Nota: R&R.


002
slowly your hands grow numb


i run through your head
loud with a nightmare
brushing your skin with my breathing
turn out the light
and every nightlight
run, you can run, you can run

And The World Was Gone, Snow Ghosts.


A primeira coisa que vira quando abriu os olhos fora o espelho.

Dessa vez não fora necessário nenhum feitiço para iluminar o ambiente. Agora estava em uma sala branca e quadrada, com apenas um espelho em sua frente. Estava nua, exposta, a pele da mão esquerda vermelha e com marcas de arranhões. Ela achara que havia perdido o hábito. Adquirira-o no decorrer da guerra, de forma inconsciente, como uma forma de se manter focada em meio a tantas mortes. Forçou-se a parar quando, um dia, Harry percebeu o sangue seco nas unhas roídas e o que poderia ser o início de cicatrizes.

Sem perceber, recomeçou o vício, como um carinho, pois suas unhas estavam compridas novamente.

– Você deveria parar de fazer isso.

Hermione olhou o espelho, e sem surpresa percebeu que fora o reflexo quem lhe dera o aviso. Harry falava muito isso. Pare com isso, você vai acabar se machucando. Como se fosse assim tão fácil.

– Por que eu continuo tendo esses sonhos? – questionou Hermione para o espelho, sem interromper o início de arranhões.

– Porque você se recusa a encarar o espelho.

O silêncio foi rompido por risadas de crianças. De alguma maneira, elas eram familiares para Hermione. Se ela buscasse no fundo da mente, saberia bem o motivo das risadas. Mas isso nunca chegou a chateá-la, eram só crianças. E crianças são naturalmente cruéis. Elas não sabem o quanto palavras machucam, não é mesmo, sangue ruim?

– Hermione, Hermione, Hermione... Hermione!

O reflexo se ergueu de súbito, e começou a esmurrar o espelho com o punho fechado. Ela sorria e gritava o seu nome como num rosnado, e Hermione recuou, o medo sobrepujando a confusão. Os risos, os gritos, as unhas na pele. Tudo se tornou uma cacofonia. O medo deu lugar a raiva, que borbulhou no estômago de Hermione. Fechou os olhos. Sentia o controle escapando por entre seus dedos como se fosse algo tangível. Já estivera antes naquela situação, mas parecia impossível controlar a vontade de rasgar a própria pele e fazer com que parassem com todo aquele caos. Calem a boca, calem a boca, calem a desgraça da boca.

Fez-se silêncio, e Hermione sentiu medo de se mover.

Quando finalmente abriu os olhos, o reflexo estava em sua frente, as mãos sobre as suas. Seu toque era frio, ou talvez seu corpo estivesse quente demais. Ela era real. Seus olhos eram mais escuros e suas feições eram mais duras, mas aquela era Hermione. Uma outra Hermione. Ou uma outra pessoa.

Helena. Algo dentro de si a reconheceu.

Não percebeu que continuava se arranhando até Helena segurar seus punhos com força. Hermione viu que sua mão esquerda estava ensanguentada e dolorida como nunca antes. Forçou-se a largar aquela visão e encarar os olhos escuros.

A pele do rosto e pescoço dela estavam em carne viva, como se o seu distúrbio fosse transferido pelo toque e agravado pelas circunstâncias. Ela era uma visão em sangue, e o que restava de suas feições refletiam desespero e raiva ao mesmo tempo. Hermione sentiu as unhas dela afundando nas costas das suas mãos, arrancando a pele. A dor veio mais forte que antes, mas depois de um tempo Hermione não mais se importava com ela. Chega um ponto em que não a sente mais.

– É como flutuar em um mar de chamas, não é, Hermione?

Acordou e recebeu a quietude do quarto de braços abertos. A mão esquerda queimava, e Hermione teve medo de fechar os olhos novamente. A insônia tornou-se sua melhor amiga desde então.

X

08 DE SETEMBRO DE 1998

Para Hermione, a primeira semana de aulas havia sido fácil, porém exaustiva. As dores de cabeça, noites mal dormidas e metros de pergaminhos escritos pela madrugada deixaram-na um caco, mas era necessário, seu futuro dependia de suas notas e por isso reprimia os resmungos e fazia o que tinha de ser feito. Muitos de seus amigos haviam repetido o sétimo ano, por isso as aulas estavam mais cheias do que nos outros anos.

Depois do episódio na enfermaria, só via Malfoy nas aulas. Havia certas partes da personalidade dele que Hermione se pegou sentindo falta. Sua altivez, por exemplo. Na visão dela, Malfoy não era nada sem sua pose arrogante e língua afiada, e agora ele sempre parecia abatido e pronto para correr caso alguma coisa o assustasse. Tinha nos olhos aquele brilho de conflito interno, de quem já tinha visto coisas demais para uma vida inteira, que Hermione não conseguia olhar sem se sentir perdida. Harry comentou, há alguns dias atrás, que tinha entrado na cabeça de Você-sabe-quem e o havia visto mandando Malfoy torturar um Comensal. Lembrou-se então de como o Crucio funciona; precisa-se querer ver o outro sofrer para funcionar. Hermione deduzia que Draco não conseguira ser tão sádico assim, então tinha que tirar a dor da sua própria dor. Perturbou-se ao se colocar em seu lugar.

Seu principal motivo para ir a biblioteca fora os 50 cm de pergaminho sobre os doze usos do sangue de dragão e como eles podem ser usados nas poções, o que lhe sobraria trabalho para o fim de semana, já que conhecia apenas oito métodos. O que não daria para ter seu antigo diretor ali, podendo extrair a informação direto da fonte...

Encontrou seus amigos relaxando no Salão Comunal, sentados ao redor da lareira com mais alguns alunos do sétimo ano. Harry tinha os braços ao redor de Ginny, ambos com sorrisos nos rostos. Ron estava encostado em uma poltrona, parecendo muito disperso da conversa, apenas torcendo as mãos uma na outra, sorrindo quando seu nome era citado. Em meio aos risos e resmungos, Ron a encarou de volta, o sorriso em seu rosto se ampliando na medida em que ele se levantava, sem se prestar a dar um volto já aos amigos.

– Oi. – foi o que ele disse quando Hermione já estava próxima o suficiente, a bochecha com aqueles pontos vermelhos que ela achava uma graça, passando a mão na nuca pela vergonha. – Quer ir para algum lugar?

– Para falar a verdade, Ron, eu estava indo para a biblioteca. – Hermione jogou o ombro um pouco para frente, mostrando a mochila pesada. – Você quer falar alguma coisa comigo?

– Não é nada de importante, pode esperar.

Ron, por impulso, inclinou a cabeça um pouco para o lado e deixou que seus lábios encostassem na testa dela, tão simploriamente que poderia ter sido confundido com o vento. Virou as costas, voltando a se sentar com os colegas e embarcando em uma conversa animada, como se a delicada esquiva dela não tivesse sido nada demais.

Ron sabia que ela relutava. Sabia também que o sentimento que nutria por ela era recíproco, mas ela pensava demais e acabava achando contras onde não existiam. Eles eram naturais, certos, previsíveis. Mas daria o tempo que quisesse para ela se consertar, ambos se recuperarem - porque no final, Ron tinha certeza de que ficariam juntos.

X

O caminho fora silencioso. Nenhum aluno queria perder a sua noite de sexta-feira fazendo deveres, e era por isso que a biblioteca estava tão vazia. Hermione se perguntava onde os alunos estudavam, já que pelo menos o seu Salão Comunal era extremamente barulhento.

Contava a dedo os alunos presentes no recinto: Dois lufos que conversavam animadamente na ala esquerda da biblioteca, próximos da estante de livros sobre quadribol; Uma corvinal em uma das poltronas lendo atentamente um livro com o título Adivinhação: O estudo sobre o futuro e suas múltiplas possibilidades; e um sonserino na ala mais afastada, tendo seu próprio lampião pelo local ser o menos iluminado.

Hermione reconheceu os cabelos platinados de longe. Parecia muito absorto no que escrevia, pois seu corpo estava inclinado para o pergaminho de uma forma que parecia estar se escondendo de alguma coisa. Estava sozinho, e aquilo, de alguma maneira, deixou-a incomodada. Ainda não havia se acostumado com o Malfoy após a guerra, após os traumas. Ele, que raramente era visto andando sem companhia no passado, agora gostava de passar por corredores vazios, ser o último da fila, suficiente para si mesmo. Hermione percebeu o quanto ele se restringia; o garoto que humilhava os outros virou aquilo que mais odiou: um fracassado. O Malfoy que agora observava era apenas o fragmento daquele que conheceu.

Foi tomada por uma determinação avassaladora, e quando deu por si, estava caminhando em direção a Draco Malfoy. Nenhum dos outros alunos haviam se dispersado, e Hermione agradeceu mentalmente, pois não sabia qual seria sua reação. Na verdade, não pensava sobre isso, só queria consertar as coisas. Todos sabiam o quanto era corajosa, justiceira e inteligente. Hermione gostava das coisas pacíficas e sob controle. Ficava atordoada quando algo saia de sua rotina, sendo esta naturalmente perturbada, então esse impulso de fazer o certo e colocar ordem era natural. Ajudá-lo era compreensível para ela, por que, apesar de todos estarem quebrados por dentro, foram seus olhos cinza que mais a perturbaram.

Teve uma visão fugaz de sua letra – era bonita, apesar da força que utilizava para escrever, inclinada para a esquerda, fina e pontiaguda. À medida que escrevia, perdia o sentido de reta e inclinava-se para baixo, mas Hermione também sofria disso ultimamente. Ele apenas ergueu a cabeça quando ela tossiu e perguntou se poderia sentar ali. Eles trocaram um olhar tão cheio de significado, mas ao mesmo tempo tão vazio, que foi encoberto pela vontade dele de rolar de olhos e a vergonha dela que transparecia em suas bochechas. Draco apenas moveu a cabeça para o lado e voltou a escrever – com mais força, o corpo voltando à posição correta à medida que os segundos passavam. O único barulho que se ouvia entre eles era a pena arranhando o pergaminho – o dela, um mísero sibilar apressado; o dele, o som reduzido de um trovão.

Hermione se levantou rapidamente, caminhando decidida até uma das estantes que sabia que tinha um dos últimos métodos para o uso do sangue de dragão. Já havia folheado o livro por completo, mas sabia que tinha alguma coisa faltando – talvez fosse sua memória. Quando voltou à mesa, Draco já estava arrumando suas coisas apressadamente. Ela voltou a se sentar, tamborilando os dedos sobre o livro, fazendo com que ele parasse apenas para encará-la e voltar ao que estava fazendo. Hermione limpou a garganta.

– Você terminou o trabalho de poções? – perguntou baixo, o toque de vulnerabilidade presente em seu tom. Tossiu.

– Sim. – respondeu Malfoy, indiferentemente.

Hermione sentiu falta da maldade. Sem ela, Malfoy parecia descaracterizado demais. Não ficou completamente surpresa, mas sentiu uma pontada no orgulho devido ao fato de ter atrasado.

Existem primeiras vezes para tudo.

– Você poderia me dizer qual é o último método?

Teve que reprimir um sorriso perante as feições um pouco surpresas, um pouco sarcásticas de Malfoy.

– Em poucas doses, o sangue de dragão adicionado a poções rejuvenescedoras para a pele cura a varíola de dragão em seu estágio inicial. Em doses exageradas, provoca mudanças de temperatura drásticas, erupções na pele e, sendo uma substância muito poderosa, se o infectado estiver há muito tempo em contato, não tem chances de escapar vivo.

Hermione escrevia rápido, um pouco impressionada com a fluidez que as palavras saíam dos lábios de Malfoy. Este jogou a mochila no ombro, arrastou a cadeira e levantou. Já estava a alguns passos de distância quando Hermione ergueu a cabeça e ficou alguns poucos segundos pensando se o fazia ou não.

– Malfoy.

Sua voz não passou de um sussurro, já que Madame Pince estava próxima. Ele se virou lentamente, erguendo as sobrancelhas, incitando-a a continuar.

– Obrigada.

Os olhos semicerraram-se e ele deu apenas um aceno de cabeça, voltando a caminhar para longe da garota, que tinha um sorriso no canto dos lábios, convicta que até os piores casos têm recuperação. Complementou seu trabalho, guardou os livros e voltou para seu Salão Comunal.

X

12 DE SETEMBRO DE 1998

Era sábado e fazia frio, por isso Hermione estava lendo em seu dormitório, deitada sob uma das janelas, observando o verde enquanto tudo ao seu redor era vermelho e dourado. Ele quebrava a sintonia e por isso lhe tirava tanto a atenção. E pensando sobre o verde do campo veio o cinza da dor, e Hermione sorriu um sorriso triste. Dor e cinza eram sinônimos. Entre o preto e o branco, lucidez e loucura, lá estava o cinza.

Um passo de cada vez. Sim – e com isso deixou o sorriso morrer nos lábios e voltou a ler enquanto do outro lado do castelo, andares abaixo, lábios finos abriam-se para mais doses de veneno e marasmo, assim estabelecendo um ciclo que dificilmente seria quebrado –, tentaria consertar a dor.

X

Você gostou de ver que o tom calculadamente frio e os olhos odiosos haviam voltado - mas não havia malícia nas palavras, aquele sorriso morto de quem não consegue sorrir mais, e isso te deixou triste. Mas você não pode ficar triste, Hermione. Isso vai além de tristeza, existem tantos sentimentos pesados dentro de você que é impossível pôr para fora, e muitos você nem se julgava capaz de sentir.

E agora procura ajudar causas perdidas para não ter que pensar na sua própria insanidade.

Encare o espelho, sua maldita. Para a bruxa mais brilhante da sua idade, você dá pena de tão ingênua.


Nota: A fanfic terá POVs aleatórios no decorrer dos capítulos, um modo de complementar o que escrevi.

Publicado em: 30/05/2015.