Nota: Esse capítulo veio tão mais rápido que o outro por conta das reviews. Vocês não imaginam o quanto fiquei feliz em receber cada uma delas. A faculdade está em greve, então tempo para escrever foi o que não me faltou. Aos poucos vou superando esse writer's block que tomou conta de mim e atualizando cada vez mais rápido.
A música do capítulo é a coisa mais linda de todas, e me deu um pique danado pra escrever, sem falar que ela é a cara da fic. Todo o meu amor para Damien Rice, esse lindo que com certeza tem um perfil no ffnet cheio de dramiones.
008
water races down the waterfalls
and if ever you need someone
well, not that you need helping
but if ever you want someone
know that i am willing
I Don't Want To Change You, Damien Rice.
15 DE OUTUBRO DE 1998
O enterro de Lucius ocorreu dois dias após sua morte, em uma cerimônia privada. Além de Draco e Narcissa, alguns poucos membros de famílias puro sangue apareceram para prestar suas condolências. Draco não se lembrava muito de seus rostos ou do que aconteceu. Seus olhos estavam fixos em suas mãos ligeiramente trêmulas, questionando-se quando seria o momento em que perderia o controle. Foi pego de surpresa quando o cerimonialista o chamou para finalmente incendiar o caixão de seu pai. Vítimas de varíola de dragão não podem ser enterradas. O vírus se infiltra na terra, adormecido, até achar caminho até coisas vivas.
Ele contou três respirações profundas antes de sussurrar um incendio. As chamas vieram logo depois. Os tremores, não.
Draco sentia-se estranho, tomado por uma ansiedade esquisita. Ele sabia que teria um ataque de pânico a qualquer momento. Talvez até precisasse de um. Não tê-lo era como se uma parte de seu corpo tivesse sido arrancada. Havia se acostumado com sua situação de tal maneira que estar normal novamente lhe era surreal.
Estar há dias sem sentir medo era a confirmação necessária para admitir que precisava dela. De Granger. Mais do que pensava precisar.
Existem coisas que não podem ser negadas.
E o amor é uma delas.
X
19 DE OUTUBRO DE 1998
Sua mão esquerda estava coçando pra caralho.
Não conseguia mais parar de arranhar. Desde aquela noite com Draco, após a descoberta da morte de Lucius Malfoy, o vício havia voltado mais forte do que nunca. Hermione fingia não entender qual fora o gatilho que a empurrou novamente para o auto mutilamento. Preferia não enxergar a verdade. Era mais fácil lidar com os problemas quando você esquece sua causa.
Encare o espelho, sua filha da puta estúpida.
– Cale a boca.
– O que foi que você disse? – perguntou Harry com uma ruga entre as sobrancelhas.
Isso estava acontecendo com uma frequência assustadora. Hermione parecia ter perdido o completo controle sobre o que falava. Em momentos verbalizava os pensamentos de Helena, em outros, respondia-os em voz alta. Se toda a casa da Grifinória já a achava louca por começar a andar com Draco Malfoy, não gostava nem de imaginar se soubessem o quão verdadeiramente louca ela estava.
Por que isso era loucura, não era? Ouvir vozes em sua cabeça? Conseguir ter acesso às memórias mais terríveis dos outros através do toque?
Ela não queria enlouquecer. Ela não podia enlouquecer. Não podia, não podia, não podia.
– Hermione, você tá legal? – Harry perguntou novamente, e dessa vez sua voz estava carregada de preocupação.
Sua mão esquerda coçava, e ela a arranhava sem perceber. E, caso tivesse percebido, veria que os arranhões já estavam tirando sangue. E que a aparência de sua mão estava horrível. E, se não estivesse tão fora de si, saberia que toda a sala de aula agora prestava atenção nela. Que ele prestava atenção nela. Mas ele também era louco, então não teria problema, certo?
– Hermione! – Slughorn disse enquanto colocava as mãos em seus ombros, sacudindo-a um pouco e tirando-a do torpor.
– Eu não estou louca. – foi tudo o que Hermione conseguiu dizer.
Slughorn separou suas mãos delicadamente, preferindo não notar o sangue que escorria até a ponta dos dedos. Soltou um riso nervoso para tentar diminuir a tensão crescente na sala de aula.
– Oh, todos nós sabemos disso, querida. Parece que a nossa Hermione ficou muito tempo respirando o vapor do jasmim negro. Perigoso, perigoso. Causa alucinações e alergias. Vamos, querida, você precisa ser encaminhada para a enfermaria logo. Certamente Pomfrey terá uma poção revitalizadora e algo para a sua mão...
– Professor, eu posso leva-la. – Harry disse, não se preocupando com a sua poção, que ficava lilás a cada segundo, quando deveria ficar roxa.
– Você nem terminou sua poção, Potter, e é bem provável que tenha que refazê-la. Professor, eu já finalizei a minha.
Uma parte da sala prendeu a respiração assim que ouviu sua voz e virou-se para encará-lo. Eles ainda não haviam se acostumado com o que estava acontecendo, e uma coisa era saber através de fofocas e outra era ver acontecendo em sua frente. Hermione e Malfoy eram amigos. Ou algo do tipo.
Malfoy precisou de muita coragem para poder levantar da cadeira, falar em voz alta e enfrentar todos os olhares que se seguiram. Sua confiança voltava aos poucos, e agradecia a Hermione por isso. Já fazia dias que não se encontravam na biblioteca, e, por algum motivo, ela parecia fugir dele. Draco não conseguia entender. Eles haviam se despedido de forma pacífica na última vez que se viram. Não havia feito nada contra ela para ser tratado assim. Ficar longe de sua presença, logo quando finalmente se deixava admitir que gostava dela, estava sendo difícil pra caralho.
Mas agora começava a entender o porquê de ela ter se afastado, ou ao menos ter uma dimensão. Hermione estava um caco, e, mesmo de longe, dava para ver o que havia feito na própria mão. A compreensão de que todos haviam saído traumatizados daquela guerra aos poucos o preenchia. Hermione sofria calada. Draco havia estado em seu lugar, ele compreendia sua reação, a de afastar todos aqueles que se importavam com ele e afundar na própria insanidade. E ela o havia ajudado. Este era o momento dele ajuda-la também.
Harry respirou fundo. Ele não sentia mais raiva de Malfoy, mas não gostou de saber que ele estava se encontrando com Hermione. Ela andava estranha esses tempos, mas Harry achava que era por conta de Ron. Agora ele não tinha tanta certeza. Uma parte dele acreditava que Malfoy estava fazendo algo com ela, e outra achava que o problema ia mais além. Sempre que Harry se encontrava com Hermione no salão comunal, ela estava agitada e desatenta demais, com uma palidez doentia. Não tinha visto que havia voltado a arranhar a costa da mão esquerda, já que sempre cobria com a capa, mas hoje ela não teria mais como negar.
Hermione precisava de ajuda. Só bastava ela perceber isso.
– Sendo assim, Sr Malfoy, você poderá acompanhar a Srta. Granger até a enfermaria. O resto da classe, voltem para as suas poções ou todos terão que recomeçar. E cuidado com o vapor do jasmim negro!
Draco rapidamente reuniu suas coisas e já estava ao lado de Hermione quando esta terminou de arrumar as suas. Um pouco de cor havia voltado para as suas bochechas, mas um suor frio teimava em permanecer grudado em seu pescoço. Draco não deixou que ela carregasse a própria mochila, levando assim uma em cada ombro, e a guiou até a saída da sala com uma mão em seu braço. Sentiam os olhares da sala os seguindo até mesmo quando fecharam a porta.
X
É patético o estado de negação em que você se encontra, Hermione. E todas as desculpas que você procura para não aceitar a realidade, escondendo-se atrás de pequenas vitórias, irão lhe levar a lugar nenhum. Mas devo lhe dar os parabéns por Malfoy, ele de fato melhorou. Como você tomou para si a tarefa de ajudar o pobre desgraçado, você precisa saber o que ele passou. Precisa sentir.
Você descobrirá a verdade, custe o que custar.
X
– O que está acontecendo com você? – Draco perguntou assim que estavam distantes o suficiente da sala de poções.
A caminhada até a enfermaria não seria longa, mas Hermione sentia que uma eternidade passaria até o fim daquela conversa. Respirou fundo, o ar em seus pulmões queimando ao entrar, como se tivesse passado muito tempo debaixo d'água.
– Não me faça perguntar duas vezes, Granger.
– Não é da sua conta, Malfoy.
– Não é da minha conta? – ele perguntou cinicamente, soltando uma risada de escárnio logo depois. – Faça-me o favor.
– Você não conseguiria entender de qualquer jeito. – disse Hermione desatenta, pressionando a mão esquerda contra o peito. Sua capa estava suja de sangue, mas ela não parecia se importar. Também não se importou com a raiva que parecia emanar da pessoa ao seu lado.
Ele parou de andar e jogou as mochilas no chão. O barulho a fez pular de susto. Malfoy a encarava, seu peito subindo e descendo com velocidade. Suas mãos estavam em punhos, e ele sentia necessidade de socar algo, quebrar algo. Não conseguiria entender. Precisou se controlar muito para não começar a gritar as palavras em seu rosto assustado.
– Você pode não querer me contar o que está acontecendo com você. Tudo bem, eu entendo. Mas não abra a porra da sua boca pra dizer que eu não conseguiria entender. Você sabe muito bem pelo que eu passei, Granger, pelo que eu estou passando. Você praticamente me forçou a confessar o meu maior segredo quando eu estava na porra de uma maca. Você me ajudou quando eu estava na merda, e agora eu quero retribuir o favor. Porra, o que tá acontecendo com você? Porque tem algo de errado contigo, Granger, e isso – ele puxou o seu punho esquerdo, sujo com sangue seco, e aproximou de seu rosto – não é coisa de gente sã.
Hermione tremia, ele sentiu, e a culpa pela explosão aos poucos se infiltrava em seu peito. Essa não era a forma correta de se aproximar do problema. Não deveria ter sido assim. Ele soltou seu pulso quando ela o puxou e se afastou dele. Hermione não conseguia encara-lo, mesmo se quisesse. Manter a fachada estava lhe tomando todas as energias, e sabia que, uma hora ou outra, ela não seria capaz de conter a si mesma. O momento chegou, e ela não sabia o que fazer.
Sentiu uma mão em seu ombro, e foi como se algo dentro de si tivesse se quebrado.
– NÃO ME TOCA! – Hermione gritou, virando-se para encarar um Malfoy atônito. – Por favor, não me toca, por favor...
Sua voz foi esmaecendo à medida em que ela escorregava até o chão. Abraçou os joelhos, como uma menininha assustada. Os soluços vieram logo em seguida, e ela se percebeu chorando. Malfoy se ajoelhou em sua frente, tomando cuidando para não tocá-la, e Hermione se encolheu mais um pouco.
– Hermione, me deixa ajudar você.
Ela ficou em silêncio por um tempo, e parecia para Draco que ela não falaria mais nada. Se deu por vencido e decidiu que buscaria por uma resposta quando ela estivesse mais calma. Agora deveria leva-la para a enfermaria e cuidar da sua mão. O sangue havia secado sob os três arranhões mais profundos. Na mão direita, embaixo das unhas, havia resquícios de pele. Era um pouco perturbador. Draco afastou os olhos e se preparava para levantar quando ela tocou o seu ombro, impedindo-o.
– Draco, me dá a sua mão. – ela disse em um fio de voz.
Sem entender, Draco lhe ofereceu a mão, e Hermione a entrelaçou com a sua direita. Seu toque era frio, e Draco sentiu um arrepio descer pela sua espinha. O que quer que Hermione estava planejando ainda não havia acontecido, mas assim que ela respirou fundo pela terceira, ele entendeu.
Faça, Draco, ela merece isso... Você é um garoto estúpido igual ao seu pai... É só mais uma sangue ruim nojenta, Draco... O Lord das Trevas ficará tão feliz com sua devoção... Crucio...
Ele se afastou rapidamente, empurrando sua mão para longe da dela, e procurando se levantar. Hermione se mantinha no chão, encarando as próprias mãos, e havia um brilho de resignação em seus olhos. Ele sentiu medo, mas ele precisava ser forte. Ele tinha que ser forte. Encarou as próprias mãos. Não tremiam.
– Que porra foi essa, Granger? – perguntou com algo que poderia ser raiva, mas ela entendia melhor que isso.
– Agora você entende? – Draco a encarou. – Eu finalmente enlouqueci de vez.
N/A: Capítulo curtinho, mas muito gostoso de escrever. E aí, o que acharam? Obrigada a todas e todos que mandaram review. O próximo capítulo talvez venha tão mais rápido quanto esse, depende do pique, das reviews e do universo. Beijos, Nanda.
Publicado em: 05/07/2015.
