Título: Bodas de Fogo.

Personagens principais: Yamanaka Ino e Sabaku no Gaara.


Disclaimer: Naruto não me pertence, pertence a Masashi Kishimoto. Desta forma, não viso quaisquer lucros sobre seus personagens. Esta fanfic é uma adaptação do livro Bodas de Fogo, de autoria de Deborah Simmons, de 1995.

Adaptação: Ação ou efeito de adaptar(-se). Ajuste de uma coisa a outra. Utilização de qualquer objeto ou utensílio para finalidade diversa de seu uso primitivo.


*Nota explicativa*

– Sinto-me o prêmio de um torneio, toda embrulhada e enfeitada (- Fala).

Ino sorriu amarga, a voz normalmente melodiosa vibrando de raiva e desprezo (Narrativa).

Não queria ser vista assim, vulnerável e impotente. (texto destacado)


Sinopse:

Sabaku no Gaara:

Diziam que o misterioso Cavaleiro Vermelho não era um simples mortal. Que fizera um pacto com demônio, em troca de se tornar um guerreiro invencível. Ino, porém, podia sentir com todo o seu ser que as sombras do enigmático e fascinante Gaara ocultavam um segredo muito mais profundo...

Yamanaka Ino:

Feito um vendaval, Ino invadiu o castelo de Suna para reivindicar o Cavaleiro Vermelho como marido! E Gaara percebeu que sua vida mudaria para sempre. Mas uma mulher tão ardente e cheia de luz iria aceitar viver uma paixão envolta pelas trevas?


Capítulo 5

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Ino levantou-se na manhã seguinte sentindo-se estranhamente inquieta. Fora uma noite longa e insone. Ficara horas acordada, rolando na cama de um lado para o outro, incapaz de relaxar.

Porém a ausência de Sabaku não lhe trouxera qualquer alívio, muito pelo contrário. Bastava pensar naquele beijo para seu sangue ferver nas veias e ela se perguntava se em vez de apreciar a ausência do marido, não devia se considerar insultada.

Sempre soubera que os homens a consideravam uma mulher atraente, embora tivesse passado a maior parte da vida tentando ignorar o fato. Estar à altura dos irmãos, ajudar o pai a administrar Konoha e ter seu sucesso reconhecido haviam sido muito mais importantes do que beleza física para a garota solitária, criada num ambiente marcadamente masculino.

Sua família jamais dera qualquer importância à sua aparência e sim às suas habilidades de castelã. Contudo outros homens costumavam valorizar qualidades superficiais, como beleza, por exemplo, e até manifestavam certas preferências.

De repente Ino se perguntou quais seriam as preferências de Sabaku em relação ao sexo oposto. Talvez mulheres altas, morenas, de curvas generosas. Irritada consigo mesma, procurou ignorar os pensamentos.

Não ligava a mínima para o Cavaleiro Vermelho ou as suas predileções!

A única coisa que lhe interessava agora eram as concessões que recebera. Tinha mil planos para o castelo. Na verdade Suna não seria tão ruim assim se Sabaku lhe desse carta branca para administrá-lo. E depois de ontem à noite, suspeitava que conseguiria obter sucesso na empreitada.

Afinal ele parecera sofrer uma transformação durante o jantar. E que transformação! Num momento rugia como uma fera e no outro... Sem que pudesse evitar o impulso, Ino tocou os lábios com as pontas dos dedos, lembrando-se do beijo apaixonado que haviam trocado.

Como fora capaz de retribuir a carícia com tanto ardor? Pela primeira vez desde a celebração do casamento, perguntava-se o que estaria perdendo por não consumá-lo. Não; quanta tolice! Um beijo era uma coisa, dividir a cama com alguém era outra bastante diferente. Para completar, o Cavaleiro Vermelho também não podia ser considerado um homem comum, e sim um enigma, cuja face ou corpo sequer chegara a ver.

Ela estremeceu, mal conseguindo acreditar que, de livre e espontânea vontade, tivera coragem de abraçar um completo estranho. De repente a fama aterradora de Sabaku pareceu pesar sobre seus ombros como um manto insustentável. Entretanto, apesar de todos os boatos, Kurenai se enganara a respeito de um detalhe.

O Cavaleiro Vermelho, definitivamente, não era uma sombra, mas sim de carne e osso. Podia testemunhar quanto a esse detalhe. Aliás, o contato daquele corpo sólido a deixara em fogo... Irritada, Ino procurou desviar o rumo dos pensamentos. Apesar dos beijos de Sabaku não serem...detestáveis e apesar de lhe ter sido permitido fazer alterações no castelo, não se sentia pronta para colocar os planos de lado. Continuava determinada a provar sua falsa ascendência e conseguir a anulação do casamento. E quanto mais rápido melhor.

Enquanto isso, trataria de colocar Suna nos eixos. Era o tipo de trabalho que sabia fazer com perfeição. Se sua aparência física não agradava Sabaku, pouco podia fazer a respeito, porém mostraria suas qualidades de castelã. Eventualmente, mesmo o Cavaleiro Vermelho ficaria satisfeito com os seus esforços. Não que desse qualquer importância à opinião de Sabaku a seu respeito.

Também não era por causa dele que decidiu colocar uma de suas roupas preferidas. Um vestido de veludo azul claro, com bordados num tom mais escuro na gola e nas mangas. O contraste do tecido com sua pele branca e cabelos muito louros realmente a favorecia. Seu pai, nunca dado a elogios, quando a vira naquele vestido pela primeira vez, dissera que o fazia pensar numa jóia delicada encravada em prata.

Ino ficara feliz porque sem um espelho onde pudesse se ver refletida, tinha apenas a opinião de terceiros para formar uma ideia quanto a própria aparência. Depois de se vestir, ela chamou Kurenai para ajudá-la a arrumar os cabelos.

Sendo agora uma mulher casada, seria mais adequado usar as longas madeixas prateadas presas ao redor da cabeça, e não no costumeiro rabo de cavalo, como era o costume. Já que pretendia ir até a aldeia, acabou se deixando convencer pela velha criada a usar um broche no alto da cabeça, embora normalmente consideraria o enfeite pomposo demais.

- Você está linda. - Kurenai murmurou, os olhos brilhando de emoção. - Se ao menos pudéssemos estar de volta à corte, aposto que todos os cavaleiros do reino iriam pedir sua mão ao rei Neji.

- Mas só que não podemos voltar no tempo. Também continuaria sem me interessar por qualquer um deles. Jamais me arrumei de maneira especial para agradar um homem e não pretendo começar agora.

Por um momento Ino imaginou se Kurenai não estaria provocando-a, acusando-a de se vestir de modo especial para impressionar o marido. A serva acabaria pensando que ela perdera a cabeça!

- Vou até a aldeia hoje. Também pretendo assumir meu papel de castelã de Suna, com todas as obrigações que o cargo implica.

Ino se apressou a explicar, como se assim justificasse a escolha do traje.

- Você pode estar parecendo uma rainha, minha lady como na verdade está. Porém, por mais que tente, não conseguirá fazer os aldeões mudarem de idéia. Eles dizem que o Cavaleiro Vermelho recebeu Suna como prêmio e que passou dois anos inteiros lutando ao lado do rei Neji, vindo visitar a propriedade apenas uma vez. Dizem também que ao voltar para cá, o Cavaleiro Vermelho se trancou dentro do castelo e daqui não saiu mais desde então. Enquanto o lugar se transforma em ruínas, o barão continua às voltas com feitiçarias. Dizem que...

- Psiu! - Ino cortou-a impaciente. - Sei muito bem o que todos dizem e pensam a respeito de Sabaku, mas precisamos de ajuda para colocar o castelo em ordem e pretendo consegui-la. Você duvida de que eu seja capaz de obter o que quero?

Kurenai sacudiu a cabeça vagarosamente, dividida entre o desespero que a situação lhe causava e a lealdade à sua senhora.

- Bem, não vou forçá-la a nada. Você pode ficar aqui enquanto vou à aldeia sozinha. O que foi agora? – Ela indagou, percebendo que a serva retorcia as mãos sem parar, os olhos brilhando de ansiedade.

- Pense no que vou lhe dizer, minha lady. Eu poderia acompanhá-la e juntas daríamos um jeito de fugir desse lugar amaldiçoado.

- Kurenai! Me faça o favor de parar com essas bobagens. Estamos aqui e aqui vamos ficar, a menos que aconteça um fato novo, capaz de alterar as circunstâncias. Na verdade sinto-me chocada por você pensar que eu seria capaz de fugir de um desafio.

- Então você considera o barão Sabaku um...um desafio?

- Claro que não! Estou me referindo ao castelo e à possibilidade de transformá-lo num local habitável. Não nada de errado com limpeza, pintura e pequenos reparos.

- E quanto a Sabaku?

Ino descartou-o com um gesto impaciente de mãos.

- Ele ficará contente de nos deixar cuidar de nosso trabalho.

Deixando a criada totalmente apalermada com o comentário; Ino saiu depressa do quarto. Embora ansiosa para chegar ao salão principal, foi obrigada a andar devagar por causa da quase total escuridão. Durante todo o trajeto, procurava se convencer de que seu entusiasmo devia-se apenas às melhorias que planejava fazer no castelo e não tinha nada a ver com o Cavaleiro Vermelho.

De qualquer forma, tremia de antecipação só de pensar que talvez ele a estivesse aguardando lá embaixo. Quem sabe seu marido decidira levá-la a aldeia, tanto para cumprir a promessa de que trariam servos para Suna quanto para passar algum tempo ao seu lado? Ao descobrir que o salão estava vazio, à exceção do sempre-presente Kankuro, não conseguiu evitar uma pontada de decepção.

- Meu marido não vem se encontrar comigo?

- Ele está ocupado com outras coisas urgentes, minha lady. Pediu que eu a acompanhasse à aldeia.

- Então vamos. - Ela respondeu secamente, incapaz de disfarçar a frustração. Na verdade o servo, apesar de taciturno, era uma pessoa educada e cortês. O problema é que parecia onipresente. Em vez de ficar impressionada com a aparente habilidade de Kankuro, sentia-se tentada a culpá-lo pelo estado deplorável em que o castelo se encontrava. Um homem, por mais competente que fosse, não podia dar conta de tudo sozinho.

Mesmo ela, com todos os seus talentos de castelã, fora forçada a delegar responsabilidades a terceiros. Seria bom que Kankuro aprendesse a fazer o mesmo. Ame não ficava muito distante e, para seu prazer, a aldeia em nada lembrava a atmosfera sinistra do castelo. Quando se espalhou a notícia de que a esposa do Cavaleiro Vermelho iria passar por ali, as pessoas começaram a chegar às portas e janelas das casas para dar uma espiada.

A princípio os olhares frios e desconfiados a incomodavam, porém, gradualmente, o humor dos aldeões pareceu se alterar. Ino sorriu de leve ao ouvir os murmúrios cheios de admiração sobre a sua aparência.

Embora fosse o tipo de coisa a que não desse importância, se a beleza de seu rosto podia ajudá-la a conquistar um pouco da atenção dessas pessoas, iria aproveitar a vantagem. Quando um grupo de crianças aproximou-se do seu cavalo, ela ,os brindou com um sorriso radiante.

- Você é mesmo a mulher do Cavaleiro Vermelho? - Perguntou um menininho, mais ousado do que os outros.

- Sou sim. Qual o seu nome?

- Udon. - O garoto respondeu orgulhoso.

- E esta é minha irmã Moegi.

Uma menininha, de cabelos longos e escuros, saiu de trás do irmão.

- Você é uma feiticeira? - A criança indagou ofegante.

- Claro que não!

Apesar do olhar furioso de Udon, a menina resolveu continuar.

- Mas você se casou com ele... com o Cavaleiro Vermelho.

- Preste atenção no que vou lhe dizer, Moegi, e todos vocês também... - Ino ergueu a cabeça e aumentou o tom de voz para que não ficassem dúvidas quanto às suas palavras. - O barão Sabaku não é nenhum demônio, ou uma criatura do mal. É apenas um ser humano de carne e osso, como qualquer um de vocês. As histórias que se contam a respeito dele não passam de tolices e seu único objetivo é assustar os inimigos de Suna. Vocês estão sob a proteção do Cavaleiro Vermelho e não têm motivos para temê-lo.

- Você não sente medo dele? - Moegi insistiu, os olhos castanhos arregalados.

- Não tenho medo de homem algum. E muito menos do Cavaleiro Vermelho.

O burburinho excitado que se seguiu às suas palavras era um bom sinal, Ino pensou satisfeita. Se os aldeões manifestavam opiniões diferentes era porque algumas das pessoas acreditavam no que acabara de dizer. Apesar de saber que seria Impossível fazê-los mudar de idéia do dia para a noite, conseguira plantar a semente da dúvida. Chateada por não ter se lembrado de trazer doces para distribuir à criançada, ela atirou várias moedas, ouvindo-os gritar o nome da castelã de Suna cheios de prazer.

Se pudesse conquistar a simpatia dos adultos com igual facilidade e levá-los para o castelo... Para sua surpresa, Tsunade, uma senhora viúva, mãe de Udon e Moira, foi a primeira a se manifestar. Dizendo-se à beira da miséria desde que perdera o companheiro, aceitou assumir o cargo de cozinheira de Suna.

Logo a irmã de Tsunade e seu marido, mais um garoto órfão, decidiram ir também. Um grupo pequeno, é verdade, mas melhor do que ninguém. Ao ouvir murmúrios de que aqueles que cruzassem os portões do castelo não seriam vistos no mundo dos vivos outra vez, Ino perdeu a paciência.

- Quanta bobagem! Pretendo que essas pessoas me ajudem no trabalho de fazer esta aldeia florescer. Vocês a verão aqui de novo amanhã mesmo, quando vierem ao mercado. Agora prestem atenção. Todos os que quiserem prosperar associando-se a Suna fiquem avisados de uma coisa: não difamem meu marido! Não o caluniem!

Ela puxou as rédeas do cavalo e afastou-se devagar, imponente como uma rainha, certa de que começara bem o lento processo de conquistar a confiança dos aldeões. Eles teriam muito sobre o que falar e amanhã, quando mandasse aqueles que a seguiam de volta ao mercado, ficaria provado que o lorde não era nenhum demônio.

Satisfeita consigo mesma, Ino deu uma olhada furtiva na direção de Kankuro e surpreendeu-se ao notar que o servo a observava atentamente. O homem parecia desaprovar seu pequeno discurso de minutos atrás. Talvez ela tivesse se excedido um pouco. Talvez tivesse sido melhor ficar de boca fechada o tempo inteiro.

Afinal, quem era ela para defender o Cavaleiro Vermelho se desde que chegara a Suna, sequer lhe conseguira ver o rosto? No final das contas, o saldo do dia foi positivo. A nova cozinheira logo assumiu os afazeres domésticos e providenciou uma refeição adequada para todos. Depois do almoço, Ino os liderou na tarefa de limpar o salão principal.

Quando Kankuro veio chamá-la para jantar, seu vestido estava empoeirado e os cabelos caiam desgrenhados pelas costas. Seus esforços para parecer bonita haviam sido em vão, porém sentia-se cansada demais para se importar.

Sabaku parecia de mau humor, portanto sua aparência descuidada não iria fazer a menor diferença aos olhos do marido. De qualquer maneira, a não ser um gato, nenhum ser vivo poderia distinguir. o que quer que fosse dentro da escuridão reinante. Não era de se estranhar que o Cavaleiro Vermelho não a considerasse atraente já que nem se dera ao trabalho de querer vê-Ia à luz do dia. O fato a irritava profundamente, contudo sentia-se tão feliz com os progressos feitos na recuperação do castelo que preferia não se deixar incomodar pelo silêncio pesado e sufocante.

Sendo uma pessoa de natureza falante, Ino sentiu prazer em relatar os sucessos do dia. Animada, contou sobre a resistência inicial dos aldeões, sobre a maneira calorosa como as crianças a tinham recebido e sobre as pessoas que trouxera para trabalhar no castelo.

- Já é um começo, meu lorde.

Ignorando os murmúrios sem entusiasmo de Sabaku, ela foi em frente, ansiosa para expor seus planos de estreitar os laços entre Suna e a aldeia.

- Assim que os aldeões se convencerem de que você não costuma comer gente no jantar se prontificarão a trabalhar aqui.

- E como você pode ter certeza de que eu não como pessoas? - O barão indagou, num tom frio e ameaçador.

De repente ela se lembrou das histórias estranhas que insistiam em persegui-lo e da atmosfera sinistra que a rodeava. Entretanto estava de muito bom humor para se deixar abater com facilidade.

- Como posso ter certeza? Simplesmente porque você ainda não me comeu. - Respondeu rindo. Ruídos estranhos ecoaram pelos aposentos. Depois de alguns segundos Ino percebeu que o barão tossia forte.

- Você se engasgou? - Antes mesmo de terminar a frase, levantou-se preocupada.

- Não foi nada. Pode se sentar.

Mais tranquila, ela voltou a atenção para a conversa.

- Estive pensando nos preparativos para o Natal. Uma comemoração adequada, com todas as honras, acabará conquistando os aldeões de uma vez por todas. Também teremos tempo suficiente para organizar uma pequena ceia. Vamos precisar de especiarias para o bolo de gengibre e também para o bolo de frutas. Nosso estoque está baixo, mas creio que será possível darmos um jeito. Será um longo caminho até ganharmos a confiança deles, meu lorde.

- Ino. - A voz de Sabaku não guardava nada da reserva habitual, o que imediatamente lhe prendeu a atenção. Era algo tão pequenino, ser chamada pelo nome de batismo...

Ainda assim sentiu um arrepio estranho percorrê-la de alto a baixo.

- Sim, meu lorde?

- Gaara. Meu nome é Gaara.

- Gaara. - Ela repetiu devagar.

Gostava do som, assim como gostava da maneira como a palavra deslizava em sua língua. Ao se lembrar de como as línguas de ambos tinham se encontrado no dia anterior, Ino corou violentamente, grata pela escuridão protetora. Será que Sabaku iria beijá-la de novo? Só de pensar na possibilidade ficava em fogo, imagens sensuais dançando selvagens em sua mente.

Chocada consigo mesma, percebeu que queria ser beijada. Na verdade, queria o marido por inteiro. Ele não passava de uma silhueta sempre imersa nas sombras, um mistério que não conseguia decifrar. Mas apesar dos perigos, não conseguia resistir. Queria só mais um beijo...

Inspirando fundo, Ino cerrou os punhos sobre o colo e aguardou imóvel. Os cães haviam parado de se remexer e com certeza deviam estar deitados aos pés de Sabaku. Aos pés de Gaara.

Gaara.

Embora repetisse aquele nome silenciosamente, como um pedido, uma súplica, seu objeto de desejo permanecia indiferente aos seus pensamentos ousados.

- Você falou que sabe cantar bem. - Ele disse de repente. - Se importaria de exibir esse talento?

- Claro que não.

Oh, Deus, por que se sentia assim, toda trêmula por dentro? Não era possível que estivesse sedenta das atenções do Cavaleiro Vermelho. Só podia ter bebido vinho demais durante a refeição. Além de tudo o dia havia sido longo e cansativo. Isso explicava o tumulto interior... Ou será que não? Com muito esforço, conseguiu acompanhar o que Sabaku dizia agora.

- Estou pensando em mandar Kankuro chamar o garoto que chegou da aldeia hoje para acompanhá-la. Ouvi-o tocar flauta algumas horas atrás.

- Você acha que seria sensato? - Talvez fosse melhor evitar que o garoto penetrasse nos aposentos do Cavaleiro Vermelho. Depois do sucesso relativo obtido naquela manhã, detestaria que rumores sobre a figura ameaçadora do lorde chegassem à aldeia.

- Não, não creio que seria sensato. Embora esteja certo de que você não hesitaria em defender minha honra dos que tentam me caluniar.

Ela enrubesceu até a raiz dos cabelos. Então Kankuro repetira suas palavras aos ouvidos do barão.

- Será que alguma vez já lhe ocorreu, esposa, que de gosto das histórias contadas a meu respeito como uma maneira de manter as pessoas afastadas da minha porta?

- Mas por que, meu lorde?

- Gaara.

- Gaara - Ela repetiu, seduzida pelo poder daquela voz profunda. - Por quê?

- Não importa o porquê. Agradeço sua lealdade e suas boas intenções, mas deixe as coisas como estão. Agora que você conseguiu trazer algumas pessoas até o castelo, vamos fazer uso delas. Kankuro!

O servo apareceu imediatamente, como se não tivesse mais nada a fazer na vida a não ser aguardar ser chamado do lado de fora dos aposentos do barão. Minutos depois o rapazinho sentava-se diante do fogo.

Talvez pensando que os recém-casados preferissem as sombras quando estavam juntos, ele não estranhou a ausência de velas e tocou com prazer. Ino cantou antigas baladas de amor, uma depois da outra. Gaara sempre pedia por mais, até que ela se viu obrigada a parar, à beira da exaustão.

Nunca pensara que faria um sucesso tão grande. Seu marido podia não apreciá-la, porém não tinha dúvidas de que ele gostava da sua voz. Sabaku não fora muito efusivo nos elogios, é verdade. Contudo soubera como reverenciá-la através do silêncio absoluto e das poucas palavras de admiração. Em sua vida recebera agrados antes, mas nenhum deles fora mais sincero.

Gaara ficara encantado. Bem depois de Ino ter se retirado, ele continuara ouvindo os sons melodiosos.

Jamais escutara algo tão belo ou tão doce. Quando Kankuro voltou, encontrou o barão sentado no mesmo lugar, uma expressão absorta no rosto viril.

- Ela acendeu tocheiros no salão principal. - O servo comentou. - As sombras foram banidas e as pessoas que vieram da aldeia hoje estão agora estendendo os catres para passar a noite.

- E então? - Sabaku não conseguia disfarçar a irritação. Kankuro soubera estragar o clima perfeito que sua esposa criara através da música.

- E então você tem um lugar a menos para andar dentro da sua própria casa. Além de mais pessoas abrigando-se sob os tetos do castelo.

- E então? Qual o problema? Simplesmente começou o fim, como eu sabia que iria começar um dia.

- Sim, meu lorde, começou. Mas o que acontecerá com sua lady?

Sua lady. As palavras do criado tinham um peso quase insuportável. Embora pudesse lhe parecer estranho, Ino era sua esposa. O que aconteceria com ela quando o mundo viesse bater à sua porta? O mundo do qual durante meses tentava se manter afastado? Não se sentia preparado para pensar no assunto.

Praguejando entre os dentes, Sabaku fez sinal para que Kankuro se retirasse. Por que iria se importar com o que acontecesse à mulher responsável pela sua ruína? A mulher que invadira sua escuridão sem qualquer pudor?

Gaara tinha consciência de tudo isso, assim como sabia ser Ino a culpada de sua futura condenação. Entretanto apesar dos graves problemas que o aguardavam, só conseguia pensar na voz maravilhosa, suave como a de um anjo vindo dos céus para lhe aquecer o frio da alma.


Ino deixou que Kurenai a ajudasse entrar na pequena banheira. Depois de um dia inteiro passado inspecionando a leiteira e os campos, estava ansiosa para se livrar da sujeira. Suspirando fundo, pegou o sabonete e começou a ensaboar-se. Não havia nada como um delicioso banho quente. Sua satisfação era ainda maior porque a serva parecia tranquila.

Finalmente Kurenai aceitara mudar-se para o próprio quarto e já não falava tanto sobre abandonarem Suna de uma hora para a outra.

- É bom vê-la alegre outra vez. - Ino comentou.

- Hum... Não posso dizer que esteja feliz aqui e também não confio naquele demônio vermelho. Mas vendo como ele a trata bem e como lhe deu permissão para dirigir o castelo... E, suponho que por enquanto eu vou ficar aqui.

Ela sorriu, sabendo que a criada jamais pensara em abandoná-la. Entregando-se ao calor da água que a aquecia até aos ossos, Ino percebeu que na verdade sentia-se bastante contente. Era uma idéia estranha, pois jamais julgara possível encontrar motivos para satisfação dentro daquelas quatro paredes e muito menos que o papel de lady de Suna pudesse lhe dar prazer.

Contudo... aqui estava, ronronando como uma gata depois de um longo e proveitoso dia. Apesar da hostilidade inicial, Gaara acabara deixando-a ocupar a posição de castelã, algo que lhe pertencia por direito, e até concordara com as reformas que pretendia implantar. Kurenai tinha razão. Sua vida sempre girara em torno da administração de um castelo e era entregando-se às responsabilidades e cuidando de todos os detalhes que se sentia próxima à realização pessoal.

Suna talvez não fosse tão grande quanto Konoha, porém as mudanças ali necessárias representavam um desafio. Felizmente, no momento, Konoha estava entregue aos cuidados de um empregado de confiança, alguém capaz de dar conta da administração durante uns poucos meses. Quem sabe quando chegasse a primavera ela poderia fazer uma visita...

- Uma única coisa posso dizer sobre aquele homem. Pelo menos ele sabe como agradá-la. Embora que com os seus poderes diabólicos não deva ser uma tarefa tão difícil assim. - Kurenai colocou um vestido limpo sobre a cama antes de continuar. - Fico feliz que você esteja se adaptando tão bem, minha lady, mas...

- Mas o quê?

- Às vezes acho que você não está feliz de verdade, minha lady, que esse seu bom humor é apenas o resultado de alguma feitiçaria.

- Que bobagem é essa agora?

A mulher mais velha retorcia as mãos nervosa, sem saber como se explicar.

- O barão não lançou feitiços em você, não é? Tenho medo que o próprio demônio a tenha... hipnotizado!

Se não fosse pela expressão desolada de Kurenai, ela teria caído na risada.

- Pare de se preocupar à toa. Sabaku não me enfeitiçou.

Farta de ouvir comentários tolos, Ino fechou os olhos e procurou relaxar. Qual o problema se o Cavaleiro Vermelho se diluísse em sombras?

Desde que ela fizesse o quisesse, o resto não tinha importância... Na verdade poderia ter acabado presa a um homem muito menos de seu agrado do que Sabaku no Gaara. Barão Orochimaru, o tal vizinho viúvo, imediatamente veio à sua mente. Ainda se lembrava como o cavaleiro pomposo e arrogante tratara a primeira esposa. A pobre coitada passara anos trancada numa torre, afastada do mundo, enquanto o marido se deitava com uma amante após a outra.

Ou então poderia estar às voltas com o barão Sai, cujo olhar frio parecia mais malevolente do que a escuridão de Suna. Isso sem contar Chouji Akimichi, com seus lábios gordos e molhados... Ino estremeceu, cheia de repugnância.

- Pelo menos o Cavaleiro Vermelho não espera que você lhe dê banho. - Kurenai falou, obrigando-a a interromper o curso dos pensamentos.

Ino nada respondeu. Que a serva pensasse o que quisesse. Simplesmente recusava-se a discutir a intimidade, ou a falta dela, reinante em seu casamento com quem quer que fosse. Kurenai jamais saberia o quanto seu comentário fora acurado. Gaara não lhe pedia para executar qualquer tarefa em geral associada ao papel de esposa, desde a mais banal até a mais íntima. E embora devesse se sentir grata pela distância que os separava, por algum motivo que não conseguia entender, sentia-se decepcionada.

Olhando para o próprio corpo nu na banheira, não havia como negar o óbvio. Suas formas estavam longe de ser opulentas. Sempre fora magra, esguia, os seios pequenos. Talvez Sabaku preferisse o contrário... Nunca em sua vida tentara parecer desejável aos olhos de um homem, entretanto tivera muitos admiradores. Seus irmãos quase precisavam colocá-los para fora de Konoha a pontapés. E durante a recente visita a Neji, vira-se cercada de cavaleiros ansiosos para cortejá-la.

Aliás, todos deram a impressão de cobiçar suas terras com o mesmo ardor com que cobiçavam seu corpo. O que fazer para despertar a atenção de um homem? Vira muitas damas vestidas em rendas e sedas, lançando olhares lânguidos na direção daqueles a quem pretendiam conquistar, os seios fartos empinados para o alto, expostos em decotes profundos.

Porém essas táticas de nada adiantariam na escuridão dos aposentos do Cavaleiro Vermelho. Gaara seria incapaz de enxergá-la. Ele nunca chegava perto o suficiente... exceto uma vez... Ino corou ao pensar no beijo que haviam trocado. Lembrava-se dos mínimos detalhes da carícia inesperada e saboreava o episódio como se degustasse um vinho raro. O calor que se espalhava por suas entranhas agora não tinha nada a ver com a temperatura da água.

Mas como qualquer outra lembrança, estava começando a desbotar. Às vezes se perguntava se não fora somente um sonho, Será que aquele beijo realmente acontecera dias atrás? Sem que conseguisse conter o impulso, Ino levou os dedos aos lábios, como se tentasse recapturar a sensação deliciosa. Então, irritada com a própria tolice, mergulhou a cabeça na água e pôs-se a lavar os cabelos.

Ao terminar o banho, Kurenai lhe entregou um dos belos vestidos que trouxera de Konoha. Fosse por uma simples questão de satisfação pessoal ou mera curiosidade, estava decidida a causar a melhor das impressões no jantar daquela noite.

O vestido de veludo grená tinha um corpete justo que evidenciava a linha dos seios com ousadia. Um pingente de ouro descansava sobre o colo branco, chamando ainda mais atenção para o decote. Para completar, uma tiara, também de ouro, nos cabelos.

Na escuridão dos aposentos do Cavaleiro Vermelho, Ino o fitou provocante enquanto jantavam, procurando agir de maneira sensual e encantadora. Entretanto Gaara parecia indiferente, completamente alheio às suas tentativas de sedução. Para complicar ainda mais, ele sequer dava mostras de que a fitava.

Por que se dar ao trabalho de parecer bonita e desejável? Kurenai com certeza iria reprová-la por procurar despertar a atenção de um homem que se escondia nas sombras como um leproso... ou algo pior...

Se tivesse um pingo de bom senso, ela devia cair de joelhos e agradecer a Deus por Sabaku deixá-la em paz! Ino empurrou o prato para o lado, esforçando-se para acreditar que sua inquietação e frustração eram devidas à mudança da lua e nada tinham a ver com certos desejos inconfessáveis. Ainda assim, quando Gaara falou, o tom baixo e profundo da voz deixou-a inteiramente arrepiada.

- Você vai cantar para mim esta noite?

- Se você quiser. Devo chamar o garoto para tocar flauta?

- Não é preciso. Sua voz é tão bela que dispensa acompanhamento.

Feliz com o cumprimento, Ino cantou uma canção atrás da outra. A sua favorita era uma balada de amor, triste e doce. E foi com essa música que ela deu a noite por encerrada.

- Você não vai cantar mais nenhuma? - Gaara perguntou sem disfarçar o desaponto.

- Por hoje é só. Ou amanhã estarei mais rouca do que uma gralha.

- Está bem. De qualquer maneira já é muito tarde pode se retirar.

De repente ela se deu conta de que estavam inteiramente a sós, envoltos pela escuridão. Nada do músico ou mesmo de Kankuro. Ino levantou-se, porém em vez de caminhar para a porta, deu um passo na direção do marido. Um dos cães rosnou baixo.

- Que foi?

- Quero apenas lhe dar boa noite, meu lorde. - Nervosa, ela passou a língua pelos lábios secos, o sangue latejando nas veias.

E claro que suas palavras podiam ser interpretadas de muitas maneiras, e na verdade isso não a preocupava nem um pouco. Ousada por natureza, sentia-se mais afoita e atrevida do que nunca, levada por sensações estranhas, que não sabia como explicar.

- Boa noite, esposa.

Por um momento Ino ficou imóvel, confusa, incapaz de acreditar que havia acabado de ser mandada embora.

Não estava acostumada a ser tratada assim. Então virou-se e saiu, odiando-se por tentar ganhar um beijo de alguém como o Cavaleiro Vermelho. Enquanto seguia Kankuro até seu quarto, não parava de se recriminar por ter tido coragem de agir de modo tão tolo. Estaria mesmo interessada em partilhar uma certa intimidade com Sabaku, quando poucas noites atrás experimentara o terror mais profundo diante da possibilidade de ser abraçada?

Não.

Sim.

Ah, Deus, já não sabia de mais nada.

Até então sempre se considerara uma pessoa decidida, capaz de enxergar a realidade com clareza. Agora as sombras do castelo pareciam ter alterado sua capacidade de raciocinar! O fato é que gostara do beijo. Gaara não era nenhum demônio. Suas mãos não possuíam garras, seus caninos não eram pontiagudos, nem seus olhos irradiavam faíscas avermelhadas.

Também apreciava a voz profunda, controlada e estranhamente reconfortante. Ino suspirou fundo, insegura a respeito de tudo. Tinha certeza apenas de uma coisa. Depois de uns poucos dias de casada, o Cavaleiro. Vermelho tornara-se muito mais atraente do que assustador.

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Nota de rodapé: Muito obrigada pelas reviews

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