Mike estava morrendo de vergonha, mesmo assim respirou fundo, foi até El e sentou-se à sua frente. Ela o encarava. Era seu jeitinho de conversar. Esperava que ele dissesse algo. Algo que ela queria ouvir. Algo reconfortante.
Mike pegou as camisinhas de Eleven, colocou-as no chão e tomou as mãos dela nas suas. Começou a acariciá-las enquanto as olhava. A menina estava com as mãos feitas. Usava um esmalte perolado e suas unhas não estavam compridas nem curtas. Estavam perfeitas, ele pensou.
Eleven virou uma pessoa bem feminina. Naquele momento usava um vestido branco rendado. Dependendo da situação, chegava até a usar maquiagem. Suas mãos ainda eram bem ásperas. Joyce fizera de tudo para suavizá-las, mas mesmo que Eleven tivesse superpoderes, e por isso não tinha sido tão afetada pelo Mundo Invertido tanto quanto Will, era impossível ter saído ilesa. Pelo menos, seu cabelo estava na altura de seus ombros, com algumas mechas presas atrás para que não caíssem em seu rosto. El preferia curto, porque tinha se acostumado, mas, ao mesmo tempo, queria parecer uma garota, então Joyce a ajudou a escolher o tamanho que mais a deixasse confortável e ensinou-a a prendê-lo depois.
Mike achava que ela nunca estivera tão bonita. Era difícil se segurar para não fazer nada, mas preferia aquilo que perder a amizade de Eleven. Não sabia como ela reagiria a algo desse tipo. Ela ainda ficava bem confusa em relação a essas coisas, relacionamentos. Porém naquela hora eles iriam conversar de um jeito ou de outro. Era o momento, senão ficariam naquela situação para sempre.
Mike ficou sem se mexer por um tempo por conta da falta de palavras. Não sabia como conversaria com ela. Teria que escolher cada palavra com jeito para que entendesse direitinho.
— Mike? – disse ansiosa, não entendendo muito bem o silêncio dele.
Mike levantou a cabeça e quando seus olhos encontraram os dela, ele não resistiu e a beijou. Agarrou seu rosto com força e a puxou para si. Imediatamente El se afastou dizendo um pouco mais alto que o normal:
— Não! – Ele abaixou seu rosto com vergonha do que fizera. – Mike – ela disse colocando a mão no rosto dele para que ele olhasse para ela. Estava cansada da falta de acareação entre os dois.
— Desculpa, El – ele disse arrependido. – É que eu... gosto de você... – Ela assentiu.
— O jogo acabou… – Apesar de ela não entender muito bem, ela não queria ficar beijando alguém sem ter um compromisso, mesmo não sabem muito bem o que era ter um compromisso. – Quê?! – Ela não tinha percebido exatamente o que Mike dissera. Ele não gostava dela antes?
— Você me ouviu – ele disse tentando não falar outra vez por vergonha, sem realmente ter percebido qual era o verdadeiro motivo de sua reação. Porém a cara que Eleven fez obrigou-o a repetir. – Eu gosto de você! – ele repetiu depois de muito hesitar.
— Não gostava antes? Pensei que fosse meu amigo – ela disse entristecendo.
— Não! – Ele levantou a voz percebendo a confusão. – Eu gosto e sempre gostei como uma amiga e muito mais que isso!
Ele queria morrer por ter admitido aquilo. Provavelmente Eleven não gostava mais dele. Ei, talvez ela nunca tivesse gostado, só não tinha falado nada naquela época, porque não entendera bem o que era aquilo. Agora ela que entendia muito bem, sabia exatamente o que queria e, na cabeça de Mike, o que ela queria, não era ele.
— Mais que uma amiga? – ela perguntou confusa, então se tocou. Lembrou-se do que Joyce explicara a ela. – Ah! Namorada?
— É – Mike concordou. As palavras mal conseguiam sair de sua boca. Ele continuava com a cabeça baixa, evitando os olhos de El, com as bochechas completamente rosadas.
Mike se surpreendeu com o que aconteceu a seguir. Eleven se inclinou, levantou um pouquinho a cabeça dele e depositou um beijo demorado em sua bochecha. Ao se afastar ela disse:
— Eu também. Mas o nosso beijo não foi importante pra você! – Ela cada vez ficava mais confusa. – Namorados não gostam de se beijar sendo o beijo bom ou não? Pelo menos foi o que a Nancy me contou. – Ele percebeu o quanto ela falava sério pelo excesso de palavras que soltava. Não falava tanto normalmente. Então, ele percebeu:
— Você conversou sobre isso com a Nancy?! – perguntou perplexo. A irmã dele estava dando conselhos para Eleven sobre ele? Poderia ser que não, mas se fosse, ele queria morrer.
— Minha mãe – ela se referia a Joyce – achou que seria bom. – Eleven deu de ombros. – Não sei porque.
Mike sabia por quê. Eleven estava meio atrasada para aprender sobre certos assuntos, então qualquer ajuda era bem-vinda. Mas pelo amor de Deus, sua irmã?
— Mike? – Ela o tirou de seus pensamentos e então ele se lembrou que tinha algo para responder.
— El, eu... eu... – Queria arranjar as palavras certas para que ela entendesse bem – adorei te beijar aquele dia. Sofri muito quando você foi embora. – El estava incomodada com Mike sempre olhando para o chão e nunca para ela. – Eu sonhei muito em te beijar de novo. Eu te beijei na frente de todo mundo quando você voltou, lembra?! – A única coisa que ele tinha certeza era que quando acabasse aquela conversa ele se enfiaria em algum lugar e nunca mais sairia dali.
— Depois me ignorou…
Os olhos de Mike encontraram os de El e ele percebeu o quanto tinha sido frio com ela, apesar de nunca ter sido sua intenção. Ele ficara muito tempo preso no passado pensando nela. Não conseguira ter nenhuma relação com ninguém e temia continuar assim para sempre caso ela não voltasse, e então, lá estava ela a sua frente de novo e ele se descontrolou. Tascou-lhe um beijo sem pensar bem no que fazia e a situação fora tão constrangedora que ele acabou se afastando por vergonha. Hopper, naquele momento, tudo o que queria fazer era nocautear Mike. Dustin e Lucas começaram a fazer piadas com a atitude dele, o que durou por muito tempo e, às vezes, eles voltavam a lembrar do ocorrido.
Eleven ficou completamente desnorteada por não entender muito bem o que acontecia. Joyce e Nancy decidiram conversar com ele sobre seus sentimentos por El e como ele se recusou a falar, já que era muito constrangedor, elas alertaram Karen, que começou uma conversa mais constrangedora ainda. Então, Mike fingiu que não fora nada. Só um pouco de empolgação mesmo que não significara nada, mas por dentro ele pensava exatamente o contrário.
— Eu não queria te ignorar, Eleven! – ele disse sinceramente, o constrangimento tinha passado um pouco. – Eu só não sabia como lidar com meus sentimentos, muito menos demonstrá-los.
— Sentimentos?
— Amor... por você! – ele disse esperando que ela finalmente entendesse.
— Amor por mim? – ela perguntou tentando entender. – Não gosta de mim?!
— Gosto, ué!
— Gosta ou ama? Não entendo, Mike! – Ela nunca estivera tão confusa. Mike respirou fundo.
— Eu gosto de você, El, porque você é ótima – ele tentou se explicar. – Mas eu te amo como namorada. Você é o meu amor, entende? Eu só não falei nada antes, porque tenho medo!
— De que?
— De você não me amar também! – Ele voltou a encarar o chão.
— Você é especial, Mike – ela disse colocando sua mão em cima da dele. El não sabia muito bem o que sentia por ele, mas sabia que ele era a pessoa mais importante do mundo pra ela.
Mike levantou a cabeça e disse:
— Você também, El!
Os dois foram chegando cada vez mais perto um do outro até que suas bocas se encostaram. Eles não as mexeram, só as mantiveram ali fazendo assim do beijo algo bem doce. Quando se afastaram, Mike mais uma vez segurou nas mãos de El. Ele tinha medo de que ela fosse embora se não a segurasse. Ela podia sumir, porque na primeira vez que eles se beijaram foi isso que aconteceu. Tudo o que Mike queria fazer era agarrar Eleven e fazer dela somente sua, de mais ninguém.
Ela estava muito bonita naquele dia. Curvada daquele jeito, dava a Mike a visão do vão entre seus seios e um pouco de seu sutiã. Como no dia em que se conheceram, que Eleven tentou se trocar na frente deles, ela ainda não se importava muito que vissem seu corpo, por isso nem percebera que Mike podia enxergar, até o momento em que ele não conseguia mais tirar os olhos. Ele olhava pra ela como ela olhava pros Eggos. Eleven estava crescida, já tinha 16 anos. Não tinha muito peito, mas tinha mais do que antes com certeza e continuava bem magra.
— Quer tocar? – ela perguntou inocentemente. Algo dizia que seria bom.
— Quê?! – ele disse mais alto que o normal enquanto levantava a cabeça, não conseguindo acreditar no que ela dissera.
Ela pegou a mão direita de Mike, que tinha se afastado da dela com o susto, e a levou até seu peito perto de seu coração que acelerou ao ser tocado. Mike conseguia senti-lo e ficou feliz com a reação. Era como se El também quisesse. Ele simplesmente se perdeu em seus pensamentos ao ficar naquela posição.
— Mike? – Eleven o libertou e ao acordar ele a beijou de novo mantendo a sua mão ainda onde ela colocara.
Sem pensar muito bem, Eleven foi descendo as suas costas até o chão e ele a seguiu, ficando assim por cima dela. Era um instinto. Ela não sabia como, mas simplesmente sabia.
Mike desceu as mãos para as coxas de El e ela envolveu seu pescoço com seus braços, puxando-o para mais perto. Ele desceu seus beijos pro pescoço da menina, mordiscando docemente, fazendo assim com que ela acordasse para a vida e percebesse o quanto o chão era duro e como isso fazia as suas costas doerem.
— Mike? – ela disse ofegante, por conta dos beijos intermináveis que ele dava.
— Ahn? – Mike respondeu concentrado ainda no que fazia. Tinha sonhado todo aquele tempo com aquilo.
— Forte – ela disse arqueando sua cabeça para o cafofo que Mike fizera para ela quatro anos antes. – Costas. Doem.
— Ah!
Ele levantou-se imediatamente e ajudou-a a levantar depois. Ela foi até seu cafofo e se ajeitou de lado, passando seu braço por debaixo do travesseiro. Ficava tão bonita ali e o jeito que olhava para Mike fazia seu coração derreter. O relógio marcava mais de uma hora da manhã e ele percebeu como olhos de El pesavam. Ele se agachou ao seu lado e passou a mão na sua cabeça, acariciando.
— Tá tarde, El. – Ele depositou um beijo suave em sua testa. – Boa noite!
Mike ameaçou levantar-se, mas Eleven segurou em seu braço, fazendo-o voltar imediatamente.
— Fica.
Mike entendeu. Trovejava lá fora por conta do temporal que acabou com a luz da cidade inteira. Eleven odiava tempestades. Ele assentiu com a cabeça. Foi até a vela, apagou-a e deitou-se ao lado dela, envolvendo-a com seu braço.
Eleven imediatamente dormiu. Já Mike ficou pensando em tudo que acontecera.
Parecia tão surreal. Uma hora antes ele sonhava em ficar tão perto de El e naquele momento estava dormindo de conchinha com ela. Tudo que acontecera passou pela sua cabeça. Como foi desafiado a beijá-la, como conversaram depois... Mirou as camisinhas que eles deixaram no chão e riu pelo fato de Lucas carregar tantas com ele. Porém ele realmente era o que mais transava entre os cinco. Quer dizer, Mike e Will não transavam nem um pouco. Dustin já tinha perdido a virgindade, mas não era algo do cotidiano. Lucas tinha transado com duas ou três garotas antes da Lily, mas naquele momento só tinha olhos para ela e os dois tinham uma vida sexual bem ativa. O que ele pensaria ao saber que Mike e El não tinham usado nenhuma? Percebeu também como talvez Eleven gostasse de verdade dele, porque nunca a vira falar tanto em um dia só. Gostara muito dela ter conversado tão abertamente com ele. Ficara tão feliz que soltou um bem baixinho 'Eu te amo, El'. Ela estava praticamente adormecida, mas ainda assim respondeu.
— Eu também, Mike.
Ele se surpreendeu com a resposta e não resistiu.
— Ah, El?
— Uhn?
— Quer namorar comigo? – Mike não sabia se ela estava consciente, muito menos se lembraria no dia seguinte. Resolveu arriscar mesmo assim.
— Uhum – ela respondeu sonolenta e bem baixinho.
