Há muito o pianista havia perdido o medo da chuva.
A última vez que se lembrava de ter as mãos frias e a garganta seca devido aos sons assustadores de um temporal, aquele engole o mundo com seus roncos intermitentes e funestos zunidos sussurrantes que invadem a casa pelas frestas das janelas, ele ainda nem tinha conhecido o piano. Depois dele, a lamúria dos ventos ganhou cor, luz, forma e tom; então os rugidos do céu passaram a ser os arautos abespinhados que anunciavam a orquestra das águas, não lhe pondo mais nenhum medo.
Naquela manhã, porém, o temporal que se derramava sobre a cidade, enquanto fazia a viagem de metrô do Bronx até Manhattan junto do estudante de cinema, lhe pareceu assustador como nunca, e embora o tivesse driblado até que bem para alguém que andava pelas ruas dividindo o mesmo guarda-chuva com o namorado, a fúria das águas que despencavam do céu parecia ainda mais intensa ali, dentro do apartamento de Afrodite Wernbloom.
Ah, se fosse possível escapar das tempestades, evitar os temporais...
Não era.
Há os alertas, mas tudo que se pode fazer é correr e depois arcar com os estragos feitos. Nada mais.
Ainda em meio à tempestade que os seguira até ali, passando pelo hall, tomado o elevador junto deles e pairando agora no teto branquíssimo de gesso, o pianista e o estudante de cinema já arcavam com os primeiros estragos.
E a única coisa que podiam fazer para enfrentar a fúria dessa tormenta era torcer para que não se molhassem tanto.
Sentado no sofá grande de veludo ao lado de Mu, Shaka o ouvia bater as pontas dos dedos com força na tela do celular, o que denunciava sua irritação e nervosismo, enquanto de pé em frente a eles Afrodite roía a unhas aflito. Só tirou o dedo da boca quando viu Mu jogar o celular no acento vazio e dar uma bufada esfregando o rosto com cautela devido aos ferimentos, parecendo ainda mais irritado.
— E aí, Shion te passou a senha? — perguntou o estilista.
O estudante de cinema olhou para o lado, para o aparelho descartado, correndo os olhos ansiosos pela tela na expectativa de uma resposta.
— Não — disse ele — por algum motivo ele não quer me passar por mensagem.
— Ok, e você vai ficar trancado para fora feito um cachorro sarnento enxotado?
— Ele disse que está vindo pessoalmente abrir a porta — resmungou. — Mas que merda!
Afrodite olhou para ele, depois para Shaka que visivelmente nervoso chacoalhava uma das pernas incessantemente.
— Valha-me Deus! Eu sabia que o seu pai ia fazer um barraco quando soubesse que você é boneca, mas nem de longe imaginei que ele pudesse chegar a esse ponto... nem tão rápido! — disse Afrodite, que já estava a par de todo o ocorrido e agora, assustado e horrorizado, acompanhava seus desdobramentos.
— É, nem eu imaginei — disse Mu revivendo em sua mente a cena de minutos antes, quando chegou em casa e encontrou a porta trancada com um novo sistema eletrônico de segurança ativado por senha. Um recado claro, objetivo e cruel de Hakurei lhe dizendo que na noite passada não havia blefado. — Ainda me custa acreditar que isso esteja acontecendo... Parece um pesadelo.
— A vantagem do pesadelo é que a gente uma hora acorda e se livra dele, então tudo que resta é uma lembrança desagradável que aos poucos vai sendo esquecida — disse Shaka, em voz baixa e tom melancólico.
Mu olhou para ele e deu um suspiro.
— Quem dera a gente pudesse também acordar e esquecer — disse ele, e depois baixou a cabeça juntando as mãos sobre o colo. — Eu entendo que meu pai esteja furioso, compreendo até que ele queria levar adiante essa história de dizer que não sou mais filho dele, por puro orgulho e capricho, mas ele não pode fazer isso! Quer me tirar o apartamento? Quer me deixar só com a roupa do corpo? Ok. Mas ele não pode confiscar também os meus materiais de estudo e de trabalho, porra! E os meus documentos, objetos pessoais, roupas... Isso é ridículo e sem sentido!
— Sentido não tem mesmo, mas tem propósito. Aliás, um propósito que é a cara do senhor seu pai — disse Afrodite enérgico e visivelmente abalado. — Ele está te dando um recado, está te mostrando como é que a banda dele toca, e se você não tocar no mesmo ritmo você é paria... Em claras palavras, ele está te botando medo, te dizendo que não está para brincadeira, que é para te fazer desistir de comprar essa briga com ele.
— É, só que isso não é a porra de uma disputa de egos — disse Mu — É a minha vida! E eu não vou desistir dela.
Bem nessa hora o estrondo forte de um trovão os pegou desprevenidos causando um sobressalto geral. Afrodite e Mu olharam para a varanda quase que ao mesmo tempo. Do lado de fora a chuva se adensava, porém já era possível ver no céu, ainda que bem distante daquela região da cidade, alguns sinas de tempo aberto.
Ali do lado de dentro, no entanto, só a escuridão do céu fechado e sem previsão de tempos melhores.
Percebendo o nervosismo do pianista, o estudante de cinema lhe tomou a mão e cruzou seus dedos com os dele. Quem dera pudesse poupa-lo de enfrentar aquela tormenta...
Isso já não era mais uma escolha.
Os tempos ruins já tinham chegado e se instaurado sobre suas cabeças com toda a fúria do que fazia das tempestades um evento tão temido.
O que o estudante de cinema nem o pianista imaginavam, era que essa tormenta, alimentada de ventos tão ruins, em pouquíssimo tempo ganharia proporções de um furacão.
Após um instante curto de silêncio em que cada um ali refletia intimamente sobre aquela desagradável situação, o celular de Shaka tocou. Rapidamente ele o tirou do bolso da calça jeans e se levantou pedindo licença para atendê-lo. Fosse qualquer outra chamada ele certamente deixaria passar, mas o toque específico lhe avisava ser do restaurante onde trabalhava, e não podia negligenciar um emprego que agarrou com tanto afinco e dedicação, ainda mais naquela altura dos acontecimentos.
Mu rapidamente se levantou e cedendo o braço a ele o levou até a cozinha, bem ali perto; mesmo com a bengala ele não conhecia aquele espaço e o cineasta já estava mais do que habituado a repetir aquele gesto.
Mas a conversa no celular não durou nem bem um minuto completo.
Mu ainda regressava à sala quando viu Afrodite lhe sinalizar que o pianista também voltava, guiando-se pela bengala e com uma fisionomia atribulada no rosto.
O estudante de cinema deu meia volta e foi ao encontro dele.
— O que foi? Algum problema? — perguntou lhe cedendo o braço e o guiando de volta em segurança.
Shaka pensou um pouco, mas no fim não havia como esconder nada dele.
— Era do restaurante... Eles me demitiram — fez uma pausa esforçando-se para não parecer mais abalado do que realmente estava. — Disseram que nem é preciso que eu vá hoje porque já contrataram outro pianista... Não disseram nem o motivo.
Por um instante breve, nada além de uma fração de segundos, o estudante de cinema sentiu o chão escorrer como que por um funil e desaparecer debaixo de seus pés. O receio de cair naquele abismo sensorial o golpeou com tamanha força que seu corpo todo estremeceu o forçando a parar de andar, e ali, ancorado entre a sala e a cozinha, de braços dados com o pianista seu coração enchera-se de um medo genuíno.
— Não — murmurou ele, que tinha o rosto lívido e os olhos verdes arregalados cravados na face de Shaka. — Ele não... Não... Eu não posso acreditar que ele tenha chegado a esse ponto.
Uma forte rajada de vento escancarou uma das vidraças da varanda trazendo a fúria da chuva lá de fora para dentro da sala. Afrodite rapidamente correu até lá para fecha-la, enquanto ali Shaka era quem agora segurava Mu pelo braço.
— Ei, acalme-se. Não sabemos se o seu pai tem algo a ver com isso, Mu. Não me deram nenhum detalhe — pediu ele.
— Você não sabe, mas eu sei, Shaka — respondeu ele forçando-se para conter as lágrimas e a fúria dentro de si que só crescia. — Ele é amigo do dono, aquele capacho de merda... É claro que foi ele! Ele vai lá as vezes e deve ter visto você, mesmo que não tenha comentado nada comigo ou com minha mãe.
O pianista engoliu em seco, assustado com a proporção que tudo aquilo estava tomando, com o tamanho da tormenta que se formava sobre suas cabeças.
— Meninos, eu sei que é revoltante, e não duvido nada que tenha dedo podre do seu pai nessa demissão sim — disse Afrodite acercando-se deles enquanto enxugava com a barra da camiseta o rosto molhado pelos respingos da chuva — mas não se abalem com isso, porque é isso que ele quer. Ouviu, Mu?
— Como que eu não vou me abalar, Afrodite? — disse ele quase berrando. — Eu não tenho dúvida que foi ele, porque não pode ser coincidência. Aquele canalha pode tirar tudo de mim, pode me prejudicar o quanto ele quiser, mas eu não vou admitir que ele prejudique o Shaka.
— Eu sei, querido, e nem deve. Nunca disse que não deve lutar, pelo contrário... Infelizmente, para pessoas como nós, sobrevivência e liberdade é uma conquista diária — disse o estilista olhando nos olhos dele, como fazia quando queria resgata-lo da armadilha da irracionalidade e trazê-lo de volta par ao mundo da razão. — Mas não é de cabeça quente que você vai vencer essa batalha. Não pode entrar no jogo dele, alimentar a fera, entendeu?... Nós vamos arrumar outro emprego para você, Shaka. E um de preferência onde ele não tenha influência alguma.
— Sim, nós vamos dar um jeito. Hoje mesmo já vou começar a procurar — disse o pianista sentindo as batidas do coração cada vez mais aceleradas. Estava muito nervoso, estava com medo do que viria pela frente, mas também estava confiante em combater o que preciso fosse para estar ao lado de Mu e não atrás dele, sendo um peso morto.
Já Mu, além da revolta que lhe corroía agora tinha também que digerir a culpa. Culpa por não ter sabido lidar com a questão desde o princípio. Culpa por ter sido tão ingênuo e sonhador a ponto de subestimar o pai, de achar que ele de alguma forma o aceitaria e aceitaria o pianista. Culpa por Shaka receber o ódio e preconceito de Hakurei enquanto tudo que ele recebia de Nilo era amor e respeito.
A chuva caia barulhenta e incessante do lado de fora, mas ali dentro eles pareciam indiferentes a ela. Pouco se importavam com os raios que disparavam seus flashes na sala, com os trovões ou as rajadas de vento que faziam tremer as janelas.
A tempestade dentro deles, aquela que se instaurara em suas vidas sem promessa de misericórdia, essa sim, era terrivelmente assustadora.
Pouco depois de voltarem ao sofá e se sentarem, enquanto Afrodite gentilmente lhes servia um pouco de água e palavras de incentivo e conforto, o celular do estudante de cinema tocou. Era Shion o avisando que estava no apartamento e pedindo que descesse sozinho.
Certamente que tinha muito o que conversar a sós com o irmão, portanto Mu nem contestou o pedido, apenas desligou o celular, comunicou Afrodite e Shaka da solicitação e lhes pediu que o esperassem ali até que voltasse.
Quando tomou consciência de que Mu já havia saído, pois que ouvira o bater forte da porta, Shaka baixou cabeça e suspirou.
Ah, se fosse possível escapar das tempestades, evitar os temporais...
Não era.
O estudante de cinema nem esperou a porta do elevador abrir-se totalmente para saltar para o pequeno hall de seu apartamento. Na porta entreaberta, com suas belas feições delineadas por uma perceptível amofinação, Shion o aguardava com as mãos nos bolsos da calça de linho azul escuro.
— Você acredita que aquele desgraçado deu um jeito de demitirem o Shaka? — Mu esbravejou enquanto caminhava até ele. — Ligaram do restaurante agora para ele.
— Ei — fez o empresário tirando as mãos e as suspendendo no ar. — Abaixa o tom... e me dá o seu celular. Vou anotar a senha do segredo da tranca para você.
Mu sacudiu a cabeça como que para organizar os pensamentos amontados dentro dela, então apanhou o celular no bolso e deu a ele.
— Você não ouviu o que eu disse? O miserável do nosso pai fez o Shaka perder o emprego no restaurante. — Ele repetiu, ainda mais nervoso.
— Eu ouvi sim, Mu — disse Shion, e fez uma pausa enquanto anotava os números antes de devolver o celular ao irmão — e eu lamento muito que ele tenha chegado a esse ponto, mas não é hora de falarmos disso.
Mu respirou fundo sem desviar os olhos dele, porque tudo o que queria e precisa era justamente falar sobre aquilo, mas sua voz se calou quando Shion se aproximou e o abraçou com desconcertante afeto.
— Nossa, a sua cara está péssima! — disse ele ao se afastar instantes depois. — Mas o penteado novo realmente ficou bom.
Mu deu de ombros, meio sem graça.
— Um oferecimento do senhor Hakurei Bharani — disse ele irritado. — Tenho sorte de ter um cunhado com excelentes atributos para quebrar galho... Como você conseguiu a senha?
— Estou de olho no coroa desde ontem... dei maus pulos. Digamos que eu sei como a cabeça dele funciona... até pouco tempo atrás eu poderia dizer que somos iguais — suspirou.
— Obrigado — disse o estudante de cinema lhe tocando o ombro — pela senha, pela ajuda e por não ser igual a ele. Não sei o que faria sem você.
— Eu disse que quando a bomba estourasse eu ficaria do seu lado, não disse? Você só não pode perder a cabeça — falou Shion enquanto tocava algumas mechas do cabelo dele. — Como você está?
— Como você acha? — ele disse, e respirou fundo novamente. — Estou na merda, e muito puto! Digo, puto e surpreso porque não esperava uma atitude tão baixa e covarde do nosso pai... Usar o Shaka para me atingir? Ele acha mesmo que vai conseguir me dobrar me mostrando o pior dele?
— Como eu disse, é lamentável que as coisas tenham chegado a esse ponto... — Shion suspirou contemplando a face inconsolável, ferida e devastada do irmão mais novo. — Mas nós vamos dar um jeito, só que uma coisa de cada vez, ok? Agora você precisa entrar... há uma pessoa esperando por você na sala.
As sobrancelhas ralas sobre os olhos inchados do estudante de cinema se contraíram no centro da testa enquanto ele examinava a expressão ansiosa de Shion, depois apressado, muito mais por curiosidade do que por urgência, ele entrou no apartamento.
Por uma fração de segundos ele chegou a pensar que o próprio Hakurei estivesse ali, mas quando adentrou a sala e viu a figura elegante da mulher sentiu uma pontada de medo.
Ele sabia como queria enfrentar o pai, mas não tinha ainda erguido defesas contra a mãe.
De pé, e de costas para ele, a silhueta encoberta pelo grosso sobretudo marrom de gabardine, que ainda conservava na barra e nos ombros alguns respingos da chuva, caminhava por entre a mobília fazendo ecoar o toc toc toc dos saltos de seus sapatos contra o chão de mármore.
A chuva que castigava a cidade parecia também tê-la acompanhado até ali, para dentro da casa, e exatamente como fizera consigo e o pianista, agora esta se avolumava sobre ela causando em si um medo familiar.
Parado onde estava, sem conseguir esboçar qualquer reação, nem quando Shion lhe apertou o ombro para avisar que o deixaria a sós com ela e em seguida afundou-se para dentro do apartamento, o estudante de cinema a via prosseguir com o caminhar lento, enquanto agora com os dedos finos tocava a mobília, uma a uma, até certa hora se dirigir sem pressa até o grande vaso de dracena que ele arrastara para um dos cantos da sala. Ainda de costas ela tocou a folhagem verde escuro e depois arrancou algumas folhas secas, gesto que ele a viu repetir inúmeras vezes, quando vinha visita-lo. Ela adorava decorar sua casa com plantas exuberantes como aquela. As cultivava em seu jardim e quando estavam belas e fortes as colocava em vasos caríssimos, que lembravam obras de artes, e as dava de presente. Era essa a forma que ela encontrava de estar ali, presente, lhe fazendo companhia. E ela não lhe presenteava apenas com plantas. Tinham as esculturas, a mobília assinada por designs de renome, a tapeçaria vinda de algum país do Oriente Médio, Ásia ou da África. Peças belíssimas e caras, que por conta das necessidades especiais do namorado ele havia dado para os amigos ou simplesmente doado para instituições de caridade. Shaka já frequentava sua casa com bastante frequência e ele precisava evitar os acidentes corriqueiros. O pouco que ele tivera dó de se desfazer agora estava entulhado em um único canto a fim de deixar todo o caminho livre para que o pianista pudesse caminhar sem correr riscos.
Yuzuriha deu falta de cada peça ausente.
Agora ela olhava para essa pilha de entulho dispendioso sentindo uma pontinha de raiva de Deus; mas culpar a Deus, ou atribuir ao destino as frustrações da vida era uma emoção por demais cansativa, e ela já estava tão exausta...
Durante a noite, quando tentava ingenuamente pegar no sono, ela pensou que fracassara com Mu, e o sentimento de culpa causou nela um torpor tão grande que só conseguiu algum alívio depois de três ou quatro taças de champanhe junto da companhia do piano. Mas como o bom confidente que sempre lhe fora o piano disse a ela que nada poderia ter evitado aquilo, nenhuma escolha diferente, nenhuma lição aprendida ou educação mais rígida, nada.
Consumida ela fez calar a voz do piano. Como fizera anos atrás, quando aceitou se casar com Hakurei Bharani, pois que só assim era capaz de ouvir o que era preciso que ouvisse.
— Tanto tempo despendido... tanto amor devotado... — disse ela. O toc toc toc de seus sapatos contra o mármore nu do piso agora soava tão alto aos ouvidos de Mu que parecia abafar sua voz.
Mu deu um passo à frente, mas na mesma hora deteve-se.
— Mãe...
Yuzuriha virou-se para ele.
O baque de vê-lo ferido, com metade do cabelo raspado e vestido com roupas que claramente não eram dele a fez ter um sobressalto e deixar cair no chão os óculos escuros que segurava em uma das mãos; também a fez esquecer-se do discurso que havia ensaiado para dizer a ele, sobre o quanto se arrependia em tê-lo incentivado nas aulas de piano, na escolha da faculdade de cinema e em tudo o que fosse relacionado à arte, ao contrário da carreira que Hakurei sempre quis que ele seguisse para tomar a frente dos negócios da família. Talvez fosse melhor assim, já que todo ele era mentira.
— O que faz aqui? — Mu perguntou em voz baixa, pálido e trêmulo.
Explicitamente nervosa a mulher deu um passo à frente apertando as mãos uma contra a outra.
— O que você acha? Por Deus que está no céu, Mu! É muito pior do que eu imaginei.
— Mãe, por favor, não faça isso... — pediu ele.
— Olhe para você! Olhe para o que está fazendo da sua vida! — Ela disse alterada, quase engasgando-se, depois deu um giro em torno de si mesma apontando para cada modificação feita no apartamento. — Eu não te reconheço mais!
— Mãe...
— Veja! Olhe! — Apertou os olhos e depois piscou seguidas vezes. — Nem a sua casa é mais sua!... Não é possível que você não perceba toda a alteração que aquele... aquele garoto...
Mu a interrompeu.
— Shaka. O nome dele é Shaka, mãe.
Ela lançou-se para frente até ficar cara a cara com ele, poucos palmos de distância.
— Esse pianista vai ser a sua ruína! Só você não quer enxergar isso!
— Mãe... não fale sobre o que a senhora não sabe... — disse ele, e suspirou cansado apertando os lábios e fechando os olhos por um instante.
Tudo o que não precisava e tudo o que não desejava no momento era discutir com a mãe.
— Só me diga por que, Mu? Por que está fazendo isso consigo mesmo, filho? — Perguntou ela com os olhos cravados nos dele. — Me diga o que te falta e nós daremos um jeito. Eu darei um jeito!... Conheço terapeutas ótimos que...
— Para! — Ele a retrucou de imediato apontando o indicador da mão direita para o rosto dela. — Mãe, não! Esse discurso não!
— Não? — Ela quase gritou, e sua voz era tão trêmula quanto a camada fina de lágrima que revestia seus olhos azuis. — Pelo amor de Deus, Mu, será que não vê que você não está bem? Que esse não é o seu juízo normal?
— Eu estou no meu juízo normal sim senhora!
— Não, não está! Tanto não está que não consegue admitir que o que está fazendo, além de ser pecado não é natural, não é normal... Mas ainda dá tempo de voltar atrás, filho.
Ele precisou de toda a força que tinha para não rebatê-la como queria.
— Mãe, não há o que voltar atrás, por favor... não faça isso comigo e não faça isso com você.
— Há sim! Você não é esse que está na minha frente agora, jogando a vida e o futuro no lixo porque um garoto aproveitador e mentiroso fez a sua cabeça. — Ela disse, e com todo cuidado segurou firme o rosto ferido dele com ambas as mãos geladas. — Você é um menino brilhante, Mu. O meu menino brilhante, e eu não vou deixa-lo estragar a sua vida dessa maneira.
Mu levantou os braços e cobriu as mãos dela em seu rosto com as suas.
— Eu não estou jogando meu futuro no lixo, mãe, nem estou estragando a minha vida, ao contrário, eu finalmente a estou vivendo! A diferença é que escolhi vive-la como eu quero e não como vocês querem.
— Como você pode dizer isso? Seu pai e eu sempre deixamos você fazer o quis, viver como quis. Sim, houve um tempo em que ele cobrou de você uma posição que não condizia com sua essência, mas ele mesmo admitiu que deixa-lo seguir seu próprio caminho é que era o correto, porque ele ama você e...
— Ama? Mãe, por favor! Ele só me deixou escolher a carreira que eu quis porque ele sabia que era tudo ou nada, porque assim como eu sei bem o pai que tenho ele sabe bem o filho que tem. Ele sabia que eu escorregaria pelos dedos dele caso ele me proibisse de fazer cinema, assim como estou escorrendo agora.
— Você está sendo egoísta! — Ela respondeu na defensiva. — Só está pensando em você, e ainda está pensando errado... Filho, por favor, ponha a mão na consciência. Você não é nenhum ignorante desinformado. Essa... essa coisa de homossexualismo é uma fase, você é jovem e nessa idade surgem muitas dúvidas e curiosidades, mas isso passa... Depois, você namorou muitas garotas antes, e você gostava delas.
— Mãe...
— Namorou a Sophia! Sim! Você gostava tanto da Sophia, se davam tão bem... E mesmo que seja difícil agora, por causa daquele pianista, você vai conseguir, Mu. Eu ajudo você, filho.
— Mãe, por favor...
— Nós podemos fazer umas viagens juntos, só você e eu. Vamos para alguns daqueles lugares que você adora, Cairo, Jordânia, Tailândia... O que acha?
Àquela altura, o estudante de cinema já resignara-se a aceitar que ela talvez jamais entendesse seu lado. Desalentado ele balançou a cabeça em negativa e apertando as mãos dela que seguravam seu rosto as retirou, porém as manteve seguras nas suas.
— Eu não fugir para canto nenhum, mãe. Muito menos fugirei de mim mesmo ou das ameaças do meu pai.
Yuzuriha apertou os lábios tintos de rosa antigo e então não pôde mais conter a angustia represada em seu coração. Esta transbordou de seus olhos enquanto ela implorava:
— Pelo amor de Deus, Mu... Você se arrependerá no futuro. Pense em você, pense em mim, pense no seu pai... ele só está querendo o seu bem!
Diante do desespero da mãe, o estudante de cinema gentilmente a guiou até o sofá, onde sério e ainda de mãos dadas ele a encarou com firmeza:
— Mãe, não tente justificar as palavras e atitudes do meu pai com esse discurso ensaiado e clichê. Admita que muito antes de ele estar pensando no meu bem ele está mais preocupado é com o bem dele, com o nome dele, a reputação dele, que não aceita ter um filho gay por preconceito e vergonha... Nenhum de vocês dois sabe realmente o que é bom para mim, porque isso quem sabe sou eu.
Mu soltou as mãos dela, cansado e frustrado com o rumo da conversa.
— Eu nasci desse jeito. Eu sou gay, sempre fui. Aceitem que eu sou assim e então estarão de fato querendo no meu bem.
— Não! Não nasceu! Você... Você só esta confuso!
— Não faça isso — disse ele acariciando o rosto molhado dela. — Não entre em negação... Eu não estou confuso. Eu amo o Shaka, já estamos juntos a alguns meses, e mesmo que eu não estivesse com ele, seria com outro, porque eu saía com outros homens antes de conhecer ele... É assim que eu sou.
Por um instante Yuzuriha sentiu o ar estático em torno de si.
Por não mais que um curto instante a mente dela galgou por caminhos que nunca antes lhe dera permissão perscrutar.
Quando enfim ela conseguiu fazer com que o ar enchesse novamente seus pulmões, um sopro aflito escapou de sua boca e num sobressalto ela se levantou do sofá livrando do toque dele. Torcendo os dedos finos uns contra os outros seus pés caminharam alguns passos enquanto sua mente agora seguia em passadas largas pelos mesmos caminhos sombrios.
— Saía com... homens? — perguntou ela virando-se para ele. Em seu rosto pairava agora várias formas de medo, mas o pior deles era aquele que trazia consigo a sensação de cegueira. Não a mesma que acometia o pianista, mas uma ainda pior, aquela que a impediu de enxergar Mu, que agora ali diante de si era nada além de um completo estranho. — Desde quando?
Ele hesitou por um momento, mas era inútil procurar manter qualquer decoro em uma conversa como aquela, até porque julgava necessário aquele choque para fazê-la compreender de uma vez por todas que falava sério.
— Desde o começo da faculdade — disse ele por fim baixando os olhos — mas muito antes eu já sabia, muito antes eu já sentia atração por outros garotos, só não queria aceitar... — Ele levantou o rosto e voltou a olhar para ela. — Não pense a senhora que eu não briguei. Ah, eu briguei sim! Eu briguei muito comigo mesmo, tanto que namorei várias garotas tentando convencer a mim mesmo de que eu podia mudar... Mas não adianta, mãe. A senhora sabe que não adianta... A senhora abriu mão do seu sonho de ser pianista profissional, mas ele não morreu dentro de você. Está ai, dia após dia, feito uma voz sombria gritando no seu ouvido que ainda está vivo, enquanto tenta silencia-lo com champanhe e antidepressivos. Mas ele vai seguir gritando, mãe... e ele vai gritar, e a senhora vai ouvir os ecos dos seus gritos até o seu último suspiro, e eu não quero isso para mim.
As palavras dele mais uma vez fizeram endurecer o ar.
Não era como se tivesse matado o sonho de ser pianista para poder se casar e formar uma família. Mas Yuzuriha entendeu onde ele queria chegar, e quanto a isso ela não podia, nem tinha o direito de contesta-lo.
— Você está sendo leviano... Eu fiz uma escolha — disse ela.
— Não. Ele obrigou a senhora a fazer uma escolha — disse enérgico o estudante de cinema, agora também se levantando do sofá para ficar frente a frente com ela. — E ele pensa que pode fazer o mesmo comigo me tirando tudo, as chaves da minha casa, o meu carro, provavelmente a faculdade e os meus cartões também, mas ele não pode, porque eu já fiz a minha escolha... Eu escolhi a mim, mãe. Eu escolhi viver a minha vida, e eu escolhi vivê-la junto do Shaka... E se ele pensa que me deixando à mingua eu vou voltar atrás ele vai ter a maior decepção da vida dele.
Yuzuriha abraçou-se a si mesmo e respirou fundo fechando os olhos. Quando voltou a abri-los divisou o rosto transtornado de Mu parecendo enfim resignada.
— A maior decepção da vida dele ele já teve — disse ela em voz baixa e cautelosa. — Acho difícil você conseguir decepcioná-lo ainda mais.
Mu engoliu em seco.
Apesar de tudo, maior ainda que o medo da rejeição sempre fora o medo de desapontar os pais, de não ser para eles o que sempre foram para ele.
Mas para esse mal não havia mais remédio.
— E a senhora, mãe? Também sou sua maior decepção?
Yuzuriha o perscrutou por um momento silencioso.
— Talvez a minha maior decepção seja saber que você, um garoto tão talentoso e inteligente, está se deixando levar por um momento de fraqueza e se fechando à ajuda que eu estou te oferecendo.
— Por que a senhora não consegue aceitar que eu amo o Shaka?
— Ama? — Ela pareceu indignada. — Mu, por Deus, você tem vinte anos. Na sua idade qualquer envolvimento parece amor, é isso que estou tentando te fazer entender... Você é um garoto sensível, você é um artista! É natural que tenha se encantado por aquele pianista, afinal eu detesto ter de admitir, mas ele é um menino muito bonito, além de um talento nato como poucos eu já vi. Mas pelo amor de Deus, filho! Quando diz que escolheu viver a sua vida junto dele, essa vida ideal, ela não existe. É uma criação sua, Mu... Ou que tipo de vida perfeita e feliz você acha que vai ter ao lado de um garoto cego? E até quando acha vai conseguir viver sem a nossa participação? Seja realista, você precisa de nós.
Agora era ele quem olhava para ela com um véu trêmulo de lágrimas a cobrir-lhe os olhos.
— É eu preciso sim — disse num tom melancólico. — Eu preciso muito de vocês, mãe. Mas não são das coisas que podem me dar que eu preciso. Não é do conforto, do dinheiro, das viagens... mas do amor... do acolhimento...
Yuzuriha o interrompeu.
— Ora, Mu Bharani, não seja hipócrita, tampouco ingrato! — disse ela num tom de voz bem mais elevado. — Agora vai desdenhar de tudo o que sempre usufruiu de bom grado só para nos afrontar?
— São vocês que estão me afrontando, mãe. Será que não percebe? — Ele também elevou a voz num tom bem mais alto que o dela. — Eu nunca quis que as coisas chegassem a esse ponto. Se menti foi justamente por medo desse enfrentamento... Infelizmente a postura de vocês só me mostra que eu estava certo em teme-los, porque vocês estão dispostos a me dar tudo, desde que eu abra mão de mim mesmo. Me darão o mundo se preciso for, menos aquilo que eu mais preciso, que é aceitação, respeito por quem eu sou e por quem eu amo... isso eu descobri da pior maneira que nunca terei de vocês... então só me resta seguir em frente sozinho.
Ela agora olhava para ele calada e absorta. Sem que tivesse qualquer controle sua mente deu um salto para o passado, a levando para um domingo qualquer de manhã, onde sentados no banco da igreja do bairro de Carnegie Hill lado a lado eles aguardavam ansiosos o momento do organista iniciar o hino que ditava a marcha do ritual das oferendas. Então com todo orgulho ela o tomava pela mão pequenina e juntos eles iam depositar o ofertório no cesto que os recolhia.
Ela ficou se perguntando o porquê daquela lembrança, a princípio aleatória, depois entendeu que queria que Mu se lembrasse quando adulto do significado contido naquele gesto, da doação, da caridade, da humanidade; mas ali, agora, parecia que ela é quem se esquecera.
Em outro flashback involuntário sua mente a levou para o clube de Polo no dia de uns dos eventos beneficentes que ela organizava com vaidade e primor para provar a si mesma que não era uma mulher fútil. Não queria ser essa mulher. Mas ela era, porque tudo o que pensava agora era no que seus amigos da alta sociedade, seus parceiros e colaboradores e o resto da família ia pensar dela quando soubessem que tinha um filho gay. Sentiu vergonha, por si mesma, por Hakurei e também por Mu, principalmente por Mu, mas também sentiu medo. O mundo há muito não era um lugar seguro para todas as formas de amor e de liberdades, e seria ela mais um dos tantos monstros a habitarem esse mundo perigoso e horrível caso adotasse qualquer outra postura senão amar e apoiar o próprio filho.
Mas ela não era capaz.
Era certo que não faltava a ela amor, mas sim força interior. Força para querer entender Mu. Força para enfrentar a fúria de Hakurei. Força para aceitar que nada seria como tinha planejado. Mu não se casaria com uma boa mulher, não lhe daria netos, não teria uma carreira brilhante no cinema, mas seguiria pelo caminho obscuro das incertezas.
Consumida ela respirou fundo, e sentindo uma leve vertigem quando sua mente enfim regressou ao tempo atual, caminhou lento de volta para o sofá onde se sentou.
— Venha aqui — disse ela olhando para Mu. — Sente-se aqui.
O estudante de cinema obedeceu.
Por um instante os dois apenas se olharam calados.
— Você não está sozinho — disse ela, depois tomou a mão dele e emendou: — Você é meu filho, Mu. Isso nunca vai mudar... Eu não aprovo suas escolhas e não concordo com o que está fazendo, mas eu não quero perde-lo... É meu dever puxa-lo de volta à realidade sempre que começar a flutuar por essas fantasias ideias que você cria aí, dentro dessa sua cabeça sonhadora. Esse mundo que você escolheu viver, ele é perigoso.
— Eu não escolhi ser gay, mãe. Entenda isso.
— Tudo bem, você não escolheu — disse ela com um suspiro de cansaço e frustração. — Mas, me responda com sinceridade, sem enfrentamento. Como acha que vai viver sem a ajuda do seu pai? Como você acha que vai ser a sua vida junto de um garoto inválido? Tendo que cuidar dele e...
Mu a interrompeu.
— Mãe, o Shaka não é inválido. E como eu ele também viveu anos sendo privado de tudo o que ele ama e agora briga para conquistar a liberdade dele. Você o conhece tão pouco... se o conhecesse melhor eu sei que...
Agora ela o interrompia.
— Não quero conhece-lo melhor, Mu, não agora... Entenda, vocês dois me enganaram. Eu abri meu coração, eu abri as portas da minha casa para esse garoto, eu cedi a ele o meu piano e ele o tempo todo mentindo para mim.
O estudante de cinema a fitou por um instante, arqueando os ombros encabulado.
— Ele só mentiu porque eu pedi a ele para mentir.
Yuzuriha bufou em desaprovação, mas não podia ao todo condena-lo por aquela escolha falha. Agora ela infelizmente sabia que ele tinha toda a razão do mundo para temer dizer a verdade a Hakurei.
— Você errou, e continua errando — disse ela, então cerrou os olhos e suspirou longamente. Estava determinada a não entrar novamente naquele ciclo sem fim de discussões; naquele momento já se dera conta de que não os levaria a lugar nenhum. — Mas eu tenho fé em Deus que logo, o mais breve possível, você há de conseguir enxergar o seu erro, Mu. Até lá, quero deixar uma coisa às claras. Eu não apoio essa sua relação com o pianista. Aos olhos de Deus o que estão fazendo é um pecado terrível.
Mu olhava para ela enquanto em seu peito crescia uma sufocante sensação de vazio e desalento. Sobre sua cabeça as nuvens da tormenta que se anunciava se agrupavam, tornando o céu de seus dias futuros cada vez mais escuro.
— Amar outro homem é um pecado mais terrível que um pai renegar o próprio filho depois de tentar espanca-lo até a morte por ele ser gay? — disse ele sem hesitar.
Yuzuriha ergueu o queixo e comprimiu os lábios.
— Não me enfrente, Mu Bharani — disse firme ela — Eu estou aqui passando por cima de tudo o que eu creio, passando por cima dos meus princípios e da minha moral para estender a mão a você, que independentemente de qualquer coisa é meu filho, e por isso não vou deixa-lo totalmente desamparado. Essa sua postura é leviana e passional, e eu rogo a Deus para que ao menos de alguma forma tudo isso no fim te sirva de aprendizado... Vocês são dois jovens despreparados para o mundo, e aquele garoto nem estudo tem. Não há nada que ele possa te oferecer para te dar segurança, e um dia você vai perceber isso. Então que sirva de lição para que aprenda a valorizar a família que agora você está dando as costas.
Mu sorriu melancólico fitando os olhos dela.
— São vocês que estão me dando as costas, mãe — disse ele. — E se é a forma como vamos nos sustentar que te preocupa tanto, saiba que faremos como a maioria das pessoas nesse mundo desgraçado e injusto fazem. Nós vamos trabalhar. Para mim, que sempre fui um playboy boa vida e tive todos os privilégios possíveis, vai ser tão difícil me adaptar quanto é para o Shaka viver numa sociedade excludente, mas é me espelhando nele, na coragem e resiliência dele, que eu vou conseguir... Não vou ser hipócrita. Vou sentir falta do luxo, do conforto e dos privilégios sim. E como vou! Mas se preciso abrir mão deles para viver em paz comigo mesmo eu abro sem pestanejar. E se o meu pai acha que não sou homem, que não sou digno de herdar o que é dele porque sou gay, então que seja assim. Ele segue a vida dele e eu a minha.
Ouvir tais palavras provocou nela o mesmo efeito de ser derrubada pelas costas e afundar-se no chão sem conseguir levantar.
Com a ponta do indicador ela apressou-se a conter uma lágrima que se desprendia furtiva de um dos olhos.
— Está certo, Mu... Se é assim que você quer, que seja assim então. — disse ela. — E para onde você vai? Para a casa do pianista? — perguntou visivelmente aflita.
— Eu não sei... Ainda não pensei nisso. — Mu esfregou o rosto nervoso inclinando a cabeça e fazendo cair alguns fios de seu cabelo lilás sobre a testa. — Tudo aconteceu muito rápido... Até hoje pela manhã eu ainda tinha uma casa, carro, cartões... Pelo jeito foi tudo embora — ele deu de ombros.
Yuzuriha também baixou a cabeça por um instante, evidentemente triste e preocupada, mas pouco depois soltou a mão dele e apanhou a bolsa Louis Vuitton que havia deixado sobre o acento ao lado. Sob o olhar curioso do estudante de cinema ela retirou dali um envelope pardo com um volume relativamente grande dentro.
Sufocando todo o desapontamento que a corroía por dentro ela limpou a garganta e estendeu o envelope a ele.
— Pegue — disse ela. — Provavelmente, e exatamente como você, eu também deva estar cometendo um terrível erro. Mas não há a mínima possibilidade de ser diferente. Não para mim.
— O que é isso? Dinheiro? — Mu arqueou as sobrancelhas ralas, espantado.
— Não é muito.
— Mãe eu não...
— Cale-se e pegue esse envelope, Mu — ordenou ela. — Esse dinheiro é meu. O seu pai nem sabe que estou aqui. Ele proibiu a mim e ao Shion de interferir nas ações dele, então isso é tudo o que eu consegui tirar do cofre sem que ele pudesse dar falta. É uma quantia suficiente para que se mantenha por alguns meses.
Mu ainda olhava para o envelope na mão dela, com bastante relutância em aceitar. A verdade era que realmente precisava daquele dinheiro, mesmo seu orgulho berrando dentro si para dizer que não. Não podia ficar às custas de Shaka, Nilo e Asmita até que conseguisse um emprego e um lugar para morar. Por outro lado, ele sabia o quanto aquele gesto de Yuzuriha significava para ela.
Passando por cima do orgulho ele estendeu a mão segurou o envelope, mas ela não o soltou de imediato, passando ambos a segura-lo.
— Por que está me ajudando? — Mu perguntou.
— Porque sou mãe. E porque ao menos esta noite eu quero poder dormir sem precisar do champanhe e dos remédios — disse ela. — Você me magoou muito, mas muito pior é saber que está desamparado e não fazer nada. Mas eu não estou passando a mão na sua cabeça, Mu. Que isso fique bem claro. Não concordo com o radicalismo do Hakurei, e também não posso impedir que ele cumpra todas as ameaças que fez, mas ele está agindo dentro da razão dele... ainda que tenha perdido a cabeça — ela suspirou chorando baixinho. — Hakurei é um homem rude, duro, mas não é isento de emoções. Sei que não acredita, mas ele ama você. Ama tanto que a decepção o está consumindo.
— Não, mãe. O que o está consumindo é o preconceito, a raiva, a vaidade... Ele não aceita ter um filho gay porque ele não quer ser alvo de chacota, porque é isso que acontece, infelizmente.
— Se você sabe que é isso que acontece, por que então insiste com isso? Por que se sujeitar a isso?
— Porque isso é um defeito do mundo, mãe, da sociedade doente que a gente vive, não meu.
Yuzuriha levou a outra mão à fronte e apertou forte a região com os dedos. Sua cabeça doía como nunca.
— O seu pai... ele... ele passou a madrugada inteira bebendo, trancado no escritório.
— E eu passei fazendo curativos. Lamento muito, mas foi ele quem escolheu estar assim.
— Você sabe que ele sempre reage mal a tudo que foge do controle dele. Ele está desesperado e irracional... Ele acha que se tirar tudo de você ele vai conseguir fazê-lo enxergar seu erro e voltar para nós — disse ela soltando o envelope.
— Quem está errado é ele, mãe — disse Mu exausto daquilo. Com um gesto sutil levantou o moletom que vestia e prendeu o envelope entre a cintura e o cós da calça jeans. — Eu espero que um dia a senhora também consiga enxergar isso... Até lá, obrigado pela ajuda. Será muito útil.
Por mais que Yuzuriha lhe tenha negado a tão almejada aceitação e o apoio à sua relação com o pianista, Mu não podia deixar de considerar a coragem dela. Ela, que sempre fora uma mulher submissa e obediente, agora estava ali, passando por cima da autoridade do marido.
Ele chegou a sentir orgulho dela e pensar que talvez nem tudo estivesse perdido.
Quando menos esperava ela se aproximou e o puxou para um abraço forte que durou longos minutos. Ele correspondeu com a mesma ânsia e fervor do devoto que se agarra à esperança da graça pedida.
E como ele estava carente daquele abraço, daquele colo...
— Eu amo você, filho... Lamento tanto que tenha que ser assim.
— Eu também lamento, mãe.
Eles ficaram assim por um tempo, confortando um ao outro da melhor maneira que encontraram, até que ela enfim se levantou e com a elegância intrínseca a seu ser anunciou sua partida.
Yuzuriha não esperou por Shion, sequer o avisou que iria embora. Aprumou o sobretudo de gabardine no corpo para proteger-se da chuva até a corrida ao taxi que chamara pelo aplicativo, despediu-se de Mu na porta e tomou o elevador pensando que talvez fosse a última vez que repetia aquela ação ali, naquele edifício.
Esse pensamento a fez entrar no carro, que já a esperava encostado na guia, e derramar-se em lágrimas até boa parte do caminho de volta para casa.
No apartamento, Mu encontrou Shion em seu quarto estirado na cama enquanto assistia a um dos curtas que dirigiu para projetos da faculdade. Ele deduziu que o irmão não tivesse ouvido nada da conversa com Yuzuriha, por isso contou alguns dos pontos que considerou mais relevantes, como a inflexibilidade de Hakurei assegurada por ela, sua não aceitação ao fato de ser gay, a desaprovação ao seu relacionamento com o pianista e a doação do dinheiro.
O executivo já esperava pelos três primeiros; o dinheiro fora surpresa para ele também.
— Bom, o importante é que eu consegui algum tempo para você. — Shion disse sério.
— Tempo? — Mu perguntou curioso.
— Sim. Hakurei está firme na decisão dele. Inclusive me ameaçou caso eu interferisse de alguma forma.
— A mãe me disse.
— Pois é, tanto ela quanto eu estamos de mãos atadas, mas você viu que nós damos nossos pulos — brincou. — Bom, você tem a senha da fechadura. Eu subornei o porteiro e ele garantiu que vai fazer vista grossa quanto à sua estadia aqui. Isso te dá uns três ou quatro dias para encaixotar suas coisas, organizar sua cabeça e arranjarmos um lugar para você ficar.
Mu deu um suspiro cansado e se sentou do lado do irmão na cama, encostando a cabeça nos ombros largos dele.
— Obrigado.
— Não me agradeça. Sou um covarde... Se fosse um pouco mais como você as ameaças dele não teriam tanto efeito sobre mim — disse ele parecendo triste.
— Ainda assim você está aqui, roubando senha e subornando funcionários para me ajudar — disse o estudante de cinema, e então o divisou bem sério: — Não sei se reparou, mas agora você é a única família que me restou. Mesmo tendo vindo aqui e me dado dinheiro, nem a mãe ficou do meu lado.
Shion não falou nada por um longo tempo, até que passou um braço ao redor das costas de Mu e o trouxe para junto de si.
— Tudo vai se ajeitar, Mu. Eu nunca vou deixar meu irmãozinho sozinho. Nenhuma tempestade dura para sempre!
