Capítulo 1
"Lily, por favor, eu só quero conversar..."
Ela ouviu a voz masculina se dirigindo a ela, enquanto caminhava rapidamente na direção do interior da mansão, muitos metros à frente dele. Cruzou um corredor, depois dobrou a direita, encontrou outro corredor, com várias portas de ambos os lados, pelo qual apressou o passo com o objetivo de não ser encontrada pelo seu perseguidor. Era Severus, é claro. Ele não desistia, não importava o que Lily dissesse. Só queria ser seu amigo, precisava de sua amizade de volta. Ela bufou enquanto caminhava apressada, pensando que ele deveria ter pensado nisso antes de tomar as decisões que tomara.
Segurava o longo vestido verde-escuro com força, os sapatos de um salto pequeno batendo repetidamente contra o tapete, seus cabelos vermelhos dançando com sua movimentação.
Escolheu uma das portas aleatórias do longo corredor, abriu-a gentilmente e se esgueirou para dentro, fechando-a atrás de si e encostando-se à madeira com os olhos fechados, permitindo-se respirar tranquilamente. Esperava tê-lo despistado. Pelo menos se livraria dele por esta noite. E, felizmente, aquele era o penúltimo baile da temporada, o que significava cada vez menos oportunidades para uma nova tentativa de reaproximação.
Quando Lily abriu os olhos, sua visão demorou alguns segundos para se acostumar ao ambiente. Encontrava-se em uma sala ampla, de pé direito alto, tomada por prateleiras cobertas de livros do chão ao teto. Uma biblioteca. Um janelão estava de frente a ela, no final do cômodo. Sorriu inconscientemente, autorizando-se a se imaginar sentada em uma poltrona em frente àquela janela, apreciando a leitura de um livro de filosofia ou mesmo um romance. Voltou a si rapidamente, contrariada. Aquela era a mansão dos Malfoy, exibicionistas e arrogantes, os maiores oferecedores de bailes da cidade. Ela nunca se associaria a eles.
Permaneceu alguns minutos ali, aguardando até que Severus Snape desistisse. Quando já se virava para sair do aposento, pensou ter escutado algo vindo do seu lado direito. Voltou o olhar naquela direção, como que esperando ver alguém a espreita. Não havia ninguém, mas ouviu mais um barulho abafado, como se alguém se chocasse com uma das estantes. Franzindo o cenho e esquecendo-se por um momento do fato de que não deveria ser intrometida, mas ao mesmo tempo sem conseguir controlar a própria indiscrição, tirou a mão da maçaneta e voltou-se para dentro do aposento novamente. A passos lentos, dirigiu-se ao lado de onde vinham os ruídos – estes pareciam se originar da parte da biblioteca que ficava após a última prateleira, no lado esquerdo da janela, em um dos extremos da sala.
Assim que Lily colocou seu rosto por entre uma fresta de livros entre a última estante e a parede ao lado da janela, os sons finalmente fizeram sentido e ela presenciou possivelmente a única cena que jamais imaginara ver em toda sua vida – ali, a poucos metros dela, havia dois homens se beijando. Ofegou, cobrindo a boca com uma mão. Definitivamente ela não deveria estar ali, não deveria ter visto o que viu. No entanto, sua surpresa e desconcerto só não foram maiores do que sua curiosidade, e ali ela ficou, apenas por tempo suficiente para tentar compreender o que acontecia, e garantir que não havia sido vista.
Com o auxílio da discreta luz do luar que adentrava a sala através da janela, ela pôde identificar que um dos rapazes tinha uma postura atlética e longos cabelos escuros, no momento bagunçados pelas mãos do outro rapaz – este era mais loiro e magro, mas tão alto quanto o primeiro. Ela arregalou os olhos ao constatar que os dois rapazes se tratavam de Sirius Black e Remus Lupin. Controlou-se para não ofegar novamente ante a essa descoberta. Sirius era um dos maiores libertinos de quem ela ouvira falar! Seu cérebro trabalhava rapidamente para dar conta do influxo de informação. Seria tudo uma fachada para seu verdadeiro interesse, um relacionamento com outro homem? E Remus... Lily o conhecia, conhecia seu benfeitor, o conceituado cientista Dumbledore. O que ele diria se soubesse de tal situação? Lily lembrou-se de repente de que o que estava presenciando se tratava de um crime de acordo com a lei, e rapidamente sentiu se formar um grande embrulho em seu estômago.
Eles seguiam beijando-se, avidamente, enquanto as mãos passeavam pelo corpo um do outro de uma forma que ela jamais pudera imaginar possível. Estavam completamente vestidos, mas seus cabelos eram desgrenhados e com seus suspiros contidos eles pareciam desesperados por mais. De súbito, Sirius parou o beijo, inclinando a cabeça de Remus para trás, que arquejou, os olhos fechados. Lily instintivamente se encolheu mais no lugar, mas eles não poderiam vê-la, estava por trás de uma estante lotada. Sirius então desceu pelo corpo do amante, mantendo-se próximo, as mãos acariciando e apertando seus braços, tórax, abdômen, pernas, enquanto o beijava pelos mesmos locais. Lily sentiu seu rosto queimar só de observar, e sabiamente desviou o olhar quando percebeu que Sirius dirigia-se para a abertura das calças de Remus.
Ela entendia o que estava acontecendo ali, apesar de nunca ter presenciado tal ato mesmo entre um homem e uma mulher. Geraldine Evans havia hesitado em explicar à filha como se davam as relações entre homens e mulheres, uma vez que Lily nunca se casara. Esse tipo de informação era passado classicamente de mãe para filha na noite anterior às núpcias. No entanto, com um misto da insistência de Lily e sua própria boa vontade, ela acabou contando tudo – pelo menos tudo o que ela mesma sabia a respeito. Lily disfarçara para a mãe, mas ficara bastante interessada no assunto. Ela não tinha um marido, contudo, muito menos planos de ter um – possivelmente pela vida inteira. Desta forma, foi nos livros que ela encontrou o refúgio que precisava para imaginar a história de amor, lutas e aventuras que provavelmente nunca viveria.
Um destes livros – que seu pai nunca saiba que ela o leu – foi A year in Arcadia: Kyllenion, em sua versão original em alemão, idioma o qual Lily dominava. Ela o havia encontrado certa vez na enorme biblioteca de seus tios no interior da Escócia, tendo lido-o inteiro em uma noite particularmente insone. Contando as histórias de amor de diversos casais, incluindo um casal formado por dois homens – para o grande espanto de Lily na época – este livro seria futuramente conhecido como o primeiro romance mostrando um casal abertamente gay.
Após perceber-se constrangida pelo que havia presenciado e completamente de volta a si, Lily esgueirou-se pela entrada da biblioteca. Abriu e fechou a porta com cuidado, sem ser vista. Ao menos foi isso que ela pensou, pois, ao virar-se na intenção de sair correndo dali o mais rápido que pudesse, ela deu de encontro com algo rígido, alto, que após alguns segundos provou-se ser humano, pois foi capaz de segurá-la antes que ela caísse desajeitadamente para trás. Era ninguém menos que James Potter, o qual, apesar de Lily não fazer ideia, estivera vigiando o corredor para os amigos.
Ele vestia um conjunto de smoking escuro, usava óculos de aros redondos e tinha os cabelos mais rebeldes que Lily já vira, como se nunca tivesse conhecido um pente em sua vida. Era muito charmoso, e ela não se lembrava de jamais tê-lo visto tão de perto.
James e Lily já haviam se conhecido antes, visto que tinham a mesma idade e viviam na mesma cidade desde a infância. Porém, suas famílias não eram próximas, uma vez que James era muito rico e Lily relativamente mais humilde. Na verdade, os Evans pertenciam à última camada daqueles incluídos em convites para bailes, fato este ligado diretamente a sua antiga tradição. Eles haviam perdido grande parte do seu dinheiro e quase toda sua influência com muita finesse ao longo de várias gerações por meio do vício em apostas em corridas de cavalos.
Mas apesar de saberem da existência um do outro, Lily e James nunca haviam conversado. Durante os três anos em que a mãe de Lily tentara apresentá-la a sociedade na busca por um marido, James não estava lá, já que ainda estudava fora da cidade. Antes disso, eram ambos adolescentes cujos círculos sociais não se encontravam com tanta frequência. E, ainda assim, agora lá estavam eles, frente a frente. Ela corada pela curta aventura, segurando o vestido como quem se prepara para iniciar uma corrida; ele nitidamente apavorado ante a possibilidade dos amigos terem sido descobertos.
"Desculpe-me, eu estava desatento e não a vi, senhorita...", ele começou, desajeitado, ajudando-a a ficar de pé e rapidamente tirando as mãos de perto dela, posicionando-as atrás das próprias costas e fazendo uma mesura.
Lily recuperou o fôlego antes de responder.
"Lily Evans, e eu que me desculpo, saí com tanta rapidez que não o vi em minha frente. Foi muito desajeitado da minha parte." Ela assentiu, dando um sorriso discreto. "A quem devo a honra de ter sido salva da queda certa ao chão?"
Ela sabia quem ele era, mas foi inevitável fazer a pergunta, de modo a manter o tom educado da conversa.
"James Potter, a seu dispor." Ele agora parecia um pouco mais à vontade, e soltou as mãos dos lados do corpo. Franzindo o cenho levemente, ele perguntou "Você estava aí dentro?", apesar de ser óbvia a resposta, e apontou para a porta da biblioteca, na qual ela agora se encontrava apoiada.
Lily olhou para trás, repentinamente voltando a sentir-se desconfortável ao lembrar-se da cena presenciada.
"Eu... Bem, sim... Mas na verdade..." Ela tentou, desconcertada, dizer alguma coisa, mas não parecia encontrar as palavras. Algo clicou em sua mente, dizendo a ela que independente do que tivesse visto na biblioteca, aquele segredo não era dela para ser comentado e, portanto, havia invariavelmente se tornado seu dever protegê-lo.
James cerrou os olhos na direção dela, e Lily sentiu como se ele pudesse lê-la facilmente. Ele olhou em volta para os dois lados do corredor, que se encontrava completamente vazio, antes de falar, aproximando-se mais dela e encostando uma mão na parede ao seu lado, de modo que seus corpos ficassem distantes, mas seus rostos mais próximos.
"Você viu Sirius e Remus na biblioteca?" ele perguntou, sem cerimônia, e Lily pôde ver pela proximidade que seus olhos castanho-esverdeados estavam cheios de ansiedade.
Ela analisou-o por um longo momento, esforçando-se para lembrar-se das relações entre o solteiro mais cobiçado da temporada e os outros dois jovens da alta sociedade. Os três eram amigos, certo? Pelo que ela se lembrava, eles eram bastante chegados, e costumavam ser vistos juntos com frequência.
Como ela não respondeu, James falou novamente.
"Olhe, eu não sei o que você viu exatamente, mas–"
"Eu os vi se beijando" Lily falou, cortando-o. A informação saiu de seus lábios repentinamente ante o olhar questionador, ela não pôde evitar. Os olhos dele se arregalaram por um instante, enquanto Lily arrependia-se de ter aberto a boca, odiando-se e perguntando-se que poder o rapaz a sua frente possuía para fazê-la simplesmente falar. Sentiu-se corar da cabeça aos pés pelo que pareceu ser a milésima vez apenas naquela noite.
Diante daquela situação, James colocou as mãos sobre a cabeça, o lábio inferior entreaberto, os olhos movendo-se rapidamente por trás dos óculos. Começou a andar de um lado para o outro, passando uma mão pelos cabelos, resmungando e balançando a cabeça, parecendo ter se esquecido de que ela ainda se encontrava ali, em frente a ele.
"Senhor Potter, eu–"
Ela ia tentar explicar, mas não pôde completar a frase, pois ele a interrompeu, parecendo voltar a si, olhando-a de esguelha, desconfiado.
"O que você quer pelo seu silêncio?" ele perguntou, agora repentinamente muito sério. Estava parado a sua frente, uma distância segura os separava. "Dinheiro?"
Lily arfou, levando a mão ao peito, ofendida. Ele não podia estar falando sério. Achava que ela contaria a outro alguém sobre a cena que presenciara? Uma cena que poderia levar seus praticantes a prisão, senão destino pior? Tudo bem que ela acabara de revelar o que vira, sem poder evitar, sob o olhar perscrutador de James, mas ele se provara conhecedor daquela situação no segundo seguinte, o que a fazia sentir-se um pouco melhor.
Com uma raiva contida, ela estreitou os olhos na direção dele, dando um passo adiante.
"Tem-me por uma aproveitadora, senhor Potter? Pois saiba que eu muito me ofendo com sua suposição. Eu jamais revelaria um segredo que não pertence a mim."
Ele se sobressaltou com aquela demonstração súbita de honra, empertigando-se. Não estava esperando que ela se comportasse daquela maneira. Passou uma mão pelos cabelos, desarrumando-os, e voltou a encará-la, abaixando a guarda.
"Eu... Desculpe-me, senhorita Evans. Exaltei-me no calor do momento. Não foi minha intenção ofendê-la. Peço que me perdoe."
Ela o analisou enquanto dizia suas desculpas, novamente encostada à porta, o cenho enrugado, desconfiada. Não respondeu.
James sentiu-se acuado. Estava agora um pouco envergonhado por ter suposto que ela se aproveitaria de sua nova descoberta, mas ao mesmo tempo temia pelos amigos. Estava frente a frente com uma moça da alta sociedade londrina a qual não conhecia bem, e que acabara de presenciar o segredo mais bem guardado dos rapazes da cidade, provavelmente o mais escondido entre todos os mistérios imagináveis. O segredo de seus dois melhores amigos que, se revelado, seria a ruína deles e também a sua, por consequência. Optou, pela própria sanidade, por mudar de assunto, pois precisava conversar com os amigos que ainda se encontravam por trás da porta na qual ela se apoiava. Disse a si mesmo que poderia lidar com Lily Evans mais tarde.
"De qualquer forma, o que a senhorita faz por corredores escuros, sozinha, enquanto todos aproveitam o baile, senhorita Evans?" ele quebrou o silêncio, uma sobrancelha erguida, levantando discretamente o canto direito da boca. "Não me parece que seria sua intenção ser descoberta conversando com um homem solteiro sozinha por aí."
Com aquela colocação, Lily se alarmou um pouco, pois havia se esquecido deste detalhe. Ela nunca mais precisara se preocupar com isso, é claro, pois já estava se encaminhando para o grupo das eternas solteironas, mas ver James Potter considerando-a uma moça indefesa que precisava de uma dama de companhia para todas as horas – ainda que ela soubesse que não era nada disso – a fez subitamente sentir-se arder. Uma mistura de um pouco de raiva e um pouco de embaraço, em iguais medidas.
Preparou-se para retrucar, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, sentiu um movimento às suas costas. Alguém estava tentando abrir a porta pelo lado de dentro da biblioteca. Ela rapidamente se afastou do umbral, sobressaltada. Olhou mais uma vez para James, e no segundo seguinte já estava segurando a saia do vestido e correndo pelo corredor, sem olhar para trás.
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Sirius foi o primeiro a sair da biblioteca, parecendo a tranquilidade em pessoa. Já estava completamente ajustado, plácido como quem volta de um passeio no parque.
"James, meu amigo..." ele começou, ajeitando a gravata borboleta, mas seu olhar foi capturado por uma saia verde que dobrava o corredor à esquerda de forma veloz. Sirius ergueu a sobrancelha, olhando para James. "O que você aprontou?"
James balançou a cabeça negativamente, enquanto via Remus sair por trás de Sirius. Ele parecia também sossegado, mas James o conhecia, e era capaz de identificar seu semblante levemente apreensivo.
"Aconteceu alguma coisa?", foi Remus quem perguntou.
James apenas encarou os dois e empurrou-os de volta para dentro da biblioteca antes de começar a falar. Após fechar a porta atrás de si, voltou-se para os amigos, sério.
"Vocês foram vistos."
"O quê?" os dois indagaram. Sirius arregalou os olhos e Remus deu um pulo, levando as mãos à cabeça e começando a andar em círculos.
"Aquela que viram dobrando o corredor era Lily Evans", James começou, explicando-se. "Ela deve ter entrado aqui muito discretamente. Eu estava no outro extremo do corredor e não devo ter visto. Nunca imaginaria que alguém viria pelo outro lado e entraria justamente por esta porta, exatamente no momento em que eu não estava olhando..." Ele olhava para cima, tentando não encará-los. Sentia-se bastante envergonhado. Seus amigos haviam confiado nele para não só guardar seu segredo, mas para ajudá-los em alguns escassos e bem elaborados encontros furtivos, a única opção que possuíam.
Sirius colocou uma mão sobre o ombro de James, forçando-o a fitá-lo. Remus estava mais atrás, e começava a roer uma unha em nervosismo.
"Você acha que estamos perdidos?" Sirius perguntou.
James suspirou, meneando a cabeça.
"Ela me parece alguém confiável, jurou que jamais revelaria o que viu. De qualquer forma, vou me certificar de que esteja falando a verdade. Mas... Eu acho que estamos brincando com o perigo. Isso jamais poderia ter acontecido, estamos nos arriscando demais."
Sirius olhou para Remus, e ambos esboçaram um discreto sorriso. Foi Remus quem falou para James.
"Obrigado, James." Ele encarou Remus, sem entender. "Você já fez demais por nós, se envolvendo dessa forma nas nossas complicações. Esqueça isso por hoje à noite... Vamos voltar para o salão para você aproveitar um pouco o baile. Quem era o diamante da temporada mesmo, a Dorcas Meadowes?" ele brincou, passando um braço pelos ombros de James, que relaxou um pouco.
Sirius abriu a porta para os outros dois, e os três saíram de volta para o corredor.
"Ela tem dezoito anos, Remus. Está me achando com cara de quê?" James exclamou em perplexidade, mas com um sorriso discreto.
Remus e Sirius apenas riram.
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De volta ao salão, cercada por dezenas de pessoas de todos os lados, Lily Evans não podia acreditar no próprio azar. Não só descobrira o picante segredo de dois dos rapazes mais desejados de Londres, como ainda fora pega em flagrante por ninguém menos que James Potter.
Dirigiu-se ao seu canto favorito, próximo a algumas plantas e junto das outras solteiras, a maioria mais velha do que ela. Agradeceu a Anne, que havia guardado seu lugar, onde repousava agora um livro – Emma, de Jane Austen, sua leitura atual. Discretamente acomodou-se em seu assento e voltou a folhear as páginas do volume enquanto ouvia o mesmo burburinho de sempre ao redor.
Não conseguiu se concentrar. Olhava furtivamente para o canto oposto do salão, de onde ela mesma tinha vindo alguns minutos antes. Esperava que a qualquer momento aparecessem por ali três rapazes. E foi exatamente o que aconteceu não muito tempo depois. Enquanto mantinha um discreto olhar para o livro em seu colo, do qual obviamente não lera uma palavra sequer desde sua pequena aventura, os olhos levantavam a curtos intervalos na direção do outro canto da grande sala, ou melhor, dos três rapazes que lá se encontravam.
Ocasionalmente tendo a visão obstruída pelas pessoas que caminhavam e dançavam pelo centro do local, ela conseguiu ser discreta o suficiente por algum tempo – até que seus olhares se cruzaram. Após conversarem por alguns minutos em seu extremo do salão de baile, os três rapazes pareceram procurar por algo ou alguém, olhando para os lados com naturalidade. E quando os olhos de James Poter encontraram os dela, e ele fez um sinal para os amigos com o queixo na sua direção, ela mais uma vez sentiu-se queimar.
Os três agora a encaravam. Todos muito compostos, contrastando com a cena que Lily vira há menos de uma hora. Remus parecia decididamente encabulado, Sirius tinha um olhar desconfiado, e James exibia um sorriso divertido. Lily não soube o que fazer e desviou o olhar rapidamente de volta para o seu livro, esperando que nenhuma das moças ao seu lado a tivesse visto se transformar em um tomate de repente.
Se ela tivesse sustentado o olhar, poderia ter visto James soltar uma risada e virar-se para os amigos, fazendo um comentário. Teria visto ainda os outros dois com expressões animadas ao passo em que ele os deixava indo na direção do centro do salão. Por fim, teria visto ele se aproximar, cortando por entre os casais dançantes, atraindo alguns olhares, e postar-se exatamente a sua frente.
Mas ela não viu nada disso. E quando percebeu um par de sapatos escuros masculinos parados de frente a ela, ergueu os olhos em desagrado, esperando ingenuamente que fosse Severus Snape importunando-a mais uma vez. Mas não era ele.
James Potter estava ali, um sorriso brincando nos lábios, os cantos da boca elevando-se sem que pudesse se conter, e uma sobrancelha arqueada em tom jocoso. Ela arregalou os olhos, sem dizer palavra, mas dessa vez manteve o olhar.
"Você me daria a honra desta dança, senhorita Evans?" ele pediu educadamente, estendendo a mão na sua direção.
Ela piscou algumas vezes, como se limpando a visão para ter certeza do que via. E ouvira bem?
Sentiu um cutucão nas costelas ao seu lado direito. Era Anne, que a encarava com uma expressão alarmada, apontando na direção de James. Parece que realmente tinha acontecido então.
De um salto, Lily entregou o livro de volta à mulher ao seu lado, e aceitou a mão do cavalheiro a sua frente.
"É claro, senhor Potter."
E lá se foram os dois na direção do centro do salão. Só havia uma palavra com a qual Lily poderia descrever a situação – constrangedora. Sentiu o peso de absolutamente todos os olhares do salão sobre si, e não conseguiu pensar em outra coisa que não fosse seu súbito desejo de sumir em um buraco no chão. Tomando um lugar num espaço livre, o casal posicionou-se e entrou na música que já havia iniciado há poucos instantes.
Estava dançando com James Potter, o solteiro mais cobiçado da temporada. Ela, Lily Evans, que se encaminhava lentamente para a terra das solteironas eternas, havia sido a única mulher que o futuro duque havia convidado para uma dança durante toda aquela noite. Pôde ouvir a agitação ao seu redor, as pessoas certamente estavam se perguntando que mágica aquela simples garota havia feito. Lily não saberia dizer se eles estavam mais surpresos por James tê-la tirado para dançar, ou por ela ter sido tirada por alguém – ambas eram possibilidades muito remotas. Se ao menos elas conhecessem as circunstâncias para aquele acontecimento.
"Você não parece muito confortável", James comentou, ainda sorrindo, enquanto a rodopiava com desenvoltura.
Quando ela voltou a estar de frente para ele, em posição de valsa, respondeu-o com um questionamento.
"Por que você me tirou para dançar?", extraiu de sua mente a pergunta que todos ao seu redor estavam se fazendo, e com ela não era diferente.
James a encarou por alguns segundos antes de responder, a cabeça pendendo levemente para o lado esquerdo, estudando-a.
"Achei que depois do nosso primeiro encontro curioso, o mínimo a fazer seria conhecê-la melhor", ele deu de ombros, despreocupado.
"E não se importa com toda essa gente nos encarando?", Lily ergueu ambas as sobrancelhas ao questioná-lo. "Pelo que me consta, sou sua primeira dança da noite. O senhor sabe o que vão pensar."
Eles se separaram por alguns momentos, em função da dança em conjunto com alguns outros casais. Deram poucos passos para trás – voltariam a se encontrar em instantes.
James esperava por aquela pergunta. Lily Evans parecia ser uma jovem direta e prática, e ele achou aquilo interessante. Quando voltou a tê-la nos braços, voltou também a sorrir e respondeu.
"Pelo pouco que me conheceu, senhorita Evans, já deveria saber que não tenho grande apreço pelas regras da sociedade," ele começou, divertido. "O que quer dizer que não dou a mínima para o que pensam de mim." completou, seguro de si.
Lily olhou dentro de seus olhos e viu sinceridade. Permitiu-se relaxar nos braços dele após a declaração divertida e perspicaz. Experimentou a sensação de uma espécie de ligação. Fora bom ouvir um de seus próprios princípios saindo dos lábios de outra pessoa. Sentiu-se estranhamente confortável enquanto rodopiava, se distanciando de seus braços e retornando segundos depois.
James Potter era uma figura curiosa, ela se pegou pensando, enquanto a música terminava e outra melodia tomava seu lugar, nenhum dos dois fazendo menção de cessar a dança. Era um rico descendente, um solteiro desejado, um rapaz atraente, ela tinha que admitir – e já sabia de todos esses atributos muito antes de ter se chocado de encontro a ele em sua ridícula tentativa de fuga. O que ela não sabia, e agora com a cabeça fria e o coração mais calmo – ironicamente, apesar de muitos olhares ainda estarem sobre ela e seu par – podia se dar ao luxo de reparar, era que ele aparentava ser também um amigo muito fiel.
"Pergunto-me como não havíamos sido apresentados antes", James tirou-a de sua análise, retomando a conversa. Ele acreditava que a mãe o havia introduzido a todas as moças solteiras da cidade, e sua curiosidade em relação à ruiva a sua frente cresceu ante àquela lembrança.
Ela riu com ironia. "Já faz cinco anos que não sou apresentada aos solteiros da temporada, senhor Potter, desde os meus vinte. Não esperava que soubesse, mas essa é a verdade", deu de ombros.
James pareceu desconcertado por um momento, mas foi rápido em retomar seu ar relaxado.
"Suponho que eu não possa colocar meu nome em seu cartão de dança, então?" ela quase engasgou com aquele comentário. Obviamente fazia anos que não trazia cartões de dança para os bailes. Ele apenas sorriu, e continuou "Como pode ver, aí está mais uma regra que fico feliz em quebrar." Ele disse simplesmente, para a surpresa de Lily, cujo lábio inferior se abriu em incontida descrença, enquanto o sorriso dele crescia e ele a rodopiava por uma última vez.
A dança havia acabado. Eles haviam partilhado praticamente duas músicas inteiras. Havia um limite até onde se poderia ir sem que se levantassem rumores ainda maiores, como por exemplo, um compromisso sério. James parou as coisas naquele exato último instante, levando a mão enluvada dela aos lábios, agradecendo e se distanciando na direção dos amigos, sendo interceptado pela mãe a meio caminho.
Mais tarde quando relembrou aquela noite, Lily achou que havia ficado ali por horas, parada no meio do salão, encarando sua luva onde havia sido beijada. Foram apenas alguns segundos, no entanto, e ela rapidamente retornou ao canto das plantas para pegar seu livro quando se recuperou. Dirigiu-se à saída do salão em seguida, onde encontrou o olhar da mãe, e avisou que queria ir embora.
N/a:
Tem de tudo um pouco nessa história? Tem. Fanfic para o Jilytober/2020, temática Romance de época. Jane Austen é rainha eterna, mas quando vi a temática dessa semana, surgiu a ideia de uma história baseada nos livros da Julia Quinn, e quem já leu a série Bridgerton vai identificar várias semelhanças (com os 4 primeiros livros, que foi só o que li dela). Pra quem gosta desse tipo de romance histórico mais moderninho, e caso alguém não conheça a autora, recomendo.
Uma nota sobre algumas coisas que eu não sabia e descobri enquanto pesquisava para a história:
A homossexualidade só foi descriminalizada no Reino Unido em 1967 (!), muito tarde em relação a diversos outros países da Europa, e também bem depois do Brasil (que descriminalizou em 1830). Sabemos que isso foi só na lei e que na prática as coisas são mais complexas, mas ainda assim.
O início do século XIX, época em que a fic se passa, foi marcado pela forte perseguição a quem praticasse sodomia (sexo anal/oral), em geral homens homossexuais. Houve mais de 50 casos de morte por enforcamento na Inglaterra. Os últimos dois homens condenados à morte dessa forma foram John Smith e John Pratt, que morreram em 27/Nov/1835.
Espero que tenham gostado desses dois primeiros! Vai ser uma história curta, ainda essa semana posto o 2, 3 e o final :)
