Nota: Eu amo demais a música desse capítulo. É uma grande mashed envolvendo Moolight Sonata do Beethoven como fundo, a letra de Everything is everything do Phoenix, uma fala do Mickey Rourke em The Wrestler e backing vocal de Nude do Radiohead. E tudo isso foi mesclado perfeitamente.
SE ISSO NÃO É UMA OBRA DE ARTE, EU NÃO SEI O QUE É.
Como prometido, o capítulo nem demorou tanto pra sair.
011
you know it all
everything is everything
the more i talk about it, the less i do control
everything means everything
can't understand a word, half of the stuff i'm sayin
Moonlight Sonata Mashed.
Quando Hermione acordou, a primeira coisa que sentira fora o cheiro dele. Estava em todo lugar, e era a melhor coisa do mundo.
Era pesado de um jeito bom. Assim que o inspirava, sentia vontade de se afundar ainda mais na cama e trazê-lo consigo. Tinha notas terrestres, sem dúvida. E algo que ardia um pouco, só um pouquinho, para lembrar a todos o bastardo rico que ele ainda era. Havia algo de menta. E um pouco de maçã, bem lá no fundo.
Hermione não sabia muito sobre cheiros, mas naquele momento ela percebeu que amava o de Draco Malfoy.
Antes de finalmente abrir os olhos, sentiu a batida calma do coração dele batendo na palma de sua mão. Daquela forma que as lembranças vêm ao despertar, Hermione lembrou do dia em que o encontrou perdido e desesperado na Torre de Astronomia. Comprimiu o corpo ao dele ainda mais. Havia algo de reconfortante em pressionar seu corpo contra o de outra pessoa e simplesmente confiar que ela não lhe faria mal algum. E teve a estranha realização de que confiava absurdamente em Draco.
A vida toma umas direções estranhas, ela pensou.
– Boa noite, Hermione.
A voz dele vibrou por todo o seu corpo, deixando-a arrepiada por inteiro. Não queria erguer a cabeça e encará-lo. Primeiramente por estar com mau hálito após tantas horas de sono – haviam sido horas?, ela pensou, o corpo descansado demais para um mero cochilo –, e segundo porque sentia que não conseguiria encará-lo nos olhos sem ter vontade de despejar tudo aquilo que sentia, tudo aquilo que temia. Ela lera em algum lugar que dormir ao lado de alguém trazia uma estranha sensação de confiança. Se você consegue manter sua guarda aberta para uma pessoa sem se sentir ameaçado, você pode confiar nela, disse a pesquisa. Hermione achava aquilo bastante lógico, mas nunca aplicara na realidade. Durante a guerra, ela, Harry e Ron dormiam muito próximos, mas nunca desse jeito. Nunca abraçados e entranhados numa maca de hospital. Nunca de forma que ela pudesse apoiar a mão em seu peito e contar seus batimentos cardíacos e saber que eles aceleravam sempre que aconchegava-se mais a eles.
Ela gostava da sensação. Deus, ela precisava dela.
– Você acordou mesmo ou eu vou ter que te empurrar da cama? – ele perguntou com um tom ameno de ironia.
– Me empurrar da cama?! Você tá falando sério? – ela respondeu rápido demais, ajeitando-se na cama para poder encara-lo ultrajada.
– É fácil conseguir uma reação sua, Granger. – Draco riu de leve, o peito subindo e descendo, e Hermione se arrependeu de ter se erguido porque aquela era uma vibração que odiara ter perdido.
– Até a pouco tempo atrás era Hermione... – ela murmurou voltando a se aconchegar em seu peito.
– Eu posso te chamar de Hermione se você quiser. – respondeu, permitindo-se um pouco mais de egoísmo ao erguer a mão direita para acariciar os cachos rebeldes.
– Eu gosto de Hermione. Só Hermione.
– Tudo bem, Só Hermione. Considerando que nós dois já dormimos juntos duas vezes, eu poderia até te chamar de meu amor, não é mesmo? – fora impossível esconder a felicidade por trás da provocação, mas ele nem ao menos tentara fazer isso.
– Para de dizer isso! Se alguém ouvir, pode imaginar errado!
Draco ria das suas tentativas de calá-lo, tentando tampar a boca com a mão enfaixada. Seu sorriso foi morrendo aos poucos, e Hermione finalmente reconheceu a mão ferida. Ela não coçava mais, mas ela se perguntava até quando isso duraria. Draco tomou sua mão esquerda e aos poucos foi retirando as ataduras. Limpou o excesso do unguento, revelando a pele sensível por baixo. Entrelaçou suas mãos e trouxe-as até o seu peito, puxando Hermione para o lugar onde ficou dormindo por horas. Ela se aninhou novamente, e deixou escapar um sorriso tímido quando sentiu os lábios dele roçarem em sua testa.
– Você precisa falar sobre isso com alguém. – ele disse por fim.
Hermione suspirou. – Eu sei, eu só... é difícil, Draco.
Draco a apertou ainda mais, e ela se perguntou se essa sensação de plenitude era aquilo que as pessoas definiam como paz de espírito. Nos milésimos de segundos que se passaram, sentiu medo de descobrir a resposta para a sua dúvida e estragar tudo aquilo que estava sentindo.
Pela primeira vez na vida, Hermione Granger optou pela ignorância.
– Você sabe há quanto tempo eu não tomo uma pílula? – ela acenou negativamente com a cabeça ainda apoiada em seu peito, e naquele momento Draco sufocou o desejo de beijar a testa dela novamente. – 14 dias. Às vezes até esqueço o quanto precisava dos remédios. Eu consigo respirar sem medo. Eu consigo... Hermione, eu consigo lembrar da guerra sem fugir pra saída mais próxima possível. Eu consigo ficar em paz com a minha própria mente. Isso era algo que eu achava impossível. Estava tão acostumado com a dor que, quando finalmente entrei no verdadeiro processo de cura, eu fiquei com medo de ficar bem. Isso é fodido pra caralho.
Enquanto o ouvia, Hermione inconscientemente desenhava círculos nos botões da camisa dele. A mão dele cobriu a sua, e não resistiu a vontade de entrelaçar os seus dedos com o dele. Aquilo era bom, pensou novamente. Eles eram bons.
– Eu estou orgulhosa de você. – ela disse na falta de palavras melhores. Mas eram verdadeiras. E era a única coisa que devia importar.
Mas ela sabia que não era isso que ele queria ouvir. Você não pode se fechar na própria mente, ela o ouviu por trás de suas palavras.
Não era assim tão fácil. Nunca é.
– Você quem fez isso, Hermione. – ele apertou a sua mão para dar ênfase. – Você me mostrou que eu não estava sozinho. Você esteve ao meu lado quando eu estava na merda, quando eu estava sem controle algum. Você me fez recolher os pedaços do que restava da minha sanidade e deu uma razão para lutar contra o meu vício. Você me viu fraco e quebrado e você não me deixou. Eu acho que você nunca percebeu a importância disso pra mim.
Ele deixou a última frase pairar entre os dois e o medo logo o seguiu. Finalmente chegou o momento em que ele iria foder tudo, porque ele é um profissional em estragar todas as coisas boas na vida. Ela entenderia o que ele falou. Ela é a porra da bruxa mais inteligente da década. Ela iria se afastar. Era óbvio. A criança que a perseguiu na infância, o garoto que a viu ser torturada aos seus pés e não fez absolutamente nada, o comensal da morte que abriu as portas de Hogwarts para verdadeiros monstros praticamente confessou que precisava dela para ficar são. Até mesmo ele fugiria. Reprimiu o riso nervoso. Só havia começado a compartilhar o que pensava para fazê-la falar sobre o que a atormentava, mas até mesmo quando não consciente, Hermione conseguia fazê-lo de idiota. E ele fodeu tudo novamente.
Ela iria deixa-lo sozinho.
Seus pensamentos morreram quando sentiu um suspiro e, logo após, um beijo suave na base do pescoço. Sentiu o corpo todo petrificado; não de medo, mas de alívio.
– Você não está sozinho, Draco.
Não haviam palavras melhores que aquelas.
X
O jantar já havia sido servido quando os dois finalmente saíram da enfermaria. Após tanta intimidade, a despedida havia sido estranha. Hermione havia beijado o pescoço dele. Isso era tão... íntimo. Não sabia classificar melhor. Sentiu o seu pulso nos lábios, o cheiro impregnando suas narinas. Abraçou-o durante vários segundos antes de dar as costas e caminhar a passos apressados para o Salão Principal. Não queria soltá-lo. Nunca mais. E ao que parecia, ele também não.
Eu acho que você nunca percebeu a importância disso pra mim.
Sua respiração estava entrecortada, e ela não era tola o suficiente para culpar a caminhada. Ela queria voltar. Ela queria encontrar Draco Malfoy e beijá-lo e abraça-lo e fazer o suficiente para afastar as dores e preocupações dos dois. Ela queria sentir sua pele e arranha-lo e apenas estar ao lado dele. Sem interrupções. Sem barreiras. Sem medo.
Você não precisa disso agora.
Enfie no fundo da mente.
Tente esquecer isso.
Tente apagar isso.
Você deveria parar de fazer isso.
Sentiu sua respiração presa na garganta, a visão turva.
ácido invadindo sua garganta, sinta, sinta, SINTA, encare o espelho, garotinha estúpida, sangue ruim nojentinha, você vai morrer, você vai me dizer onde achou essa espada agora mesmo ou eu vou fazer você sufocar no seu próprio sangue, olha, Draco, se não é aquela amiguinha do Potter, pode ser ela, ah sim é ela, é claro que é ela, é inconfundível, ah, você deve ter gostado de ter provado o poder, cissa, traga a minha adaga pois vamos mostrar como nossa família trata esse tipo de porquinha imunda
Será que era assim que é enlouquecer?
– Hermione, você está bem? – Harry perguntou, parado em sua frente com a expressão preocupada. – Você foi liberada da enfermaria?
– Sim. – ela respondeu em um fiapo de voz, agarrando-se a sua sanidade como um bote salva vidas. – Madame Pomfrey me deu uma poção tranquilizadora para o caso de... você sabe.
– Não, eu não sei. Hermione... – soltou um suspiro frustrado. – Por favor, me diz o que está acontecendo contigo. Me deixa te ajudar. Malfoy não é o único que se importa com você.
O nome dele a fez sorrir, só um pouco, mas o gesto não passou despercebido por Harry. – Mas ele foi o único que notou.
Engoliu em seco a culpa e o arrependimento que aquelas simples palavras o infligiram.
Amigo de merda.
– E eu não te culpo, Harry. De verdade. Eu só... – fora a vez de Hermione suspirar e acabar se apoiando na parede. Respirar ardia, mas ele não precisava saber disso. Mesmo assim, ele se aproximou para tocar seu braço. Afastou-se ainda mais e ele lhe lançou um olhar machucado e perdido. Hermione conseguia sentir que este era um dos momentos em que Helena lhe mostraria as coisas contra a própria vontade. E então uma ideia a tomou de repente. – O que você aprendeu durante as aulas de oclumência com Snape?
– O quê?!
– As aulas de oclumência. Com Snape. O que você aprendeu?
– Isso é mesmo uma conversa para o corredor? – ele rebateu duvidoso.
Hermione estava com um olhar estranho, um brilho... louco. Isso não era bom.
– Harry, eu preciso ir embora. – disse Hermione categoricamente, encarando um ponto fixo no chão com aquele brilho maníaco nos olhos.
– Mas você não ia jantar-
– Harry, eu preciso ir.
– Hermione, você está me assustando- Hermione. Hermione!
Mas ela já havia começado a correr na direção da biblioteca como se sua vida dependesse disso.
X
Estava aqui em algum lugar. Ela sabia disso.
Talvez ela estivesse mesmo ficando louca. Não se importava mais. Muitos gênios foram considerados loucos até terem suas teorias comprovadas. Mas Hermione não tinha nenhuma teoria e não chegou ao nível de megalomania para se afirmar um gênio. Talvez ela só fosse louca. Riu. Assim que passou por Madame Pince, ela lhe lançou uma olhadela preocupada, mas você apenas disse que era para um trabalho de herbologia, e a bruxa sabia que você sempre perdia um pouco as estribeiras com plantas e acenou com a cabeça, voltando para o seu livro. Não era nenhuma novidade ver Hermione Granger andar feito uma louca na biblioteca à procura de um livro. Ela sabia onde estavam todas as seções. Ela não precisava de ajuda.
Ela, Hermione Granger, precisando de ajuda? Nunca.
Hermione riu novamente.
Era uma das poucas alunas com acesso à Seção Restrita, e foi sem dificuldade com que entrou. Era uma sensação estranha, esse poder. Mas ela não estava desacostumada com poder. Ah, claro que não. Ela já o sentira antes, não é mesmo, Hermione?
Cale-se.
Finalmente chegou à seção de legilimência e oclumência. Lá estava a resposta para todas as suas dúvidas. Sentira-se tão estúpida quando finalmente percebeu o que estava acontecendo com ela. Teria uma chance de combater o que quer que fosse, e então estaria livre e tudo voltaria ao normal. Tudo ficaria bem e logo poderia esquecer tudo isso.
– Você deveria parar de fazer isso.
Não conseguia se mover. A respiração mais uma vez travou em sua garganta. Seu corpo estava gelado e Hermione se perguntou quantas guerras ela teria que vencer para conseguir um pouco de paz.
– Você está começando a entender e isso é bom. Para você, para mim. Para nós duas. Mas você está tomando a direção errada.
A mão gélida tocou o seu ombro e escorregou até alcançar a sua. A poção tranquilizadora de Pomfrey tocou seus dedos e Helena os forçou a se fechar ao dela.
– Você precisa encarar o espelho, seja por bem ou por mal. Lembre-se, Hermione; você nos forçou a isso.
Trouxe a poção aos lábios antes que pudesse pensar. Foi tomada por uma calmaria forçada e desesperadora. Aquilo não estava certo.
– Você não pode mais lutar, Hermione. Desista.
Você precisa esquecer. Você precisa apagar.
Helena negou com a cabeça. Sangue escorria do nariz, olhos e ouvidos dela, mas dessa vez não era negro, mas sim vermelho, intenso demais comparado a sua pele nua. Tocou a bochecha de Hermione enquanto se desfazia em uma visão de sangue. Por trás de tudo aquilo, seu olhar revelou mais dor do que a besta fera de seus sonhos anteriores. Aquilo não era um sonho. Aquilo era real. Ou não era? O que é real? Talvez não o mar em chamas. Talvez nem mesmo ela fosse real. A não realidade era melhor do que todo aquele sofrimento.
Você precisa esquecer isso. Você precisa apagar isso.
– Não, Hermione. Você precisa lembrar.
Antes que se desse conta, Hermione teve sua cabeça empurrada contra a lateral da mesa. O barulho fez com que todos os estudantes presentes na biblioteca corressem até a entrada da Seção Restrita, mas fora Madame Pince quem encontrou o corpo de Hermione. Inconsciente e banhada no próprio sangue.
N/A: Eu nunca estive tão feliz em escrever um capítulo quanto fiquei com este HAHAHAHA Por favor, não me matem. O próximo está ainda mais delicinha e já irei começar a escrevê-lo. Obrigada a Ane Whitlock Malfoy por revisar o capítulo anterior. K3
Não posso afirmar com certeza (porque essa história se cria sozinha na minha cabeça e foge do meu cronograma enquanto escrevo), mas mais alguns capítulos e finalizo a fanfic. Sim. Cinco anos e mais alguma coisa e eu finalizo. Só não posso perder esse pique.
P.S: Espero que vocês tenham pego as citações de Jeremy, do Pear Jam e Sonho Impossível, de Maria Bethânia, nesse capítulo. Não consegui controlar a vontade que deu de citar essas duas canções lindas. Ah, e ele não foi betado. Desculpem os erros.
Espero que tenham gostado tanto desse capítulo quanto eu. Leiam e revisem, revisem e leiam, disseminem dramiones por aí.
Publicado em: 05/12/2015.
