entendia como legítima e amável a preocupação do irmão consigo, por isso mesmo não conseguia conceber Shaka atenuar a sua, ainda que a conversa com Nilo mais cedo lhe tivesse feito refletir durante toda a partida de baseball.
Talvez estivesse sendo exageradamente cauteloso, prudente em demasia, quem sabe.
Talvez devesse confiar mais em Mu e dar-lhe o tempo que ele julgava ser necessário para revelar à família que era gay.
Talvez...
Se para Nilo não tinha sido tão simples, como sempre achou que fora, então talvez o pai de Mu carecia de mais tempo mesmo.
Talvez...
Talvez simplesmente devesse não interferir na vida de Shaka, como vinha fazendo desde que arrancou dele a luz dos olhos.
Consumido por aquelas reflexões, suspirou longamente, se sentou num pequeno toco de árvore deixado na esquina da rua e acendeu ali um cigarro que prometeu a si mesmo ser o último antes de regressar à casa. Naquela hora avançada da noite apenas uma ou outra pessoa passava por ali, mal encaradas, apressadas e vigilantes como sempre, mas seus olhos as atravessavam sem sequer dar-se conta delas, vagos. De tão tenso tinha os ombros encolhidos de tal forma que a gola da jaqueta surrada cobria-lhe as orelhas.
Irritou-se consigo mesmo por estar tão preocupado; é que aquela maldita intuição...
Aliás, fora ela quem fez as batidas de seu coração acelerarem repentinamente poucos segundos antes do Mustang preto de Mu dobrar a esquina.
Da esquina Asmita seguiu o carro com os olhos até que este parasse em frente ao portão branco de sua casa. Deveria estar aliviado com o retorno do irmão, mas estranhamente experimentava um desassossego na alma já velho conhecido seu.
Depois de tantos anos, deveria saber lidar melhor com aquilo.
Achou estranha a demora dos garotos em descer do carro. Já os havia alertado para que não dessem bobeira à noite numa rua perigosa como aquela e raramente eles o desobedeciam, não fosse pelas vezes em que os beijos de despedida eram tão calorosos que não poderiam ser dados na porta de casa. Deu uma última tragada no cigarro, meteu duas balas de menta na boca e levantou-se, indo direto até o veículo já com as palavras de repreensão na ponta da língua adocicada pela bala, quando de repente foi surpreendido na metade do caminho pela porta do passageiro que se abriu num golpe.
Instintivamente reduziu os passos esperando que Shaka saltasse do carro, mas novamente foi pego de surpresa quando quem saltou foi Mu.
Asmita sentiu o peito gelar e a boca secar quando olhou para o estudante de cinema e o viu com a camisa em farrapos. Forçando a vista e a mente, que se negava a conceber a cena e seu significado, percebeu que além de rasgada, a camisa, e também os braços, costas e a lateral do rosto de Mu até onde a parca iluminação noturna lhe permitia enxergar, estavam sujos de terra e de sangue.
— Mas o que... — balbuciou antes de começar a correr até o carro ouvindo as batidas de seu coração reverberarem em seus ouvidos.
Shaka abriu a porta de trás do Mustang antes de Mu ter a chance de fazê-lo primeiro, e quando saltou, tateando com as mãos trêmulas a lateral da lataria, de pronto já encontrou as mãos do estudante de cinema estendidas o aguardando.
Agarrou-se a elas como o trapezista agarra-se ao trapézio, com confiança inabalável e a certeza de que um não tem razão de existir sem o outro.
— Você fica aqui hoje, comigo. Eu não vou deixa-lo ir para sua casa nesse estado — disse choroso o pianista. Queria tocar o rosto dele, secar-lhe as lágrimas que derramavam-se comedidas desde Carnegie Hill até ali no Bronx, mas tinha medo de que seus toques infringissem a ele ainda mais dor.
E quão terrível era para o pianista saber que ele estava ferido e não ter olhos para precisar a gravidade, tampouco para cuidar de suas feridas...
Mu chegou a ensaiar uma resposta, mas subitamente fora silenciado.
— Ei! Nada disso! — a voz veio alta e autoritária de dentro do carro e causou um sobressalto em Shaka. Shion estava inclinado sobre o banco do passageiro. — Ele vai passar num hospital para fazer curativos e depois vai para casa comigo. Anda logo, Mu, entra no carro.
A essa altura, Asmita já tinha chegado ali, e como se estivesse cara à cara com uma assombração terrível, cujo aspecto horripilante era suficientemente assustador para lhe roubar o calor do sangue e a cor da face, com os olhos arregalados e a boca aberta encarava a figura atormentada de Mu, incrédulo com o estado em que ele se encontrava.
— Asmita? — Shaka espaventou-se virando o rosto para a direção em que estava o irmão, só então Mu se deu conta da presença dele ali.
— Mas que merda é essa? — bramiu Asmita que num gesto instintivo de pura aflição agarrou o braço de Mu e com um sacolejo o fez ficar cara a cara consigo.
— Aaaai! — o cineasta deixou escapar um lamurioso e alto gemido de dor.
— NÃO TOCA NELE! NÃO TOCA NELE! — Shaka interveio aos gritos, e esticando os braços logo suas mãos encontraram a jaqueta do irmão e agarraram-se nela com toda força lhe dando um chacoalhão.
Valendo-se imediatamente do equívoco, Asmita afrouxou a pegada e olhou sobressaltado para Shaka. Sentiu como se uma corrente elétrica lhe percorresse o corpo ao vê-lo todo sujo do que parecia terra e com um esfolado no queixo.
— Desculpa! Foi sem querer, eu só queria... — disse Asmita, então interrompeu-se e passou a analisar também o rosto e as roupas do irmão. — Mas que porra aconteceu com vocês dois? Você está machucado, Shaka?
— Não! — o pianista respondeu rapidamente.
Então imediatamente Asmita voltou-se para Mu, que permanecia calado, em choque.
— E por que você está assim? Quem fez isso? — perguntou nervoso.
Nesse ponto, a paciência de Shion se esgotou. Ele abriu a porta do carro e de pé olhou para o homem recém-chegado. O reconheceu pela foto que o pianista havia lhe mostrado meses antes, embora ali ele lhe parecesse incrivelmente maior, mais robusto e também bem menos simpático.
— Ei! — Shion chamou sua atenção. Esforçou-se para não parecer arrogante ou autoritário para não dar a impressão de que fosse contra o relacionamento do irmão com o pianista, apenas queria levar Mu para casa para evitar mais conflitos com os pais, porém, devido ao nervosismo, o tom que saiu de sua boca foi justamente o que tentou evitar — Mu, entra agora nesse carro!
Asmita ouviu a ordem calado e sentiu as mãos de Shaka apertarem-se ainda mais em sua jaqueta num claro pedido de ajuda. Não olhou para Shion, pois que seus olhos estavam pregados aos de Mu e os analisavam atentos. Viu neles um pavor que em todos aqueles meses de convivência jamais havia visto. Viu também dor, horror, uma tristeza profunda e um pedido silencioso de amparo.
E quão inusitado, e também chocante, fora para ele ver o garoto de postura sempre tão valente e presença corajosa agora visivelmente apavorado diante de si.
— Mu! — Shion insistiu ainda mais firme. — Não vou falar mais uma vez! Entra no carro, por Deus!
Então Asmita finalmente ergueu os olhos do olhar amortecido de Mu e encarou Shion com a firmeza e convicção de um predador.
— Ele fica.
Nem houve tempo para qualquer reação vinda de Shaka ou de Mu. No instante seguinte de proferida a sentença, Asmita agarrou também o braço do pianista e com um giro deu as costas ao carro e ao condutor, conduzindo a ambos até o portão da casa.
— O que? — esbravejou Shion surpreso e num espavento todo atrapalhado saltou do carro e correu até eles. — De jeito nenhum! Mu!... Ei, você! Solta agora mesmo o meu irmão! Ele vai comigo!
O estudante de cinema ouvia Shion chamar, mas sua mente o ignorava completamente e só conseguia concentrar-se na mão de Asmita em seu braço, que o puxava com surpreendente cuidado pelo pequeno corredor em direção à porta de entrada após cruzarem o portão.
Shion vinha atrás, incrédulo.
— Mu! Estou falando com você, moleque! — gritou em tom ainda mais autoritário. — Coloque um pouco de juízo nessa sua cabeça. Se não voltar para casa hoje para tentarmos resolver as coisas, aí sim, você vai estar ferrado!
Asmita parou em frente a porta, ainda fechada, e com um novo giro ficou de frente com Shion, trazendo o cineasta e o pianista ainda seguros pelos braços.
— Ah, mas ferrado ele já está, não acha não? — o encarou tentando ao máximo evitar o tom de escárnio, mas irritado e aflito como estava esse era um capricho praticamente impossível. — Eu já disse que ele fica! E a menos que você também queira se ferrar, playboy, é melhor parar de gritar na frente da minha casa.
Shion espantou-se com a insinuação.
— Você está me ameaçando? — inquiriu franzindo a testa.
— ASMITA! PARA! — pediu Shaka desesperado.
— Sossega, Shaka — disse Asmita com aparente calma, ainda encarando a face rosada e impaciente de Shion. — Eu não estou ameaçando ninguém. Estou apenas alertando esse palerma... Você não está mais em Manhattan, ou sei lá de que merda de condomínio seguro e elegante você saiu. Você está no Bronx, cara. E a menos que você seja um degenerado querendo chamar atenção de outros degenerados para começarem uma briga que irá definir quem é o imbecil com o menor cérebro e o maior cano*, você não grita, nem ameaça ninguém, no meio da noite no Bronx, cara. Você tá me entendendo? Então, playboy, ou você tranca a porra do seu carrão bonito e entra nesta casa disposto a baixar a voz quando for falar comigo, ou pode dar meia volta e cair fora daqui.
Houve uma longa pausa.
Shion trocou um rápido olhar com Mu, que apesar de igualmente surpreendido pelas palavras de Asmita permanecia estranhamente calado e encolhido próximo a ele. Depois olhou para Shaka o percebendo ofegante e angustiado. Viu quando trêmulo Mu esticou o braço e pegou na mão do pianista, então na mesma hora seus dedos se entrelaçaram com força e convicção. Então se convenceu de que não conseguiria separa-los.
O executivo esteve a ponto de contestar o homem à sua frente, que mantinha os olhos azuis selvagens cravados nos seus, preparado para reagir à sua resposta qualquer que fosse ela, quando enfim o bom senso prevaleceu.
— Está bem — disse Shion com um suspiro. — Vamos conversar. Acho que ambos precisamos disso, mas... não seria melhor eu leva-lo a um hospital?
— Eu vou te dizer assim que examina-lo — Asmita respondeu convicto.
— Você é médico?
— Não, eu não sou médico, só estou mais do que acostumado a fazer esse tipo de coisa — disse sem disfarçar a irritação em seus modos e também no tom que usava, áspero como uma lixa. — Como você deve ter percebido, eu não tenho grana e tenho um irmão cego. Aprendi a me virar.
A resposta atingiu Shion como uma martelada. Aos poucos a realidade daquela família se desenhava aos seus olhos o arrancando da zona de conforto.
— Bem... que seja... — ele disse, meio embaraçado. — Isso... Essa foi uma péssima primeira impressão... Eu sinto muito.
— Olha, sinceramente? Eu tô pouco me lixando para você — disse Asmita virando-se para a porta, mas esta se abriu antes que ele tivesse chance de segurar a maçaneta.
Nilo tinha ouvido os gritos e apressado calçou os chinelos de flanela e agasalhou-se com uma malha de lã surrada para inteirar-se do ocorrido.
— Deus que está no céu! — exclamou o velho homem ao olhar para o rosto de Mu. Uma lividez mórbida tomou de assalto suas feições sempre ternas, e de tão chocado com o que via nem conseguiu olhar para os outros presentes ali — Filho!
Assim que ouviu a voz de Nilo, instintivamente Mu levantou os olhos e deu de cara com um par de brilhantes olhos azuis cansados que arregalados o fitavam como se pudessem gritar de desespero e completo horror.
Então Mu finalmente desabou.
O pranto que lutava heroicamente para conter, a tristeza profunda, a incredulidade visceral pelo que sofrera, a violência, as palavras que o feriram mais do que os golpes, a dor... tudo veio à tona de uma vez. E quando sentiu que seu coração a qualquer momento pudesse explodir, ele soltou a mão do pianista e supreendentemente despejou todo esse dissabor, sem o menor pudor ou dúvida, no peito do homem que gentilmente lhe estendia os braços o chamando para acolhe-lo.
Filho.
Aquela palavra se repetia em ecos na mente do estudante de cinema, e esses tinham a voz envelhecida e o tom preocupado de Nilo.
— Filho! Minha Nossa Senhora! Meu Deus! — exclamou Nilo que era pura aflição. Em seus braços, encolhido, trêmulo, frágil, Mu soluçava num choro convulso, e ele, ainda que assustado, o acalentava como a uma criança. — Quem fez isso com você, menino? Por Deus, quem fez isso?
— Seu... Nilo... — Mu balbuciou num fio de voz agarrando-se ainda mais a ele, como se daquele abraço dependesse sua vida.
— Shiiii... Está tudo bem, está tudo bem... pode chorar, filho, pode chorar... — disse o homem lhe dando tapinhas de conforto na cabeça.
Então Nilo levantou os olhos e fitou os outros três homens ali. Viu o estado em que se encontrava Shaka, e embora soubesse que ele não estava ferido como Mu, o conhecia bem para saber que por dentro seu caçula estava completamente aos pedaços. Viu que Asmita parecia um trem desgovernado com força e determinação suficientes para passar por cima até de uma frota inteira de caminhões, e que o possível visitante era sem dúvida alguma o irmão mais velho de Mu, já citado por ele tantas vezes ali. A face gentil e as sobrancelhas ralas em formato de bolinhas não deixavam dúvidas.
Conforme tomava consciência do que possivelmente teria acontecido ao estudante de cinema, Nilo sentia o estômago arder e revirar. Em segundos seus pensamentos desenharam uma porção de nefastas possibilidades. Teriam se encontrado por acaso com algum grupo de pessoas intolerantes, homofóbicos, palavra que aprendera recentemente, então Mu, forte como era, atleta e determinado, os teria enfrentado? Ou pode ser que nem tenha chegado a isso. Eram tempos ruins aqueles. Tempos em que a felicidade alheia incomoda e revolta. Teriam sido assaltados? Teria alguém mexido com Shaka, zombado ou mesmo agredido e Mu interveio em sua defesa?
Em nenhum momento passou pela cabeça de Nilo o que de fato tinha ocorrido.
— Asmita, venha... venha... Me ajude com ele — pediu o velho homem puxando Mu para dentro da pequena sala. — Shaka, meu filho, venha, entrem. Oh, Deus do céu!
Mas na cabeça de Asmita passou.
Com um movimento rápido, Asmita pegou gentilmente o pianista pelo braço e o colocou para dentro. Sabia que ele podia caminhar sozinho ali sem nenhum problema, então o soltou e imediatamente voltou para fora, para Shion, que aguardava ali parado. Quando certificou-se de que tanto Nilo quanto Shaka estavam distantes, já acercados de Mu no sofá, ele fechou a porta permanecendo do lado de fora, depois deu um passo em direção à Shion e parando a dois palmos de distância apenas de seu rosto perguntou em voz baixa e áspera:
— Isso... — fez um gesto apontando com o polegar para o interior da casa. Seu coração batia frenético e a boca estava tão seca que parecia ter engolido uma colher de areia. — Isso tem a ver com a sua família?... Com o seu pai? Mu por acaso falou que é gay? Ele... ele contou sobre o Shaka?
Shion engoliu em seco, sentindo a respiração presa no peito e o estômago embrulhar.
Afirmou que sim com a cabeça.
— Foi ele — respondeu.
Asmita estremeceu.
— Mas que merda aconteceu para as coisas chegarem a esse ponto? — ele questionou incrédulo. — O moleque tá arrebentado!
Shion apertou os lábios. A angustia que lhe apertava o peito agora era visível em suas feições lívidas.
— Eu... eu também não sei, digo... — interrompeu-se. — Eu não estava lá quando... — respirou fundo procurando acalmar os nervos e então emendou: — Eu estava na sala com minha mãe quando ouvi gritos vindos do jardim... corri até lá e então vi meu pai dando uma surra nele enquanto dizia... coisas... que eu juro que sou incapaz de repetir.
Nesse ponto já era impossível para Asmita controlar-se.
— O QUE? — deu um grito, e imediatamente retratando a si mesmo prendeu a respiração e num impulso incontrolado agarrou o colarinho da camisa de Shion dando um puxão forte. — Que merda você tá dizendo?
— Ei! Ei! Eeeeei! Que pensa que está fazendo? Solta minha camisa! Tá maluco?
— Não me fode, cara! — chacoalhou a cabeça numa negativa frenética, depois encarou Shion nos olhos. — E você não fez nada para impedir? Não fez nada para proteger o seu irmão?
— Eu já não disse que não estava lá!? — rebateu imediatamente, ofendido. — E quem você acha que tirou o velho de cima dele? Se eu não tivesse chegado a tempo só Deus sabe o que teria acontecido!
— O desgraçado bateu no Shaka? Ele bateu no meu irmão? Se ele encostou a mão no meu irmão eu juro que...
— Não! — Shion o agarrou pelo pulso e com um safanão o obrigou a soltar-lhe a camisa. — Ele não bateu no seu irmão, eu mesmo perguntei ao Shaka, ele me disse que caiu no gramado... O saco de pancada foi o Mu mesmo.
Ainda o encarando firme nos olhos, Asmita respirou fundo e acelerado.
— Que tipo de cretino é o merda do seu pai?
— O tipo faixa preta em pelo menos quatro modalidades diferentes de artes marciais, forte, fora de si e armado com uma tesoura — Shion respondeu sentindo os músculos do rosto tremerem. — Você não imagina o que acabamos de passar e não faz ideia do que vamos enfrentar daqui para frente... por isso quero levar o Mu comigo.
— Nem fodendo que Mu vai com você — ditou firme e grosseiro.
Shion ficou absorto em perplexidade.
— Ei! Quem é você para decidir isso? — rebateu. — Mu é MEU irmão! Sou eu que sei o que é melhor para ele!
— Se soubesse, talvez nada dessa merda estivesse acontecendo.
— Como é?
— Vocês. Todos vocês. Você, sua mãe, o selvagem do seu pai, estão pouco se lixando para as vontades dele... Acham que sabem o que é melhor para ele, mas aposto que nunca perguntaram o que o Mu acha que é o melhor para ele — disse sentindo um aperto no peito por aquelas palavras soarem mais como uma autocrítica do que como uma repreensão à postura de Shion e da família de Mu, já que ele mesmo tinha agido de semelhante forma com Shaka tantas vezes, nunca perguntando a ele o achava ser o melhor para si.
— Isso... isso que está dizendo é uma besteira sem tamanho!
— Não. Não é!... Por muito tempo eu também pensei e agi assim com o Shaka e tudo o que consegui foi vê-lo se fechar cada vez mais dentro de si mesmo, porque só ali, só dentro do mundo dele, ele podia ser quem ele queria ser, já que tudo e todos aqui do lado de fora o impediam e o faziam acreditar que era impossível — disse, então deu um passo à frente até ficar a poucos centímetros do rosto de Shion, tornando a encara-lo firme e decidido nos olhos. — Eu só entendi que estava matando o Shaka quando o piano e o seu irmão devolveram a ele o desejo de viver no mundo externo, porque permitiram a ele ser quem ele é... Por isso está decidido. O Mu quer ficar, e ele vai ficar.
Inevitavelmente Shion viu-se enredado por aquele dilema conflitante, porém nem teve muito tempo para reflexões mais profundas ou autoquestionamentos. Asmita logo mudou o tom de voz mostrando-se de fato preocupado com a situação do estudante de cinema.
— Ele sempre disse que temia que o pai reagisse mal ao fato de ele ser gay... Eu notei que ele tinha muito medo do pai, mas... isso? Isso é loucura! É o filho dele! Como ele pôde fazer isso com o próprio filho?
Shion abaixou a cabeça e Asmita pode jurar que viu os olhos dele marejarem.
— Hakurei Bharani é um homem intolerante, intransigente e antiquado — fez uma pausa para levantar o alhar para Asmita. — E que também não aceita ser enganado e feito de idiota.
Asmita apertou os lábios.
— Eu sabia que essa merda de mentira ia foder com tudo! Eu falei tantas vezes isso a eles.
— É, pelo jeito todos sabíamos que era uma tragédia anunciada... E quanto ao meu pai cometer uma atrocidade dessas com o próprio filho, bem... não sei se ele ainda considera o Mu como filho dele.
— O que? — Asmita arregalou os olhos e sentiu o coração apertar. — O que está dizendo?
— Hoje meu pai renegou o Mu... o renegou como filho. Disse que não tem filho gay e que preferia vê-lo... morto... a vê-lo junto de outro homem — suspirou, dardejando com o olhar marejado o rosto estupefato de Asmita. — O meu pai expulsou o meu irmão da nossa casa, da nossa vida! Vocês... Vocês não sabem o que fizeram... Se você sabia que o Mu tinha medo da reação dele, então você, e também o Shaka, nunca deveriam tê-lo pressionado a dizer a verdade.
Asmita parecia chocado. Em nenhum momento havia passado por sua cabeça que um playboyzinho boa vida como Mu corresse o risco de um dia perder seus privilégios apenas por conta de um relacionamento com seu irmão. Não. Os ricos não se davam mal. Merdas aconteciam apenas às pessoas cuja vida e a sorte viraram as costas. Na realidade de um conflito sempre lhe fora óbvio que a parte a sair lesada seria Shaka. Shaka se machucaria ao ser abandonado, Shaka sofreria perdas...
Jamais aconteceria o contrário.
O assombro de Asmita àquela epifania não passou despercebido a Shion.
— Vocês deveriam ter confiado no Mu e deixado ele decidir por si mesmo qual era a hora certa de revelar tudo ao meu pai.
— Espera, nós não...
— Não negue! — Shion elevou a voz. — Pelo amor de Deus! Mu mal havia firmado um compromisso com o seu irmão e eu já podia perceber nos olhos dele uma urgência por provar-se digno!... Eu nunca vi meu irmão tão aflito e desesperado por aprovação antes — estava ofegante. — Apaixonado como ele está pelo Shaka, ele não foi capaz de lhe negar isso e acabou metendo os pés pelas mãos.
— Você tá falando um monte de besteira! — bronqueou Asmita, mas no fundo estava inseguro e vacilante. — Então para você o correto era que continuassem com a mentira? Até quando? Um dia ou dois a mais? Um ano? A vida toda? Só para não aborrecer e contrariar o cretino do papai?
— Não!... Mentir nunca é uma boa escolha, mas tudo tem seu tempo e você e seu irmão não respeitaram o tempo dele — respondeu Shion zangado. — Mu não estava pronto, nossa família não estava pronta. Não era hora de revelar que ele era gay. Não ainda... Não dessa forma.
— E talvez nunca, né? — disse ele, e nessa hora Shion baixou os olhos não ousando enfrenta-lo mais.
Aquelas palavras foram duras de ouvir e mais difíceis ainda de aceitar para ambas as partes. Sim. Asmita pensava que talvez não devesse ter pressionado Mu como fizera. Talvez devesse ter confiado nele. Mas como ele poderia imaginar a gravidade da situação? Shion por sua vez, perguntava-se se haveria de fato um tempo e modo certos para convencer Hakurei a aceitar que tinha um filho gay. Estaria sendo ingênuo ou negacionista por acreditar que sim?
Por fim, Shion suspirou longamente e chegou à conclusão de que não havia mais nada a ser feito naquele instante além de lamentar-se.
— Agora a merda já está feita... Você disse que ia cuidar dos ferimentos dele. Se não vai fazer isso, então eu vou leva-lo a um hospital agora mesmo.
A princípio, a fisionomia carrancuda de Asmita lhe pareceu colérica, como se ele estivesse prestes a lhe agarrar novamente o colarinho da camisa e terminar o que havia começado momentos antes, mas súbito ela ganhou ares de resignação e a tensão que permeava a ambos aos poucos se atenuou. Asmita levou a mão ao rosto e com um murmúrio lamentoso apertou a ponte entre os olhos.
— Eu vou cuidar do seu irmão... entre — disse em voz baixa já abrindo a porta e se dirigindo à sala.
Shion o seguiu calado.
Ali o executivo tornou a se surpreender com o modo íntimo e afetuoso com o qual Nilo acolhia Mu em seus braços, que ainda sem conseguir falar soluçava convulso enquanto o pianista lhe segurava firme uma das mãos.
Tantas coisas passaram pela cabeça de Shion naquele momento...
Muitos eram também os pensamentos que irrompiam na mente de Asmita, que sem tempo ou energia para dar-lhes alguma atenção procurou focar no que teria que fazer em seguida. Por isso, foi até o sofá, tocou no braço de Shaka e falando baixo próximo ao seu ouvido lhe pediu para que o acompanhasse até o banheiro para pegarem os utensílios de primeiros socorros.
O pianista assim o fez de imediato.
Contraditoriamente à pressa do pianista em regressar o mais rápido possível à sala para cuidar dos ferimentos do estudante de cinema, Asmita parecia ter um assunto mais urgente a dar cabo antes. Fora isso que o fez fechar a porta do banheiro e colocar-se entre ela e Shaka assim que este entrou, provocando nele um abrupto sobressalto.
— O que foi? — o pianista perguntou virando-se imediatamente em sua direção. Seus olhos azuis alarmados apalpavam o vazio, presos num ângulo entre o peito e o pescoço do irmão — Por que fechou a porta?
— Eu sei o que aconteceu... o irmão dele me contou — disse Asmita com os olhos baixos fixos num esfolado no queixo de Shaka. Com a respiração presa levantou a mão e o tocou na área onde havia apenas sujeira. O pianista de pronto recuou.
— Não era isso que você tanto queria? Que ele contasse ao pai dele que é gay? Que contasse sobre nós? Pois bem, ele contou. Está feito — disse Shaka sem disfarçar a agressividade com que as palavras saiam de sua boca.
Asmita respirou fundo e franziu o cenho, nervoso.
— Também vai me culpar por isso?
Shaka, que tinha a respiração ofegante e os lábios trêmulos, engoliu em seco e pareceu ponderar por um instante. Então fechou os olhos e baixou a cabeça.
— Não, não vou culpa-lo — disse. — Posso nunca ter dito diretamente, mas... eu sei que também o pressionei. Eu tinha medo que o motivo pelo qual ele não queria contar sobre a gente aos pais dele não fosse apenas o fato de ter de revelar-se gay... Eu tinha medo de que ele não gostasse de mim o suficiente... e eu... eu deixei isso claro muitas vezes, eu sei que deixei... No fim, você tinha razão.
Asmita piscou os olhos, confuso.
— Eu tinha? Do que está falando?
— O tempo todo... você sempre esteve certo e eu não quis te ouvir — o pianista lamentou levando a mão ao rosto para apressado enxugar uma furtiva lágrima que descia por sua bochecha. As palavras carregadas de ódio de Hakurei ainda troavam em ecos vivos em sua mente revirando seu estômago e comprimindo-lhe o peito de tal forma a causar dor física. — Eu nunca deveria ter insistido nisso, em querer levar uma vida normal... em me envolver com alguém de um mundo tão distante do meu.
— Shaka...
— Eu jamais deveria ter saído daqui, dessa casa, desse bairro... Jamais deveria ter me misturado com as pessoas normais.
Ouvi-lo dizer aquilo foi como ter seu coração aguilhoado trespassado por uma lâmina afiada. A dor era real e excruciante.
— Ei! Não, Shaka, de jeito nenhum! — disse Asmita tocando o braço do pianista tencionando puxa-lo para um abraço, mas novamente este recuou de pronto se livrando do toque com um tabefe.
— Como não? Olha para toda essa merda! A culpa foi minha! Ele... ele foi no jardim por minha causa... Se não fosse por mim... se ele não tivesse me conhecido, nada disso estaria acontecendo a ele. Ele não teria que estar passando por uma merda horrível como essa.
— Shaka a culpa não é sua, nem minha, mas do filho da puta do pai dele! Não cai nessa! O burguesinho...
— MU! — o pianista o interrompeu elevando a voz e levantando o rosto sem se importar com as lágrimas que agora lhe escorriam copiosas dos olhos. — O nome dele é Mu! Mu! Um homem incrível, Asmita, que eu estou levando para a lama.
— Shaka, pare de dizer isso!
— Mu é um homem forte, inteligente, lindo, dono de um coração generoso que pode, e que merece, ter tudo o que quiser na vida... as melhores oportunidades, os melhores amigos, fama, sucesso, felicidade, família... desde que eu não faça parte da vida dele, por que é isso o que eu faço, eu... eu destruo a vida das pessoas que estão à minha volta... basta olhar para a sua e a do pai.
Num rompante súbito de aflição e desespero, contrariando a vontade do pianista Asmita o puxou para seus braços e o abraçou com força, metendo o rosto dele contra seu peito numa voraz necessidade de fazê-lo se calar. Não podia permitir que ele continuasse dizendo aquelas coisas, já que há muito ele não pensava mais daquela maneira, carregando nos ombros uma vergonha e culpa imensas por um dia ter feito Shaka acreditar que não poderia levar uma vida normal, como qualquer outra pessoa. Já tinha arrancado dele a visão, não iria priva-lo também de acreditar em si mesmo, de sonhar, de viver, e se hoje estava disposto a ajuda-lo alcançar tudo o que quisesse, e a viver como desejasse, ele devia isso a Mu.
— Shaka... eu não sei quantas vezes mais terei que te pedir perdão pelas atrocidades que, mesmo sem ter intenção, eu infrinjo a você até hoje, meu irmãozinho... — dizia com voz embargada, mas sem qualquer pudor em deixar que as lagrimas brotassem de seus olhos — Eu estava muito errado quando te disse essas coisas, muito errado! E além de estar errado, eu queria você junto de mim para sempre, entende? Queria protege-lo do mundo, de merdas como essa que aconteceu com o Mu... Mas isso é ser extremamente egoísta — fez uma pausa enquanto abaixava a cabeça e beijava ternamente os cabelos loiros do pianista. — Eu queria te poupar de todo esse ódio e violência, que são mais comuns do que você imagina.
— Por que?... Por que nos odeiam tanto? — Shaka perguntou aos soluços. — Mu é tão cheio de amor... E ele ama tanto aquele miserável do pai dele... Apanhou o tempo todo sem revidar um só golpe... Por que ele teve que passar por isso? Ele não merece isso...
— Infelizmente o mundo é uma bosta e são justamente as melhores pessoas que sofrem mais... é essa a realidade. Você está chocado porque aqui nunca foi assim, mas é porque o pai é uma pessoa iluminada. Um em um milhão, entende? A maioria das pessoas como você e o Mu não têm a mesma sorte.
— Mas é o pai e a mãe dele, Asmita... são os pais dele! — soluçou o pianista.
— Pai e mãe também podem ser pessoas ruins, Shaka. Não é um título de parentesco ou um laço sanguíneo que torna alguém bom para nós... — disse, depois afastou-se minimamente para poder segurar no rosto do pianista com ambas as mãos e faze-lo prestar atenção no que diria. — Ouça. Me ouça com atenção, Shaka... Esqueça tudo o que eu enfiei nessa sua cabeça oca todos esses anos e vamos começar do zero. Você e eu. Está me entendendo?... Aquele garoto na nossa sala acabou de passar pela pior experiência que um filho que ama os pais poderia passar na vida. Sim, eu sei dos detalhes. Eu sei que o desgraçado lá disse coisas horríveis para ele, ameaçou mata-lo e por fim ainda o renegou. Você consegue se colocar no lugar dele? Consegue entender que em uma só noite ele perdeu o pai, a mãe e está às vias de perder muito mais que isso?
O rosto bonito do pianista contorceu-se todo numa careta horrenda que culminou num soluço alto e forte.
— Escuta, Shaka! Escuta!... Como você acha que ele vai ficar se perder você também? Como ele vai ficar se o cara que ele ama sair da vida dele justo no momento que ele mais precisa?
— Eu... eu não sei se seria capaz de me afastar dele, mas... não quero causar mais problemas para ele, não quero tornar as coisas ainda mais difíceis, e eu sei que se eu me afastar ele pode ter uma chance de se reconciliar com os pais.
— Olha, pelo jeito a única maneira de ele se reconciliar com os cretinos dos pais dele é deixando de ser gay, o que você e eu sabemos que não vai acontecer. Então, tira já essas merdas da sua cabeça e seja corajoso — brincou lhe enxugando as lágrimas. — Vocês vão passar por isso juntos. Nós vamos. Se a família dele virou as costas para ele, a nossa não vai virar. Certo?
O pianista respirou fundo procurando se acalmar e fez um gesto afirmativo com a cabeça.
— Ótimo, pequeno gafanhoto! — brincou, forçando-se a sorrir para que o ouvindo Shaka pudesse relaxar, ainda que ele próprio estivesse uma pilha de nervos com aquela situação. — Agora se acalme e vamos para sala. Eu vou fazer um curativo na fuça do teu namorado e depois levo um colchão lá para o seu quarto. Arrumamos uma cama para ele como fazemos quando o Shijima dorme aqui, ok?... Só que quero essa porta só encostada, ouviu?
— Asmita...
— Hum?
— Estou com tanto medo.
Durante alguns segundos, Asmita olhou para ele, para o queixo esfolado, para os lábios trêmulos, para o nariz corado pelo choro e para os olhos condenados que erguidos em sua direção, abertos e cintilantes feito dois oásis benditos, pareciam divisa-lo diretamente na alma, já que não podiam ver a carne.
— Vai ficar tudo bem — disse fazendo uma caricia em seu rosto.
— Eu não quero que ele sofra... Eu sempre achei que o meu maior medo era nunca poder viver, era que a clausura da cegueira se estendesse também à minha vida, mas... isso ficou tão pequeno diante do sofrimento dele. Eu não quero que o Mu sofra.
— Shaka, o sofrimento é inevitável, mas quando dividido com alguém que se ama ele se torna suportável. Você e eu sabemos disso tão bem... — apertou os lábios e em seguida foi juntar os utensílios de primeiros socorros. — Anda. Vamos cuidar do seu namorado.
Asmita e Shaka voltaram para a sala calados. Já munido de tudo o que precisaria para os curativos, o mais velho sentou-se de frente para Mu, num banquinho, e iniciou os trabalhos, enquanto Nilo cedia lugar ao pianista para que se sentasse ao lado do estudante de cinema. Enquanto limpava os ferimentos, Asmita disse a Mu que lamentava muito pelo ocorrido e também pela tempestade que se anunciava, colocando-se à disposição caso ele precisasse de algo ou de apenas um ombro amigo. No entanto ele o alertou: Se soubesse que Shaka iria se machucar de alguma forma nessa história, não mediria esforços para defender o irmão como sempre fizera.
À esquerda deles, sentado na surrada poltrona de couro desbotado, Shion assistia a Asmita lidar com os ferimentos do irmão com a paciência e a perícia de um profissional.
Shion Bharani nunca fora um homem inclinado aos questionamentos e reflexões profundas. Nem aos de caráter pessoal, quanto muito àqueles que envolviam o âmbito social. Era um bon vivant. Um homem prático e simplista a quem fora concedida a benção de responder, naturalmente, ao esperado de si. Fora um ótimo aluno nos tempos de escola, formou-se na universidade com as melhores notas, era competitivo a um nível saudável, inteligente, um ótimo líder e filho exemplar. Qualidades suficientes para tornar tolerável aos olhos dos pais sua inclinação à boemia.
Mas agora ali ele refletia pela primeira vez acerca de seu relacionamento, e também o dos pais, com Mu. Nunca de fato o ouviram. Nunca lhe deram sequer abertura ou oportunidade para que se sentisse seguro e confortável para ser quem ele realmente era, lhe soltando as rédeas aos poucos, mas sempre o mantendo preso de alguma forma à convenções das quais ele se posicionava claramente desconfortável. As aulas de piano e a faculdade de cinema foram uma conquista conseguida à ferro e fogo e depois de muitas desavenças. Era natural, então, que ele se sentisse acolhido por aquelas pessoas.
Essa súbita lucidez causou em Shion um princípio de mal estar. Será que teria como reverter as coisas? Teria ainda tempo para corrigir os erros? Sentia as pontas dos dedos formigarem e o estômago doer. Via Shaka segurar a mão de Mu com visível amor e preocupação, enquanto Nilo fazia um cafuné nos cabelos que Hakurei massacrou com tanto ódio.
Naquele ponto estava mais do que claro entender porque Mu havia escolhido ficar ali a voltar para casa consigo e tentar salvar seu futuro. E nem podia repreende-lo por essa escolha.
Nos olhos dos dois homens que cuidavam com tanto zelo de Mu, Shion viu o amor que ausentou-se dos olhos de Hakurei quando o irmão mais contava com isso.
Já nos olhos de Mu ele finalmente conseguiu compreender o que era aquele sentimento que vira no momento em que a porta daquela casa tão simples se abriu e o pai do pianista lhe estendeu os braços: acolhimento e aceitação.
Na família humilde daquele menino cego, Mu tinha tudo o que o dinheiro e o conforto que sempre lhe fora dado jamais poderia comprar, e que ele sempre buscou desesperadamente.
Um sentimento súbito de vergonha fez o executivo irrefletidamente baixar a cabeça e desviar o olhar.
Apesar da violência dos golpes, felizmente nenhum dos ferimentos de Mu apresentava demasiada gravidade. Os primeiros socorros feitos em casa foram o suficiente e depois de quase uma hora Asmita enfim tranquilizou Shion lhe dizendo que não havia necessidade de irem a um hospital. Uma informação que também tirou um peso enorme do coração de Shaka, que sem poder enxergar havia horas que imaginava o pior, ainda que lutasse com todas suas forças para não cair nas armadilhas que sua mente sempre lhe armava.
— Shion...
A voz de Mu, pela primeira vez desde que chegaram ali dita em tom firme e audível, chamou a imediata atenção de todos, inclusive de Nilo que estava na cozinha fazendo um chá de camomila para servir com torradas para os meninos.
— Sim? — o executivo respondeu de pronto.
— Pode ir para casa, já é bem tarde... A mãe deve ter ligado um milhão de vezes para você... Eu vou ficar bem... Depois, ela está sozinha em casa com o ... pai. Eu acho melhor você ficar lá com ela.
Shion suspirou e em seguida se levantou da poltrona indo até ele. Com carinho se inclinou e o abraçou cuidadosamente.
— Está bem... Eu já vi que está em ótimas mãos — disse lançando um olhar amistoso para Asmita, que após um instante desviou indo guardar os utensílios de primeiros socorros em uma caixa. Shion então voltou-se para Mu. — Amanhã conversamos, está bem? — falou ainda abraçado a ele.
Mu fez um sinal afirmativo com a cabeça.
— Eu amo você, meu irmão. Vou cumprir minha promessa. Nós vamos dar um jeito em tudo — emendou e então olhou para Shaka sentado ao lado. A figura do garoto humilde, cuja angústia era visível em cada poro, tocou seu coração. Era impossível não gostar e não se importar com ele sabendo que Mu o amava tanto. Assim, foi com sinceridade nascida do fundo da alma que estendeu o braço e segurou em sua mão, provocando nele um pequeno susto — Vai ficar tudo bem, Shaka. Nós vamos dar um jeito... Cuide bem dele, ok?
— Eu vou cuidar — respondeu o pianista.
— Eu sei que vai — o executivo esboçou um sorriso. — Bom, agora eu vou para casa. Preciso tentar amansar a fera. Fiquem bem os dois.
Shion despediu-se do irmão com um beijo terno nos cabelos que Asmita, com toda boa vontade e criatividade, fez questão de reparar os estragos. Felizmente Hakurei havia lhe cortado os fios apenas em um dos lados da cabeça, o que possibilitou a Asmita improvisar um side cut, raspando o lado afetado com a maquininha que Nilo usava para cortar o cabelo. O visual moderno e ousado caiu como uma luva para o estudante de cinema, que até sentiu-se um pouco mais animado.
Nilo fez questão de acompanhar Shion até o carro, e como não podia deixar de ser perguntou a ele o que havia acontecido com os garotos, ainda que naquela altura nem preciso fosse. Sua mente correta e empática, somada a seu coração bondoso se negavam a acreditar na verdade óbvia que se desenhou diante de seus olhos atentos enquanto acompanhava tudo na sala. A tensão nos rostos de todos, o choro sofrido do estudante de cinema, a fisionomia em choque de Shaka, a introspecção de Asmita, o silêncio...
A constatação evidente lhe provocou calafrios pelo corpo e fez seu coração saltar dentro do peito. Fora fazer um chá de camomila mais para tentar acalmar a si mesmo, pois que sentia-se prestes a sofrer um colapso.
Shion usou das mesmas palavras usadas com Asmita para relatar a Nilo o ocorrido, poupando o velho homem apenas de um detalhe. Não o acusou de pressionar Mu. O velho senhor lhe pareceu amável e bondoso demais para ser culpado do que quer que fosse. Reconheceu nos modos do pai do pianista a empatia que faltara talvez a todos os envolvidos, especialmente em seu próprio pai. O zelo e o carinho de Nilo por Mu eram notadamente sinceros e incondicionais, por isso foi embora com o coração tranquilo, sabendo que Mu estava no melhor lugar possível.
Quando o Mustang preto arrancou, Nilo passou o trinco no portão, mas ainda não regressou à casa.
Ali ele baixou a cabeça e recordou-se de ter chorado da mesma forma somente duas vezes em toda sua vida.
A primeira quando médico oftalmologista deu o diagnóstico de cegueira total e irreversível de seu filho caçula de apenas cinco anos. Shaka estaria cego para sempre e ele teria que viver com essa realidade sem nada poder ser feito.
A segunda foi quando sua esposa deixou esse mundo.
Nilo sentia os joelhos tremerem e para não cair segurava-se firme ao portão.
A noite estava fria e silenciosa. Seus lamentos era tudo o que se ouvia.
Como um pai podia cometer tal ato de violência e rejeição a um filho? Ele se perguntava sentindo-se enojado.
Quão terrível era a dor que Mu deveria estar sentindo...
Nilo sentia a cabeça latejar quando depois de alguns minutos ali regressou à sala. Assim que entrou, Asmita e Mu de pronto perceberam os olhos inchados, a expressão castigada, o olhar benevolente direcionado aos dois garotos sentados lado a lado no sofá de couro puído. Ambos nada disseram. Então ele andou vagarosamente até eles, também calado, pois que naquele ponto palavra nenhuma mais era necessário ser dita.
Ele se ajoelhou diante dos dois garotos, com a dificuldade esperada para um homem de sua idade, e com carinho tomou a mão de cada um nas suas. Primeiro a de Shaka, e bastou esse único e singelo toque para que o pianista soubesse tudo o que se passava com o pai. Depois ele pegou a de Mu.
No estudante de cinema ele olhou nos olhos, e um amor e compaixão sem limites saltaram de seu olhar.
— Quando você entrou pela primeira vez por aquela porta, eu soube no momento que olhei para você que um dia iria ama-lo como um pai ama a um filho — disse Nilo com voz embargada. — Eu não estava enganado... Esse dia até chegou muito antes do que eu imaginava, filho... Você não está sozinho. Vai ficar tudo bem.
As lágrimas do patriarca daquela família pareciam cair direto no coração de cada um dentro daquela sala.
Juntos ficaram todos ali por aproximadamente quase uma hora sem que meia dúzia de palavras fossem ditas. Ao em vez de conversa, mais gestos de carinho, de apoio, de amor, até que a exaustão chegasse e acometesse Nilo o obrigando a despedir-se dos três filhos para recolher-se ao quarto.
Asmita fez o mesmo instantes depois.
A ausência de cortinas no quarto do pianista certamente não seria um problema para o estudante de cinema. Estava cansado demais para incomodar-se com a luz fria e mórbida que vinha da rua derramar-se em seu colchão caprichosamente arrumado no chão ao lado da cama de solteiro e se estendia numa faixa larga até o travesseiro do pianista.
Era tão estranho pensar que esse mesmo feixe de luz sempre estivera ali e que Shaka lhe era totalmente alheio.
Pensou se de agora em diante seria assim com Hakurei e Yuzuriha. Se iria existir num mundo onde seria totalmente ignorado pelos pais.
Deu um suspiro ruidoso seguido de um gemido baixo de dor.
Num movimento extremamente lento se pôs sentado e levou a mão às costelas apertando a região dolorida por cima do pijama que Asmita lhe emprestara para dormir; fez uma careta. Bem nessa hora Shaka entrou no quarto lhe trazendo o analgésico que fora buscar na cozinha.
— Obrigado — ele disse apanhando das mãos dele o copo com água junto do medicamento, depois deixou o copo sobre a escrivaninha.
— Tem certeza de que não quer ir a um hospital? — Shaka perguntou correndo a palma da mão sobre a cama calculando o espaço para poder se sentar junto de Mu, frente a frente, no colchão posto no chão.
— Tenho... estou acostumado a levar porrada — brincou referindo-se ao Rugby, às artes marciais que sempre praticara e também às brigas que arrumava aqui e acolá, mas logo voltou a ficar sério.
— Não do seu pai, né? — Shaka disse num tom melancólico.
Mu suspirou.
— Sim, inclusive do meu pai...
Shaka assustou-se. Não esperava por aquela resposta.
— Seu pai já te bateu assim antes?
— Não, assim não... Surras de cinta, vara de madeira ou qualquer outros objetos que pudessem provocar bastante dor foram comuns na minha infância e adolescência, mas nunca... — fez uma pausa quando percebeu a voz lhe falhar, depois emendou: — Mas nunca nada parecido com o que ele fez comigo hoje... nunca com tanto ódio e raiva... O meu pai não me deu uma surra hoje, ele me espancou.
Houve um momento de silêncio entre eles em que a dor que acometia cada um era inominável.
— Mu... — o pianista o chamou escorregando entre os lençóis para mais perto dele, até sentir joelhos se tocarem, então parou.
— Sim? — o estudante de cinema respondeu lhe tocando os cabelos loiros. Ajeitou carinhosamente uma mecha atrás da orelha e aproveitou-se do movimento para lhe acariciar as bochechas.
Embora não pudessem enxergar, seus olhos ainda obedeciam à suas aspirações. Assim ele os ergueu até a altura onde imaginou estarem os de Mu.
Errou por pouco. Prendendo-se num ângulo entre o nariz e a boca.
— Eu posso me deitar aqui com você?
— Por que está perguntando se pode? — Mu lhe acariciou ternamente o pescoço, perdido nas íris azuis que na penumbra lhe lembravam a cor exata do ponto em que o céu toca o oceano.
— Porque estou com medo de te machucar ainda mais. Deus! É tão angustiante não poder te ver e não poder cuidar de você como precisa.
Mu apertou os lábios.
— Vem cá — o chamou pegando sem sua mão, então pousou sobre seu próprio rosto — Pode me tocar. Suas mãos são delicadas, leves, e o seu toque jamais será capaz de me causar dor. Ao contrário, Shaka. Tudo o que eu mais quero nesse momento é sentir você, é poder fechar os olhos e através dos seus toques fingir que nada disso aconteceu.
O pianista não esperou nem mais um segundo para seguir em frente, dessa vez sem vacilar, sem deixar que a insegurança e o medo o impedissem de realizar seus desejos.
Com todo cuidado de que fora capaz, e com ambas as mãos, traçou as linhas das mandíbulas até o queixo de Mu com os dedos, depois subiu para os lábios, nariz, olhos e testa, recuando de forma abrupta e imediata sempre que sentia um inchaço, esfolado ou curativo. E eles eram muitos!
Não conseguiu evitar que de seus olhos lágrimas saltassem mudas conforme seguia com a inspeção, e cada gesto seu era atentamente acompanhado pelo estudante de cinema, que também chorava baixinho.
— Me desculpe... eu estraguei tudo — o estudante de cinema disse num lamento. — Eu só queria que pudesse sentir a flor da sua mãe com as suas mãos... eu não imaginei que ele pudesse estar lá.
— Você não estragou nada, Mu — Shaka disse levando as mãos os próprio rosto e enxugando as lágrimas. Teria que ser forte para não se entregar novamente ao desespero agora que tinha alguma noção do estado do namorado — Eu nunca vou esquecer a emoção que senti ao tocar o piano na sua casa para aquelas pessoas.
— Você tocou Dr. Dre para uma plateia de bacanas intelectualóides metidos à besta! — Mu riu também enxugando as lágrimas.
Shaka riu junto dele.
— Sim. E também nunca vou esquecer o quão forte o meu coração bateu quando resgatei uma lembrança da minha mãe que achava que tinha perdido para sempre... Vem cá.
Com cuidado, o pianista escorregou para o lado e chamou Mu para que se deitasse junto dele. O pedido fora acolhido na mesma hora, e como se sua vida dependesse disso o cineasta encaixou-se nos braços dele apoiando a cabeça em seu peito.
— Infelizmente a lembrança da reação do seu pai vai acompanhar a gente até o fim. Eu sei que nunca vai conseguir apaga-la, mas... eu te prometo que vou te dar muitas outras lembranças boas, Mu, e com elas você há de conseguir deixar essa esquecida bem lá no fundo do seu acervo de lembranças ruins... Nós vamos ser felizes, eu te prometo. Eu farei o possível e o impossível para fazê-lo feliz, meu amor.
Mu ficou em silêncio por um tempo. Ele pensava que se sentiria livre quando enfim contasse aos pais sobre sua sexualidade, mas a verdade é que naquele momento ele sentia-se miserável.
Tudo era ainda muito recente para se poder chegar a qualquer conclusão. Não estava bem certo se conseguiriam ser tão felizes quanto havia imaginado antes, mas sabia que sua insegurança e medo do futuro era proveniente da experiência traumática que acabara de passar. Não estava em pé de fazer planos para o futuro naquele momento, já que este lhe parecia completamente incerto e nublado, contudo, apesar de assustado e triste, no fundo ainda lhe restava um certo conforto e alento por estar passando por isso junto do homem que amava e não sozinho.
— Eu te amo, Shaka. — Foi tudo o que disse depois de um longo tempo.
Naquela noite eles dormiram abraçados no colchão e por algumas horas felizmente tiveram a chance de esquecer toda aquela dor.
*gíria para arma de fogo, geralmente uma pistola de mão, revolver, etc.
