Nota: Foi difícil selecionar um trecho dessa música pra colocar como principal. Sério, Hurt é maravilhosa e eu queria poder quota-la toda. Os quotes das músicas que coloco em cada capítulo servem não apenas como um "enfeite", mas como uma marca do capítulo, o que eu senti na hora que escrevi, pode até dar spoilers de outro capítulos – eu sou dessas que pensa em tudo. E eu gosto muito desse capítulo quatro, e tinha que dar uma das minhas músicas favoritas para ele. Espero que gostem desse capítulo.
004
the only thing that's real
i wear this crown of thorns
upon my liar's chair
full of broken thoughts
i cannot repair
Hurt, Johnny Cash.
20 DE SETEMBRO DE 1998
Um dia tem vinte e quatro horas, tendo cada hora sessenta minutos, e cada minuto tendo sessenta segundos. Um dia equivale há mil quatrocentos e quarenta minutos, ou aproximadamente oitenta e seis mil e quatrocentos segundos. Colocando desse jeito, parecia uma eternidade. Já dizia Shakespeare; o tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que têm medo, muito longo para os que lamentam, muito curto para os que festejam, mas, para os que amam, o tempo é eterno. Indefinido, mesmo com todos os métodos para determiná-lo.
Era nisso que Hermione refletia enquanto caminhava para os jardins. Fazia um dia que não via Draco. Ele não havia aparecido no café da manhã nem no banquete, muito menos na biblioteca e não tinham aulas juntos naquele dia. Para ela, aquilo era uma terrível quebra de rotina; estava se acostumando com o cinza, com as poucas palavras e muitos olhares, o sussurrar da pena contra o pergaminho. Não poderia confessar isso nem para si mesma, mas ir para a biblioteca era a melhor parte do seu dia. Ron estava lhe dando dor de cabeça, sempre com a cara emburrada quando estava por perto, lançando indiretas ácidas quando ela fingia estar lendo no salão comunal. Privava-a da companhia de Harry, sempre puxando o amigo para alguma conversa em frente à lareira quando este se aproximava dela. Se o plano de Ron era fazê-la se arrepender de não ter cedido, não estava dando resultado. A única coisa que sentia era raiva.
O sol estava se pondo quando viu o loiro encostado numa árvore, perto da Floresta Proibida. Estava sozinho – como ele sempre parecia estar agora -, com os cabelos um pouco bagunçados e a capa dobrada em um braço. Soltando a respiração que nem sabia estar presa, voltou a caminhar, aproximando-se dele. Podia sentir a ponta dos cachos ondulando com o seu movimento, dando-lhe cócegas na nuca, mas não era esse o motivo pela qual estava arrepiada.
A ausência de vida nos olhos dele congelou seu corpo com o mesmo poder de uma rajada de vento frio. O cinza dos olhos de Draco, naquela distância, tinha um tom azul do céu, que a queimava por dentro e corroía as poucas alegrias que ela sentiu naquele dia. Sentia-se sendo tragada para um universo alternativo, onde pôde sentir a dor em cada átomo do seu corpo em um único olhar, antes do sorriso trêmulo nos lábios dele morrer e lhe encarar completamente sério, os olhos um pouco apertados naquela mania antiga de sempre intimidar. Sorriria se não estivesse com tanto frio.
– O que você está planejando, hein Granger? – ele perguntou depois de um tempo, cruzando os braços. Talvez ele também sentisse frio. Talvez, se Hermione não estivesse tão amortecida, ela perceberia que fazia calor, mas não precisou disso para compreender o porquê dele não dobrar as mangas como os outros rapazes no castelo. Talvez estivesse com vergonha.
E deveria ter mesmo.
– Você não vai responder?
Piscou os olhos, sem perceber que havia demorado tanto tempo pensando. Sua cabeça doía com as incertezas e tantos se e talvez... Já não confiava em sua racionalidade.
– O que eu estou planejando exatamente, Malfoy? – ela também cruzou os braços, aproximando-se sorrateiramente. Agora, o cinza dos olhos dele estava mais para fumaça de cigarro. Disforme, meio translucido, carregado de substâncias tóxicas.
– Essa aproximação. O que você quer?
A verdade é que já não sabia mais o que queria. Havia tantas coisas em sua mente agora, tantos desejos e urgências que nunca havia sentido. Havia Helena, havia seu silêncio com Ron, essa aproximação com Malfoy, o fim da guerra, a falta de ordem e lógica em sua vida. Não tinha mais controle, e apenas estava vivendo um dia de cada vez.
– Eu só estou cheia de problemas e cansada demais para resolvê-los.
Ela deu de ombros e quebrou a distância, indo sentar-se embaixo da árvore. Malfoy a encarava de cima, e durante alguns segundos só a observou. Os cachos dela estavam um pouco embaraçados, e quando ela encostou a cabeça no tronco, fechando os olhos numa expressão de redenção, Draco soube que ela falava a verdade. Havia percebido antes, mas acreditar nas pessoas nunca fora um traço seu.
– Isso não responde a minha pergunta.
– Não era pra responder. Só estou dando os passos que posso dar. Não estou fazendo planos, Malfoy.
Sentou-se ao lado dela, alguns centímetros entre eles. Ela o estava encarando, Draco pôde sentir antes mesmo de olhá-la. Assim, tão de perto, não sabia definir bem a cor dos olhos dela. Logicamente, era castanho, mas a miríade de cores ao redor das íris ia muito além. Havia mel, havia café, chocolate, cores que lhe aqueciam por dentro e emanavam uma confiança e dor que transpassou todas as suas frágeis barreiras.
Ele já havia dito que odiava olhar em seus olhos? Odiava-a toda?
Mas ela parecia ser a única naquele castelo com a capacidade de entendê-lo.
– E esses seus problemas tão importantes, o que você faz para resolvê-los? Não tenho visto sua racionalidade nas aulas, ultimamente. Você só é famosa pela sua mente brilhante.
Hermione corou pelo elogio, se é que aquilo era um. Mas com quem estava falando? Já devia estar acostumada com seu senso de humor distorcido.
– Estou pondo razão nos meus problemas, acho que só assim consigo aturá-los por muito tempo.
– É, aturar trasgos ruivos deve ser um passaporte garantido para o paraíso, mas colocar razão neles lhe dá o título de santa.
– Não sabia que você tinha noção de religiões trouxas, Draco. – disse Hermione. Ele a encarou surpreso durante alguns segundos, voltando a olhar para frente; em seguida, ela percebeu que havia dito seu primeiro nome em voz alta. – Eu... Eu espero que não tenha problema eu ter...
– Você fica nervosinha muito fácil, Granger. – mesmo não o olhando, ela pôde perceber o tom de riso na voz dele. Suspirou, como se um grande peso tivesse sido tirado de seus ombros; talvez por não ter que voltar para a estaca zero com ele, talvez por vê-lo tão livre depois de tanto tempo.
Draco a encarou depois de um tempo em silêncio, e viu um sorriso simples aparecer nos lábios dela, uma pequena movimentação que fez com que os olhos se apertassem minimamente. Rodeada de sombras, Hermione era um pedaço de sol no meio da escuridão, com suas máculas particulares.
Olhando em seus olhos tão odiosos, conseguia ver que a garota a sua frente ia muito além de livros e inteligência. Havia algo na fisionomia doentia que a estava perseguindo. As olheiras, a energia estranha que parecia emanar em alguns momentos. Era um daqueles pensamentos premonitórios, quando uma sensação de deja vu preenchia a mente sem querer. Soltou o ar por entre os lábios entreabertos, voltando os olhos para o céu já escuro e salpicado de estrelas. Antes de lhe dizer um adeus, ela havia levantado, limpando a capa enquanto cantarolava alguma melodia, que talvez nem tivesse percebido se não estivesse tão atento à presença dela.
– Já está na hora do jantar, você quer vir comigo?
Quando olhou para seus olhos novamente, o não morreu em sua língua. Ele estava sozinho, ela estava sozinha, e depois da porra da guerra todo mundo sentava onde quisesse. Apenas fechou os olhos, tendo gravado na retina a cor dos olhos dela, assim tornando suportável acompanhá-la ao Salão Principal.
X
– Por que você se sentou com ela hoje?
Estava deitado em frente à lareira, com o livro de transfiguração no colo, quando Pansy Parkinson atravessou o Salão Comunal e sentou em sua frente, com a feição séria. O cabelo dela havia crescido um pouco, atravessando o ombro, mas a franja reta – aquela que a deixava quase infantil – mantinha-se aparada. Haviam voltado a conversar aos poucos, falando da infância e de velhos costumes, mas nunca sobre a guerra, mesmo que ela sempre estivesse lá.
Já era um começo.
– Sinceramente, Pansy? Nem eu sei.
– Você pareceu estranho por um momento, o que houve?
A garota deu um sorriso de lado, mesmo com os olhos preocupados. Draco tentou retribuir o sorriso, mas sua mente não contribuía em nada.
Quando entraram no Salão Principal, poucas pessoas olharam para eles. Hermione, apesar de ter um papel importante na guerra, sem cicatriz ou Weasel ao lado não chamava tanta atenção, e ele não era mais digno de olhares depois de tudo o que fez, mas assim que os cochichos começaram, um quarto da escola estava os observando. Hermione havia sentado em sua frente, tentando inutilmente aplacar a vergonha com conversa fiada.
Quando Draco estava perto de acabar seu jantar, sentiu o arrepio subir a espinha e o início dos tremores em suas mãos. Olhou ao redor, procurando uma saída, mas só encontrou olhares e os sussurros que aos poucos foram enchendo seus ouvidos. Como um chiado, conseguiu ouvir o som de passos e ricochetear de varinhas, fazendo com que inevitavelmente sua respiração se acelerasse. Maldita adrenalina.
Hermione o encarava, uma ruga de preocupação formando-se entre as sobrancelhas. Quase sentiu o peso da mão dela sob a sua, com a ligeira carícia que o indicador fazia em sua pele, mas estava ocupado demais olhando-a nos olhos. Encarou as mãos entrelaçadas, sentindo-se menos trêmulo e mais consciente dos olhares ao redor. Olhou para Hermione vendo-a entreabrir os lábios, como se fosse dizer algo, mas deles só escaparam um suspiro.
– Draco?
Voltou à atenção para Pansy, que tinha as sobrancelhas arqueadas em espera da resposta. Draco piscou os olhos, recobrando a consciência e forçando um sorriso para ela.
– Só estou com muito sono esses dias, Pansy.
– Tudo bem, vou te deixar continuar o que você estava fazendo antes. – ela disse, sorrindo, enquanto se levantava – Boa noite, Draco.
– Boa noite.
Era lógico que Pansy não acreditara na desculpa do sono. Apesar de muitas vezes ser infantil e exagerada, Parkinson era bastante perceptiva. Ela já havia reparado o quão sonolento ele ficava, e na semana passada o havia perguntado sobre a embalagem negra que ele havia esquecido no Salão Comunal. Draco rezou para deuses que não acreditava quando a amiga apareceu com seus remédios na mão, com um olhar questionador. Provavelmente ela já tinha percebido os tremores e deve pensar que Draco está usando drogas trouxas no colégio, e que Granger é sua financiadora. Seria engraçado se não fosse tão absurdo.
Pansy sabia que tinha algo errado, mas até lá a deixaria com suas suposições.
X
Ela queria tanto descobrir o que estava acontecendo com ele. Os remédios, os tremores, o descontrole. Tudo aquilo somente a atiçava mais para desvendar o segredo que Malfoy carregava. Era bastante claro que ele precisava de ajuda, mas Draco – deixou-se saborear o nome dele em sua mente, sem se reprimir – era tão teimoso.
– Então, você está saindo com Malfoy.
Estava aconchegada na poltrona, perdida em suas suposições, quando Ron chegou de repente. Parecia zangado, e ela não teve nenhum trabalho para descobrir o porquê. Talvez ele tivesse visto o aperto de mão que ela havia dado em Malfoy como uma espécie de vingança. Ron sempre entendia tudo errado.
– Eu não estou saindo com ninguém.
– E porque não sentou do lado dos seus amigos, hein? – ele perguntou em um tom acusador, como se responder aquela questão fosse difícil demais.
– Por quê? – ela retrucou com raiva. Ron era tão idiota, sua cabeça parecia que ia explodir a qualquer momento, Harry e Ginny não estavam por perto, minha cabeça dói e eu não devo nada a ninguém, para de falar, Ronald, você não manda em mim, porra, cale a desgraça da boca. – Porque sempre que eu me aproximo do Harry ou da Ginny ou de qualquer pessoa dessa casa, você dá um jeito de puxá-la para longe de mim. Eu cansei da sua infantilidade, Ron. Cansei de tudo, pra falar a verdade. E por favor, não fale nada, eu estou morrendo de dor de cabeça.
– Você não era assim. – ele disse depois de um tempo em silêncio – Foi ele, não é?
– Ele quem, Ron?
– Malfoy. De quem você acha que eu estou falando? Do Neville?
Hermione fechou os olhos novamente, coçando-os numa tentativa falha de manter-se no controle.
– Só cala a maldita boca, Ronald, e me deixa em paz. – ela concluiu, a voz distorcida de raiva, antes de pegar sua capa e partir para a saída da Grifinória. Precisava de um lugar para pensar, para racionalizar, se não iria explodir a qualquer momento.
X
Ele estava sozinho no salão comunal quando a coruja alva de sua mãe chegou. O pergaminho enrolado na patinha era pequeno, com poucas palavras e um grande poder para tragédia. Às vezes, Draco pensava que as coisas não tinham como ficar piores – como quando ele era pequeno e Harry Potter era um patamar mais importante do que ele por conta de uma maldita cicatriz –, mas ele sempre se surpreendia.
A letra de Narcisa estava um pouco trêmula, com algumas partes do pergaminho manchadas de lágrimas. Ele a entendia perfeitamente.
Apertou o pergaminho na mão, enquanto saía do Salão Comunal. No momento, tudo parecia alegre demais, barulhento demais e ele não queria aquilo perto de si. Correu para a torre de astronomia, mesmo que aquele maldito lugar fosse palco de muitos dos seus pesadelos, mas era frio e distante, um lugar onde ele poderia se encolher e chorar suas lágrimas sem ninguém por perto para ver sua fraqueza. O que Granger dizia sobre resolver os problemas? Colocar razão, isso. Mas como colocar razão em um problema como esse? Não conseguia mais ser tão insensível.
Corria sem ver, procurando apenas a paz, ou um abraço – agora, ele precisava de ambos como nunca havia precisado. Seus olhos já estavam nublados pelas lágrimas que impedia de chorar, e com os sentidos descontrolados, facilmente trombou em alguém.
Às vezes, apenas às vezes, acasos não são apenas acasos.
– Malfoy? – perguntou Hermione, assustada, quando foi abruptamente jogada no chão.
Conseguia ouvi-lo correndo, e mesmo com o ato tão brusco, foi atrás dele. Alguma coisa em seus olhos a assustou mais do que as mãos geladas e fortes a empurrando, havia um medo tão fora de controle no cinza. Como se o problema que ele tinha naquele momento não fosse o bastante para pagar todo o mal que havia causado.
Se fosse assim, Hermione o perdoaria. Simplesmente o perdoaria, porque não aguentava mais ver tanta angústia numa só pessoa. Dividiria o fardo dele com ela, só pra não ter que, todas as noites, sonhar com cinza e sangue, ou imaginar, durante suas horas vagas e solitárias, se algum dia Malfoy seria capaz de sorrir de verdade novamente.
Correu atrás dele, sem se importar com o horário de recolher, que estava à uma hora de distância. Seguiu-o até a torre de astronomia, tendo o som de seus passos cessado. Fazia frio e ventava muito na torre, o céu meio nublado que deixava pouco espaço para as estrelas. Enrolou-se mais ainda em sua capa, os lábios tremendo um pouco. Malfoy não estava à vista, mas enquanto rondava a torre em passos lentos, à procura de algum som que não fosse o vento, conseguiu ouvir um soluço seco e torturado há pouca distância. Desceu as escadas da torre devagar, tendo sido coberta pela escuridão enquanto seguia o eco de um choro que vinha de trás da estante de telescópios.
Draco estava encolhido contra a parede, um pergaminho já muito amassado em sua mão. Não percebeu quando Hermione se agachou até ele, tentando fazer algum barulho que mostrasse a sua presença sem assustá-lo, conseguindo um ranger das tábuas. Por um momento, ele lhe lembrou uma criança que espera pelo natal durante todo o ano, para então descobrir que Papai Noel não existe, mas a dor em seus olhos ia muito além de uma crença quebrada. Era a mais pura desolação, como se ele finalmente tivesse percebido que não tinha mais ninguém no mundo ao seu lado.
Ele nunca estivera tão errado.
– Draco?
Ele se virou abruptamente para encará-la, a respiração suspensa por um segundo. Hermione pensou que ele gritaria com ela por tê-lo seguido, mas ele fez justamente o contrário; jogou-se em seus braços como a mesma criança que havia imaginado momentos antes, chorando em seu colo. Hermione o abraçou de volta, demorando a fazê-lo por conta da posição em que estava, sentando-se em seus joelhos e abraçando Draco quando ele apertou mais ainda os braços em sua cintura em um desespero irrefreável.
– Eu não vou sair daqui. – ela sussurrou em seu ouvido. Agachou-se e se aproximou da parede apenas para ter um apoio nas costas, levando-o junto.
Sentiu a mão dele apalpar as próprias vestes, um barulhinho característico rompendo o silêncio opressor do local. Draco tateou as mãos às cegas, tirando do interior da capa um frasco. Hermione lembrou-se da conversa que ele e Pomfrey trocaram, e sua intuição a forçou a pegar o frasco, recebendo um olhar intenso de volta. Malfoy tentou pegar de sua mão, mas Hermione havia jogado para longe.
– Draco, não. – ela disse quando ele fez menção de levantar, enquanto o corpo inteiro era assaltado por tremores que gradativamente aumentavam em intensidade. Com uma mão segurou o rosto dele para forçá-lo a encará-la, enquanto a outra procurava suas mãos. – Draco, eu preciso que você respire fundo, e feche os olhos. Eu estou aqui, e eu não vou embora. Draco...
Os olhos dele estavam fixos no teto, mas a voz dela dizendo o seu nome de alguma forma acalmou-o por dentro e respirar ficou mais fácil. Encarar seus olhos ficou mais fácil. Aos poucos os tremores foram perdendo força, e novamente se viu assaltado pela beleza do castanho. Pelas sardas quase invisíveis ao redor de seu nariz arrebitado.
A mão de Hermione, que ainda estava em sua bochecha, aos poucos foi parando o movimento circular que o ajudou a se acalmar, e de forma lenta, Draco aproximou seu corpo ao de Hermione, dando o tempo necessário para que ela o empurrasse caso não quisesse. Mas antes de fechar completamente os olhos, viu-a esperando por aquele contato tanto quanto ele.
Pressionou seus lábios de forma delicada, quase temerosa. Mas aquilo parecia certo – Hermione Granger, tão próxima e quente. Começou apenas como um simples toque. Desfez o aperto suave que ela havia feito em seu pulso e trouxe uma mão para a bochecha delicada, copiando o movimento que ela havia feito antes. Um suspiro entrecortado escapou por entre os lábios dela, e Draco pensou que se afogar em Hermione, em seus olhos, em sua calma, em sua essência, seria a melhor coisa que poderia acontecer em sua vida.
Beijou-a de novo, dessa vez com mais força, mais língua, mais desejo. Beijou-a em um agradecimento, um pedido de desculpas, uma confissão. A ponta dos dedos almejavam tocar sua pele macia, e sua boca nunca poderia ter outro gosto que não o de Hermione. Por um momento, ele se sentiu inteiro.
Hermione envolveu o pescoço dele com seus braços, e dessa vez não houveram alertas quando Draco a puxou para o seu colo. O frio intenso e as lágrimas no rosto dele não conseguiram tirar a beleza do momento, até o deixava mais bonito – suas respirações rápidas e os corpo colados, na escuridão da torre de astronomia, acompanhados de suas lágrimas e sua dor.
Parecia fácil como respirar.
Draco entrelaçou suas mãos antes de apoiar a testa contra a dela, deixando o pergaminho de Narcisa escorregar para dentro da palma de Hermione. Então apoiou o rosto em seu pescoço, bebendo do cheiro que ele mais tarde categorizaria como o seu mais novo vício, e deixou que ela lesse a carta.
Hermione leu repetidas vezes o pergaminho para tentar achar coesão nas palavras. Já estava amassado e a escuridão não ajudava na leitura, mas um pouco da luz da lua banhou o ambiente, deixando a tarefa mais fácil. Sua boca foi abrindo aos poucos quando compreendeu a gravidade da notícia.
– Merlin, Draco, eu sinto muito.
Abraçou-o, apertando-o num gesto de consolo. Draco aos poucos retornava a si, e demorou para devolver o gesto. Não se esqueceu do beijo, não esqueceu que foi ele quem o havia começado. Seus conceitos, tudo aquilo que havia um dia acreditado, pareciam estar se esvanecendo com o vento. Ele só queria que alguém estivesse ao seu lado agora, segurasse em sua mão e afastasse toda a sua melancolia. Mesmo que esse alguém fosse ela.
– Eu sei que ele fez coisas terríveis, mas ele não merece esse fim. Não dizem que o amor salva? Meu pai me ama, Granger. Ama a mim e a minha mãe, ama a nossa família e nosso nome. Isso é amor, e o amor perdoa, mas cadê o perdão de Lucius? Não existe cura para a varíola de dragão, não no estado em que ele já está. Ele vai morrer, quando finalmente essa guerra chegou ao fim.
A guerra não acabou, Draco, ela só se voltou para dentro de nós, Hermione pensou em dizer, mas sabia que essas palavras não fariam bem nenhum.
Ele suspirou em seu pescoço, deixando-se descansar sobre o corpo dela novamente. Hermione se desvencilhou de seus braços, sentando ao seu lado e entrelaçando sua mão com a dele enquanto tombava a cabeça em seu ombro. Não sabia se essa intimidade iria se estender até o dia seguinte. Com todas essas transformações em suas vidas, não tinha mais certeza de nada. Se há um mês lhe perguntassem sobre Lucius Malfoy, diria que pouco lhe importava a vida do homem que quase a matou, mas olhando para seu herdeiro, Hermione só conseguia sentir remorso por tais pensamentos.
Sem descruzar as mãos, Draco levantou, puxando Hermione junto. Os dois se encararam por pouco tempo, sem saber o que fazer. Malfoy tossiu rapidamente, para testar o controle de sua voz.
– Onde você jogou o frasco?
Hermione fez um feitiço convocatório e o frasco voou até sua mão. O barulho das pílulas sacudindo dentro do frasco preencheu o ambiente, e, por um momento, Draco sentiu vergonha.
– Obrigado. Por tudo.
Hermione sorriu antes de abraçá-lo. Por um momento, sentiu que ele iria beijá-la novamente – e esperou e esperou e esperou –, mas tudo o que aconteceu foi uma singela carícia do polegar contra a palma de sua mão, antes dele finalmente deixá-la sozinha com seus pensamentos.
N/A: R&R, lindas e lindos..
Publicado em: 30/05/2015.
