Capítulo 2
Quatro dias após o baile, James e Sirius encontravam-se no escritório do segundo andar da mansão dos Potter. James sentava-se na cadeira principal, por detrás da imponente mesa de carvalho trabalhado, cheia de documentos espalhados. À sua frente, Sirius esparramava-se em uma poltrona, os sapatos sobre o apoio de pés e um copo de uísque na mão. Estiveram ali por alguns minutos, como geralmente faziam à noite.
"Que tal aquela sua pequena aventura com a caçula dos Evans?" Sirius perguntou, sugestivo. Uma súbita vontade de irritar o amigo surgia em sua mente.
James rolou os olhos, mas sorriu de volta. Bebeu do seu próprio copo, afastando alguns papéis para depositá-lo em um canto da mesa.
"Ela tem a mesma idade que nós, Sirius." Desconversou, focando em uma parte da pergunta.
Sirius bateu com o copo na mesa em falsa irritação.
"Você sabe muito bem o que eu quis dizer."
James tomou outro gole de seu copo antes de responder, sem pensar muito.
"Eu gostei dela. É uma jovem muito agradável, espirituosa, elegante e honrada." Foi sua resposta contida. Sirius revirou os olhos.
"E muito bonita e interessante também, vamos lá. Pode dizer para mim. É claro que você gostou dela." Sirius frisou, debochado. "Nunca vi você parecer tão animado com uma dança", e completou, um segundo depois. "Digo, duas danças. Suas únicas danças da noite, aliás."
James riu. Sirius tinha que ser a pessoa mais inconveniente em todas as horas. Onde havia arrumado um melhor amigo daqueles?
"Bom, sim, duas danças. Achei no mínimo adequado limitar minha interação com a senhorita Evans a um discreto interesse, visto que mal a conheço." Ele explicou, simplesmente.
Mas Sirius não deixou barato. "Discreto interesse, huh?" foi seu comentário.
Nesse momento James corou – levemente, mas era possível reparar.
"O que quer que eu diga?" perguntou ao amigo.
"Nada." Sirius se defendeu, levantando-se e finalizando seu último gole. Colocou o copo de volta no bar onde ficavam as bebidas. Dirigiu-se para a porta do escritório, voltando-se para James antes de sair. "Só acho que você está tão cego pelo costume de recusar as mulheres a quem sua mãe desesperadamente o apresenta, que não consegue enxergar quando está obviamente atraído por alguém. Conheço você, sei que tem pensado nela", deu de ombros e fechou a porta, mas não sem antes soltar um último comentário. "E, a propósito, vocês dariam um belo casal."
James encarou a porta fechada por onde Sirius saíra por um longo tempo. Ele não estava errado. James sabia ser extremamente discreto – uma habilidade aprimorada ao longo dos anos, especialmente considerando os amigos que tinha e os segredos aos quais tinha acesso. Mas na mesma medida em que James era reservado, Sirius era perspicaz. Além disso, era seu melhor amigo há muitos anos. Ele obviamente seria o primeiro a perceber qualquer sentimento que James tentasse esconder.
Não era mentira que desde o momento em que dera de encontro com aquela jovem ruiva e cheia de personalidade, ele não conseguira afastá-la de seus pensamentos.
Lily parecia personificar diversas características que curiosamente nem James sabia que procurava. Ele a conhecera há poucos dias, era verdade, e não a havia visto novamente desde a noite do baile dos Malfoy. Mas de certa forma achou que já podia pensar em uma pequena descrição dos seus atributos. Era decidida e cheia de opinião, não tinha medo de falar o que pensava, parecia ter apreço pela integridade, era astuta e sarcástica na medida certa, tinha um discurso inteligente, além de uma beleza distinta e intrigante.
Quando deu por si, tinha sua imagem novamente formada em seus pensamentos. Lembrou-se do rosto cheio de sardas que o havia encarado olhando para cima, enquanto ele se apoiava na parede ao seu lado, interrogando-a. Os olhos eram, na falta de uma comparação menos óbvia, tão verdes quanto duas esmeraldas, cheios de um brilho inebriante. E apesar do pouco tempo em que haviam estado próximos, ele não deixara de reparar também em seu corpo. O vestido de cetim verde-escuro lhe caía perfeitamente, evidenciando suas formas onde era preciso, mostrando o busto apenas o necessário para deixar o restante para a imaginação. Sua pele e cabelos eram belos, e James se imaginou tocando-a com seus lábios, enquanto segurava sua cintura com firmeza.
Meneou a cabeça como para afastar o pensamento e a imagem. Já bastava Sirius e sua mania de irritá-lo, além do olhar e das perguntas invasivas de sua mãe após o baile. Você está interessado na filha dos Evans? James, eu preciso saber das suas intenções. Essa possibilidade nunca me passou pela cabeça, meu filho. Admito que não era o que eu esperava, mas você sabe que irei apoiá-lo não importa a decisão que tomar, ainda que seja um choque para mim que deseje se casar com a descendente de uma família tão particular...
James havia desconversado os questionamentos da mãe. Definitivamente não estava pronto para aquele interrogatório. Poucos dias antes do baile colocara na cabeça que havia desistido daquele ano. Iria se casar, prometera a si mesmo, pelo bem do futuro da família, no próximo ano. Naquele, estava simplesmente exausto. Não aguentava mais a pressão da própria família e de todas as outras com suas filhas em idade de casarem-se sendo oferecidas a ele como uma maldita mercadoria.
Arrepiava-se ao imaginar-se casado com alguém que fora forçado a tal ato, como já vira acontecer mais de uma vez. Respirou fundo, encarando o copo a sua frente e soltando uma risada dolorida. Ele era um romântico, mesmo que tentasse esconder. E a verdade era que, ironicamente, a história de amor de maior sucesso que conhecia era também a única que ninguém mais poderia saber da existência.
Pensando nos melhores amigos, na dor pela qual passavam e nos riscos que corriam para apenas poderem viver a vida como gostariam, levantou-se de sua mesa e tomou a direção do próprio quarto. Tomou um banho rápido e foi se deitar. Naquela noite, sonhou pela primeira vez com Lily Evans.
Era um quarto desconhecido, em uma casa também desconhecida. Nunca havia estado ali. Viu a sua frente uma grande cama de dossel, com lençóis de linho bem arrumados e travesseiros organizados.
Virou-se para a abertura anexa ao quarto, que aparentemente dava para um banheiro. Havia luz vinda dali, e ouviu uma movimentação.
"James, você está aí?"
Já ouvira aquela voz, mas não conseguia dizer com certeza a quem pertencia. Era uma voz feminina, e ele se sobressaltou ao não reconhecê-la de imediato. Olhou para si próprio, avaliando seu vestuário, usava um robe. Examinou por baixo deste – estava nu. Como não se lembrava de ter ido parar ali? Já fazia muito tempo desde a última vez em que havia dividido a cama com alguma mulher.
Não precisou imaginar por mais tempo. No instante seguinte a dona da voz adentrou o quarto, ela mesma vestindo apenas um robe delicado de seda, evidentemente nua por baixo deste. Era Lily Evans.
James ofegou. Ela sorriu ao vê-lo, e começou a abrir o robe sem cerimônias. James arregalou os olhos, olhando ao redor. O que estava havendo?
"Algum problema, querido?" ela parou a meio caminho de despir-se, caminhando até ele, tocando-o no rosto. James a encarou, sentindo o calor da mão dela em sua pele "Achei que fosse gostar da surpresa da sua esposa. Comprei esse robe pensando em você.".
James a encarava sem entender. Esposa? Ela agora o olhava com uma expressão duvidosa, talvez levemente magoada. James sentiu-se rasgar por dentro ante aquele olhar. Fez o que mandaram seus instintos naquele momento e segurou o rosto dela com ambas as mãos. Ela pareceu ceder um pouco, ainda incerta. Com aquela reação, ele esqueceu-se imediatamente do quão absurda toda aquela situação parecia e fez a única coisa que podia pensar, e que subitamente desejava mais do que tudo no mundo – tocou seus lábios nos dela.
Iniciou com um toque leve, tímido, que por si só já fez James sentir-se flutuar.
Os lábios dela tinham gosto de fruta fresca, macios como seda. Ela aceitou o toque e lançou os braços em torno do pescoço dele, passando os dedos de uma mão por entre seus cabelos, enquanto suspirava e sorria. James sentiu-se derreter.
Mal precisou pedir permissão para aprofundar seu beijo, ela já o estava autorizando, e quando suas línguas se encontraram foi como se um choque percorresse todo seu corpo.
Sem pensar duas vezes, ele a pegou no colo com agilidade e a conduziu até a cama, deitando-a de costas e se colocando sobre ela. Cessou o beijo para admirá-la por um instante. Ela sorria e seus olhos brilhavam.
"Você é mesmo minha?", ele perguntou, rouco.
"Sim, e você é meu", ela respondeu, puxando-o novamente para perto.
A última coisa que James sentiu foram os lábios doces de Lily Evans sobre os seus. No instante seguinte, acordou.
A melhor descrição para a primeira coisa que James Potter sentiu ao acordar de um sobressalto, sentando-se sobre os lençóis, tolamente passando um braço pelo lado esquerdo da cama e encontrando o vazio, foi como se água gelada tivesse sido jogada em sua cabeça.
A segunda coisa a qual ele constatou, para seu total espanto, foi que pela primeira vez em muito tempo havia se lembrado de um sonho. Havia anos que isso não acontecia. Costumava ter um sono tranquilo, talvez com sonhos, mas dos quais nunca recordava.
Passou a mão pelos cabelos, tentando raciocinar. O que estava acontecendo com ele?
Olhou para fora, através da janela a qual havia deixado entreaberta. O sol estava timidamente começando a nascer. Tentando inutilmente afastar os pensamentos para longe de uma certa ruiva de olhos verdes, levantou-se de um salto. Um banho frio poderia ajudar.
Alguns minutos após, voltou para o quarto, agora banhado na primeira luz da manhã. Enquanto secava os cabelos com uma toalha, seu olhar voltou-se para a escrivaninha. Ao lado de uma pequena peça de arte que ele mesmo havia esculpido quando criança – a qual guardava consigo como uma memória afetiva –, havia uma caixa de metal aberta, contendo um único fio de cabelo vermelho, que ele havia retirado de suas vestes na noite do baile. James balançou a cabeça, pegando o fio entre os dedos. Suspirou, e naquele momento tomou uma decisão.
Era um sábado pela manhã, nove dias após o grande baile dos Malfoy. Parte da sociedade inglesa já estava focada nos preparativos para o próximo e último baile da temporada, a ser realizado na casa dos Pettigrew na quinta-feira seguinte. A outra parte ainda comentava e se perguntava o que havia realmente acontecido na noite em que James Potter dançara com Lily Evans. Logo as fofocas se dissiparam, por fim, uma vez que ninguém ouviu rumores de noivado, visita à casa da moça ou qualquer comentário de ambas as famílias.
Isso não impedia, é claro, que Alice Longbottom, a melhor amiga de Lily Evans, a chateasse com perguntas inconvenientes em relação à sua noite de estrela, como Alice se referia.
"Lily, por favor, me dê mais detalhes" a morena reclamou, suspirando divertida.
Era a primeira vez que as duas se viam desde o baile, visto que Alice não estava na cidade na semana anterior. Caminhavam lado a lado pelo Hyde Park. Alice tinha segura em sua mão direita a pequena mão de Charlotte, sua filha de dois anos. À frente das duas, Neville, de cinco anos, corria alegre enquanto brincava com os esquilos. Lily adorava suas caminhadas com a melhor amiga e os filhos, sentia-se feliz em dividir aqueles momentos. Mas naquele dia em especial, Alice estava sendo particularmente difícil.
"Eu já lhe disse, Alice. Estava fugindo de Severus por um corredor qualquer e dei de encontro com o senhor Potter", Lily repetiu a história que já havia contado, omitindo importantes partes propositalmente. "Foi uma conversa rápida, pedi desculpas pela situação e voltei para o salão", deu de ombros, fingindo-se despreocupada. "Um pouco depois, ele me tirou para dançar por educação. É isso. Não há mais nenhum detalhe para ser contado."
Alice revirou os olhos ao ouvir a amiga repetir a mesma coisa que já havia dito um minuto antes, apenas trocando algumas palavras, e encarou-a descrente.
"Você é impossível." Balançou a cabeça, cética. "Tem vários detalhes nessa sua história que não fecham". Lily franziu o cenho com aquele comentário. "Primeiro de tudo, por que razão você ainda chama aquele verme de Severus?" Lily arregalou os olhos por ver a amiga dizer uma palavra de tão baixo calão. "Não me olhe assim, Lily, você bem sabe que ele é a pior pessoa dessa cidade, quiçá do mundo, e não merece que você ainda o respeite mesmo que minimamente. Você é boa demais! Esqueceu-se do que ele a chamou no início do ano?"
Lily sentiu um peso no peito. Sabia que Alice estava certa, mas ainda tinha certas dificuldades em separar o antigo melhor amigo de infância,Severus, do homem que vinha há anos envolvendo-se com famílias como os Malfoy e os Lestrange, ligados aos negócios mais sujos da aristocracia, e que há apenas alguns meses havia se referido a ela e sua família como a laia dos Evans. Ela não admitia, mas doía, ainda que cada vez menos. Alice vinha ajudando-a a superar o luto de ter que reconhecer que algumas pessoas tornam-se ruins e não há nada que se possa fazer.
"Não esqueci" Lily disse, sombria.
Alice olhou-a se soslaio, uma pequena desculpa implícita no olhar por fazê-la lembrar daquele momento. Então deu um sorriso para a amiga, como quem tenta animá-la.
"O que eu quero dizer é: James Potter não é visto dançando com ninguém há várias semanas." Alice voltou à sua expressão sonhadora. "Todos já estavam dizendo que ele havia desistido por esta temporada. Nós sabemos que a pobre senhora Potter já o apresentou a todas as debutantes, por Deus." Ela desviou o olhar do de Lily, rapidamente se dirigindo à filha que puxava sua mão "Ok, vá brincar, mas cuidado." Soltando Charlotte, voltou novamente o olhar para a amiga. "E de repente, o único interesse do solteiro mais desejado de Londres parece ser a minha melhor amiga. Como não quer que eu entre em crise?" Ela ergueu as mãos, uma expressão assombrada. Lily teve que rir.
"Ele não está interessado, Alice." Afinal já fazia mais de uma semana e ele não aparecera em sua casa para visitá-la, completou em pensamento. Não que ela estivesse esperando por isso. Não que ela tivesse sequer pensado no assunto. Mas era o que era. Todo o mundo sabia que quando um rapaz tinha interesse em cortejar uma moça, ele o fazia na primeira oportunidade, geralmente aparecendo para uma visita com flores ou qualquer coisa assim.
Alice não pareceu reparar no discreto ar de decepção de Lily, e continuou falando.
"Aí é que você se engana. Eu tenho informações quentes." Gabou-se, fazendo a amiga olhá-la com contida atenção. "Entreouvi Frank conversando com Peter Pettigrew há dois dias. Você sabe quem é, o filho de Edna Pettigrew?" Lily assentiu. "Então, ele aparentemente é amigo de James Potter e o encontra no clube com frequência. Parece que na última semana o senhor Potter tem andado avoado e desatento, quase não tem bebido ou encontrado os amigos, fica trancado em seu escritório, o que é muito suspeito se quer saber minha opinião." Alice completou com obviedade, como se dissesse que ali estava a evidência da qual Lily precisava para provar que ele estava apaixonado por ela.
A ruiva deu uma risada sarcástica.
"Aprecio sua capacidade investigativa, minha amiga. Mas a verdade é que eu não me importo nem um pouco com o que possa estar preocupando o senhor Potter. Nós não temos o menor interesse em comum."
Lily não soube como conseguiu cuspir todas aquelas mentiras para a melhor amiga, mas se admirou por ser capaz. Era melhor que não falassem daquele assunto. Não só estava protegendo o segredo de duas pessoas que não mereciam que algo de ruim acontecesse a elas, como também estava se protegendo de comentários infundados em relação ao suposto interesse de James Potter nela. Porque obviamente não havia nenhum interesse da parte dele. Certo?
No dia seguinte, Alice e Lily estavam novamente juntas, desta vez na casa da última. Ainda era relativamente cedo e haviam acabado de tomar o café da manhã. Encontravam-se na sala de estar. Lily estava sentada em uma poltrona em frente a sua estante de livros folheando Frankenstein, obra publicada dois anos antes sob autoria anônima. Vinha sendo uma leitura interessante, e Lily ansiava por descobrir quem seria seu verdadeiro autor ou autora. Geraldine Evans bordava em uma cadeira próxima a janela, enquanto Alice lia o jornal. A jovem mãe tinha uma expressão plácida e tranquila, que possivelmente se devia ao fato de Neville e Charlotte terem ficado sob os cuidados de Augusta, mãe de Frank, naquela manhã.
Em dado momento, Alice estava a ponto de soltar uma risada e fazer um comentário sobre o que havia acabado de ler na coluna de Lady Whistledown, quando o mordomo dos Evans entrou na sala, anunciando um visitante para a senhorita Lily Evans. Alice empertigou-se, interessada, e lançou um olhar significativo à amiga. A ruiva sentou-se de súbito – estivera semideitada na poltrona – e colocou o livro de qualquer jeito embaixo de uma pilha de outros volumes ao seu lado. Geraldine apenas dignou-se a dar umas batidinhas na saia do vestido e continuou a bordar. Poderia ser qualquer um, e não era como se alguém esperasse que Lily fosse ser cortejada.
Mas Lily não estava tão tranquila. E por mais que tentasse disfarçar a surpresa, só havia uma pessoa em sua mente.
As três mulheres presentes não precisaram conjecturar por muito mais tempo, e em poucos minutos Remus Lupin apareceu pela abertura da porta, com um chapéu na mão e um sorriso simpático. Alice voltou a encarar Lily, indagando com os olhos o que estava acontecendo. Geraldine sobressaltou-se. Lily apenas encarou-o sem reação.
"Bom dia, senhorita Evans" Remus fez uma mesura na direção de Lily, que rapidamente retribuiu, levantando-se e sendo seguida pela mãe e a amiga. "Senhora Evans, Senhora Longbottom."
A mãe de Lily recuperou-se da surpresa e de pronto assumiu um ar meio afetado que fez a filha sentir-se levemente constrangida. Mas não tanto, afinal fazia anos desde a última vez que uma das filhas havia sido cortejada.
"Estamos muito felizes em recebê-lo. Por favor, sente-se. A que devemos sua visita, senhor Lupin?" ela indicou uma das poltronas, na qual Remus sentou-se em seguida.
"Eu vim especificamente na intenção de conversar com a senhorita Evans, se isso não for um problema, é claro."
Lily ergueu as sobrancelhas na direção dele, que olhava dela para a mãe parecendo extremamente tranquilo, como se fizesse aquele tipo de visita todos os dias. A mãe de Lily piscou algumas vezes, talvez ainda se perguntando o que estava acontecendo. Foi Alice quem quebrou o silêncio.
"Geraldine, querida, eu posso servir de dama de companhia para Lily, o que acha? Assim você pode ir aos seus aposentos. Como havia me dito há pouco, estava planejando escrever uma carta a Petunia, não?"
Alice era especialista em arranjar desculpas e em descontrair o ambiente. Lily tinha certeza de que não haviam conversado sobre carta nenhuma, no entanto, a expressão no rosto da amiga era tão serena que ela ficou na dúvida entre quem fingia costume melhor, se Remus Lupin ou ela. Ambos dariam ótimos atores.
Com um semblante dividido entre sorridente e contrariado, Geraldine deixou a sala. Alice rapidamente informou que estaria lendo seu jornal no extremo da sala se alguém precisasse dela, e Lily se viu de repente sozinha com Remus Lupin sentado a sua frente, encarando-a.
"Apesar de estar honrada em recebê-lo, admito que não consiga adivinhar a que possa se dever sua inesperada visita, senhor Lupin."
"Me chame de Remus, por favor." Ele fez um rápido movimento com a mão, displicente. "Eu vim até aqui para me desculpar com você, senhorita Evans."
Lily fitou-o surpresa.
"Como disse?"
"A última coisa que eu ou Sirius gostaríamos era que alguém nos houvesse visto, como imagino que a senhorita possa imaginar" ele começou, olhando para as próprias mãos e medindo as palavras. "Mas em havendo sido você que nos descobriu, e quando James acabou nos contando sobre sua conversa, eu... Só queria me desculpar. E agradecer. Você não precisava fazer nada por nós e, ainda assim, aqui estou eu, aparentemente ainda seguro apesar dos riscos aos quais me expus." Deu de ombros, resignado, encarando-a.
Quando ela entendeu o que estava acontecendo, foi como se um novo sentimento brotasse dentro de seu peito. Havia um rapaz à frente dela, um jovem de sua mesma idade, se desculpando por ser quem era. Lily não soube definir exatamente o sentimento, se era compaixão ou só dor. Suspirou e esticou a mão para tocar discretamente a dele. Ignorou o que provavelmente foi um arregalar de olhos de Alice no outro canto da sala.
"Não há pelo que se desculpar, senhor L– digo, Remus."
Ele deixou um meio sorriso sincero surgir no rosto. Lily encarou-o de volta, como se dividissem um segredo. E era exatamente isso.
"Eu o respeito" Ela continuou, sentindo que deveria dizê-lo. "pela sua coragem em se arriscar em nome de seus sentimentos."
Remus pareceu surpreso com sua colocação, mas seguiu sorrindo para ela. De repente ele assumiu um ar misterioso.
Então era essa a Lily Evans da qual James lhe falara a favor com alguma estranha convicção. Honrada e confiável Lily Evans.
"Sabe, Lily, James é uma boa pessoa." Ela não deixou de notar o uso de seu primeiro nome, mas não se sentiu mal. "Ele é como um irmão para mim e Sirius, e nos protege desta forma. Às vezes acho que somos mais do que família. É uma ligação estranha." Observou a reação dela às suas palavras, atento. "Mas na ânsia de ser um bom filho, amigo, herdeiro... Ele se esquece de cuidar de si mesmo, e acho que essa é sua pior característica. Não sei exatamente o que aconteceu entre vocês, mas o que quer que tenha se passado, apenas achei que você deveria saber."
Sem dar tempo para uma réplica por parte da ruiva, o rapaz levantou-se, sendo imitado por ela. Fez uma última mesura e agradeceu a conversa. Agradeceu a ela, uma última vez, por tudo. E se foi, deixando atrás de si uma Lily Evans cheia de perguntas, e cada vez mais confusa em relação ao que estava sentindo.
Aquela era a primeira vez que eles se viam desde o baile alguns dias atrás. Era uma terça-feira de sol e, apesar do bom tempo lá fora, os dois rapazes haviam passado a tarde toda na sala da casa de Dumbledore. No momento, Remus e Sirius jogavam xadrez enquanto conversavam. O dono da casa também se encontrava no aposento, deitado em um sofá próximo à janela, parecendo dormir com um livro no colo.
Aquela era uma situação corriqueira na vida dos dois mais jovens. A rotina de uma semana normal se desenrolava mais ou menos assim: arriscavam-se em uma pequena aventura, então não se viam por dias, para depois encontrarem-se na casa de Dumbledore ou na mansão dos Potter ou no clube, dar um passeio com James ou algum outro amigo. Tentavam não levantar suspeitas, e vinham sendo bem sucedidos com essa rotina já há alguns anos.
Não fora tão simples no início, é claro. Haviam se conhecido em Cambridge por intermédio de James, primo de Sirius e amigo de Remus. De alguma forma, ele sabia que os dois se dariam bem, só não imaginava a intensidade. Pode-se dizer que houve uma faísca logo de cara, quando ambos reconheceram no outro algo que já viam em si mesmos, mas não foi antes de alguns meses de amizade que as coisas começaram a realmente acontecer.
Enquanto analisava Remus atentamente estudando o tabuleiro, alheio a sua observação, Sirius sorriu sozinho ao perceber que se lembrava como se fosse ontem da noite de Halloween de 1817.
Todos os rapazes da universidade estavam espalhados pelos pubs da cidade, a grande maioria bêbada demais para que se lembrasse no dia seguinte de qualquer coisa que fizessem. Havia combinado de encontrar com James e Remus no The Eagle, um clássico da cidade universitária.
Ao chegar ao local, Sirius logo viu James bebendo uma cerveja, mas não viu Remus em lugar algum. Ao indagar se o amigo avisara que iria se atrasar, James negou e apontou na direção do corredor dos banheiros. Lembrando agora, talvez aquele tenha sido o momento crucial onde tudo mudou. Quando Sirius viu Remus aos beijos com uma jovem qualquer, sentiu como se algum animal começasse a devorá-lo por dentro, e talvez em alguns minutos pudesse sumir ali mesmo. Não sabia o que aquela sensação significava exatamente, mas até o final da noite ele iria descobrir.
Focado em seu ódio contido, Sirius foi fundo no álcool naquela noite. James não percebeu, e estava extremamente alegre enquanto descrevia para o amigo o comentário que recebera de seu professor de economia sobre seu último trabalho, o qual fora muito elogiado. Sirius concordava, monossilábico, enquanto continuava bebendo. Eventualmente Remus se juntou a eles e a tensão pareceu se dissipar. Mas já era tarde e Sirius bebera o suficiente para ultrapassar um limiar e sentir como se pudesse dizer absolutamente tudo o que pensava.
Conforme a noite passou, ele não tirou os olhos de Remus. Em algum momento entre 23h e 00h, sentado à mesa alta de madeira em um canto do pub, de frente aos outros dois, que riam de alguma piada que alguém gritava na mesa ao lado, ele admitiu para si mesmo que desejava outro homem – no caso, seu melhor amigo. E pareceu repentinamente simples e até estúpido que não pudesse ter entendido isso antes. Era claro como água. E alguma coisa o dizia que talvez não fosse um sentimento platônico.
Quando a noite estava no seu fim, James era o mais alterado dos três, e foi levado ao seu dormitório auxiliado pelos amigos. Não estava na menor condição de flertar com alguma artista local, como tentara fazer no caminho até seus aposentos. Remus riu ao cobri-lo, e ele e Sirius saíram de volta para a noite com a intenção de retornar cada um para seu próprio dormitório.
Remus equilibrava-se sobre o meio-fio, caindo de vez em quando e subindo de volta, a camisa branca por fora das calças e a gravata já solta, os cabelos loiros um pouco desalinhados e um sorriso pairando nos lábios. Sirius caminhava ao seu lado, as mãos nos bolsos da calça, estudando-o. Seria possível que tivesse entendido tudo errado? Afinal, há algumas horas ele estava beijando uma mulher. Por outro lado, ele mesmo era abertamente interessado em mulheres, um libertino por natureza, e isso não mudava o que sentia realmente.
"Você está muito sério essa noite, Black." Remus de repente o tirou de seus devaneios, levantando a cabeça e encarando-o.
Aquela troca de olhares operou alguma coisa em Sirius. Ele manteve o olhar, com intensidade, e parou de caminhar. Então olhou ao redor, estavam completamente sozinhos em uma alameda do campus. Dane-se, foi a única coisa que conseguiu pensar. No instante seguinte, estava pressionando Remus contra uma parede próxima e colando seus lábios nos dele.
Inicialmente Remus se chocou com a investida, e tentou resistir instintivamente. Sirius então pegou em sua mão e pressionou ainda mais seu corpo contra o dele. E a partir daí não houve mais recusa. Os dois se entregaram ao prazer de sentirem-se finalmente vivos, como se nada pudesse detê-los. Não durou muito, pois rapidamente Remus lembrou-se de que se encontrava em terreno público, potencialmente à vista de qualquer um em Cambridge, e que poderiam ser presos por aquele ato – ou coisa pior.
Sirius comentou que seu colega de quarto estava visitando a família, e que tinha o dormitório para si naquela noite. E foi simples assim.
Desde aquela noite de Halloween quase três anos atrás eles eram amantes. Em pouco tempo decidiram contar a James, e desde então aquele havia sido o grande segredo dos três amigos.
De volta à terça-feira de sol na qual Remus e Sirius jogavam xadrez enquanto Dumbledore dormia um sono tranquilo em frente à janela, o moreno sorriu ao recordar seu passado recente. Apesar de tudo, sentia-se muito afortunado, pois era feliz com a pessoa que amava, ainda que não sob as condições que desejava.
A partir de sua pequena lembrança de tempos passados, Sirius se pegou pensando em James e no presente. Sabia que o amigo estava em uma situação incômoda e não tinha certeza de como ajudar. Decidiu levantar o tópico com Remus – ele sempre sabia o que fazer.
"Sabia que James guardou um fio de cabelo de Lily Evans naquela caixa de metal em que guarda seus botões de punho?"
"Ele fez o quê?" foi a resposta perplexa de Remus, enquanto voltava os olhos para o outro, desviando completamente a atenção de sua próxima jogada.
Sirius confirmou com um gesto de cabeça.
"Ele jogou fora depois. Mas você concorda que é muito suspeito?"
Remus concordou imediatamente, esquecendo-se completamente do jogo.
"Com certeza. Altamente inquietante. Quando o vimos fazer qualquer coisa do tipo antes?"
Os dois se encararam com expressões idênticas, como se concordassem sem palavras.
"Nunca." Disseram ao mesmo tempo.
"Você sabe o que isso quer dizer, não?" foi Remus quem perguntou, uma expressão sugestiva enquanto dava um pequeno sorriso.
"Que ele está apaixonado pela mulher que descobriu nosso segredo?" Sirius disse as últimas duas palavras em um sussurro, olhando de esguelha para o canto onde o benfeitor de Remus ainda dormia, parecendo completamente alheio ao mundo a sua volta.
O outro fez que sim com a cabeça.
"Talvez ele ainda não saiba o que sente exatamente" começou, supondo. "Mas tenho certeza de que há algum sentimento entre eles."
Sirius franziu o cenho, desconfiado. "Entre eles? O que quer dizer?"
Então Remus contou-lhe de sua visita à casa dos Evans dois dias antes. Sirius sorriu orgulhoso conforme o outro descrevia o que havia dito e como Lily Evans havia reagido ao seu agradecimento e desculpas.
"Você deveria ter visto a expressão dela quando falei de James. Seus olhos brilharam, não havia como não perceber. Deve ter acontecido algo mais do que ele nos contou, não é possível." Remus estava seguro de sua conclusão, e conseguiu com sucesso passar sua convicção para Sirius.
"E por que você acha que ele está negando tanto?" Sirius questionou, tentando entender. "Quero dizer, ele não tem nada a perder, tem? Está certo que ela não é exatamente a debutante da temporada, mas não seria nenhum grande escândalo se eles acabassem juntos."
Remus revirou os olhos na direção de Sirius, como quem explica o óbvio.
"Você não conhece seu melhor amigo? Ele provavelmente deve pensar que afastá-la é uma opção para, suponho, nos proteger ou qualquer coisa assim." Sirius franziu o nariz, contrariado. "Ou então ele pensa que é o único entre os dois com sentimentos, e não quer confrontá-la para descobrir. Não vejo outra explicação, Sirius. Para mim ele está, como sempre, preocupando-se mais com os outros do que consigo mesmo." Deu de ombros, convencido.
Sirius analisou a colocação. Fazia sentido. Mas ao mesmo tempo parecia tão estúpido. James era um homem inteligente, por que então não podia simplesmente se autorizar a ser feliz? E era tão simples para ele, sendo um homem que se sente atraído por mulheres, apenas se autorizar a ter sentimentos e tomar uma atitude!
Vendo a expressão exasperada de Sirius, Remus tocou sua mão, o fazendo encará-lo.
"Poderíamos tentar ajuda-lo." sugeriu, sondando. "O que acha?"
Sirius encarou-o, considerando a possibilidade. "Tem razão, é o mínimo que podemos fazer depois de tudo o que ele fez por nós." Após alguns segundos, teve uma ideia. "O que acha de uma pequena intervenção durante o baile dos Pettigrew?"
