Título: Bodas de Fogo.

Personagens principais: Yamanaka Ino e Sabaku no Gaara.


Disclaimer: Naruto não me pertence, pertence a Masashi Kishimoto. Desta forma, não viso quaisquer lucros sobre seus personagens. Esta fanfic é uma adaptação do livro Bodas de Fogo, de autoria de Deborah Simmons, de 1995.

Adaptação: Ação ou efeito de adaptar(-se). Ajuste de uma coisa a outra. Utilização de qualquer objeto ou utensílio para finalidade diversa de seu uso primitivo.


*Nota explicativa*

– Sinto-me o prêmio de um torneio, toda embrulhada e enfeitada (- Fala).

Ino sorriu amarga, a voz normalmente melodiosa vibrando de raiva e desprezo (Narrativa).

Não queria ser vista assim, vulnerável e impotente. (texto destacado)


Sinopse:

Sabaku no Gaara:

Diziam que o misterioso Cavaleiro Vermelho não era um simples mortal. Que fizera um pacto com demônio, em troca de se tornar um guerreiro invencível. Ino, porém, podia sentir com todo o seu ser que as sombras do enigmático e fascinante Gaara ocultavam um segredo muito mais profundo...

Yamanaka Ino:

Feito um vendaval, Ino invadiu o castelo de Suna para reivindicar o Cavaleiro Vermelho como marido! E Gaara percebeu que sua vida mudaria para sempre. Mas uma mulher tão ardente e cheia de luz iria aceitar viver uma paixão envolta pelas trevas?


Capítulo 4

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Ino não tinha muita certeza de quanto tempo permaneceu desperta, lutando contra a ansiedade e aguardando a chegada do marido, antes de adormecer.

Embora se sentisse um pouco desorientada ao acordar, não demorou nada para se lembrar de que estava em Suna, o castelo medonho do Cavaleiro Vermelho. Imediatamente alerta, abriu os olhos, o coração batendo descompassado no peito. Lutando contra o pânico crescente, olhou ao redor, temendo encontrar a figura sinistra do marido na cama, ao seu lado.

Mas não; estava só. O quarto continuava o mesmo de horas atrás, à exceção das velas que haviam queimado até o fim e do fogo quase extinto da lareira. Será que Sabaku viera vê-la como uma sombra negra e silenciosa? Inspirando fundo, ela percebeu que não fora uma visita inumana o que a acordara, e sim o amanhecer.

As primeiras luzes da manhã procuravam se infiltrar através das pesadas cortinas de veludo. Ino sentou-se, a surpresa inesperada deixando-a zonza. Sabaku não viera ao seu quarto! O alívio que a conclusão lhe trouxe foi tão intenso que teve vontade de rir. Qual o significado daquela atitude? Só havia uma única explicação possível: ele não a desejava.

Não tinha importância, pensou com uma pontada de orgulho feminino ferido. Tampouco o queria. E quem haveria de desejá-lo? Afinal o Cavaleiro Vermelho não passava de uma criatura sem rosto e sem forma que se escondia nas trevas e aterrorizava as pessoas com sua reputação terrível e temperamento explosivo. Seria uma verdadeira bênção ficar livre das suas atenções e já que ele não quisera possuí-la na noite de núpcias, provavelmente não iria fazê-lo nunca.

Mal conseguia acreditar na sua boa sorte.

Não precisaria dormir com o Cavaleiro Vermelho, nem enfrentar suas paixões animais ou ser obrigada a suportar uma provação dolorosa, provavelmente humilhante ao extremo. Aquela era a primeira coisa boa que lhe acontecera desde que pusera os pés em Suna. Se ao menos não fosse obrigada a permanecer ali.

Parecia-lhe óbvio que Sabaku não a desejava, portanto deveria haver uma maneira de convencê-lo a deixá-la ir para casa. Porém a lembrança da noite anterior, quando discutiram sobre o assunto, encheu-a de desânimo. Para um homem que dissera desprezá-la, o Cavaleiro Vermelho era bastante possessivo. Homens!

Todos gostavam de comandar e ditar regras, como se tivessem o direito divino para decidir o destino das pessoas. Talvez ele fizesse questão de mantê-la em Suna com o único objetivo de puni-la por tê-lo escolhido para marido. Não, não era possível que o lorde fosse assim tão mesquinho e cruel, apesar da reputação terrível.

Sentada na cama, ela puxou as pernas para junto do corpo e apoiou o queixo nos joelhos. Pena que ele não concordasse com a dissolução do casamento porque, infelizmente, não podia tomar nenhuma atitude a esse respeito sozinha. Também lhe ficara negada a chance de afirmar ter sido forçada a casar-se, mas... Ino quase levou um choque com a idéia que acabara de lhe ocorrer. Havia uma maneira de anular a união dos dois sim.

E uma maneira que não exigia o consentimento de Sabaku.

Relacionamentos em que os casais compartilham um parentesco de sangue de até quarto grau tornam-se inválidos perante a igreja. Verdade que não tinha qualquer parentesco com o barão. Precisava apenas dizer que sim...

Ela sorriu, as esperanças renovadas. Era de conhecimento geral que os homens às vezes fabricavam falsos ancestrais somente para se verem livres das esposas. Talvez o plano fosse improvável de dar certo, mas a existência de uma pequena chance valia o esforço. Ino pulou da cama, rindo feliz com a possibilidade de recuperar a liberdade. Seria um prazer derrotar o Cavaleiro Vermelho. O som deve ter despertado Kurenai porque a serva perguntou se podia entrar.

- Venha - ela respondeu alegre, fingindo não perceber a expressão de espanto no rosto da velha criada. - Bom dia, Kurenai. Agora que já terminamos de arrumar este quarto, talvez devêssemos começar a cuidar do resto do castelo.

Ainda era muito cedo para compartilhar suas esperanças. Melhor concentrar os pensamentos em seu novo, embora temporário, lar. Sem dúvida as tarefas físicas iriam ajudá-la a se manter ocupada até o momento de voltar para Konoha.

- O quê? - Kurenai continuava sem entender nada. - Vou mandá-la até a aldeia para buscar algumas mulheres dispostas a nos ajudar no serviço doméstico. Creio que até o fim do dia teremos quem possa cozinhar e cuidar da limpeza de maneira adequada. Também precisaremos de homens para retocar a pintura das paredes e se encarregar de um ou outro conserto necessário.

Ino contava as tarefas a serem feitas nos dedos das mãos, parecendo bastante entusiasmada.

- Ah, não podemos nos esquecer de providenciar tapeçarias e um guarda-louça para o salão. Depois que eu der uma boa olhada no castelo todo, saberei do que mais iremos precisar. - Ele vai deixá-la providenciar melhorias em Suna? - Bem...

Ino hesitou, recusando-se a admitir que ainda não chegara a discutir o assunto com o marido.

- Tenho certeza que Sabaku aprovará as mudanças. Claro que Suna não é tão bonito quanto Konoha, porém não se pode negar a beleza severa de suas linhas. Podemos tentar e ver o que conseguimos obter no final. Na minha opinião, devemos iniciar pela cozinha. Vou dar uma olhada nas despensas e porões, além de descobrir quem prepara aquela coisa horrorosa que Kankuro nos serve.

Kurenai, que até o momento estivera sorrindo diante do entusiasmo da jovem, tampou a boca com a mão e gemeu alto.

- Minha lady, não! Você não pode ir aos porões!

- E por que não?

- Porque deve ser lá que ele pratica magia negra.

- Quem? Sabaku?

- Sim. - A criada respondeu muito séria.

- Não tenho dúvidas de que aquele homem tem parte com o diabo e se esconde nos porões para invocar os espíritos malignos. O lugar deve ser tão quente e abafado quanto o inferno, cheio de fumaça escura, as mesas lotadas de frascos, vidros e tubos onde substâncias mortais são misturadas.

Ino riu alto, tentando imaginar o Cavaleiro Vermelho debruçado sobre uma mesa repleta de frascos, sua altura gigantesca dominando o ambiente inteiro.

- Oh, fique quieta, Kurenai. Quanta bobagem. Depois da noite passada, Sabaku lhe parecia muito menos ameaçador. Que ele resmungasse o quanto quisesse, pois no fim da história as coisas acabariam saindo à sua maneira.


- Minha lady se levantou cedo hoje. - Kankuro comentou enquanto ajudava o lorde a colocar a veste. - Ela parece estar de bom humor.

Sabaku ficou em silêncio. Ninguém precisava saber que a felicidade de sua esposa devia-se ao fato de não ter havido noite de núpcias. Claro que Ino se deliciara quando não fora obrigada a cumprir os deveres matrimoniais. De fato não ficaria surpreso se ela tivesse aberto o melhor vinho da adega para celebrar.

- Ela pediu uma audiência com você - o servo concluiu.

- Em outras palavras, minha esposa exige me ver.

- Sim, meu lorde. Sabaku deu de ombros e acabou de se vestir.

- Diga a ela para se juntar a mim na hora do almoço.

Kankuro pareceu hesitar.

- Você acha a idéia sensata, meu lorde?

Não, a idéia não era nem um pouco sensata, o Cavaleiro Vermelho decidiu. Mas hoje, pela primeira vez nos últimos meses, não acordava pensando naquilo que o consumia. Hoje, acordara pensando em cabelos louros, quase brancos, e olhos azuis...

Ainda podia ouvir o tom ligeiramente rouco da voz feminina, sentir o perfume suave que emanava das formas delicadas e excitava os seus sentidos. Sabaku sentiu uma pressão na região das virilhas ao se lembrar daqueles seios firmes pressionados de encontro ao seu peito quando a beijara na capela. Há muito tempo não desejara alguém com tanta intensidade.

- Quero comer na companhia de minha esposa. Alguma objeção?

Ele indagou calmamente. Alguns segundos se passaram antes que Kankuro se aventurasse a responder.

- Você confia nela?

- Não, não confio, porém a considero intrigante.

A resposta não era de todo verdadeira. Embora o plano de Ino para iludir Neji tivesse sido tolo e ingênuo, ele a admirava pela coragem de tentar escapar às regras impostas pelo destino. Também a admirava pela elegância e fibra demonstrada em face à derrota. Seria natural esperar que Ino procurasse fugir das conseqüências ao perceber que nada saíra como planejado.

O fato dela ter permanecido firme, tanto complicava quanto trazia um novo significado à sua vida. Os sentimentos que aquela mulher despertava em seu coração eram tão contraditórios que não se atrevia a examiná-los.

- Pode ser perigoso, meu lorde - Kankuro insistiu.

Pelos céus! Claro que era perigoso, Sabaku praguejou em silêncio.

- Talvez fosse melhor se você pedisse a anulação deste casamento.

O Cavaleiro Vermelho virou-se na direção do servo, sem saber se queria ou não ouvir certos conselhos. Por outro lado, não podia correr riscos desnecessários. Devia considerar todas as opções em relação à sua nova esposa cuidadosamente antes de tomar qualquer decisão definitiva.

- E baseado em que eu pediria a anulação deste casamento? - ele indagou com aspereza.

- Talvez você ainda não tenha pensado no caso, meu lorde, mas existe uma proibição contra uniões consangüíneas. Até mesmo parentescos distantes podem ser invocados. Portanto não seria difícil arranjar testemunhas dispostas a jurar que você e lady Yamanaka são parentes.

- Verdade - Sabaku murmurou, sentando-se na beirada da cama. - Por que não pensei nisso antes?

Quando na noite anterior Ino viera com aquela história ridícula de que ele fora obrigado a casar-se, por que não se lembrara da proibição sobre uniões em que houvessem laços de sangue?

Se fosse sincero consigo mesmo, admitiria que na presença da esposa acabara esquecendo-se de tudo o mais. Ficara fascinado pela voz envolvente, pelo perfume feminino e suave... e até pelos absurdos ditos com total convicção. Ino parecia conseguir tirar qualquer homem do sério com um simples estalar de dedos. Melhor livrar-se dela. Embora reconhecesse o fato, alguma coisa o impedia de tomar as providências necessárias.

Talvez a lembrança da vida pulsando em seu quarto escuro sob a forma delicada de uma mulher. Era difícil abrir mão de um raio de luz.

- Hyuuga Neji não permitirá que uma jovem mantenha o poder sobre um feudo tão próspero quanto Konoha. Mesmo que a Igreja concorde em nos conceder a anulação do casamento, o rei simplesmente a forçará a escolher outro marido.

- Sim - Kankuro concordou, continuando a arrumar o quarto. - Você deve estar certo, meu lorde. Contudo, casada com outro, lady Yamanaka deixará de ser uma ameaça.

O barão resmungou qualquer coisa ininteligível. Ao imaginar Ino abandonando Suna, a sensação de perda era tão intensa quanto inesperada. A quem ela escolheria da segunda vez? As circunstâncias o tinham forçado a romper contato com quase todos os cavaleiros da corte, a maioria realmente desprezível.

Aquela mulher suave, casada com outro homem, os cabelos louros espalhados sobre o travesseiro, as pernas abertas enquanto alguém a violentava... Era uma visão que não conseguia ignorar.

- Eu não quero que ela sofra nas mãos de qualquer um. - Na verdade não queria a esposa nas mãos de homem algum. E quem poderia condená-lo por isso? - Neji não iria ficar nada satisfeito com esse pequeno truque tampouco. Aliás, o rei acredita na importância do casamento como instituição séria. É melhor deixarmos as coisas como estão, pelo menos por agora.

- Você está certo como sempre, meu lorde. Mas será que ela deve ficar em Suna? Se lady Yamanaka é dona de um feudo tão próspero, não seria mais sensato mandá-la de volta para lá?

- Não! -Sabaku surpreendeu-se com a própria reação, uma mistura de possessividade em relação à esposa e irritação pela interferência de Kankuro. Embora soubesse muito bem que o servo falava com a voz da razão, mesmo assim preferia não lhe dar ouvidos. - Ela é minha. E como qualquer outra esposa, ficará ao lado do marido. Não ultrapasse os seus limites, meu amigo.

- Sim, meu lorde. - Kankuro suspirou alto, deixando claro que não concordava com o Cavaleiro Vermelho, apesar das palavras ao contrário. - Quer dizer então que você vai contar tudo à lady Yamanaka?

- Não, não vou contar nada! E você também não dirá coisa alguma. Ficará de boca fechada, mesmo se ela tentar fazê-lo falar. Ino é inteligente, não costuma cometer erros, ainda que trace planos às vezes ridículos.

- Mas, meu lorde, como vamos conseguir contornar a situação? O que você pretende fazer? Apesar da preocupação evidente do servo, Sabaku não demonstrava qualquer sinal de afobação.

- Vamos continuar exatamente como estávamos antes dela chegar. Agora pode ir, Kankuro. Vou pensar nos seus conselhos, porém tomarei minhas próprias decisões no que diz respeito a essa esposa inesperada.

Tão logo se viu a sós, Sabaku encostou um braço na parede e praguejou baixo para aliviar a tensão. Percebendo o humor do dono, os cães se aproximaram em busca de um pouco de atenção.

- Qual é a sua opinião, Castor? E a sua, Pollux? O que vocês acham da nova senhora do castelo? - Os animais bNarutoçaram os rabos felizes ao ouvir seus nomes. - Sim, é uma mulher tentadora demais... Sei muito bem o que eu gostaria de fazer com a pequena Yamaka. Quando da usa aquele tom de voz superior, tenho vontade de jogar os pratos e as travessas para o lado e possuí-la ali mesmo, em cima da mesa. Mas isso está fora de cogitação... não é? O sensato seria devolvê-la para a corte de Neji, que a essas alturas dos acontecimentos deveria estar morrendo de rir com o desfecho da história.

Como se concordando com as palavras do dono, os cães agitaram os rabos freneticamente. Ao cumprimentar o marido, Ino procurou evitar o tom triunfante da voz, contudo era impossível disfarçar a intensa satisfação. Estivera certa ao pensar que as coisas sempre parecem melhores pela manhã.

- Meu lorde. - Ela falou, aproximando-se da mesa. A visão daqueles aposentos estranhos e da silhueta de Sabaku escondida pelas sombras já não a perturbava como antes. De alguma maneira, depois da noite anterior, ele começara a lhe parecer menos ameaçador, o que a enchia de otimismo.

Talvez pudessem chegar a um acordo, fazer algum tipo de arranjo que os permitisse viver em paz sob o mesmo teto, assim como vivera anos e anos ao lado do pai. Cada qual iria cuidar da própria vida sem tomar conhecimento da existência do outro.

- Minha lady - Sabaku respondeu, indicando lhe a cadeira. Ino lambiscava os alimentos com prazer. Afinal fizera questão de supervisionar a preparação dos pratos e aquela devia ser a primeira refeição decente que o barão comia há meses.

- Espero que a torta de veado esteja do seu agrado.

- Por quê? Foi você quem a fez?

- Sim. Dei uma boa olhada na cozinha hoje e creio que poderei deixá-la em condições bem melhores, a começar pela limpeza geral. O detalhe é que vou precisar de ajuda. Estive pensando em ir até a aldeia durante a tarde e trazer algumas aldeãs para trabalhar no castelo em caráter permanente.

Ela procurava modular a voz com cuidado, fazendo das palavras não um pedido, mas um simples comunicado da sua decisão. Apesar do esforço, as mãos trêmulas traíam todo seu estado de apreensão. Os minutos pareciam se arrastar enquanto aguardava os comentários do Cavaleiro Vermelho. Estava resolvida a não ceder.

Hoje não se deixaria intimidar pela figura gigantesca ou pelo temperamento explosivo. Se o barão pretendia forçá-la a morar em Suna, então seria obrigado a lhe dar permissão para transformar o castelo num lugar habitável. Pronta para lutar por seus pontos de vista, foi pega de surpresa pela resposta do marido.

- Sinta-se à vontade para fazer o que quiser.

- Obrigada, meu lorde. - Ino inspirou fundo, procurando relaxar. - Sabia que podia contar com a sua compreensão. Kankuro, como o mordomo-mor, devia estar supervisionando o trabalho dos outros empregados e não constantemente servindo a todos nós, como vem fazendo. Precisamos de servos e da ajuda de alguns homens para fazer reparos, retoques na pintura e coisas assim. Claro que temos necessidade de um estoque maior de velas e castiçais, além dos serviços de um tecelão e de um marceneiro. Se você quiser, poderei me encarregar de supervisionar a produção da leiteria e da horta também.

- Você é um poço de energia, minha lady. - O tom de Sabaku era tão estranho que Ino se sentiu corar. Sem saber o que dizer, baixou os olhos para o prato e permaneceu em silêncio. Será que havia uma nota de sarcasmo escondida naquelas palavras aparentemente elogiosas? Será que seu entusiasmo agradava ou irritava o Cavaleiro. Vermelho?

O barão de Suna não era um homem como outro qualquer. Seus pensamentos, assim como sua figura sempre encoberta pelas sombras, eram enigmáticas. Desejando não dar chances a uma nova discussão, Ino continuou quieta, ansiosa para terminar de almoçar e cuidar de seus afazeres. Contudo Sabaku ainda não parecia disposto a dispensá-la.

- Seu pai já morreu? - Ele indagou depois de um longo silêncio.

- Sim. Há um ano.

- E você não tem mais ninguém?

- Tinha três irmãos. Dois morreram por causa de uma febre, quando eu ainda era menina. O terceiro foi morto durante uma batalha.

- Deve ter sido duro para você, cuidar de tudo sozinha. - A voz da barão era quase Suave agora.

- Não. - Ino a interrompeu firmemente. - Consegui dar canta de tudo muito bem. Na verdade tenho administrado Konoha há anos, das quais os últimos sem auxílio de ninguém. O feudo prosperou bastante sob minha administração. As coisas poderiam ter continuado assim, se não fosse pela intervenção de nosso bom rei que decidiu me tirar aquilo que me pertence por direito.

- Você nunca quis se casar?

- Não, nunca. Sei administrar Konoha sozinha e com competência. Para que iria querer um homem? Apenas para trazer ruína às minhas terras? Um silêncio inquietante se estendeu por várias segundos.

- Para lhe dar filhos? - Sabaku sugeriu afinal.

- E assim eu poderia vê-los morrer, como vi meus irmãos? - ela retrucou, as palavras soando amargas como fel. - Não, abrigada.

Incomodada pela fato. da conversa ter se tornada pessoal demais, Ino bebeu um pouca de vinha.

- Então estamos de acordo. Você não deseja um marido e eu tampouco deseja uma esposa. É uma pena que tenhamos nos casado um com a outro. Ela quase engasgou e precisou se esforçar para recuperar a compostura.

- Sempre passa contar com a sua ajuda, meu lorde, para estragar uma refeição e me lembrar de como fui tola ao o escolher para marido...

Será que o ouvira rir? Não, o Cavaleiro. Vermelha era inumano demais para rir.

- Não havia ninguém mais a quem você pudesse escolher? - Ele indagou interessado. - Um amigo da família? Um parente distante? Um vizinho?

Ino sorriu amarga.

- Meu vizinho é uma criatura nojenta e arrogante, sempre cobiçando minhas terras. - Ela não explicou que Orochimaru também insistia em conquistá-la porque preferia não ter que ouvir as deboches de Sabaku.

A opinião que o Cavaleiro Vermelho tinha a seu respeito era tão baixa que certamente a considerava incapaz de despertar o desejo num homem. Mas Orochimaru a desejava sim, e a ideia não era nem um pouco agradável.

- Por acaso você conhece o barão Orochimaru?

- Não.

- Sorte a sua. É o tipo de amizade que eu desaconselharia qualquer um a cultivar. Orochimaru é mentiroso, ladrão e traiçoeiro, sempre se derramando em sorrisos falsas e palavras doces enquanto tenta invadir Konoha nas minhas costas.

- Ele nunca atacou o feudo? - Sabaku indagou, a voz repentinamente dura e fria como o aço.

- Não. Na minha opinião ele não tem coragem suficiente para lutar, por isso procura atingir seus objetivos usando intrigas e ameaças veladas. Também conta com a atenção do rei. Aposto que deve estar fNarutodo nos ouvidos de Neji agora, demonstrando todo o seu ultraje.

- Quer dizer que a tal Orochimaru queria se casar com você?

A ferocidade contida na pergunta da Cavaleiro Vermelho surpreendeu-a.

- Sim - ela respondeu depois de algum tempo. - Orochimaru sempre quis Konoha e depois da morte de meu pai, achou que era chegada a hora. Tornou-se uma peste tão grande, que precisei instruir as guardas das portões para não deixá-lo entrar. Eu... eu não confio naquele homem.

Ainda se lembrava de como uma de suas servas mais fiéis a alertara para a possibilidade de Orochimaru tentar estuprá-la para obrigá-la a se casar com ele. Desde então ignorara todos os pedidos do barão para ser admitido em Konoha. Ino inspirou fundo antes de continuar.

- Na minha opinião trata-se de uma criatura estúpida demais para perceber que os Yamaka sempre conseguiram enxergar seu verdadeiro caráter. Além do mais é arrogante, cheio de si, incapaz de imaginar que alguma donzela possa lhe dizer não. Tornou-se dono de um feudo através do casamento. Com certeza conseguiu enganar sua pobre esposa com sua boa aparência e charme falso.

- Ele era casado?

- Sim. A esposa de Orochimaru morreu muitos anos atrás, provavelmente em conseqüência do longo tempo em que o marido a deixou trancada dentro de uma das torres do castelo.

Ino ergueu a cabeça, desejando que os aposentos não estivessem tão escuros para que pudesse julgar a reação de Sabaku.

- Ele ficará furioso quando descobrir que eu escolhi outro homem para marido.

- Orochimaru realmente acreditava que você pudesse escolhê-lo?

Ino riu diante do tom cético do Cavaleiro Vermelho.

- Sim. Tenho certeza que esperava ser o escolhido porque se considera o máximo. Também julgava que eu iria preferir um rosto que já me fosse familiar.

- E você está longe de ter optado por um rosto que lhe era familiar.

- Estou mesmo. - Ino concordou, achando a pilhéria partilhada com o marido quase... apreciável.


Não demorou muito para o bom humor de Ino azedar e quando entrou nos aposentos do Cavaleiro Vermelho na hora do jantar, estava furiosa.

A escuridão que lhe parecera de pouca importância de manhã, agora pesava em seus ombros como um manto negro e ameaçador. Sem dar uma palavra, sentou-se à mesa, diante da figura protegida pelas sombras.

- Minha lady - Sabaku cumprimentou-a com delicadeza.

- Meu lorde. - Ela não disse mais nada e se serviu de uma posta de peixe sem vontade, odiando aquele jogo de gato e rato.

Não estava acostumada a ser tratada assim. Seu pai e seus irmãos haviam sido frios e distantes, porém nunca a tinham manipulado por pura diversão, enquanto permaneciam escondidos nas trevas. Quisera poder ficar de pé e enfrentá-lo face a face, em vez de se submeter às sombras.

O silêncio se estendeu durante toda a refeição. Só se ouviam os ruídos dos talheres e das respirações dos cachorros deitados aos pés do dono. Ino sentia-se terrivelmente oprimida. Mesmo quando jantava em seus aposentos, em Konoha, quase nunca comia só. Se nenhum dos convidados lhe fazia companhia, podia contar com presença das servas. Enquanto aqui, um solitário Kankuro trazia as bandejas e se retirava, deixando-os na mais completa escuridão.

Ino tinha a impressão de estar enterrada viva, com a sombra de um demônio a espreitá-la. A sensação inquietante crescia pouco a pouco, fazendo-a pensar como julgara possível apreciar um minuto sequer ao lado do Cavaleiro Vermelho.

Ele devia ser tão sinistro quanto as histórias de Kurenai o pintavam além de inteligente também, para arrancar tantas informações dela como o conseguira na hora do almoço. Tinha ódio de si mesma por ter sido ingênua a ponto de falar livremente sobre sua família e Orochimaru.

Qual teria sido o objetivo de Sabaku? O que ele poderia querer? Talvez utilizar as informações para puni-la por causa do casamento desastroso? Ou quem sabe seu marido tinha outras idéias diabólicas em mente? Como Sabaku devia ter rido de seus planos entusiasmados para colocar o castelo em ordem! Ele lhe dera carta branca para tomar qualquer iniciativa, sabendo muito bem que nada poderia ser feito... Que ódio! A voz terrível interrompeu o curso de seus pensamentos.

- O jantar está gostoso. Também notei um sabor diferente no pão.

Ino recusou-se a responder ao elogio.

- Você fez um bom trabalho na cozinha.

Era óbvio que Sabaku esperava uma resposta, mas ela preferia enfrentar as chamas do inferno a agradecer os cumprimentos.

- Sim. - Foi a resposta curta e seca. Não diria mais nenhuma palavra. Se Sabaku não soubesse nada sobre seus sentimentos ou desejos, não teria como magoá-la, assim como fizera hoje cedo. Agora, quanto a outros tipos de mágoas e outras maneiras de infligi-las, melhor nem pensar.

Só queria terminar a refeição e sair dali. Uma vez de volta ao seu quarto, poderia começar a traçar uma nova árvore genealógica, com ancestrais comuns ao Cavaleiro Vermelho. Quando acordara, pensara ser possível colocar Suna nos eixos antes de ir embora, porém tudo o que queria neste momento era conseguir a anulação do casamento o mais breve possível.

- Como foi a sua tarde? - Sabaku indagou interessado. Aquela pergunta, feita num tom tranqüilo, afastou sua resolução de permanecer em silêncio por água abaixo.

- Você sabe muito bem como foi a minha tarde - ela respondeu entre os dentes, mal controlando a fúria. - Kurenai não conseguiu convencer mulher alguma da aldeia a trabalhar aqui e muito menos a morar no castelo. Se você não aprovava os meus planos, por que não me disse? Por que permitir que eu me desse ao trabalho de imaginar soluções para Suna? Simplesmente para me humilhar? Você me despreza tanto assim?

Percebendo que sua voz traía toda a carga de emoção interior, Ino fechou a boca para conter o desespero.

- Não a desprezo. - Ele falou delicadamente.

- Não mesmo? Depois de tudo o que me fez passar hoje? E minha criada também. Kurenai voltou da aldeia mais apavorada do que antes porque os aldeões alimentaram os medos dela com histórias fantásticas. Eles pensam que você é um demônio!

- E você não?

- Não sou uma camponesa ignorante, alguém que nunca deu um passo além do próprio quintal. Sei que os cavaleiros costumam cultivar lendas sobre si mesmos para espalhar o terror no coração dos inimigos.

- Quer dizer então que você é imune ao terror?

- Não sou seu inimigo! Por acaso você acha que sim? - Quando o Cavaleiro Vermelho recusou-se a responder, a fúria de Ino excedeu os limites.

- Estou cansada de seu desprezo, estou farta de seus deboches. Você devia ser grato por eu o ter escolhido! Pelo aspecto de Suna, o que lhe falta é uma castelã competente. E você tem essa castelã competente bem na sua frente! Eu cuidei do feudo de meu pai, antes e depois da morte dele. Orientei o administrador em todas as tarefas. Supervisionei pequenas obras, os trabalhos de criação de animais, o movimento da cozinha, da despensa, os serviços prestados pelo marceneiro...

Ino tinha perdido por completo o controle e as palavras se sucediam num tom exaltado.

- Cobrei aluguéis, resolvi problemas com a lei e administrei orçamentos para o feudo inteiro. Sou capaz de treinar um falcão, sei ler e escrever, jogo xadrez. E ainda dizem que possuo uma bela voz. Tudo isso além da larga soma de dinheiro que trouxe comigo como dote. Juro para você que qualquer outro homem se sentiria feliz em me ter como esposa.

O punho de Sabaku desceu sobre a mesa com violência, bNarutoçando pratos e talheres.

- Mas eu não sou qualquer outro homem. - Ele gritou, levantando-se como uma fera enraivecida. - E você sabia muito bem disso quando me obrigou a aceitar esse casamento. Pelos céus, não quero nenhuma esposa se metendo em meus assuntos!

Ino levantou-se também e deu um passo para trás, para longe do alcance da ira. Pela primeira vez naquele dia, sentiu medo.

- Você não sabe nada sobre mim! Nada, sua mulher tola! Ao perceber que o marido caminhava na sua direção, ela pensou em fugir, em correr para a porta em vez de enfrentar a figura sólida e enfurecida. Porém uma Yamanaka não se acovarda nunca. Embora o coração batesse descompassado no peito, ficou firme, o queixo erguido.

Ao sentir as mãos fortes pegarem-na pelos braços, teve certeza de que seria sacudida como um galho seco de árvore.

Apesar de atos de violência entre marido e mulher não serem incomuns, jamais imaginara que algo assim viesse a fazer parte da sua vida. Porém antes mesmo de conseguir abrir a boca para protestar, Sabaku puxou-a de encontro ao peito.

Os lábios masculinos, quentes e ávidos, uniram-se aos seus, tomando tudo, nada pedindo, transformando o medo de minutos atrás numa coisa muito diferente. Entretanto... bem devagar, o beijo foi se modificando, tornando-se mais suave e gentil. Embora ele a segurasse pelo pescoço para mantê-la prisioneira do abraço, Ino sabia que o momento de fugir havia passado.

Não tinha intenção alguma de escapar porque uma sensação estranha a fazia querer permanecer exatamente onde estava, colada ao Cavaleiro Vermelho. O beijo de Sabaku não era nem um pouco parecido ao de Rothchilde, nem um pouco parecido com o que sua imaginação a levara a crer. Imersa na total escuridão, Ino sentia-se viva apenas por causa do toque daqueles lábios.

Ao sentir a pressão do polegar masculino em seu queixo, ela obedeceu ao pedido silêncioso sem pensar, deixando a língua imperiosa invadir sua boca. Depois fechou os olhos e abandonou-se às emoções. As sombras que a cercavam eram como um castelo, assim como o peito forte e pulsante de encontro aos seus seios.

Sem que pudesse resistir ao impulso, ergueu os braços e enlaçou-o pelo pescoço, estreitando o abraço, isolando-os do mundo. A língua de Sabaku, úmida e urgente, a impelia para além da razão, fazendo-a querer mais, muito mais.

Quando ele a ergueu pela cintura, para que os quadris de ambos se tocassem, Ino ouviu-o deixar escapar um murmúrio de prazer. Levada pelo instinto, tocou a língua masculina com a sua, ansiosa para experimentar o gosto do homem que o destino lhe impusera. A reação de Sabaku, um gemido baixo e intenso, fez o sangue de Ino ferver nas veias.

Me leve com você, meu marido..., ela pensou, louca de paixão. Me guie...

- Ino, Ino... minha doce esposa.

A urgência contida na voz do Cavaleiro Vermelho, tão diferente da habitual, trouxe-a de volta à realidade. Mesmo não podendo lhe enxergar o rosto, sabia que Sabaku queria lhe dizer algo e procurava as palavras certas.

- Tenho que viver dessa maneira por razões pessoais. - Ele falou afinal, ainda abraçando-a. - Mas uma coisa lhe garanto. Você pode fazer o que quiser dentro deste castelo. Limpar, arrumar, mobiliar, providenciar reparos. Se as mulheres da aldeia não quiserem vir ajudá-la, traga os homens para fazer o serviço. E se eles se recusarem, diga-lhes que irei pessoalmente arrastá-los até aqui, para prestarem serviço ao lorde de Suna. Agora vá.

A suavidade do tom impediu que a ordem soasse rude, porém quando Sabaku se afastou, foi como se o mundo se tornasse repentinamente gélido.

Ainda trêmula e atordoada pelo acontecido, Ino deu alguns passos na direção da porta, mal percebendo que o Cavaleiro Vermelho lhe fizera enormes concessões. Antes de sair, fitou a escuridão impenetrável, tentando acalmar as batidas descompassadas do coração. Só não sabia o que a assustava mais, o fato de Sabaku a ter dispensado ou a certeza de que na verdade não queria deixá-lo.


Nota de rodapé: Esta fanfiction é uma adaptação do livro Bodas de Fogo, de autoria de Deborah Simmons, de 1995.

Apesar de ser apenas uma adaptação de um livro já publicado, tenho todo um trabalho de revisão e edição, adaptação no geral, que envolve leitura atrás de leitura, então por favor, leu? Gostou? Tem uma crítica? Deixe uma review, que com certeza vai me motivar a trabalhar mais rápido para publicar o novo capítulo.

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