Nota: Foi no capítulo seis em que parei de atualizar a outra versão, então a partir daqui é só capítulo novo mesmo.


006
i'd feel better dead


we chase misprinted lies
we face the path of time
and yet i fight, and yet i fight
this battle all alone
no one to cry to, no place to call home

Nutshell, Alice In Chains.


05 DE OUTUBRO DE 1998

Para uma boa execução do feitiço de anti-aparatação, é necessário girar a varinha duas vezes, no sentido anti-horário, percorrendo o local...

Fazia quinze minutos que estava tentando terminar a sentença. Sua cabeça parecia que ia explodir a qualquer momento e todo aquele barulho apenas piorava a situação. Hermione precisava terminar aquele capítulo ainda esta noite, mas era a única naquele salão comunal que dava o devido valor aos estudos.

O lugar estava um inferno. O mar vermelho e dourado vibrava com a vitória sobre a Corvinal. Harry estava sendo carregado, sorrindo com o pomo de ouro na mão e os olhos em Ginny, que o aguardava para dar o grande beijo (como o grande casal grifinório que é, com seu grande amor, com suas grandes vitórias, pensou amarguradamente). Ron também estava sendo agraciado com atenção, contando sobre o jogo e suas maravilhosas defesas.

Que Hermione não fazia a mínima questão de ouvir.

Fechou o livro bruscamente, bufando enquanto cervejas amanteigadas eram passadas de mão em mão. Subiu os degraus até o dormitório, abrindo o malão e tirando de lá um casaco. Não estava confiando muito no clima, já que o inverno se aproximava. Sendo sincera, não estava confiando em nada, nem em si mesma. Era uma prova do quão ferrada estava a sua mente, mas agora ela estava mais preocupada com sua enxaqueca.

Correu até a saída do Salão Comunal, sem dar ouvidos ao amigo que gritava seu nome. Ginny a observou sair, impotente, percebendo com a fuga da amiga o quanto estava se sentindo sufocada. Olhou para Harry, que também estava encarando Hermione. Ela estava estranha ultimamente, comendo pouco, se atrasando nas aulas e andando com Draco Malfoy. Só o último fato já poderia deixá-la desesperada, mas a apatia de Hermione também a havia contaminado; via-se segurando as perguntas na garganta sempre que se encontravam, ignorando o pedido silencioso de ajuda que os olhos castanhos emitiam. Sabia o quanto a amiga acreditava na bondade das pessoas, mas Malfoy? Ginny ainda procurava lógica naquela porra toda.

Mas ao contrário de Hermione, a ruiva ainda acreditava na amiga.

Encontrou os olhos de Harry novamente, refletindo aquela mesma preocupação que os seus também deveriam ter. Encarou o quadro da Mulher Gorda, perguntando-se se não deveria ir atrás dela.

A voz em sua mente disse que não.

X

– Pansy? Você ouviu o que eu acabei de dizer?

Blaise acenou com a mão em frente aos seus olhos, tirando-a do transe. Não parecia nada contente ao saber que estava falando sozinho há quinze minutos, mas não era culpa de Parkinson. Não totalmente. A morena suspirou, coçando os olhos rapidamente, tentando afastar pensamentos que não convinham ao momento.

– Desculpe, Blaise, eu estou com tanto sono ultimamente... Do que você estava falando? – disse em um tom suave, esperando que a careta de desgosto do amigo não durasse tanto tempo.

– Draco, mas que porra... Eu estou preocupado com ele, Pansy. Faz duas semanas que ele está na enfermaria, e as poções já deveriam ter feito efeito. – Blaise suspirou, inclinando a cabeça e olhando a lareira. Pansy o encara preocupada. – Ele teve mais do que uma reação, isso está óbvio. A única coisa que não entendo é porque a diretora está escondendo um problema desses, porque ele está escondendo isso de nós por tanto tempo.

Pansy respirou fundo e fechou os olhos. Estava cansada, aquela merda toda estava tão confusa. Draco andando com Granger, ela tendo conversinhas com Weasley e, Merlin, como sentia falta do tempo em que as coisas eram concretas e definidas.

Ela sentia tanto por Draco. Sabia que ele ainda estava sensível com a guerra, todos estavam, e agora Lucius adoece, Narcisa estava no limite – ao menos foi o que sua mãe informou após passar uma noite consolando-a –, e Pansy ainda não tinha uma exata noção dos remédios que Draco tomava regularmente, mas sabiam que eram poderosos. Poderosos o bastante para que, usado exageradamente, pudessem matá-lo.

Suspirou novamente, sentindo-se enjoada.

– Sinceramente não sei, Blaise. Talvez ele esteja esperando o momento certo para falar sobre isso, você sabe como Draco é orgulhoso. Se estiver com um problema, só irá pedir ajuda quando for tarde demais. – ambos estremeceram com a última frase e se encararam durante poucos segundos.

– Eu sei, eu sei, só que... Tudo isso... Eu estou preocupado com ele.

– Eu também, Blaise, eu também.

X

Havia acordado, mas não sentia vontade de abrir os olhos. A luz atravessava suas pálpebras e lhe causava uma sensação de enjoo que aos poucos ele se acostumava. Estava na enfermaria a quinze dias, se suas contas estivessem exatas, e o tédio o matava por dentro. Estava proibido de fazer qualquer atividade depois que vomitou seu jantar no quarto dia naquela prisão. Madame Pomfrey havia dito que deveria desintoxicá-lo, o que demoraria ainda mais. Você quer ficar assim para sempre?, a velha havia perguntado quando lhe deu uma poção incolor com gosto e cheiro de lavanda e álcool. Ela recebeu de volta uma careta amuada, pois ele sabia que ficar assim não era apenas em relação ao enjoo.

Suspirou e deitou de lado na cama, abrindo minimamente os olhos e surpreendendo-se ao encontrar Granger deitada em um leito ao lado do seu. Ela não parecia estar dormindo, pois tinha uma ruga entre as sobrancelhas e os olhos se comprimiam de vez em quando. Os braços estavam estendidos ao seu lado, e os dedos de sua mão esquerda se movimentavam com rapidez. Desviou os olhos até o rosto dela. Apesar de delicada, a expressão de seu perfil era torturada, concentrada demais para alguém que supostamente deveria estar descansando.

Será que sentia dor?, ele se perguntou por um momento, sem deixar de encará-la.

Hermione havia apertado os olhos novamente e acenado para o vazio. Então encostou a cabeça para a esquerda e o encarou, deixando-o desconcertado.

– Ah, você finalmente acordou. – ela disse alegremente, e por um momento Draco se perguntou se a dor em seu rosto fora verdadeira ou apenas uma ilusão da sua mente insana. – Eu ouvi você se mexendo, mas decidi que não era nada demais, você tem um sono muito agitado.

Ela se ergueu na cama, apoiando-se nos braços ao estalar o pescoço com os olhos fechados. Havia afrouxado a gravata da grifinória e aberto um botão de sua camisa, fazendo com que aquele simples movimento para a direita e esquerda mostrasse um pouquinho a mais de pele. Draco engoliu em seco rapidamente, fixando os olhos nos cachos da morena para fugir dos pensamentos. Os cabelos haviam crescido um pouco e aparentavam estar até macios, ou era algum efeito da luz do ambiente.

– O que você está fazendo aqui? – passou os dedos por entre os fios loiros. Há quantas horas estava dormindo?

– Por que você sempre tem que perguntar isso quando venho aqui? – ela perguntou entediada. – Dor de cabeça. Grifinória ganhou da Corvinal. Salão Comunal está um verdadeiro inferno.

– Não quero nem imaginar. – o loiro resmungou ao voltar a se deitar, cobrindo os olhos com um braço. Ouviu Granger se mover na cama.

– Você fala isso como se sonserinos não comemorassem. – ela disse por fim.

– A questão é que sonserinos sabem festejar, não agem como trasgos em bando.

Ela soltou uma risada sarcástica, mas Draco encarou isso como um gesto de derrota.

– Deus, eu estou com tanta dor de cabeça...

Ele a olhou depois de um tempo. Novamente, a expressão torturada estava de volta, como se ela estivesse tentando se controlar. Olhos comprimidos, boca entreaberta, sobrancelhas franzidas. Passou por sua cabeça dizer eu estou pouco me fodendo com isso, Granger, mas seria mentira. Ele se importava, e foi desse jeito que descobriu. Permaneceu em silêncio durante alguns segundos, absorvendo aquela informação.

– Mas eu não estou me preocupando muito. – ela mentiu para Draco e para si mesma, sorrindo em meio à dor. – Tomei a poção e daqui a pouco faz efeito. Eu vou ficar bem...

Sua voz foi sumindo aos poucos, como se estivesse caindo no sono, mas Draco continuou a observá-la, sabendo que isso era mentira. Fazia dez minutos que ela não abria os olhos, e continuava com aquela expressão de confusão. Trocava de posição a todo o momento, murmurando algo que Draco não conseguia ouvir. Apesar de estar acordada, não estava consciente.

– O que houve com o seu cabelo? – ele perguntou depois de um tempo, quando já estava cansado demais de suas lamúrias.

– O quê? – pelo tom de voz dela, havia sido pega de surpresa. Talvez ela não estivesse mesmo acordada.

– Seu cabelo está estranho. O que você fez com ele?

– Nada demais, só usando uma poção para deixá-lo macio. – ela respondeu confusamente. Ele sorriu. – Por que a pergunta?

– Nada demais. – ele repetiu.

– Se você diz... – Hermione respondeu ao se levantar da cama. Draco continuava de olhos fechados, mas conseguia imaginá-la arrumando o uniforme. Porra. – Bem, minha cabeça está bem melhor e suponho que as coisas no Salão Comunal tenham se acalmado.

Aproximou-se de Draco, sentindo uma vontade súbita de passar os dedos pelos fios loiros. Ele havia se apoiado na cabeceira do leito, encarando-a como se procurasse respostas nos olhos dela. Movida por uma força inominável, deixou que a mão acariciasse a dele novamente. Continuou observando-o enquanto ele encarava as mãos unidas. Sua expressão era indecifrável, e por um momento, sentiu medo que ele recusasse o contato.

– Eu tenho que ir, Draco. – Hermione disse depois de alguns segundos o encarando. Afastou sua mão antes de dar meia volta e andar apressadamente até a saída da enfermaria. Malfoy a seguiu com os olhos, sentindo um comichão na pele no exato local em que ela tocou.

Ele achava que Hermione deveria dizer seu nome mais vezes. A vergonha que cobria as bochechas dela sempre que o fazia era delicada, e o jeito como apertou sua mão também. Fechou os olhos e lembrou dos dela, e pensou por um segundo se algum dia eles perderiam o efeito de deixá-lo tão exposto e vulnerável como estava naquela hora.


Eu tenho que ir, Draco.

Ela mentiu. A dor de cabeça não havia passado, mas deveria manter certa distância dele. Quando estava ao seu lado, tinha vontade de falar sobre Helena, pois sentia que talvez ele fosse entender – então se lembrava que ele era Draco Malfoy e, mesmo fodido, iria dar um jeito de humilhá-la e fazê-la esquecer que o havia perdoado. Porque era o filho da puta preconceituoso e orgulhoso que ela estava se apegando.

Murmurou a senha e entrou no Salão Comunal. Os ânimos haviam sido acalmados e apenas as conversas exaltadas de alguns alunos perturbavam o ambiente. Seus amigos estavam sentados em frente à lareira, e Ginny sorria aconchegada nos braços de Harry, até notar que a amiga havia retornado ao lugar. Gritou por ela, fazendo com que Hermione inevitavelmente fosse até a roda de grifinórios.

Ron também estava lá, próximo a Lavender. Neville tinha um lugar vago e foi ao seu lado que Hermione sentou, sorrindo vagarosamente antes de tentar se enturmar na conversa. O problema é que não conseguia. Poderia ser sua dor de cabeça ou o fato de não desviar seus olhos de Ron, mas não se sentia à vontade no local. A sensação de estar em casa havia desaparecido.

– Está um pouco tarde, eu vou dormir. Hoje foi um dia cheio. – sorriu antes de se levantar.

Ginny também o fez, e, sem intenção, foi de encontro ao corpo de Hermione, que escorregou para trás. A morena apoiou-se em Lavender antes de ir ao chão, e rapidamente se afastou, como se tivesse levado um choque. Ninguém havia percebido e Harry e Ginny a haviam ajudado a levantar. Segundos depois, Hermione se apressava em direção ao seu quarto.

Assim que chegou, fechou a porta com um estrondo e avançou até o banheiro, trancando-se lá. Foda-se que alguma das meninas necessitasse usar, aquilo era urgente. Precisava pensar. O eco de seus sapatos correndo o ambiente inteiro havia enchido sua mente e ela era apenas isso, uma cacofonia de ecos e perguntas não respondidas. Deixou o corpo escorregar até o chão, apoiando-se na parede branca e fria.

Meu pescoço... Cheiro horrível... Dentes podres... Alguém... Ajuda... Ela... Eu... Não consigo... Socorro... Me mover... Silêncio... Essa vadia e Mal... Ron... Meu... Engano...

Hermione tinha certeza que as imagens e vozes que vieram à sua mente assim que tocou em Lavender não eram suas. Era a segunda vez que algo assim acontecia e não sabia como reagir. Merlin a ajuda-se, mas não tinha ideia. E acontecia tão rápido que nem lhe dava a chance de se preparar ou pensar a respeito. Um soluço escapou de sua garganta e lágrimas quentes molharam seu rosto aos poucos. Seu corpo todo doía, principalmente a cabeça. Sua mão direita queimava, e tentou esfriá-la com a água da torneira. Encarou-se pelo espelho e tudo fez sentido.

A verdade irá se revelar.

Ainda conseguiu ver o desespero em seus olhos antes de dar as costas e correr para a cabine mais próxima. O estômago contraiu e ela vomitou durante alguns minutos, preferindo ficar ali, agachada em sua própria miséria. Deu descarga e foi até a pia, lavando o rosto. Encarou-se novamente.

No reflexo, havia sangue. Em suas mãos, não havia nada.

X

12 DE OUTUBRO DE 1998

Fora uma surpresa encontrá-lo na aula de história da magia. Não notou uma grande diferença, mas parecia mais magro do que da última vez que o havia visto. Não pôde visitá-lo regularmente, por conta das ordens de Madame Pomfrey, mas soubera que a sangue ruim andava frequentando a enfermaria. Achou-a rapidamente em uma das carteiras da frente, rabiscando alguma coisa em seu pergaminho. Viu-a olhar para Draco por cima do ombro, e reprimiu um riso odioso.

Sentou ao lado dele, que disse um simples olá, Pansy, como se não tivesse passado todo esse tempo recuperando-se do que quer que fosse. Queria poder abraçá-lo, questioná-lo sobre tudo o que aconteceu, o que diabos ele finalmente teve, mas fora interrompida pelo professor, que havia entrado na sala. Não é como se aquilo fosse pará-la, mas atrapalhava. Draco ignorou todos os seus chamados, fingindo estar prestando atenção na aula. Como se alguém prestasse atenção naquilo. Imbecil.

Suspirou e apoiou o queixo em uma das mãos, rabiscando algumas frases em seu pergaminho. Granger estava novamente olhando para Draco por cima dos ombros, e pelo que observou, ele também a estava encarando. Que patético, pensou Pansy.

Viu que não era a única observando o casal. Weasley também estava lá, encarando os dois com uma raiva mal escondida nos olhos. Por um segundo, teve pena, que logo passou quando cruzou o olhar com o dele. Sorriu de lado, sarcasticamente, enquanto ele a encarava com desgosto.

Escreveu rapidamente em seu pergaminho, arrancou um pedaço e deixou-o cair no chão. Com um movimento da varinha, guiou o bilhete por baixo das carteiras até Weasley, que despreocupadamente se agachou e o pegou. Desembrulhou e leu rápido demais, amassando-o logo em seguida para colocar em um dos bolsos de sua veste. Ainda não conseguia tirar o sorriso do rosto quando ele novamente a encarou, mostrando-lhe discretamente o dedo do meio enquanto arrumava o cabelo ruivo. Sorriu para si mesma.

Suspirou fundo antes de voltar para as suas falsas anotações, iniciando um desenho de um Ronald Weasley chorão e com chifres. Novamente amassou o pedaço de pergaminho, enviando-o até o ruivo. Quando ele o viu, ficou vermelho de raiva. Ele a encarou e disse "vai se foder" lentamente, para então não mais olhá-la. Depois de alguns minutos, o sino havia tocado e ela percebeu que infernizar a vida de Weasley era realmente um bom passatempo.

Seus pensamentos foram interrompidos quando McGonagall entrou na sala, fechando a porta logo em seguida. Seu rosto aparentava a seriedade que ostentava todos os dias, mas havia algo de errado. Pansy sentiu.

– Draco Malfoy? – ela perguntou, e sua voz ecoou como um agouro pela sala.

Draco levantou de sua carteira, postura ereta e sobrancelhas franzidas. Olhou para Pansy por um segundo, com confusão, para no mesmo instante voltar os olhos à diretora.

– Por favor, siga-me.

McGonagall não deu tempo para contestações e saiu da sala em passos firmes. Draco arrumou rapidamente suas coisas e seguiu a professora de transfiguração. Parkinson também havia se apressado, tentando pegar o máximo possível da conversa que havia se iniciado no corredor ainda silencioso.

– ... a carta da Sra. Malfoy hoje, e receio que as notícias que irei lhe dar não são boas...

Pansy sentiu as mãos suadas quando as apertou contra os livros, os ombros pesando uma vida inteira. Engoliu em seco, pois Blaise e ela haviam discutido sobre a situação da família Malfoy e ela sabia. Puta merda.

Desgraça pouca é bobagem.


N/A: R&R.

Publicado em: 30/05/2015.