Nota: Enfim, um capítulo totalmente novo. Eu nem sei se ainda tenho leitores, mas estou rezando para que sim. Espero que vocês gostem.
007
the sky above us shoots to kill
alone in the wind and the rain you left me
it's getting dark, darling, too dark to see
and I'm on my knees, and your faith in shreds, it seems
Thistle and Weed, Mumford and Sons.
12 DE OUTUBRO DE 1998
O que separa uma mente sã da loucura?
Sua paz de espírito havia sido roubada, e para Hermione custava pegar no sono. Mas não é como se ela o desejasse – se já era horrível ficar acordada, dormir conseguia ser ainda pior.
Helena ficava mais forte a cada dia. Consumia sua sanidade, aproveitava-se de sua fraqueza. Sentia suas energias sendo sugadas sem piedade a cada minuto que passava. E o monstro na verdade era ela.
Evitava ficar pensando nisso, mas era impossível. Helena estava em todos os lugares, e quando se sentia segura de si novamente, ela ouvia sua voz em seu ouvido sussurrando coisas terríveis.
Além de tudo isso, havia Malfoy.
Como se o próprio garoto já não sofresse o bastante, agora lhe era tomado outra coisa. Logo quando havia se recuperado da porra de uma overdose, recebera a notícia de que seu pai havia falecido. Estava a caminho do jantar quando a fofoca chegou aos seus ouvidos, e correu até a torre de astronomia, encontrando-o encolhido no mesmo local da última vez. Aproximou-se dele com cuidado, temendo alguma reação exagerada, mas logo percebeu o quão torpe ele estava.
Engoliu em seco e a respiração travou na garganta. O peito pesou em desespero.
– Draco, quantas pílulas você tomou?!
Ele virou a cabeça em sua direção, mas seus olhos não conseguiam focar em seu rosto. Haviam lágrimas secas em suas bochechas e sua língua engrolava na hora de falar, e foi nessa hora que ela sentiu o cheiro pesado de firewhiskey no seu hálito. A garrafa pela metade estava ao lado do corpo, e o alívio de Hermione veio com um gosto agridoce.
– Draco, por favor, você tomou alguma pílula?
Ele negou com a cabeça, encostando-a na parede para então começar a chorar novamente. Hermione se sentiu tão desolada naquele momento, observando-o daquele jeito. Malfoy estava um caco. A atitude despreocupada que ele forçava durante o dia rachava-se quando se encontrava sozinho. Não era nenhuma surpresa o seu escapismo. O álcool mata de forma lenta.
O problema todo era que ele havia acabado de sair de um tratamento de reabilitação, e sua intuição lhe dizia que ele não havia largado completamente as pílulas. E agora firewhiskey entrava na equação. Malfoy tentava de todos os jeitos uma forma de escapar da realidade, e Hermione sentia a impotência nos ossos. Ela queria tanto ajuda-lo.
Ou ele é a sua saída de escape da realidade, sua santa fajuta de merda.
Fechou os olhos e calou a voz em sua mente.
– O que... o que foi que você disse? – perguntou Malfoy, lentamente. Ainda mantinha os olhos fechados e as lágrimas continuavam a escorrer pelas suas bochechas vermelhas. Trouxe a garrafa para a boca e bebeu uma grande golada.
– Eu disse que você deveria parar de beber. – mentiu rapidamente, dando-se conta de que verbalizou os pensamentos de outra. Malfoy riu sarcasticamente, e como se aquilo fosse uma resposta, bebeu novamente.
Respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. O ideal seria uma poção contra ressaca, mas pedir uma a Madame Pomfrey seria burrice, e ela não conseguiu lembrar de ninguém que pudesse ter um estoque. Teria que seguir com métodos trouxas. Primeiro de tudo ele devia beber muita água e comer algum carboidrato, mas não se atreveria a deixa-lo sozinho agora. Indo contra todos os seus princípios, Hermione chamou por Winky, requisitando dois jarros de água, um suco de laranja, uma sopa, dois pães e o mais importante, seu segredo. Em poucos minutos, a elfa doméstica trouxe o que lhe foi ordenado numa grande bandeja, e desejou melhoras ao Sr. Malfoy. Este apenas meneou a cabeça antes que Winky desaparecesse em um baixo puff.
A segunda coisa que deveria fazer era separá-lo daquela garrafa, e foi o que fez. Encontrou pouca resistência da parte dele, que continuava de olhos fechados, a postura largada contra a parede. Hermione sentiu pena.
– Ele morreu... – disse Draco, por fim. Sua voz engrolava mais a cada palavra, e por algum motivo ele começou a rir. – Eu morria de medo do meu pai na infância, com aquelas roupas pretas e sempre falando de sangue... eu queria ser tão grande quanto ele e até conseguia ser, mas aí Potter apareceu... – ele proferiu o sobrenome de seu amigo com um rancor antigo antes de soluçar. Estava mergulhado em lembranças, e Hermione achou melhor deixa-lo desabafar. - e tudo foi por água abaixo. E você também. Sempre perdendo pra uma maldita sangue ruim dentuça e metida a sabe tudo...
Doeu mais do que ela admitiria ter doído, e como se soubesse disso, ele finalmente entreabriu os olhos e a encarou. E o que Hermione viu ali era quase um pedido de desculpas. Draco soluçou e jogou a cabeça pra trás, respirando fundo e parecendo se controlar pra não vomitar. Demorou até falar novamente.
– Eu odiava você, sabia? Odiava muito, muito, muito... E hoje eu não sei de mais nada... Eu tô fodido, Granger... Ele tá morto e eu tô aqui chorando por um assassino... Mas eu também sou um assassino... E ele era meu pai... E eu tô muito, muito fodido... Ele tá morto, Granger, e a minha mãe tá sozinha e louca, e eu tô louco também... Ele morreu...
Ele continuou a repetir a frase para si mesmo e recomeçou a chorar. Hermione se aproximou e segurou a sua mão, puxando-o para perto. Ele se derrubou em seu colo, aninhando-se. Hermione trouxe as mãos até o cabelo e testa de Malfoy, fazendo movimentos circulares que logo o levaram ao sono. E foi assim que ela também adormeceu, com as pernas dormentes e Draco Malfoy nos braços.
Quando acordou, o castelo estava em um silêncio mortal, e Draco ainda dormia em seu colo – até roncava um pouco. Hermione previu que já se passava do horário de recolher, e que a melhor opção era permanecer onde estava. Esperava que seus amigos não tivessem dado conta de sua ausência, e que o resto dos alunos não somassem dois mais dois e descobrissem que Hermione Granger e Draco Malfoy não estavam presentes no jantar.
Suas pernas doíam e suas costas pareciam gritar por um descanso. Espreguiçou-se, e deixou que as mãos caíssem nos cabelos de Draco. Eram muito macios, tão lisos quanto possível, de um tom loiro platinado inconfundível. Entrelaçou os fios entre os dedos, desejando nada mais que deitar em uma cama macia, mas não querendo largar aquela carícia que tanto lhe agradava oferecer.
– Se você continuar fazendo isso, eu vou acabar dormindo de novo.
A voz dele quebrou o silêncio e a fez pular de susto. Estava mais pesada e com um toque de ressaca no tom grave. Ele deixou escapar um suspiro que atingiu as coxas cobertas pela saia, fazendo com que Hermione tencionasse todo o corpo. Em seguida saiu de seu colo, jogando-se contra a parede ao lado dela. Se percebeu o seu nervosismo, não mostrou sinais.
– Você está bem? – perguntou, e pelo olhar que recebeu de Malfoy se deu conta de que aquela era uma pergunta bastante estúpida.
– Minha cabeça dói pra caralho, mas já enfrentei ressacas piores. – ele resmungou por fim.
– Passamos do horário de recolher. – disse Hermione como uma forma de quebrar o silêncio constrangedor que se seguiu.
– Não me diga, Granger?!
Hermione rolou os olhos, e tratou de se espreguiçar adequadamente. Estalou as costas, pescoço, dedos, até mesmo os pés. Quando finalmente suspirou em alívio, percebeu o olhar quase divertido de Draco.
– Parece que alguém é desmontável.
Hermione tentou sorrir de volta. Seu corpo todo doía por ter ficado tanto tempo numa mesma posição. Novamente se espreguiçou e começou a se aprontar para deitar no chão da torre de astronomia. Naquele horário, o frio estava cortante, mesmo ali escondidos embaixo do grande telescópio. Percebeu-se tremendo.
– Se você for ali vai achar alguns cobertores. – Draco apontou para um armário um pouco distante de onde eles estavam. – As pessoas de fato veem estrelas nesse lugar.
– Essa foi péssima, Malfoy.
– Se não deu pra perceber, eu não estou no meu melhor estado. – ele soltou uma risada seca. – Pega logo esses cobertores antes que a gente congele até a morte.
Hermione foi até o local apontado e pegou três grossos cobertores. Quando voltou, viu que Draco já havia reaquecido a sopa e estava quase terminando. Escondeu o sorriso e tratou de improvisar uma cama para os dois. O pensamento a fez corar.
– Dois jarros de água? Você acha que eu vou secar isso tudo sozinho?
– Você bebeu demais e precisa se hidratar. – respondeu naquele tom de voz que não dava espaço para argumentos, buscando o suco de laranja e tomando pequenos goles, enquanto Draco bebia a água aos poucos.
– Nós dois na torre de astronomia, alguns cobertores e uma garrafa de firewhiskey. Quem diria, hein Granger? – comentou Malfoy em um tom de brincadeira.
A falta de resposta de Hermione fez com que Malfoy risse um pouco mais alto.
– A Srta. Certinha tendo pensamentos maliciosos comigo e uma cama? – perguntou em um tom zombeteiro. – Então quer dizer que existe um lado sacana em Hermione Granger?
Ela o empurrou antes que pudesse continuar. Hermione tinha as bochechas coradas de vergonha, e tratou de se ocupar em mordiscar um dos pães e ter a desculpa de que estava fazendo alguma coisa. Comeram em silêncio, aproveitando aquele breve momento de descontração antes que o peso do mundo e do luto voltasse.
– Eu tô morrendo de dor de cabeça. Não trouxe nenhuma poção para ressaca?
– Como se eu andasse com esse tipo de poção por aí.
– Uma para dor de cabeça bastaria. – resmungou baixinho, finalmente se deitando no cobertor e trazendo o outro para se cobrir.
– Eu não pensei que encontraria você naquele estado, Malfoy. – deixou escapar sem querer. Se arrependeu de ter falado assim que as feições dele endureceram.
– Muito obrigado por lembrar, era melhor ter ficado calada.
Encarou-o com raiva, mas ao mesmo tempo forçou-se a lembrar que ele estava passando por muita coisa. Suspirou em resignação, e também deitou no cobertor, de costas para ele. Passaram-se minutos até que sentiu uma mão tocar de leve seu ombro por baixo do cobertor.
– Me desculpa.
Hermione fingiu continuar dormindo. Ele retirou a mão de seu ombro e suspirou, e para Hermione pareceu que seria apenas isso, mas ele continuou.
– Eu... eu não deveria ter sido grosso contigo. O enjoo e a dor de cabeça me deixam pior do que o normal, e eu...
– Eu já enfrentei palavras piores.
Sentiu-o relaxar ao seu lado. Virou-se e procurou sua mão, encontrando-a ao lado do corpo, a espera da sua. Entrelaçou-as. Draco sorriu um sorriso triste, e por um momento Hermione pensou que ele fosse chorar, mas ele apenas continuou segurando sua mão com força. Ela não fez menção em sair de seu aperto, e foi assim que ficaram por um bom tempo.
– Eu sinto muito, Draco.
– Eu sei, Hermione.
X
13 DE OUTUBRO DE 1998
Pansy havia procurado por Draco a noite inteira, mas quando deu o horário de recolher, foi obrigada a esperar no Salão Comunal. Blaise lhe fez companhia, também preocupado com o amigo, mas quando a madrugada chegou, ele acabou desistindo. Pansy estava resignada. Não sairia daquela maldita poltrona antes de falar com Draco.
Acabou dormindo durante a sua vigília, e acordou com passos pesados. Antes que pudesse acordar plenamente, sentiu os dedos de Draco acariciarem sua testa.
– Você deveria ter ido dormir, Pansy.
Ele cheirava a firewhiskey e ressaca. Pansy se acomodou melhor na poltrona, tentando aparentar estar com raiva, mas a expressão no rosto dele a desarmou.
– Onde você estava?
– Me afogando no luto e na bebida, não deu pra perceber? – ele disse simplesmente, jogando o seu manto no sofá.
– Eu te esperei a noite toda, eu queria falar contigo sobre o que... – foi interrompida por um simples aceno de cabeça. Por algum motivo ela sentiu sua garganta se comprimir com o gesto.
– Não precisa, Pans. Eu estou bem. De verdade. – e quando ele a encarou de volta, deve ter visto as lágrimas presas entre seus cílios e seu rosto se suavizou.
Ofereceu-lhe a mão e Pansy a tomou, correndo até os seus braços. Ela o apertou com força, e se surpreendeu com todas as lágrimas que vieram. Sentiu tanto medo por ele. Sentiu medo que ele fizesse outra loucura, que dessa vez alguns dias na enfermaria não conseguiriam trazê-lo de volta.
– Shhh, está tudo bem, Pans. Está tudo bem, pode chorar.
Este era um Draco que ela pensou que nunca mais iria ver. Calmo, controlado. Gentil. Isso a fez chorar mais.
– Eu é que deveria estar te consolando, não o contrário. – ela disse assim que conseguiu se recompor.
Por algum motivo ele sorriu, em paz.
– Fiz as pazes com o que aconteceu com o meu pai. Existem coisas que a gente não pode simplesmente negar.
– Ela te ajudou, não foi?
Sentiu-o tenso ao seu lado, e logo se arrependeu de ter aberto a boca. Draco suspirou e tirou os braços dos seus ombros, levantando-se.
– Sim, Hermione Granger tirou uma garrafa de firewhiskey das minhas mãos e me arrancou da miséria. Era isso que você queria ouvir, Pansy?
– Draco, me descu-
Mas ele já estava longe demais para ouvi-la.
X
Encarou-se no espelho.
Estava cansado. Muito cansado. Seu estômago estava um pouco embrulhado, mas as precauções que Granger tomou o haviam ajudado. Uma simples poção para ressaca o deixaria novo em folha, e a perspectiva o deixava aterrorizado.
Pensou na morte do pai novamente e, mesmo com aquele pensamento tão recente, continuava dono de si. Não havia tremores, não havia o medo sufocante. A imagem de Granger adormecida ao seu lado engolia todas as suas memórias ruins e o deixava em paz.
Draco não sabia mais o que era aquilo, e isso lhe dava tanto medo – um novo tipo de medo, um que não estava acostumado. Pensar em Granger o assustava. Sentia o corpo tomado por sensações que lhe eram raras, até mesmo antes de suas crises. O nervosismo e a calma que sentia só podiam ser uma coisa.
E essa coisa era impossível de existir, não poderia existir.
Encarou-se no espelho.
Existem coisas que não podem ser negadas.
N/A: Então, o que vocês acharam? Sério, pessoal que está lendo, comentem. É horrível pensar que está escrevendo para o vento. Eu já nem sei mais se tenho leitores, e, se tiver, gostaria de saber a opinião de vocês. Comenta nem que seja um "adorei, nota cinco". Até a próxima, Nanda.
Publicado em: 30/05/2015.
