Nota: R&R.
003
storm in the morning light
can't anybody see
we've got a war to fight?
never found our way?
regardless of what they say
how can it feel, this wrong?
from this moment
how can it feel, this wrong?
Roads, Portishead.
16 DE SETEMBRO DE 1998
Quando se está em perigo, o corpo se prepara para um grande esforço físico; relaxa e tenciona os músculos ao mesmo tempo, o coração bombeia sangue mais rapidamente, os pensamentos desaparecem dando lugar a esquemas de como se livrar da situação. Aciona-se um instinto de auto preservação em questão de segundos.
Era nesse estado em que Draco se encontrava no momento. Podia sentir seu sangue, tão puro, correndo em suas articulações, enquanto o corpo havia estancado como se tivesse levado um choque, sofrendo calado todas as consequências da adrenalina.
Não que ele estivesse em perigo ou algo parecido. Não, ele estava mais protegido do que nunca, mesmo enfrentando seu passado e demônios todos os dias. Ele só não conseguia lidar com o fato de ela estar lá, na biblioteca, impondo sua presença e rompendo a sua paz.
Estava riscando aquele pergaminho idiota com rapidez. Parecia tão relaxada – por que você está sorrindo, sua suja? Não há motivos para sorrir –, como se não estivesse fazendo nada de errado. Mas aquela relação que ela queria traçar era errada e ridícula, mas a vitória deles não era para isso? Igualdade entre os sangues? Nada melhor do que a nascida trouxa do trio para pacificar o mundo, com aquele cinismo e dissimulação, fingindo se preocupar com as pessoas a sua volta. Mas ele conseguia ver a verdade. Ele não acreditava em nada do que ela dizia, nada do que fazia. Nada mudara e ele continuava sem fé nas pessoas.
E ela continuava sorrindo.
O sangue de Draco esquentou de pura raiva, o corpo se retesando em fúria e protesto. Não conseguiu dar os passos que faltavam para chegar à mesa, o corpo parecia ter congelado enquanto em sua mente o ódio brotava das profundezas e vinha à tona. Era a terceira vez que ela fazia isso. Era a maldita terceira vez que ela invadia seu espaço – invadia sua privacidade, sua mente, roubava o seu ar e atenção. A primeira na sexta-feira, quando o havia pego de surpresa, e a segunda vez na terça-feira, quando todo o seu corpo congelou com o simples pensamento de chegar perto dela. Foi por isso que naquela segunda vez ele não havia dado oportunidades para redenção ou qualquer outro nome que tinha aquela palhaçada – fugiu como um covarde.
Era tão fácil dizer isso quando se já está conformado. Fugiu, simples assim. Deu as costas para a distraída garota de cabelos castanhos porque não aguentava olhar em seus olhos. Ela era formada por tudo aquilo que repugnou durante a sua vida inteira. Olhar nos olhos dela era como olhar para a guerra que havia fodido com a sua mente.
Não queria pensar nela. Só queria não olhar em seus olhos e ser lembrado que fracassou miseravelmente. Só queria-
Todos os pensamentos foram calados quando os malditos olhos se voltaram para ele, avaliando-o rapidamente com uma pequena ruga de confusão formando-se entre as sobrancelhas harmoniosas.
Raiva, raiva, raiva. Raiva em sua essência.
– Malfoy?
E tudo o que conseguiu pensar era na suavidade da voz dela, dita naquele tom baixo e preocupado. Nem percebeu quando desistiu e sentou em sua frente, tirando o livro da mochila e lhe dirigindo um olhar que transmitia toda a sua raiva – que morria a cada palavra não dita, no silêncio que se estabelecia entre eles e que não queria ser quebrado. Na troca de olhares carregadas de dúvidas.
O paraíso no meio do inferno.
(Só entendeu a importância de tudo quando descansou a cabeça no travesseiro, quando finalmente percebeu que havia passado boa parte da sua tarde acompanhado de Hermione, que ainda não se sentia bem olhando em seus olhos – agora pelos motivos errados – e que a raiva que sentia era apenas voltada a si mesmo, por se permitir algo tão patético.)
X
17 DE SETEMBRO DE 1998
Não sabia dizer quando se tornara uma covarde. Fazia dias que estava fugindo de Ron, dias adiando uma simples conversa. Tinha medo de retornar ao salão comunal e encontrar com ele. Tinha medo do que iriam trocar naquela conversa. Ela queria, mas todas as suas teorias indicavam que tudo estava indo rápido demais.
Respirou fundo, soltando o ar lentamente. Ainda sentia o aperto aflitivo na garganta, mas retirou coragem necessária naquilo que acreditava – que eles poderiam, sim, dar certo – e caminhou a passos lentos para o salão comunal da grifinória, os pensamentos recheados de nada. Ela só sabia sentir. Seu estômago embrulhava, havia essa sensação sufocante no peito, junto com as mãos suadas e os calafrios. Era isso o que o amor fazia com as pessoas?
Tudo estava normal. Primeiranistas jogando snap explosivo, alguns alunos sentados despreocupadamente em frente à lareira, mas para Hermione tudo passava em câmera lenta, prevendo uma grande catástrofe. Correu novamente os olhos pelo salão apenas para se certificar de que ele não estava lá. Estava prestes a correr para o seu dormitório quando uma voz conhecida gritou seu nome, fazendo com que todo o seu corpo tencionasse e a respiração estancasse.
– Oi, Ron, eu estava indo mesmo até o seu dormitório.
Havia um sorriso triste nos lábios dele. Suas palavras tinham gosto de mentira, mas lá estava ela, nervosa por ele, então tudo valia à pena.
– Então vamos, aqui está muito barulhento. – disse indicando os primeiranistas.
Ela o havia seguido até o dormitório, mantendo o mínimo de aproximação. Era visível o seu medo, bastava olhar em seus olhos alertas, o quanto se agarrava aos livros e lá estava a resposta. Quando chegaram, Ron se encostou à janela, fechando-a, e Hermione se escorou na lateral da cama adornada de lençóis vermelhos e dourados. Olhava para tudo, menos para Ron, tamanha a sua apreensão.
– Então, – disse ele, iniciando a conversa igualmente constrangido, mas com um brilho de coragem nos olhos azuis cor do céu. - você tem andado bem quieta ultimamente.
Hermione não conseguiu prender o riso. Era irritado e amargurado, num tom levemente conformado. Ela havia se afastado esses dias por conta dele, por conta do seu próprio medo. Havia outra motivação, mas esta estava escondida no fundo de sua mente e parecia irrelevante demais para seu estado atual.
– Bem, eu tenho estudado bastante...
– Mas você tem que ficar com seus amigos, descansar. – retrucou um pouco irritado, deixando a mão descansar na nuca, afagando-a como um meio de relaxar.
– Eu quero ser grande, Ron. Eu quero conhecer, saber sobre as coisas. Isso é o que eu sou, a sabe tudo, lembra?
– Eu sei, Hermione, você já é grande. Que trabalho não irá te aceitar depois de tudo o que você fez?
– Quero conseguir emprego pelo que eu sei, não pelo que fiz pelo mundo bruxo. Por Merlin, Ron, isso foi medíocre demais até pra você.
Não conseguiu controlar as palavras duras, mas era o que sentia. Ron sempre pensara pequeno, disse uma voz em sua mente. Não fazia se sentir menos culpada.
Antes que pudesse alcançar a porta, sentiu a mão forte de Ron rodeando seu pulso, trazendo-a de volta, e antes que pudesse pensar, tinha seus lábios cobertos pelos dele.
Parecia-lhe impossível negar o beijo, e uma parte de si apenas queria se entregar. Os lábios de Ron eram macios, as mãos que apertavam a sua cintura eram fortes, e por um momento Hermione pensou que aquela era a escolha certa. Ron era certo, sempre fora.
Hermione sentiu as mãos atrevidas puxando o tecido da sua blusa para cima, esgueirando em sua roupa para tocar direto na pele. Em sua mente o alerta não requisitado era acionado, e viu-se expulsando suas mãos para longe do seu corpo.
– Eu sei o que você está tentando fazer, Hermione, mas eu...
Não deixou que ele terminasse a frase, pois sabia o que viria a seguir. Ela sempre soube. Pelo toque, pelo beijo, pelo olhar. Mas algo havia mudado, e não poderia brincar com os sentimentos de quem considerava tão importante. Por isso se afastou, limpando a boca com a manga da blusa como se nisso pudesse apagar o que acabara de acontecer.
Ela só queria sair dali.
– Eu sinto muito, Ron.
Correu para o seu dormitório com a mente recheada de questionáveis certezas. Era lógico que ela sentia muito. Ela amava Ron, mas não desse jeito. Havia limites, e aos poucos ela percebia a dimensão de tudo o que estava acontecendo entre os dois. Mas, ao olhar-se no espelho, ela se perguntou se não era o contrário que estava acontecendo.
Encare o espelho, sua estúpida, e veja a verdade.
Calou a voz em sua cabeça. Respirou fundo, procurando se acalmar e colocar razão em sim mesma, mas ao deixar o ar escapar, percebeu que não mais conseguia respirar. Depois de três tentativas frustradas, o desespero tomou conta. Bruscamente, deixou a mão cair no espelho, buscando algum apoio enquanto tentava sugar oxigênio para dentro do seu corpo. Tentou gritar por socorro, mas sua traqueia parecia comprimida. Viu-se despencando aos poucos, a visão já turva, mas antes de desmaiar conseguiu ver que seu reflexo não seguia os seus movimentos – inerte ao seu pedido de ajuda, olhando-a fixamente com um sorriso que não lhe pertencia.
X
Foram as batidas na porta que a acordaram de seu estado lamentável. Pela forma como a pessoa batia, já devia estar a algum tempo adormecida. Estava escorada no chão, a roupa amassada e com um gosto amargo na boca que não soube identificar. Olhou seu reflexo, fazendo repetidas caretas e tocando o rosto, apenas para confirmar para si mesma de que não estava tendo alucinações. Aproximou ainda mais o rosto do espelho, vendo o quanto seus olhos estavam injetados e vermelhos. Coçou-os, tentando tirar a dormência do corpo nesse gesto, assustando-se logo em seguida com as incessantes batidas na porta.
Lentamente se ergueu, abrindo-a. Parvati apareceu entre a fresta com um careta enraivada, murmurando consigo mesma obscenidades que Hermione não conseguia ouvir. Foi puxada para fora do banheiro por Lavander, que falava o quanto a garota estava apertada e já estava quase chutando a porta para entrar. Quando terminou de dizer tudo isso em um único fôlego, Lavander percebeu o estado apático de Hermione.
– Tá tudo bem com você? – perguntou a garota com um fio de voz.
Hermione piscou os olhos antes de responder. A visão estava um pouco turva, como se ela estivesse enxergando dentro d'água. Deu um falso sorriso para Lavander, dizendo que estava apenas cansada demais. A garota ainda a olhava desconfiada enquanto Hermione sentava-se na cama e fechava a cortina ao redor. Jogou-se, os cabelos castanhos cobrindo o lençol vermelho escuro. Por um momento fugaz, flashs de antigos pesadelos atravessaram sua mente. As unhas lascadas contra o mármore escuro, seu rosto contra o espelho, a voz sussurrante de uma mulher louca, a dor, o cinza, sangue, sangue, sangue...
Como um mar de sangue e brasas e dor e medo e será que é assim que é enlouquecer...
Talvez, se apenas fechasse os olhos e tapasse os ouvidos ou se escondesse dentro de si mesma, ela poderia acordar no dia seguinte sabendo que tudo havia acabado, que não haveria mais guerras e preconceitos e dor.
Sorriu em meio ao vazio. Era racional demais para se deixar levar por tais pensamentos, e porque a dor de cabeça que eles trouxeram foram o necessário para voltar a realidade.
Bem-vinda de volta.
X
Poderia culpar o fantasma e seu monólogo cansativo ou o clima mórbido da sala de História da Magia. Poderia culpar sua solidão, sua mente, seu vazio, seu desespero mudo. Poderia culpar o mundo e mais um milhão de coisas, mas os pensamentos estavam nublados demais para pensar em culpar algo.
A mente não é mais um refúgio seguro.
Ela estava a quatro cadeiras de distância, no sentido diagonal da direita para a esquerda. Debruçada sobre a mesa, os cabelos presos descuidadamente no alto, deixando alguns poucos cachos nas laterais. Torcia uma pena acinzentada entre os dedos, em um gesto contínuo extremamente irritante. O indicador passava por cima do dedo do meio, que passava por baixo do anelar e por cima do mindinho, reiniciando a contagem no polegar. Girava a pena rapidamente, transformando-a em um pequeno borrão branco. Teve que piscar os olhos para se livrar da imagem, voltando-os para o pescoço pálido, as mãos pequenininhas – pare de olhar, ela vai começar novamente.
Era uma das primeiras vezes que ela não prestava atenção na aula – não que ele tivesse reparado antes –, e aquela era uma das poucas vezes em que Draco a observava. Observava de verdade. Ela parecia diferente, tirando a aura disperse; parecia tão acuada e solitária por baixo da máscara de descaso. Através do canto dos olhos, reparou que não era o único observando-a: Weasley, que estava três cadeiras atrás dela, observava a nuca semi descoberta e a pena nos dedinhos dela com uma expressão séria no rosto.
Foi atraído novamente pelo borrão branco, enquanto devaneios sem sentido passavam em sua mente com uma sensação de torpor e sonolência muito grande. O sino que denunciava o fim da aula tocou, e, enquanto arrumava sua mochila, pôde ver o momento em que ela olhou para trás, para o ruivo que havia apenas voltado para chamar Potter, que olhou para Hermione, como num pedido de desculpas, e acompanhou o amigo. Ela ficou lá sozinha, com os poucos alunos que restavam, a pena ainda girando na palma em um ritmo cadenciadamente lento.
Antes que pudesse reagir, os olhos se encontram. Pôde ver nos olhos dela – sempre castanhos, sempre tão comuns – um brilho incomum. Hermione olhou ao redor, mostrando o vazio da sala, e voltou os olhos para ele, que pôde ver duas lágrimas escorregando pelas bochechas coradas. Ela as limpou, virando o rosto e jogando as coisas na mochila, encarando de vez em quando as cadeiras onde os amigos haviam sentado. Antes de ir embora, ainda olhou para Draco, dando um sorriso amargurado e indo embora sem dizer uma única palavra.
Ele a compreendia – ela estava sozinha. Ele sabia bem como era aquela sensação, tendo os amigos por perto sem saber se podia ou não confiar. Aquela dor que não o deixava ter certeza de nada. E finalmente eles estavam em posições iguais.
X
"Nunca acredite nas minhas lágrimas, Pansy."
Você é um ótimo ator, Draco. Você estava contando de como foi fácil escapar da aula de feitiços chorando e dizendo que seu braço doía tanto que era capaz de chorar. E você chorou, e aquele duende te dispensou para a enfermaria, onde você alegou dor de cabeça porque o seu braço não doía mais, mas como era "bem provável que as enxaquecas fossem o efeito do remédio" você ficou lá a tarde inteira, dormindo e por vezes gemendo de dor. Naquela época você nem conhecia isso, não era? Hoje ela faz parte de você, está no seu sangue, em cada lembrança que você se recorda - porque mesmo fugindo, é para o ano de 97 que você volta. Você me alertou sobre as suas lágrimas, e eu sorri para você, recorda-se? Porque com o seu aviso, eu estaria alerta para qualquer tipo de manipulação inconsciente sua, e eu fiquei feliz, pois você não queria me usar, porque você me considerava sua amiga.
Eu via que você estava perdendo o controle, mas o que eu poderia fazer? Eu não sabia de nada naquela época, nem a missa metade. E quando eu ti vi chorar aquelas lágrimas – tão carregadas de desespero e ódio e raiva e incapacidade e, acima de tudo, dor – eu soube que aquele momento foi um dos raros em que você se permitiu chorar de verdade. E eu acreditei em você, porque ninguém o havia feito até então.
Afinal, não é para isso que servem os amigos?
N/A: Essa última parte é da Pansy sobre o sexto ano, galera, mais um dos drabbles aleatórios que fiz para incluir na fic. E bem, só pra não ficarem com dúvida, Romione não irá durar, ok?
Publicado em: 30/05/2015.
