Personagens de Stephenie Meyer, só estou brincando com eles...

P.S.: Obrigada pelos reviews, favs e etc :)

Barbara, Mickky e agora bellads, obrigada em especial para vocês, por continuarem acompanhando a fic e sempre comentarem :D Se tiver mais alguém, se manifeste, por favor. De fantasma já basta o Edward.

Esse capítulo ficou enorme, mas eu não consegui cortar ele no meio. Não faz muito meu estilo escrever caps tão grandes, já que gosto de manter uma média de palavras, porém aqui está do jeito que achei que deveria estar. Capítulos grandes assim serão raros, não se preocupem.

Aproveitem.


Capítulo 14

As férias estavam indo bem. Fez muito frio e nevou na maior parte do tempo, mas Bella não se importou. Dentro da casa estava quente e confortável.

Sue apareceu na manhã de Natal, trazendo alguns pratos. Os filhos dela, Billy e o filho dele vieram, assim como Harry. Bella achou, podendo ver Harry e Edward junto com os outros, que a casa parecia bem cheia. Ela teve que admitir para si mesma que foi estranho ver os dois conversando; estava habituada a ser a única a falar com Edward. E Harry fora um dos amigos do pai, em vida.

Ainda sim, foi um dos melhores Natais de que ela se lembrava. Ela também chegou a captar alguns olhares entre Sue e Charlie, e achou aquilo interessante. O pai era um bom homem e estava sozinho desde o divorcio com Renée. Merecia outra companheira. Não conhecia Sua a fundo, mas estava satisfeita de vê-lo mostrar interesse em alguém. Haveria bastante tempo para se conhecerem depois, se algo chegasse a acontecer.

Vagamente se perguntou se Harry também estava percebendo aqueles olhares. Não ousou perguntar diretamente. E depois chegou à conclusão de que não importava. No fim das contas, ele já estava morto. A melhor coisa que poderia fazer era ficar feliz por Sue seguir em frente. E por escolher alguém como Charlie.

No último dia de férias da escola, Bella já tinha tomado uma decisão sobre a faculdade. Tinha escolhido três cursos; inglês, história e produção editorial. Cada um em uma faculdade diferente; uma no Sul, outra no Leste, e outra no Oeste, mais perto da Califórnia.

Ela tornou a se sentar com Edward e mais pilhas de panfletos, na esperança de achar algo que chamasse sua atenção. No fim de duas longas semanas, desistiu. Então recorreu a uma brincadeira de fechar os olhos e embaralhar os panfletos – com Edward a chamando de criança o todo tempo – e foi eliminando os cursos até chegar nos escolhidos.

Teve o cuidado de antes tirar os panfletos com cursos que sabia serem inviáveis, como medicina, por ser muito caro, e coisas que sabia que odiaria, como marketing.

Os cursos escolhidos ficaram no meio termo. Não desejava em particular nenhum dos três, portanto não se decepcionaria caso fosse recusada, mas eram bons o bastante para uma carreira sólida e agradáveis o suficiente para não deixa-la entediada.

— E se você tivesse pego algo que odiasse? – Edward questionou quando ela lhe mostrou os panfletos escolhidos.

— Tive o cuidado de tirar os que não gostava antes, gênio – Ela retrucou – Não tinha nada que eu realmente quisesse fazer, você sabe. Pelo menos tenho opções agora.

— Se dependesse de você, você trabalharia naquela loja até seus últimos dias, não é?

— Eu gosto de lá. O salário não é ruim e a loja está sempre no caminho de campistas e outros doidos.

Ele ficou resmungando um tempo, o que a fez rir. Para deixar Edward irritado, bastava dizer que viveria o resto de seus dias em Forks, no mesmo emprego e na mesma casa.

— Quem sabe? – Ela questionou para provoca-lo – Talvez o Mike não queira voltar pra cá depois da faculdade, então quem vai herdar a loja? Quem melhor do que eu?

— Bella, quando você morrer, eu juro que vou estrangular você.

— E que efeito isso vai ter, se eu já vou estar morta?

— O efeito de descontar minha frustração – Ele respondeu – Garota, você tem um mundo inteiro pra descobrir. Por favor, não me diga que vai criar mofo aqui.

— Já tivemos essa conversa – Bella respondeu, mais séria.

— Eu lembro – Ele revirou os olhos – Você gosta daqui, eu sei. Tudo bem, mas tente conhecer outros lugares, por favor. Se quiser viver nessa casa até ficar banguela, ótimo, mas uma vez por ano, ao menos isso, saia por aí e veja o que o mundo tem de bom. Você tem tantas oportunidades, tantos caminhos, só... Por favor, Bella, não se enterre aqui. Não morra em vida nessa cidade que você fez de refúgio.

O tom dele a fez recuar. Não estava esperando tanta intensidade. Era um assunto velho entre eles, bastante discutido, geralmente cheio de piadas e brincadeiras. Mas ele estava mais sério do que jamais havia visto.

— Isso é realmente importante para você? – Ela hesitou – Tudo bem, então.

— Não – Ele disse suavemente – Não faça isso por mim. Faça por você.

O assunto não terminou ali. Naquela noite, quando deitaram, Edward voltou a falar.

— Sei que passo dos limites, Bella – Ele disse – Sei que às vezes eu exagero. Me desculpe por isso, mas a ideia de que você passe a vida inteira aqui... Não consigo entender. Isso me deixa louco.

— O que te incomoda tanto nisso? – Ela perguntou curiosa.

— Quando conheci você, você vivia presa dentro de um quarto. Me desculpe por estar trazendo isso de volta, por favor, mas se quer entender, preciso explicar. Você vivia presa lá, e depois quando veio para cá... Tenho a impressão de que você continua presa, de certa forma. Você luta tanto com a ideia de sair daqui, parece ter medo do que tem lá fora. Eu entendo, claro, considerando o que você pode ver e todos os problemas que isso traz.

— Mas eu vou sair – Ela respondeu – Eu vou pra faculdade em outro estado.

— Contra a sua vontade – Ele apontou.

Ela não teve argumentos. A faculdade não era uma coisa almejada, apenas um fato que ela tinha aceitado.

— E depois? – Edward questionou – Você vai voltar pra cá, tenho quase certeza. Isso me incomoda. Não deveria incomodar, nem você deveria ligar, e nem mesmo deveria ser importante, já que, como nós dois sabemos, eu estou morto. Mas, de verdade, eu me incomodo. Vejo você e penso que uma garota tão boa e inteligente deveria estar lá fora, brilhando.

Nos últimos tempos, por mais irritante que fosse, os elogios dele a estavam fazendo corar terrivelmente. Isso a aborrecia bastante, já que ele a elogiava desde quando se conheceram, mas agora o efeito das palavras estava sendo outro. Uma consequência de que andava sentindo indevidamente. Não pense nisso agora, ela se repreendeu.

— Você acha que eu estou sendo desperdiçada aqui – Ela resumiu.

— Acho – Ele bufou – Claro, o que eu acho não deveria importar. Não é só isso, porém. Bella, seja sincera, você tem medo do que te espera lá fora? De como vai ser do outro lado dessas árvores? Não quero te ofender, mas pense um pouco antes de responder.

Ela pensou. Tinha medo?... Um pouco, sim. Menos dos vivos do que dos mortos. Lembrava o suficiente de Phoenix para imaginar como uma cidade grande poderia tornar seu dom outra vez um enorme problema. Forks era relativamente tranquila no quesito almas. Outro lugar, no entanto...

Pensar em ter almas suplicantes atrás de si novamente não era animador. O conselho de Alice estava gravado a fogo nela, então não se preocupava tanto assim com mais idiotas ao seu redor, embora soubesse que uma faculdade teria muito mais gente do que a pequena escola de Forks. Podia lidar com eles, mas como lidaria com as almas suplicantes sem ficar maluca?

Era um grande problema, certo... Mas era só isso? Bella não tinha certeza. Podia não ser a maior fã de tempo frio, contudo, sua vida em Forks era calma e rotineira, razoavelmente pacifica. Sair significava deixar tudo isso para trás, ao menos por um tempo.

— Eu acho que sim – Ela respondeu lentamente à pergunta de Edward – Um pouco.

— Medo do que?

— Deixar minha zona de conforto – Contou – Isso parece bem preguiçoso da minha parte, eu sei, mas sei o que esperar da minha vida aqui. Apesar de ver os espíritos vez ou outra aqui, ainda dá pra viver bem, na medida do possível. Lá fora eu terei que começar tudo de novo.

— Conhecer mais pessoas te assusta? – Ele perguntou – Eu me lembro como você ficou nervosa com a ideia de ir para escola, quando chegou aqui.

— Não vou mentir e dizer que estou ansiosa por isso, porque não estou. Está fora de questão contar para quem quer que seja as coisas que eu posso ver. Ninguém nunca vai entender, Edward. E não estou disposta a me expor. Não por vontade própria, pelo menos.

— Ainda tem medo de como vão reagir?

— Medo, não. Só um pouco... Desanimada? Acho que algo assim – Bella disse – Fico cansada só de imaginar as coisas que vou enfrentar. Se alguém vier e ficar chorando no meu ouvido no meio de uma aula, por exemplo, como vou ignorar? As vezes não dá.

— Eu sei.

— Você acha que estou sendo desperdiçada aqui – Ela continuou – mas se eu for para um lugar em que não me sinta bem, perder meu tempo fazendo coisas que não gosto, isso também não seria desperdício?

— Entendo – Ele respondeu por fim.

— Eu entendo seu lado também – Bella respondeu – De verdade. Sei que você quer o melhor para mim. Por você, e por mim, eu farei algumas viagens loucas por aí. Prometo que vou tentar sair da minha zona de conforto... Contanto que você vá comigo.

Ele riu baixinho.

— Você ainda pergunta?

— E se eu resolver ficar aqui – Ela falou com cuidado – Você ficará também?

— Já lhe disse que você nunca vai se livrar de mim, lembra?

E eu já disse que nunca vou querer me livrar de você, Bella pensou, mas não disse isso.

— Chegamos a um acordo, então? – Perguntou – Prometo que vou tentar não mofar aqui, se você prometer vir comigo. E você tem que prometer que vai parar de tentar me arrancar daqui como se sua vida dependesse disso.

— Parece bom. Feito – Ele concordou – Embora, devo acrescentar, se minha vida realmente dependesse disso, eu já estaria bem morto.

— Você já está bem morto.

— Ok, mudei de ideia. Pode mofar aqui a vontade, eu não ligo.

Bella riu. Conhecia Edward bem demais para saber que ele não estava falando sério. Ele ficaria, se ela quisesse, mas jamais iria parar de resmungar. Não se importava; gostava tanto dele que até suas alfinetadas eram bem-vindas.

O recomeço das aulas foi tranquilo. E no trabalho também, embora o movimento permanecesse baixo. Quando o primeiro fim de semana chegou, Bella resolveu ir pra Portland novamente. Queria ver e falar com Alice. E tinha que admitir para si mesma que realmente precisava de sapatos novos; não tinha meias o suficiente para molhar um par por dia.

Acordou cedo no sábado, escolheu algumas roupas quentes e foi. Como antes, não foi difícil encontrar Alice. E ela pareceu encantada quando Bella lhe pediu ajuda nas compras.

— Você devia usar saltos – Alice falou enquanto seguiam para a loja – Ficariam ótimos em você.

— Alice, você já foi a Forks? – Bella falou com a voz um apenas um pouco mais baixa; a rua estava vazia o bastante para que conversassem sem atrair olhares.

— Não, por que?

— Saltos e o chão úmido de Forks não combinam, ainda mais se for eu que estiver usando.

— Bobagem, é tudo uma questão de pratica – Ela insistiu – E você ficaria muito bem em um vestido longo, sabia? De corte reto, ficaria lindo no seu corpo. Com um colar certo.

O dinheiro das compras era a gorda comissão que ganhara antes das férias, mas Bella achou, vendo o entusiasmo de Alice, que aquele dinheiro seria pouco.

— Você sabe, eu realmente preciso apenas de um ou dois pares de tênis – Bella comentou – Tenho bastante roupas em casa, em ótimo estado.

— Ah, por favor, por favor, por favor, Bella. Me deixe te dar uma repaginada.

Bella gemeu, dando adeus a sua simples compra de tênis. Portland era maior do que Forks, mas nenhuma das lojas conseguiu deixar Alice satisfeita. As vendedoras eram bastante prestativas, trazendo roupas e mais roupas que Bella, após olhar para Alice, mandava embora.

Então, pouco antes do meio-dia, Bella estava dirigindo para Seattle. Não conseguia entender o que Alice estava procurando; algumas das roupas que as vendedoras haviam mostrado eram muito boas.

— Alice, eu preciso voltar para casa antes de anoitecer – Ela a alertou.

— Tem uma loja em Seattle que vai servir.

Era estranho ter Alice dentro da picape. Se olhasse bem de perto, Bella podia ver que ela não estava exatamente sentada; estava simplesmente em cima do banco, mas não chegava a se sentar. Nunca havia se perguntado como a física funcionava com os mortos. Edward podia se sentar nas cadeiras e deitar na cama, certo, mas esses objetos estavam parados. A picape, por mais lenta que fosse, se movia.

— Alice, como funcionava esse negócio de objetos para vocês? – Questionou.

— Como assim?

— Sei lá, tipo, vocês conseguem atravessar paredes, mas também conseguem sentar nas coisas.

— Ah, entendi. Bem, não sei como funciona propriamente dito, mas, se eu não quiser atravessar um objeto, não atravesso, entende? Isso não se aplica aos vivos, tanto humanos quanto animais. Não dá para não atravessar um ser vivo.

— Vocês têm tato?

— Com outras almas, sim. Mas não é a mesma coisa. Por que?

— Me passou pela cabeça – Bella respondeu – Não tinha certeza se podiam andar em carros e coisas assim. Edward nunca tentou, pelo menos não na minha frente, e também nunca perguntei.

— Edward?

Bella lembrou-se que não havia mencionado um para o outro até muito recentemente; Edward já sabia sobre ela, mas ela ainda não sabia dele. Contou para Alice tudo que Edward havia lhe contado sobre si mesmo, começando por sua morte em 1918. Falar dele a deixava feliz.

— Ele está comigo desde que eu era criança, quando nós nos conhecemos – Bella contou com um sorriso enorme – Ficava sempre comigo quando eu não podia sair do quarto. Me ajudou bastante nos estudos. Ele é um pouco rabugento, às vezes, mas também é muito gentil e carinhoso. Nós conversamos o tempo todo. Ele quer que eu conheça o mundo, que tenha aventuras, e fica louco da vida quando falo que não quero deixar Forks.

— E você gosta dele.

— Gosto, ele é meu melhor amigo.

— Não, Bella – Alice disse lentamente – Você gosta dele.

Aquilo azedou um pouco seu bom-humor. Era uma ferida aberta. Bella ficou na defensiva.

— Eu sei que é uma coisa idiota – Ela falou exasperada – De verdade, eu sei mesmo. E pode até parecer estranho, mas...

— Bella, eu não disse nada – Alice riu – Por favor, calma.

— Desculpe – Murmurou envergonhada.

— Tudo bem. Quem sou eu para julgar alguém? Não se manda no coração, Bella.

— Queria mandar – Bella suspirou – Isso é uma loucura.

— Não posso negar – O tom de voz de Alice era gentil – E é um pouco cruel também. Vocês estão tão perto, mas ao tempo tão longe.

— Em resumo, impossível.

— Há quem diga que ver os mortos também é impossível – Alice sorriu – Mas aqui está você. E eu.

— Bem, isso é – Bella olhou para a janela, engolindo o bolo desagradável em sua garganta – Às vezes eu penso nisso e acho que poderia ser um pouco estranho, já que nos conhecemos quando eu era só uma criança e cresci vendo ele e tudo isso. Eu sempre considerei ele meu melhor amigo e nunca achei que fosse mudar, mas ultimamente isso só... Não é mais só isso.

— Você cresceu, Bella. As coisas mudam. E se ele é tudo isso que me falou, não fico surpresa em ver que está gostando dele de outra forma. É a melhor pessoa que você conhece, estou certa?

— Sim.

— Você fala dele como se ele fosse seu Sol particular – Ela comentou – É muito claro.

— Me diga que isso é uma idiotice, Alice – Bella pediu.

— Não é idiota, só complicado – Alice pensou por um momento – Ele sabe?

— Não.

— Vai contar para ele?

— Não, de jeito nenhum – Bella afirmou com veemência – Ele já fica louco da vida quando digo que quero ficar em Forks, imagina o que vai acontecer se eu disser que... – Ela hesitou; falar em voz alta era como confirmar ao mundo, tornar impossível de ignorar... Mas já estava sendo – Bem, que eu gosto dele assim? Ele vai ficar horrorizado se souber que, dentre as maravilhosas e milhares opções de homens no mundo, eu escolhi ele, que está morto.

A visão a encheu de horror. A reação de Edward não seria boa, jamais. Mesmo com suas promessas de nunca deixá-la, ele provavelmente fugiria para bem longe, para que ela esquecesse aquilo e seguisse sua vida com opções mais viáveis. Ele jamais permitira que ela ficasse presa naquele sentimento.

— Bella, talvez isso seja sua imaginação trabalhando – Alice disse séria, parecendo saber seus pensamentos – Talvez ele retribua. Claro, ainda vai ser complicado, e bastante, mas precisa contar isso para ele.

— Eu preciso contar tanta coisa para tanta gente – Bella comentou amargamente – Eu o conheço, Alice. Acredite em mim. Tenho medo de contar para ele e ele ir embora.

— Eu entendo seu receio, mas, se quer um conselho, digo que deve contar a ele. Antes que ele mesmo perceba. E ele vai, Bella. Qualquer um vai perceber muito em breve que você está apaixonada.

— Está tão na cara assim?

— Basta você começar a falar dele. Seus olhos brilham, sua postura muda, você sorri.

— Para ser sincera, não tem muitas pessoas com quem eu possa falar dele, então acho que estou segura.

— Isso vai crescer mais e mais, e vai chegar o tempo em que você não vai nem precisar falar dele. Além do mais, pode até esconder dos outros, mas não vai conseguir esconder isso dele – Alice alertou – Ainda mais se ele te conhece tão bem.

— Alice, por favor, não me deixe em pânico.

— Não é essa minha intenção, só quero que fique avisada.

Bella riu, mas não era um som de alegria.

— Como se eu já não tivesse muitos problemas, não acha? – Ela disse para Alice – Mike Vivo Newton ficava no meu pé o tempo todo na escola, mas foi por um espírito que eu me apaixonei.

— Isso não tem que ser trágico, nem impossível. Só adiado – Alice disse brandamente – Bella, não se assuste, mas você não vai viver para sempre, lembra?

Bella dirigiu em silêncio por um tempo. Sim, sabia disso. A morte viria, cedo ou tarde. Não era possível evita-la. Entretanto, como poderia afirmar que tudo ficaria bem? Até onde sabia, os espíritos ficavam porque tinham pendências, não porque queriam. Se ela quisesse ficar, para começar, teria que ter alguma coisa assim. E mesmo assim não era garantido.

Jamais faria alguma coisa imperdoável para ficar. Não suportaria viver pela eternidade se culpando ou querendo se desculpar com alguém. Isso, não. Então, o que? Sonhos interrompidos? Não tinha nenhum sonho em particular. Só queria viver tranquilamente. Se vivesse bem, iria direto para o que quer que tivesse do outro lado.

— Você não me falou se conseguiu resolver aquele assunto da sua mãe – Alice falou com cautela – Gostaria de me contar?

— Sim – Bella respondeu, aliviada por poder falar de outra coisa um pouco.

Não foi um relato muito longo. Bella contou tudo, até mesmo da raiva injusta que havia sentido por ela e Edward. Aproveitou para pedir desculpas para Alice também, por causa disso.

— Não se precisa se desculpar, Bella – Alice balançou a cabeça – Realmente, não precisa.

— Não vou me sentir bem se não me desculpar. Foi muito injusto.

— Se é assim, que tal prometer que vai me deixar te repaginar a vontade? Que tal? Daí fica tudo esquecido.

— Isso não vale – Bella protestou – Eu realmente precisava apenas de alguns tênis.

— Você pode comprar os tênis, vou escolher alguns ótimos, e roupas lindas para combinar com eles.

— Ah, não!

Foi um longo dia. A loja que Alice a levou era grande, um enorme salão com teto alto. E havia dezenas de araras. Não estava tão cheia, o que era bom. Bella, a pedido de Alice, dispensou a vendedora que veio recebe-las. E então começou a sessão. Bella começou a mexer em uma arara, pegando as peças e erguendo um pouco para a inspeção de Alice.

— Não, essa não – Era sua resposta firma para a maioria delas.

— Tem certeza que aqui tem coisas boas? – Bella perguntou baixinho após devolver a sétima peça.

— Tenho, já fiquei aqui um tempo, vendo as pessoas comprarem – Ela respondeu enquanto inclinava a cabeça para examinar bem a peça que Bella estava lhe mostrando – Eles têm roupas muito boas, só preciso achar as boas para você.

— Tarefa difícil – Bella reprimiu um sorriso ao lembrar de Edward insultando seus gostos.

— Um pouco de paciência, só isso.

Demorou mais cinco peças até que Alice aprovasse uma.

— Segure essa – Falou partindo para a próxima arara – Pegue essa azul, essa aqui.

Trinta araras depois, Bella estava com quinze peças na mão. A vendedora tornou a voltar, oferecendo ajuda, e dessa vez Alice a deixou ficar. Provar as roupas a deixou um pouco tímida, com Alice dentro do pequeno provador, mas os olhos dela estavam cheios de profissionalismo enquanto lhe dizia para deixar esse botão aberto ou aquela manga mais curta.

Todas as peças ficaram boas, para sua surpresa. Alice falou para deixar aquelas separadas e voltou as araras, procurando mais. Uma hora depois, Bella tinha mais vinte peças para provar. Novamente, ficaram boas, com os caimentos perfeitos.

Chegou a vez dos sapatos. Alice apontou para alguns, falando sobre as peças que combinariam, e a fez até mesmo experimentar um salto. Também ajudou nos tênis que ela precisava, voltando brevemente as araras para pegar uma calça que ficaria ótima com eles, segunda ela.

Não foi tão penoso quanto Bella achou que seria. Na verdade, estava se divertindo. No meio do mar de blusas, calças e sapatos, estava se sentindo bem. Sentia-se como se tivesse pela primeira vez uma melhor amiga de fato. Já passava das cinco quando finalmente Alice a deixou parar.

A vendedora parecia animada; afinal, sem dúvida ganharia uma boa comissão. Ela levou as roupas para o caixa, deixando Alice e Bella brevemente para trás.

— Bella, posso lhe dar um conselho sobre o que me contou no carro? – Alice perguntou.

Bella assentiu discretamente. Os conselhos de Alice eram sempre muito bons.

— Não deixe sua imaginação te apavorar. Não vou mentir para você e dizer que essa situação é fácil, porque não é, mas não se desespere. Você ainda é jovem, não conhece muito do mundo para afirmar que vai querer esperar para ficar com ele. Uma vida é muito tempo para passar sozinha. Talvez o seu sentimento mude, conforme os anos passem. Talvez conheça alguém vivo – Ela encolheu os ombros e sorriu – Ou talvez não. Se esse sentimento durar até o fim da sua vida, vocês vão poder se unir. É um amor mais espiritual do físico, mas não é menos poderoso, posso ver claramente.

— O que devo fazer? – Bella sussurrou no tom mais baixo possível.

— Já ouviu falar em carpe diem? Viva o hoje, Bella. O amanhã é um mistério e pode não chegar a acontecer.

Bella não respondeu; tinham chegado ao caixa e mesmo o mais suave sussurro seria perceptível. Suas compras encheram cinco sacolas das grandes.

— Renovação de guarda-roupa? – A moça do caixa perguntou enquanto terminava de embalar as peças – São todas lindas. Você é estilista?

— Hm, não – Bella respondeu – Mas uma amiga minha me deu ótimas dicas.

Ouviu a risada divertida de Alice atrás de si. O preço total da compra teria alimentado sua nada econômica picape por uns dois meses, de forma folgada. Nunca havia gastado tanto em roupas na vida. Podia até imaginar as piadas que Edward faria quando ela chegasse em casa com tanta coisa.

Bella guardou o pouco troco que recebeu no bolso. Também nunca achou que sairia de uma loja com cinco sacolas enormes e cheias de roupas. Se virou para ver Alice, para que fossem embora, mas ela não estava mais ali.

Olhou ao redor da loja, procurando a pessoa que só ela podia ver. Sem sucesso. Não havia sinal de Alice. Achou aquilo estranho. Uma inquietação desagradável começou a surgir em seu peito. Bella pegou as sacolas e saiu para o estacionamento aberto, ainda procurando. Alice também não estava ali.

Onde estava Alice? Não era possível que tivesse se afastado tão rápido. Os mortos podiam atravessar paredes, mas não podiam correr mais rápido do que os vivos. Um segundo antes de terminar o pagamento das compras, apenas um segundo antes, Alice tinha dado uma risada. Como poderia ter sumido tão rápido?

Bella colocou as sacolas no banco da picape e esperou. E esperou. Uma hora depois, no entanto, começou a ficar ansiosa. Não poderia se demorar muito mais em Seattle, não se quisesse chega em casa antes da meia-noite. Onde estava Alice? E porque não avisara que iria embora?

Começou a batucar os dedos no volante, inquieta. Aquela sensação ruim estava se intensificando. Tentou recapitular a conversa que tinham tido, tentando lembrar se em algum ponto ela havia avisado que iria embora de repente. Não encontrou nada. Tensa, começou a pensar nas conversas mais antigas. Até que se lembrou de algo.

Qual era o sonho de Alice, aquele que a havia feito ficar? Bella olhou para as sacolas cheias de roupas, horrorizada ao perceber, lentamente, o que se sucedeu. Alice queria ser modista, não queria? E não havia sido naquele momento, ajudando-a a escolher seu novo guarda-roupas, a modista que sonhara em ser?

Seu sonho estava realizado, de certa forma. Alice estava livre. Não estava mais ali. O sonho interrompido que a prendia no limbo já não existia mais. Tinha partido, para o que quer que houvesse do outro lado, aquele que Bella não podia ver. Estava livre.