Título: Aquela história
Filme/HQ: Old Guard
Casal: Nicky/Joe (óbvio)
Disclaimer: Esses homens lindos e maravilhoso não me pertencem e a história não tem fins lucrativos.

Nicky havia acabado de limpar a espada com a cruz entalhada no punho que carregava religiosamente em cada missão, deixou o corpo relaxar na cadeira e a cabeça pender para trás.
O pano com óleo jogado sobre a mesa de madeira de uma de suas casas, Joe estava em outro cômodo, contando munições, Andy saíra para comprar comida e Nile estava se adaptando à rotina, então andava pela casa procurando o que fazer.
-Nile, por Deus, a missão acabou, pode sossegar um pouco? –Perguntou Nicky se esquecendo de como era chegar de uma batalha e ter que esperar várias horas para a adrenalina diminuir.
-Eu não sei como vocês conseguem ficar tão quietos! –Ela procurou nos armários por um chá e sentou-se em frente ao outro bufando quando não encontrou. –Por que você não me conta uma história?
-Uma história? –Nicky levantou uma das sobrancelhas e ajeitou o corpo na cadeira.
-Sim! Vocês devem ter milhares. –Os olhos da novata brilharam e ela cruzou as mãos sobre a mesa.
-Bem e que tipo de história você quer ouvir?
-Conte-me algo sobre e o Joe. Vocês sempre estiveram juntos? –Nicky riu e pareceu vasculhar a memória em séculos.
-Sim, desde que descobrimos que podíamos fazer muito mais de só nos matar interminavelmente... –Joe adentrou a cozinha e disse sorrindo de lado, Nicky deu um tapa em sua coxa, o impedindo de continuar.
-Essa história eu já ouvi Joe. –Retrucou Nile revirando os olhos.
-Amore mio, posso contar aquela história?
-No. Você sempre fica triste quando menciona essa história. –Joe ficou em pé do lado de Nicky, e o italiano encostou a cabeça em seu abdômen.
-Sim, mas Nile precisará ouvir mais cedo ou mais tarde, per favore. –Joe suspirou beijou o topo da cabeça do amado e voltou para o cômodo em que estava.
-Bom Nile, primeiro você precisa entender onde estávamos quando tudo começou.

"Bom, o ano era 1914, entre maio ou junho, nós acompanhávamos as tensões entre os países europeus de Londres. Joe queria sair dali para qualquer lugar, Marrocos ou Brasil. Eu acreditava que se estivéssemos por perto, saberíamos quem matar para que a guerra que nos ameaçava terminasse mais rápido e Andy concordava comigo, muito embora ele dissesse que só ficaria pelo dinheiro e pelos trabalhos que poderiam surgir, mas eu sabia que assim como eu, ela desejava fazer bem para o mundo.
Você precisa saber Nile, que naquela época os homens eram muito burros. Nile riu com deboche, como quem diz ainda são.
-It will be all over before Christmas. –Era o que eles diziam quando foi declarado a guerra e no entanto durou 4 anos.
Nile assentiu, já tinha ouvido sobre a primeira guerra mundial nas aulas de histórias e estava fascinada por conversar com alguém que realmente esteve lá, mas estava um pouco preocupada sobre a tristeza que causaria no companheiro.
Julho de 1914 foi um dos meses mais longos dos meus quase mil anos, as tensões aumentavam, os conservadores clamavam por guerra enquanto uns poucos pacificadores pediam calma.
No final do mês de julho, a Alemanha tentou executar o plano Schlieffen, que consistia em vencer rapidamente as frentes ocidentais da França e Inglaterra e posteriormente as tropas russas."

-Nicky, você está me dando uma aula de história? –Nile reclamou e a risada de Joe ecoo pela casa pequena.
-Vocês jovens são tão impacientes. –Nicky revirou os olhos e respirou fundo antes de continuar a história.

"Você precisa entender também que em 1914 a sociedade era extremamente paternalista e machista, então Andy continuou em Londres enquanto eu e Joe nos infiltramos no exército inglês, assim chegaríamos mais perto dos alemães, Booker estava infiltrado como diplomata também em Londres."

-Se vocês eram em quatro porque simplesmente não se espalharam? Podiam muito bem ter manipulado a Rússia, Alemanha, Inglaterra e França ao mesmo tempo.
-Não é tão simples assim criança. –Disse Andy adentrando a cozinha e colocando duas sacolas de papel sobre a mesa. –Estamos contando aquela história?
Nicky assentiu e Andy assumiu a narrativa enquanto desempacotava as compras.

"Além de burros, os conservadores são extremamente teimosos, parece um absurdo dizer hoje que alguém pedia por guerra mas esse era o cenário em 1914. Não havia como nos espalharmos pelo simples fato de que a comunicação não era fácil como é hoje.
Você deve imaginar que não havia internet ou telefone e que países em guerra não trocavam correspondências, ficar no Reino Unido com Joe e Nicky no front e Booker com os diplomatas foi a melhor decisão que poderíamos ter tomado."

-E como Joe e Nicky se separaram? –Perguntou Nile ansiosa, enquanto Nicky colocava água em uma panela.
-Batalha do Marne, 10 de setembro de 1914. –Joe e Nicky falaram em uníssono, o árabe cruzou os braços e franziu o cenho, encostando o corpo no batente da porta.
-A culpa foi minha. –Disse Nicky, olhando para o chão com tristeza.
-Não, não vou deixar que se culpe habibata*.
-Cresçam vocês dois, já fazem cem anos. Era a porra da primeira guerra mundial. Era o próprio caos.
Nicolo colocou uma panela com macarrão trazido pela chefe e voltou a se sentar, Andy também tinha puxado uma cadeira e Joe continuava encostado no batente, após alguns segundos de silêncio absoluto e de ansiedade de Nile, Nicky limpou a garganta e continuou.

"Eu era Nicholas William, o filho mais velho de um casal de camponeses ingleses, Joe era Joseph Harris, ele havia deixado a esposa e um filho pequeno na casa dos sogros. Nós falsificamos nossos documentos do exército britânico para que parecêssemos bem treinados, e assim nos enviaram para a Força Expedicionária Britânica, para impedir a cidade de Paris de ser tomada pelos alemães. Quando chegamos na França a capital estava sendo invadida, pessoas deixavam suas casas às pressas levando o que podiam, haviam corpos pelas ruas e os sons da batalha ecoavam. Nosso plano era passar para as linhas inimigas e causar o maior número de baixas possíveis."

-Você precisava ver os olhares apavorados dos generais quando percebiam que não podiam nos matar, um oficial superior detesta ser contrariado, pode imaginar a confusão? –Andy riu e Nile a olhou com estranhamento, os poucos generais que conhecia pareciam ser homens bons.
-Por favor, deixe que eu conto essa parte. –Pediu Joe desencostando do batente da porta e coçando a barba comprida.

"Nós dois éramos cabos, e eu tentava manter os olhos nele em cada movimento, mas em certo ponto nossas esquadras se separaram.
Nicky jura que avançou demais e isso deixou sua esquadra vulnerável à uma granada, mas eu estava do outro lado da rua e vi o que aconteceu, um maldito alemão suicida deixou seu grupamento e se aproximou o suficiente para jogar a porcaria de uma kugelhandgranate sendo morto logo em seguida.
Nicky não teve nem ao menos um segundo para reagir, e eu tive que assisti-lo explodir pelos ares."

-Scusa amore mio... eu nunca quis tê-lo deixado. –Nicolo colocou abaixou o fogo e voltou junto dos outros passando os nós dos dedos no rosto do amado que o olhou com cumplicidade.
Nile achava incrível a maneira como eles ficavam longos minutos em silêncio, falando por toque e olhares, era como se um compreendesse o outro tão plenamente que as palavras pareciam mera formalidade.
Joe fechou os olhos e suspirou, Nicky fixou os olhos azul céu nos seus cílios longos e negros, a mão descendo agora para acariciar o ombro do amado que ficava amostra pela regata preta que usava.

"Por um momento eu esqueci completamente que estávamos na porra da primeira guerra mundial e gritei o nome dele com todos meus pulmões. Meus soldados obviamente me seguraram e não me deixaram ir até ele.
Eu não sabia se ele voltaria a vida, se fosse um tiro de canhão que atravessasse seu corpo tudo bem mas merda, ele tinha se desfeito em vários pedaços.
Depois disso tudo ficou confuso pra mim também, minha esquadra foi emboscada e meus soldados mortos, eu fui capturado e levado pelos alemães.
Por dias antes que conseguisse um soldado burro o bastante para que pudesse fugir, eu fui torturado, não só fisicamente, mas mais me torturava a dúvida se Nicky estava ou não vivo.
Assim que escapei consegui levar comigo umas boas dezenas de alemães, eles ficaram tão apavorados e desestabilizados com as baixas que as ordens se desencontraram e à alguns metros de tomar Paris, as tropas alemães perderam a batalha."

-Espera um pouco. Está dizendo que os alemães perderam a primeira batalha do Marne por sua causa? –Os olhos de Nile brilharam em admiração e Joe apenas assentiu com a cabeça, como se ela estivesse afirmando a coisa mais óbvia da história.
-Booker conhecia a estratégia que os alemães usavam para tomar Paris, Joe e Nicky sabiam quem matar para desestabilizá-los. -Andy encheu um copo com uísque de uma garrafa muito velha e empoeirada e voltou a sentar-se à mesa.

-E como vocês sabiam em que lado lutar? Quero dizer, quem estava certo? Os alemães ou os ingleses? –Joe e Nicky se entreolharam e depois olharam para Andy, sabiam que a chefe gostaria de responder essa pergunta, mesmo que ela saboreasse o uísque sem pressa.
-Nile, na guerra não existe certo ou errado. O que existem são homens idiotas que mandam um monte de jovens burros lutar por eles. Na guerra todos estão errados e no entanto, eles não tem culpa.
-Mas quando eu fui para o Iraque... –Andy fez um sinal para que ela não continuasse e olhou com seus olhos azuis tão ameaçadoras que a jovem se deteve.

-Andy só está querendo dizer que não importa como, tentamos fazer com que acabasse o mais rápido possível, para poupar o maior número de vidas. –Nicky sentou-se novamente e cruzou os braços sobre o peito forte.
-Sim, mas não fazemos mais isso. –Andy retrucou e Nicky revirou os olhos. –Interferir nas guerras, os malditos que se danem.
-Mas nós ajudamos os civis. –Joe disse em tom conciliador e Nicky o olhou com afeto.
Joseph só lutava para salvar vidas pois sabia que esse era o propósito do seu amado, presenciar a compaixão e a bondade de Nicky era algo que ninguém faria sem se influenciar, e embora o muçulmano não soubesse, o italiano só encontrava forças para ajudar os outros pois tinha o amado o apoiando.
-Continuando, -Joe limpou a garganta e se encostou novamente no batente da porta.

"Quando juntei-me novamente à BEF fui realocado junto com outros sobreviventes e marchamos novamente. Não tive notícias de Andy até a trégua de Natal quando uma carta chegou até as trincheiras, nela contava que ambos os lados tinham plena convicção que a guerra logo chegaria ao fim, mas não estavam dispostos a ceder, e nenhum dos dois tinha poderio suficiente para vencer como acreditavam.
Enquanto os homens festejavam e trocavam alimentos, bebida e cigarros na terra de ninguém eu só pensava em Nicky.
Há centenas de anos eu tinha seu corpo para me aquecer à noite e nas noites frias nas trincheiras imundas era onde eu mais sentia sua falta. Ás vezes eu ouvia um som de uma risada ou um assobio que acreditava ser o seu, por vezes até segurei alguns soldados com os rostos pretos de pólvora e lama pelos ombros e buscava em seus olhos o azul do céu, mas nunca o encontrava.
Só fui reencontrá-lo na primavera de 1918, quando a guerra já se aproxima do fim."

-Vocês ficaram quatro anos sem saber se o outro estava vivo? –Nile perguntou e Joe assentiu, a seguir ela olhou para Nicky que entendeu a pergunta sobre o que ele havia feito em quatro anos, decidiu então continuar a narrativa.

"Eu nunca havia morrido de uma forma tão violenta, e depois disso também nunca morri de maneira parecida. Dio mio, foi muito doloroso, senti meu corpo separar em centenas de pedaços e não é porque não morremos que não sentimos a dor.
Eu não sei quanto tempo demorei para voltar mas acredito que foram dias pois as tropas já haviam deixado o centro de Paris.
Quando acordei eu não lembrava de nada, nem do meu nome, nem quem eu era ou onde estava, eu fui encaixando as peças a medida que olhava em volta, sangue por todo lado, corpos em decomposição, uniformes.
Procurei nos bolsos por documentos e encontrei as cartas de recomendação de um 23º Batalhão de Infantaria em nome de cabo Nicholas William, filho de Mary e George William, com endereço de uma periferia de Londres."

-Você já tentou se lembrar de algo que aconteceu há muito tempo Nile? –Nicky a olhou franzindo o cenho e apertando os olhos azuis que adquiriam um brilho acinzentado. -Como seu primeiro beijo, a primeira vez que foi ao cinema.
Nile continuou olhando-o confusa, Joe descruzou os braços e colocou uma mão sobre o ombro do amado o confortando.
-Tente se lembrar dos detalhes, qual roupa você usava, como estava o clima, o que você comeu, quais trailers passaram antes do filme... você não é capaz de lembrar. Mas seu cérebro preencherá essas lacunas, você responderá a cada pergunta dessas, mas nem todas serão verdade. É só o seu cérebro tentando preencher os espaços vazios da sua memória.
-O que está querendo dizer? Que quando se vive tempo demais as lembranças são falsas? –Perguntou a jovem e Andy respondeu servindo outro copo de uísque para si e um para Nicky.
-Isso também, mas o que Nicky quer dizer é que ele perdeu a memória e a preencheu com detalhes da sua estória cobertura.
-Eu podia ver os rostos dos meus pais, a vaca leiteira no celeiro, a horta de rabanetes de minha mãe e as ferramentas do meu pai. Podia ver as roupas que eu usava antes do uniforme, lembrava dos treinamentos no batalhão e de todos os 22 anos de Nicholas William.
-Eu pensei que pudéssemos nos curar de tudo... –Disse Nile perplexa.
-E podemos criança, o que houve com Nicky em 1914 foi um mistério que não foi compreendido e não se repetiu.
-E sinceramente se para saber eu precise voltar para um laboratório, eu prefiro não saber. –Concluiu Nicky antes de ir para cozinha picar alguns tomates.
-Eu tenho algumas dezenas de momentos que guardo na memória de quando coloquei os olhos em Nicky, seus olhos flamejando em fúria nas cruzadas, seu espanto no nosso primeiro beijo, seu brilho convidativo em Malta... –Andy pigarreou e Joe balançou a cabeça sorrindo, afastando as lembranças boas. –Uma delas é quando o vi nas trincheiras, após quatro anos.

"O dia estava chuvoso e as trincheiras lamacentas, os homens resmungavam e não tinham a menor vontade de combater. No entanto chegou uma companhia chegou trazendo soldados remanescentes de diversas frentes.
Há algumas semanas, a chefe havia me escrito para dizer que os alemães estava sem recursos devido ao bloqueio marítimo e os EUA pressionavam uma rendição, mas ela não mencionara nada sobre Nicky. Eu acreditava que se ele tivesse vivo teria procurado me, ou retornado a Londres e a procurado, mas não havia nem sinal dele.
Quando a companhia chegou marchando logo os homens recuperaram o moral, perguntando de parentes, conhecidos e companheiros de pelotão. Foi quando um dos soldados me chamou.
-Joseph! Não era você que há algum tempo procurava um cabo Nicholas? –Senti um arrepio frio percorrer o corpo, será que Nicolo, meu Nicolo estava vivo?
-Sim, está nessa companhia? Onde ele está? –Quando virei-me para procurá-lo ele estava bem atrás de mim, o uniforme bege estava limpo porém gasto, o capacete escondia os fios macios de seu cabelo, os lábios finos contraídos e os olhos azuis adquiriam um brilho cinzento, misto de surpresa e dúvida.
-Nicolo! Alá seja louvado! –Eu o abracei com todas as minhas forças, as lágrimas caindo pelo rosto, mas senti seu corpo enrijecer com o toque.
-Desculpe-me mas não estou lembrando de você. –Aquelas palavras doeram mais que um tiro de mauser.
-Amore mio, isso não é hora para brincadeiras, eu não o vejo á quatro anos, não sabia se estava vivo... –segurei de leve em seu ombro o puxando para longe dos homens.
-Não estou de brincadeira. –Nicky me olhou com uma seriedade que me assustava a cada segundo, e eu o fitei por alguns instantes.
-Nicolo, sou eu, Yusuf. –disse com calma e segurei sua mão, mas ele a puxou de volta respondendo:
-Meu nome é Nicholas, e por Deus você não deveria estar lutando nas suas terras? –Nesse ponto eu senti em sua voz o mesmo ódio o desprezo que nos movia nas cruzadas e o desespero tomou conta de mim, sem dúvida era meu Nicky, mas parecia ter pedido a memória de séculos! Como isso seria possível? Alguns homens o ouviram gritar e se voltaram para mim com desconfiança.
-Ouça, pode ser muita coisa para você, mas você não é um soldado inglês, você é italiano, não pode morrer nem envelhecer, nós lutamos nas cruzadas. –Nicky deu uma risada incrédula e levou a mão para minha testa, levantando o capacete e gritou:
-Padioleiro! –Em instantes um jovem que parecia recém ter completado 16 anos apareceu, com uma cruz vermelha no braço do uniforme. –Por favor, leve este homem para a enfermaria ele não aparenta estar bem.
-Cabo Joseph Harris. –Eu disse bufando, se tentasse confrontá-lo só o afastaria mais.
-Certo, cuide do cabo Harris, sim? –Com um último olhar desconfiado ele partiu, e eu me segurei para não socar o padioleiro tamanha a frustração.
Durante as próximas horas na enfermaria eu só conseguia pensar no que poderia ter acontecido, o que mais me apavorava era que, se Nicolo não havia se curado totalmente a ponto de ter sequelas, talvez não estivesse se curando mais. Foi quando soube que precisava tirá-lo do campo de batalha o mais rápido possível."

-Uau! Levar um fora do companheiro de séculos! Isso deve doer. –Nile escutou Nicky derrubar uma panela e Joe a olhou com raiva.
-Sim, obrigado por me lembrar criança. –Respondeu o árabe.
-Desculpe, mas porque você foi para a enfermaria se sabia que estava bem? –Disse a jovem corada de vergonha e tentando desconversar.
-Essa é fácil. –Respondeu Andy apontando a garrafa de whisky, como ninguém a acompanhava já havia desistido de beber no copo.
-Eu conheço meu Nicky, sabia que ele ia voltar para ver como eu estava.
O italiano colocou o molho no fogo e voltou para a mesa, com um pesar na voz continuou a história:

"Quando fomos dispensados a primeira coisa que fiz foi ver como o Joseph estava, apesar da estranheza em suas palavras, algo em seus olhos negros parecia profundamente sincero e familiar.
-Ei. –Chamei adentrando a barraca da saúde e vendo-o sentando em uma cama de campanha. –sentindo-se melhor?
-Sim, obrigado. –Joseph sorriu e eu vi como era belo seu sorriso, o cabelo curto e para trás, a barba que parecia ter sido feita no mesmo dia, mas já despontando de tão cerrada, e uma tristeza nos olhos negros.
-Você não disse ainda de onde nos conhecemos, de verdade. –Perguntei, sentando-me do seu lado, ele ficou alguns segundos em silêncio antes de responder.
-Lutamos juntos no Marne em Paris, setembro de 14. –com essas palavras a lembrança me atingiu como um soco.
Cabo Joseph e Cabo Nicholas, comandem suas esquadras em frente. A ordem do oficial ecoou por alguns segundos.
-Parece que você está com alguns problemas de memória, nós servimos juntos no 23º, somos amigos.
-T-talvez esteja –Hesitei tentando me lembrar de outros colegas do batalhão, mas tudo parecia um borrão.
-Nicky, eu sei que parece loucura, mas devemos voltar para Londres. –Ele segurou minha mão e seus olhos brilharam em desespero.
-Eu não vou desertar cabo. –Respondi firme, mas sem fugir do toque, Joe tomou fôlego para dizer alguma coisa, nossos rostos estavam pertos demais e eu me peguei observando cada linha atentamente, os cílios longos, o nariz e os lábios, parecia que eu o conhecia a tanto tempo, e ainda sim era um estranho.
Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, um assobio e uma explosão atingiu a barra e eu apaguei."

-Eu não pude perder a oportunidade de levar Nicolo de volta á Londres, de alguma forma eu sabia que se sua memória não voltasse e ele não mais se curasse, eu ficaria com ele até o fim dos meus dias. –Nicky puxou um dos braços que estavam cruzados junto ao peito e segurou sua mão com ternura.
-Ficaria comigo mesmo que eu estivesse velho? –Os olhos negros devolveram carinho nos azuis, Joe passou uma mão pelo rosto do amado, indo descansá-la nos cabelos lisos da nuca.
-É claro habibata1. Meu amor por você transcende esse corpo físico. –Nicky sorriu, mas a declaração não era nenhuma surpresa, já a tinha ouvido milhares de vezes, mas não se cansava e nem Joe se cansava de repetir.

"Continuando, disse o árabe, não pude perder a oportunidade de arrastar Nicolo para longe do front, logo a guerra teria acabado e eu precisava a todo custo mantê-lo vivo.
Usei clorofórmio da saúde para mantê-lo desmaiado e roubei um cavalo, quando Nicky acordou já amanhecia, eu havia feito uma fogueira para passar o tempo, já era quase julho e o clima estava quente.
Ele se debateu tentando soltar as mãos amarradas enquanto acordava confuso, o capacete torto cobrindo parte do rosto, eu o ajeitei com cuidado e sorri de volta, embora sua expressão fosse de ódio completo.
-Cabo Joseph, parece estupidez minha perguntar, já que sei que você me arrastou para cá, mas o que diabos estamos fazendo aqui?
-Olha a boca cabo, você é um cristão afinal. –Disse procurando na mochila algum resto de ração.
-Pro inferno a boca, você é maluco, ou alguém enfiou uma bala na sua cabeça e ela continua aí! A guerra é para outro lado! –Suspirei, Nicky me encarava rangendo os dentes.
Peguei a baioneta do fuzil que já não era muito afiada e com um grande esforço fiz um corte fundo na mão, a princípio Nicolo virou o rosto para o sangue pingando mas eu o chamei:
-Olhe você mesmo Nicolo. Posso me curar, e você também, ou podia. Nós não vivemos para sempre, em algum momento paramos de nos curar, acredito que você esteja perdendo a cura, por isso esta com perda de memória. –Mostrei o sangue escorrendo e a mão sem nenhum arranhão e ele arregalou os olhos azul-céu.
Cortei o antebraço novamente e dessa vez ele não desviou o olhar, viu a ferida se fechando e ficou pálido de espanto.
-C-como isso é possível?
-Nós não sabemos, e eu também não sei porque você não se curou por completo, mas eu o vi explodir em pedaços, pedaços demais... não podia arriscar mantê-lo no campo de batalha. –Balancei a cabeça afastando a lembrança. –Apenas... fique comigo.
Nicky ficou em silêncio por vários minutos e eu desisti de esperar uma resposta e dei a ele um pouco de ração que ainda tinha, biscoito salgado.
-Então nós somos amigos? Há mais como você? –Disse ele finalmente aceitando os biscoitos.
-Sim, uma mulher muito mais velha e um homem mais novo, do século passado. Nós somos do século 11.
-Deus meu. –Disse assustado. –Mas minha mãe e meu pai me aguardam voltar da guerra...
-Sua mãe era uma pobre alma, seu pai um adúltero que te entregou para a igreja para ser perdoado dos próprios pecados. Mas se faz tanta questão, voltamos a Londres, procuramos seus pais, e você poderá acreditar em mim.
Nicky me olhou e tudo o que eu queria era beijá-lo, como sonhava há anos, sentia tanto falta do seu toque, do seu calor, do seu cheiro, mas sabia que não deveria pressioná-lo."

-Já é assustador descobrir que não se pode morrer, imagina que você tem 800 anos! –Exclamou Nile, enquanto Nicky coava o macarrão na cozinha.
-Eu senti muito, alguma parte minha menos egoísta queria que Nicky fosse um soldado voltado vitorioso da guerra, que tivesse uma vida normal, mas eu não podia deixa-lo, não enquanto em seus olhos eu ainda vislumbrava o meu Nicolo.
-Bom, todos nós somos egoístas quando se trata do Nicky. Sem sua bondade talvez nós seríamos um bando de babacas que faz o que dá na telha. –Disse Andy tomando outro gole da bebida.
-E não é isso que nós somos? –Perguntou Nicky da cozinha, fazendo os outros rirem.

"A verdade é que após algum tempo viajando Nicky acabou se acostumando com a ideia que eu estava lhe falando a verdade, aos poucos foi pedindo-me histórias e detalhes do passado, seus olhos azuis brilhavam como os de uma criança quando eu lhe descrevia palácios, impérios, tesouros e batalhas.
-Joseph, passei por essa estrada, chegaremos em Londres em algumas horas. –Assenti, Nicky ia na minha frente no cavalo, encostei meu queixo no ombro e ele não se opôs.
-Nicky, certa vez você perguntou-me se éramos amigos. –Falei perto do seu ouvido e vi seus cabelos da nuca se arrepiar, o cavalo seguia com seu passo lento.
Como ele não respondeu eu continuei:
-Bom, nós fomos durante algum tempo, depois nos tornamos amantes. –Senti seu corpo estremecer, mas ainda sim ele não me afastou.
-Isso é impossível, eu sou cristão e você é um homem. –Com a barba por fazer esfreguei o queixo de leve em sua nuca, sentindo o arrepio aumentar.
-Então como eu sei que você adora isso? –Nicky finalmente se mexeu afastando-me e eu reprimi uma risada, mesmo que ele não se lembrava de como nos amávamos eu teria até o final dos seus dias para lembra-lo.
Quando entramos em Londres era 28 de julho de 1914 e várias pessoas já festejavam o fim da guerra, alguns bebiam embora ainda fosse cedo, algumas moças acenavam para os soldados que retornavam e procuravam saber de seus maridos e irmãos.
Nicky também estava contente, seu sorriso brilhante me contagiava e embora eu só o quisesse de volta, não podia deixar de sorrir também.
-Joseph você estava certo! A guerra realmente acabou! Vencemos! –Ele me abraçou entusiasmado e eu retribuí, falando perto do seu ouvido:
-Sim, mais uma guerra acabou e sobrevivemos.
Quando separamos o abraço, seus olhos azuis se demoraram nos meus alguns instantes, uma expressão de dúvida tão sutil que eu só sabia traduzir depois de séculos o estudando.
Antes que pudesse perguntar, Andy apareceu em um vestido cor de vinho e uma sombrinha, acompanhada de Booker que usava um paletó xadrez.
-Chefe! -Exclamei aliviado enquanto a cumprimentava.
-Mas que inferno Joseph! Não podia ter me dito que Nicky estava vivo?
-Nicolo! Estávamos muito preocupados, mandei cartas para várias divisões procurando-o. –Completou Booker.
-Seu maldito! Eu estava quase explodindo a porra da Alemanha achando que ele havia sido capturado!
-A porra da Alemanha pode esperar Andy, Nicky está conosco mas não é o mesmo. –Nicky corou, de certo um jovem inglês nunca ouvira uma mulher falar tanto palavrão.
-E-ele... vai me dizer que não se cura mais? –Os olhos azuis de Andy abriram como pratos e Booker acendeu um cigarro.
-Acredito que não, ele acredita que é um soldado inglês, não se lembra de nós. –Puxei Andy levemente para longe de Nicky e continuei- Ele explodiu em dezenas de pedaços chefe.
-Mas que droga Nicolo. –Andy também acendeu o cigarro, o barulho da festa nas ruas parecia não existir e a tensão pairava entre nós. –Pelo menos você o trouxe em segurança.
-Sempre. –Respondi e pisquei para Nicky que desviou o olhar.
Assim como tinha chegado a multidão se dispersou, para o centro da cidade e nos vimos sozinhos. Não sei se ver duas pessoas tão diferentes como Andy e Booker deram credibilidade a história, mas Nicky pareceu convencido que eu estava falando a verdade e se viu ansioso para retirar o uniforme. Andy e Booker foram na frente, para uma de nossas casas seguras e quando saí, Nicky segurou meu braço.
-Joseph, eu queria agradecer, por não desistir. –Seus olhos azuis enchiam de água.
-Nicolo, amore mio, eu nunca desistiria. –Passei a mão pelo rosto e ele não se afastou, ao contrário, fechou os olhos aceitando a carícia, não podendo mais me conter eu me aproximei para beijar os lábios desenhados que eu tanto ansiava."

Joe se calou incapaz de continuar, os únicos sons que se ouviam na casa era de Nicky terminando a macarronada.
-E aí? O que houve? –Perguntou Nile e Andy revirou os olhos e continuou a história, os jovens eram muito impacientes.
-Foi tudo muito rápido, dois homens apareceram e atiraram em nós, com sorte estávamos armados e logo os pegamos.
-Eram espiões alemães fugindo de Londres ao saber do final da guerra. –Completou Joe.
-Aqueles malditos não comeram chucrute naquela noite. –Andy sorriu e Joe assumiu uma expressão de tristeza e raiva.

"Eu fui atingido do peito, Nicky foi atingido na cabeça e no peito, ele caiu em meus braços, ofegando, os olhos tão belos arregalados, refletindo o céu do verão.
-Não, não, não... Meu Nicolo não... –Eu o agarrei com todas as forças e o apertei junto ao peito como se pudesse impedi-lo de partir.
-Mas que porra! –Andy gritou se abaixando junto a nós.
-Amore mio... Destati2... Nicolo, destati. –Implorei desesperado sentindo o sangue me abandonar, não teria vida sem ele. Sem seus olhos azuis a eternidade se arrastaria em um cinza sem fim, sem seu calor eu sentiria frio mesmo se meu corpo pegasse fogo, sem seus beijos eu morreria de sede a cada dia, e ainda sim não poderia morrer, condenado a viver as lembranças do som da sua risada, do seu cheiro até que minha própria morte viesse me libertar do inferno em vida.
-Joseph. –Andy colocou a mão sobre o meu ombro querendo consolar-me.
-Não Andy! Nós ficamos juntos e só vamos juntos! –Foi quando Nicky suspirou profundo e eu vi a ferida em sua testa se fechar.
-Sono qui. Sono qui mio Joseph.
-Nicolo você... é você mesmo?! –Perguntei enquanto beijava sua testa, seu rosto seu nariz.
-Sim, sou eu. Parece estive fora por um tempo. –Respondeu Nicky olhando ao redor enquanto Andy e Booker faziam a segurança."

-Então você levou um tiro e voltou assim lembrando de tudo? –Perguntou Nile e Nicky assentiu colocando os pratos sobre a mesa.
-Quando voltei naquela rua em Londres eu lembrava de todas minhas centenas de anos, lembrava até mesmo do meu período achando que era Nicholas Willian, mas até hoje eu recordo como se fosse um filme, que eu assistisse mas não protagonizasse. –Nicky procurou os olhos de Joe que estava encostado no batente, braços cruzados –Ainda me atormenta a ideia de tê-lo rejeitado e humilhado amore mio.
Joe tirou o prato da mão de Nicky e novamente eles tiveram uma conversa silenciosa, olhos nos olhos, as mãos se tocando, após alguns algum o tempo o italiano concluiu, sem parar de mirar os olhos negros de longos cílios.
-Chefe, pode guardar um pouco de macarrão? –Nile sorriu e foi para cozinha buscar a panela, a história tinha baixado sua adrenalina e agora tudo que ela queria era um prato de comida quente e cama.
-Eu não prometo nada, o whisky abriu meu apetite e Nile ainda está em fase de crescimento. –Andy deu de ombros enquanto a garota mostrava a língua.
Joe e Nicky já estavam na metade do caminho para o quarto e nem ouviram a resposta.
-Você pode contar agora, o final história. –Disse Nicolo enquanto abraçava o amado.
-Andy e Booker saíram naquela noite para festejar, e eu beijei cada centímetro do seu corpo. –Disse Joe enquanto fechava a porta e enterrava os dedos nos fios finos e macios do cabelo do outro.
-E eu repeti em todas línguas que conhecia o quanto te amo, e quanto me doía tê-lo rejeitado.
Joseph riu com a boca colada nos lábios rosados do amado.
-Você nunca me rejeitou Nicolo, mesmo que negasse eu o via se arrepiar com meu toque. –Joe retirou a camisa do parceiro e passou a ponta dos dedos pelo ombro nu sentindo sua pele macia se arrepiar.
-Você não tem jeito Yusuf. –Respondeu sorrindo, um brilho malicioso nos olhos azuis, as mãos abrindo o cinto do árabe.
-E não me canso de você Nicolo, mesmo que passe até os fins dos tempos dentro de ti. –Respondeu deixando os lábios tocar a orelha do amado em cada palavra.
-Você tem até o fim dos tempos para provar, sarraceno. –Disse o italiano deitando-se na cama e puxando o corpo forte para cima do seu, Joe arrepiado com o apelido de quase mil anos, e como aqueles olhos azuis inocentes como de um anjo podiam se tornar maliciosos e cheios de desejo.
-Amo te Nicolo, mais que qualquer palavra, em qualquer língua. –Disse sentindo-se esquentar ao sentir o corpo tão familiar abaixo do seu.
-Eu também Yusuf. E sem você a eternidade seria uma tortura. –Joe o beijou com vontade enquanto o dia amanhecia, mas não havia porque se preocupar, tinham todo o tempo do mundo e estavam juntos.

Habibata1 – Meu amor, em árabe.
Destati2 – Acorde.

Amores! Mas uma desses lindos!
Espero que gostem beijões!