Notas da autora

Edilyon decide...

Yukiko fica...

Capítulo 2 - Guardiã

Uma voz conhecida surge, após a porta fechar:

- Vejo que está entediada, minha filha.

Ela se vira na origem da voz paternal e avista Edilyon, um humano que detinha o título de Rei dos dragões, sendo que as ordens da genitora dela, Fubuki (吹 雪 - tempestade de neve), eram superioras a dele por ser a imperatriz. Se ambos dessem uma ordem contrária à outra, o da sua mãe iria prevalecer por seu direito de nascença, além do fato de ser uma dragoa das neves pura que tinha duas filhas mestiças que eram meio dragoa das neves e meio humanas, sendo que os humanos haviam comemorado a união do seu ex-rei e as filhas advindas da união dele com a imperatriz dos dragões.

Os seus pais eram perdidamente apaixonados um pelo outro e sempre murmuravam palavras doces entre si. Era visível no olhar deles o profundo amor que sentiam um pelo outro, pois, ambos eram almas gêmeas.

No passado, Fubuki criou um vinculo com Edilyon, garantindo assim a juventude dele, enquanto ela vivesse.

Os humanos que usavam magia podiam prolongar a sua vida por alguns séculos, possuindo variação de humano para humano e se possuíam uma magia poderosa em seus corpos, a vida podia ser prorrogada por muito mais tempo. O pai delas tinha uma magia poderosa por ter sido o rei dos humanos no passado e por isso, podia viver muitos séculos.

Porém, em algum momento, ele iria envelhecer e morrer, enquanto que os dragões podiam viver milhares de anos, sendo que ninguém sabia quanto tempo um dragão podia viver, pois, havia aqueles que haviam ficavam cansados de viver e outros que desejavam morrer pela perda do seu companheiro predestinado, fazendo com que hibernassem para sempre e conforme faziam isso, os seus corpos esvaneciam gradativamente com o advento dos milênios.

Portanto, para evitar o envelhecimento dele, Fubuki o marcou como seu companheiro e ao fazer isso, garantiu que ele não envelheceria, enquanto ela vivesse, sendo que a marcação os fez ter um vínculo mental. Assim que a sua mãe morresse, o seu pai passaria a envelhecer normalmente, após alguns séculos, quando a influência de sua genitora cessasse por completo em seu corpo humano.

Quando se uniram, ele foi o único que podia abdicar do seu título, pois tinha um irmão mais novo que podia sucedê-lo como novo rei dos humanos na linha de sucessão do trono, enquanto que a imperatriz dos dragões não tinha um parente sanguíneo para assumir a coroa, pois, a genitora dela, avó das princesas, havia se afastado do império quando a sua filha ascendeu ao trono há inúmeros milênios.

Atualmente, ela se encontrava prestes a desaparecer, pois, estava hibernando para a morte, sendo que tal ato consistia no dragão induzir a sua própria morte com a dissipação gradual da sua magia no meio ambiente e por causa do imenso poder dos dragões, juntamente com os seus corpos possantes, esse processo era lento e igualmente gradual podendo levar milênios para desaparecerem sem deixarem quaisquer vestígios dos seus corpos.

Afinal, os seres mágicos eram formados pela magia que os moldou ao formarem os seus corpos, compondo os seus músculos, ossos, tecidos e órgãos.

Portanto, conforme a sua magia se dissipava, sendo absorvida pela natureza, o seu corpo esvanecia junto da magia restante, não sobrando qualquer vestígio anterior de um corpo.

A decisão da avó delas de morrer foi em virtude da morte do amado companheiro dela e avô das princesas no campo de batalha quando três raças invadiram aquele mundo. Ele era o General e o segundo dragão mais poderoso das neves divinas, sendo que o primeiro era a imperatriz.

Após a morte dele nos braços da antiga imperatriz, ela apenas continuou viva até que a filha deles tivesse uma idade condizente ao trono e após ascendê-lo, se afastou do palácio e começou o processo de hibernar para a morte por não conseguir viver sem o seu companheiro predestinado, sendo algo que ocorria com os dragões e outros seres. Se um companheiro que era sua alma gêmea morresse, o outro conjugue não sentiria mais prazer em viver e se tivessem filhotes, viveria apenas por esses filhotes e quando se tornassem autossuficientes, iria hibernar para ser assimilado pela natureza quando a magia deles fosse absorvida pelo meio.

- Sim... tou-chan. – ela fala o final, após se certificar que estavam sozinhos, pois, em público, deveria chama-lo respeitosamente de chichi-uê (senhor meu pai).

- Eu vou conversar com a sua kaa-chan para liberá-la mais cedo do seu castigo. Não acredito que precise ser tão rigorosa quanto é com a sua irmã. Afinal, quem nasceu com o direito a herdar o título de imperatriz por ter nascido com o dom do controle do lendário Maboroshi no Ginzuishou (幻の銀水晶 - cristal prateado dos sonhos) é ela, fazendo com que você... – ele não consegue falar o final, enquanto olhava tristemente para a sua filha mais velha.

- Tudo bem, tou-chan. Não consigo me imaginar sendo mãe – ela faz uma careta – Eu acredito que nunca soube disso ao se casar com a kaa-chan e não me importo em ser a Guardiã, com a minha imouto sendo superior a mim. Afinal, tenho muita liberdade.

- Não. Eu nunca soube disso. Os dragões nunca compartilharam todos os seus segredos com nós, humanos. Ela não teve coragem de contar a verdade por trás do direito de governar. Mas ela nunca mentiria se eu a questionasse.

- De fato, após Yukihana nascer, passei a ter sentimentos maternais pela minha imouto em vez de fraternais. É uma forma excelente de impulsionar a outra irmã a zelar por aquela que é destinada a herdar o império, enquanto que a outra se converte em uma guardiã da mesma. A magia tem os seus motivos para fazer-me infértil e não a condeno. Eu fico aliviada dela não saber essa verdade. Ela é muito nova, ainda, para conhecer os detalhes sobre as consequências de eu ser a Guardiã.

- Eu também, pois, imagino como reagiria. Eventualmente, quando a sua imouto for mais velha, teremos que informá-la dessa triste verdade.

- Eu não suportaria ver aqueles olhos expressivos imersos em lágrimas, demonstrando plenamente a dor em seu coração e acredito que passaria a se culpar por isso, sendo que não foi e nunca será culpa dela.

- Não importa o quanto nós falássemos e explicássemos. É a natureza dela, pois o coração da sua irmã é cristalino. Ela é gentil, bondosa, amável e tem uma grande capacidade de perdão.

- E eu quero que seja assim para sempre, tou-chan.

Ele sorri e consente, para depois, falar:

- Bem, eu vou conversar com a sua kaa-chan. Desde que nos casamos, decidimos que aquele que as pegasse aprontando algo, daria a sua punição e não iriamos modificá-la. Porém, isso não implica em conversar para tentar reduzir o seu castigo.

Ela corre e o abraça, com o seu pai a abraçando, enquanto a jovem sorria ao sentir o amor paternal dele.

Após alguns minutos, eles se separam, com Edilyon afagando paternalmente a cabeça da sua filha, para depois, beijar a testa dela, se retirando em seguida, com a sua capa esvoaçando atrás dele.

A jovem volta a olhar para fora e observa o filho do sumo sacerdote da corte real da imperatriz que também era um híbrido como ela e a sua irmã mais nova, com a diferença que a mãe dele era humana. Ele andava junto da sua irmã mais nova, Yukihana (雪花 – Flor da neve), sendo que no lado esquerdo dela havia um dos professores que lecionava para as princesas. Ele exibe alguns conteúdos em um livro que a sua irmã pega das mãos dele e que passa a ler avidamente, sem cessar os seus passos enquanto cruzava o jardim, com a mais velha acreditando que ela estava se dirigindo para uma das salas de aula dedicadas ao ensino das princesas.

Yukiko sentia pena de Yukihana pelo fato dela ter pouca liberdade por se encontrar recebendo a educação necessária para herdar o trono, assim como a genitora delas recebeu quando era jovem.

Naquele mundo mágico, havia os híbridos que podiam ser meio elfos, meio animal mágico, meio Lycan, meio Felys ou meio dragão das neves divinas, sendo que estes quatro últimos tinham características como orelhas, caudas e asas, podendo ocultá-las se assim desejassem. A única exigência para nascer um híbrido é que ambos os pais fossem mamíferos, sendo que os humanos conseguiam ter filhos com qualquer outra espécie mamífera e quanto às outras uniões, dependendo das espécies envolvidas, não nasciam filhotes.

Quanto aos dragões, os humanos só conseguiam ter filhos com os dragões da neve divinos, pois, eles eram os únicos dragões mamíferos, enquanto que os outros dragões botavam ovos, tornando inviável a eles terem filhos com humanos, assim como era impossível para um dragão da neve ter filhos com outras espécies de dragões por não botarem um ovo, enquanto que as espécies de dragões diferentes podiam se acasalar entre si e terem filhotes que iriam usufruir do poder de ambos os tipos dos pais ao ter o poder deles em seus corpos.

A albina se encontrava perdida em pensamentos, enquanto se recordava do sonho estranho que teve, ou melhor, pesadelo, com um ser desconhecido. Era um dragão arroxeado com cristas imponentes e garras afiadas, além de olhos ferozes, sendo que conforme olhava para os lados, via apenas a destruição e a morte, principalmente na cidade da capital do império ao identificar o vestígio da estátua símbolo da cidade em conjunto com restos de corpos e até de um bichinho de pelúcia que era de uma criança e que estava tingindo de sangue, sendo que o dragão aterrorizante rugia em pura fúria, trazendo calafrios incontroláveis para a jovem princesa que assistia horrorizada o cenário apocalíptico, desconhecendo o fato que enquanto tinha o que ela definiu como pesadelo, o seu símbolo de lua crescente na testa brilhou e quando acordou, o fulgor cessou.

Ela sai de suas recordações com batidas suaves na porta e fala, após inspirar profundamente, acalmando os seus batimentos cardíacos até então, desenfreados:

- Entre.

A albina observa pelo canto dos olhos dois gatos entrando, sendo que ambos eram peludos e negros como a noite e acima dos seus orbes azuis como duas safiras, havia um símbolo de lua crescente que era idêntico ao que a princesa possuía em sua testa. Eles estavam em sua forma pequena para facilitar o deslocamento ao usarem a magia em seus corpos para reduzir o seu tamanho, sendo que o tamanho verdadeiro deles era um pouco menor do que o de um elefante, além de terem uma forma humana e hibrida, pois, os animais mágicos eram maiores do que os animais comuns em virtude da magia em seus corpos.

Então, ela se vira e se aproxima deles, sorrindo, sendo que ambos eram considerados o seu braço direito e esquerdo:

- Kiara-chan e Yoru-kun! Que bom vê-los!

- Nós também ficamos felizes em ver que está lidando bem com o castigo, Yukiko-sama. - a gata fala respeitosamente.

- Vocês sabem que podem me chamar de Yukiko-chan em particular. Não sabem?

O casal se entreolha e consente, sendo que o macho comenta:

- Não nos sentimentos tão à vontade para um tratamento tão informal a alguém como a senhorita.

- É questão de prática – ela fala piscando para eles - Pode tentar agora.

Eles se entreolham e suspiram, para depois, consentirem, sendo que era visível o desconforto deles:

- É uma bela manhã, Yukiko-sa… quer dizer, Yukiko-chan.

- Isso mesmo, Yukikosam… quer dizer, Yukiko-chan.

- Concordo. É uma manhã excelente para voar.

- Deseja treinar as suas manobras aéreas?

- Sim, Kiara-chan. Eu quero participar disfarçada no torneio. Irei mostrar aos dragões do céu que mesmo um dragão que não é da espécie deles, pode superar a capacidade de manobras aéreas que eles possuem desde que treine arduamente.

- Bem, a concepção que eles possuem não é errônea. De todas as espécies de dragões, eles são os melhores no ar, pois, são exímios voadores.

- Eu vou quebrar essa visão, Yoru-kun. Vou mostrar no torneio que a espécie não garante a vitória. - ela fala com determinação.

O casal sorri e consente, com a fêmea comentando:

- Eu não estou surpresa.

- Idem.

Eles pertenciam ao império dos animais mágicos e foram eleitos, após passarem por testes acirrados, para se tornarem o braço direito e esquerdo dela. Ao ganharam o símbolo mágico de lua crescente na testa, eles garantiram o seu status elevado sobre os outros empregados, além de algumas habilidades extras.

Então, eles ouvem o som de alguém batendo nas portas duplas e Yukiko se vira lateralmente, olhando para as portas, enquanto exclamava:

- Pode entrar!