Todas as vezes que Will queria falar com Bethany fora do horário, ele batia em sua janela duas vezes, esperava um momento e batia mais uma última vez. Ela abria a janela com um sorriso e o ajudava entrar.
Will não tinha muita privacidade, porque todos tinham medo de que ele desaparecesse de novo. Sem contar que foi difícil livrá-lo do Mundo Invertido depois que retornou. Então, quando todos estavam dormindo, ele gostava de escapar e sair com Bethany.
A garota era filha única e protegida demais pelos pais. Só era permitido namorar Will, porque ele era um bom garoto. Você via em seus olhos a sua inocência e por isso o casal resolveu esquecer o fato de Will ter tido um funeral, mas continuar vivo.
Os dois tinham motivos para desejarem um pouco de liberdade. Então, eles a procuravam juntos. Uma vez por mês saiam de fininho durante a noite, pedalavam até o Castelo Byers e passavam a noite ali aproveitando a brisa e imaginando como seria uma vida que pudessem fazer o que quisessem, sem deixar ninguém preocupado ou chateado. Afinal, eles sabiam que seus pais só queriam seu bem. Will só não se preocupava que algo fosse acontecer com eles, porque a sua conexão com El a avisaria caso algo desse errado. Ela era a única que sabia de suas escapadas com Bethany.
Mesmo assim, quando não era dia de visitar o Castelo Byers, as vezes Will ia até a casa de Bethany para conversarem. Ele adorava conversar com ela. Bethany era a única que além de El o entendia. A diferença era que Bethany não conhecia o Mundo Invertido e por isso ele podia se livrar um pouco daquele lugar. Já estava cansado de tudo aquilo. Aquela semana quatro anos antes não conseguia ser esquecida e abandonada de jeito algum. Ele sentia que com Bethany, aquilo nunca tinha acontecido e ele podia ter paz.
— O que foi hoje, Will? – ela sussurrou logo depois dele sentar-se na cama dela. Seus pais não podiam saber que ele estava ali, senão não os deixariam em paz e eles queriam ficar sozinhos. Os pais de Bethany faziam os dois namorarem na frente deles. Era difícil de aguentar, mas ele fazia de tudo por ela.
— Tem uma coisa que eu não te contei, porque achei que não precisava.
— Mas você sempre me conta tudo, Will! – Bethany sentou-se ao lado dele, preocupada. Temeu que fosse algo muito ruim. Se ela soubesse os segredos que Will guardava ficaria aterrorizada e muito chateada. Mas depois de tudo que sofreu, Will pensou ter o direito de ser um pouco egoísta e omitir a verdade dela. Queria que alguém não o visse como o menino doente, assombrado por um mundo que não deveria existir. Ainda assim ele era o menino esquisito que morreu e voltou a vida. A desculpa que Bethany conhecia era de que ele se perdeu na floresta quando caiu da bicicleta e demorou uma semana para ser encontrado. O corpo era de outro menino que a pobre perícia de Hawkins identificou como Will. Por isso que a sua mãe ficou tão louca. Ela sabia que não era o corpo dele.
Há um ano decidiu que contaria a verdade, mas não sabia por onde começar e sabia que ela ficaria chateada por ele não contado antes. Cada vez aquilo ficava pior, porque era mais tempo sem dizer a verdade, mas ele não sabia o que fazer.
— Eu sei, mas é que nem eu entendo o que tá acontecendo! – Bethany sabia quando seu namorado precisava de apoio, o que acontecia quase sempre. Ela pegou em sua mão, encorajando-o a continuar. Will suspirou. – É sobre meu irmão. Acho que ele tá metido numa furada.
— Por quê? – Bethany procurava entender. Will colocou uma de suas mãos no seu rosto e esfregou tentando encontrar as palavras.
— Tem tanta coisa que você não sabe, Beth! E eu quero te contar, mas tenho medo de te machucar!
— Eu aguento, Will! – Ela estava meio assustada, mas queria saber para apoiá-lo o que quer que fosse.
— Eu vou te contar uma parte, porque sem uma pessoa, você não vai acreditar em mim.
— Mas, Will...
— Você confia em mim? – Sem Eleven, que poderia provar tudo que ele contasse, Bethany não iria acreditar, assim como acontecera com Max. Não que Bethany duvidasse dele, mas tudo aquilo era simplesmente muito louco e complicado. Às vezes, nem ele acreditava. Se não fosse pelo monstro que o habitara, talvez deixasse de pensar que tudo aquilo fora real.
Bethany assentiu com a cabeça e Will suspirou antes de contar como fora a sua semana no Mundo Invertido e o ano que seguiu esse acontecimento. Ela ficou com a mesma expressão o tempo todo para ver até onde Will tentaria a sacanear. Quando finalmente terminou, sem mencionar os poderes de Eleven, Bethany se levantou e ficou perto da janela.
— Eu preciso que você saia! – ela disse sem o encarar, porque nos olhos de Will dava para enxergar o medo de perdê-la e no fundo, Bethany sabia que era verdade, mas tudo aquilo era improvável demais.
— Beth... – ele começou sem saber como terminar.
— Will! – Segurou as lágrimas. – Vai, por favor!
Ele não queria ir. Não queria mesmo. Parecia um adeus eterno, mas sabia que Bethany precisava de espaço para processar tudo e ele esperava que com o tempo, ela entendesse.
Beth sempre pensou que Will era especial, diferente. Tinha alguma coisa nele que não era desse mundo, mas Demogorgans?! Ela chorou, porque não queria pensar que seu Will estava indo embora. Talvez aquilo fosse tudo da cabeça dele. Poderia estar doente e claro que ela ficaria ao seu lado, mas a relação não seria mais a mesma.
Sexta-feira Mike praticamente pulou da cama. Queria que o tempo passasse logo para que pudesse encontrar a sua bela El. Bela. Iria chamá-la assim. Não! Isso era muito formal. Que tal gostosa? Muito vulgar. Princesa? É. Eleven era uma princesa mesmo. A princesa dele.
Arrumou-se bastante. Apesar de saber que podia voltar para casa antes de se encontrar com ela na outra cidade, queria parecer 'pegável'. Isso fazia sentido? Não queria que Eleven olhasse para ele e perdesse a vontade. Mal sabia que sua aparência pouco importava para ela.
Ao chegar no corredor, avistou Dustin no outro lado também usando um terno. Ao alcançá-lo, Will e Lucas chegaram juntos.
— Por que vocês estão vestidos pra um casamento? – Lucas perguntou estranhando as vestimentas de cada um. – E por que parece que você morreu? – Dessa vez a pergunta foi direcionada a Will.
— A Bethany não quer falar comigo já faz quatro dias!
— Por quê?! – Os três perguntaram em uníssono e Will quase soltou a verdade, mas percebeu que estavam no corredor da escola.
— Eu não posso dizer aqui. Depois da escola no lugar? – Seus amigos entendiam o que ele queria dizer com 'lugar'.
— De jeito n... – Will era seu amigo. – Ok. O sexo com a El pode esperar – Mike disse meio desapontado –, mas só vinte minutos!
— Vocês vão transar depois da aula?! – Will disse interessado nos assuntos da sua irmã. Ele precisava se certificar de que estava de acordo.
— À noite, mas eu preciso me preparar!
— Preparar pra transar? – Lucas perguntou zombando.
— É. – Mike deu de ombros. Ele não sabia o que tinha que fazer para se preparar, mas precisava de um tempo para ficar sozinho com seus pensamentos.
— É por isso que você tá com esse terninho ridículo? – Lucas fez sarcasmo e Mike o olhou com desdém.
— Eu queria ficar apresentável. As garotas não gostam disso?
— Não, cara! – Dustin bufou. – Elas gostam de badboy, vai por mim! Tipo... o Billy! – Dustin só não se vestia como o Billy, porque ele era irmão de Max, o irmão que a ruiva odiava.
— O Billy?! – Os meninos disseram juntos, seus olhos saltando para fora com a menção daquele ser.
— Ele era escroto, mas... as meninas adoravam o estilo dele!
— Verdade... – Mike disse pensativo e todos concordaram. Então, Lucas percebeu que uma parte não estava explicada ainda.
— E você? – Virou-se para Dustin. O garoto se encolheu um pouquinho, não sabendo como dizer.
— A Max chega hoje... – Lucas franziu o cenho e o clima ficou tenso. Ele e Max terminaram, porque os dois eram geniosos demais. Dustin odiava o fato de que não ficara triste pelo acontecimento. Condenava-se muito e se afastara de Max pelo bem de sua amizade com Lucas, entretanto desde que o amigo encontrara felicidade em Lily, Dustin não conseguiu se conter. Sempre que podia ligava para Max e os dois estavam mais próximos que nunca. O garoto duvidava que um dia ia conseguir algo com ela, mas não deixava de tentar. Mesmo assim, serem amigos já era muito bom. Isso o alegrava e muito. Ficara tão animado que esquecera de avisar Lucas que Max chegava naquele dia e que talvez ele estivesse investindo nela.
— Até quando ela fica? – Mike perguntou preocupado por vários motivos. Primeiramente, ela e Eleven ainda não se entendiam muito bem. Segundo, se Max ficasse somente naquele dia, ele não poderia vê-la por conta de seu compromisso muito importante com El. Apesar de não ir com a cara dela no início, Mike reconheceu que era só ciúmes por conta de Eleven e descobriu que Max era muito legal. Só não se aproximava mais, porque Eleven já tinha matado pessoas. Era melhor não arriscar. Max era uma menina boa.
— Até domingo à noite – Dustin respondeu ainda sem jeito, por conta do olhar de Lucas que praticamente o derretia.
— Ufa! – Mike suspirou aliviado e a atenção do amigo virou-se para ele.
— Que interesse repentino nela é esse também, Mike? – Logo depois que terminaram, Max mudou de cidade. Ela e seu irmão não se entendiam. Depois que enfiou uma agulha no seu pescoço, ele a respeitava, só que cada vez a menina sentia mais nojo. Foi estudar num reformatório em Indianópolis e voltava algumas vezes para visitar sua família. Só que dessa vez, veria Dustin também.
— Oxe! – Mike exclamou. Todos sabiam que ele era louco por El. – Não tem interesse nenhum, só quero ver uma velha amiga! – Para que ter tanto ciúmes se os dois haviam terminado? E outra, Lucas tinha Lily.
Então, todos viraram para Dustin que obviamente tinha outros interesses.
— Também quero ver minha velha amiga! – ele disse e depois saiu o mais rápido que pôde sem nem pegar os livros em seu armário.
Dustin saíra machucado. Apesar de Nancy ter dançado com ele e ele ser muito grato, desde o começou soube que aquilo acabaria assim que parassem de tocar a música. Ele fora rejeitado por um monte de meninas e a garota que gostava o trocou por seu melhor amigo. Não fora fácil de absorver aquilo e Dustin se sentia menor. Menor que Mike que tinha Eleven. Menor que Lucas que tinha Max e depois Lily. Menor que Will que por causa de todos aqueles acontecimentos recebia toda atenção e tinha Bethany. Era o único solteiro do grupo. Apesar de Will e Mike serem virgens ainda também, Will era por opção e caso decidisse o contrário, não teria trabalho. E Mike estava vivendo suas últimas horas como um menino puro. Logo, ele seria o único virgem. Os meninos não sabiam, mas aquilo o incomodava. Inclusive, dissera que tinha transado com uma menina e depois foram para lados diferentes, mas era tudo mentira. Ou seja, sentia-se mal e inseguro se Lucas soubesse que estava interessado em Max. Muitas vezes passara noites sem dormir tentando achar um jeito de contar para o amigo ou resistir seu amor pela ruiva. Era difícil.
Mike percebia tudo aquilo e Will também, mas o segundo não tinha coragem de dizer nada. Porém, os dois pensavam a mesma coisa: não faria mal se Dustin encontrasse amor mesmo que fosse em Max. E Lucas teria que aceitar, porque ele não tinha que se importar com aquilo e sim com Lily.
— Nós vamos conversar sobre isso depois também! – E todos saíram em direções diferentes para suas aulas.
Mike se perguntava como ia dedicar tantas horas para Eleven, sendo que havia tantas coisas acontecendo. E daí ele lembrou que era homem e uma vez que abrisse a gavetinha do sexo, todas as outras se fechariam.
'Aquele lugar' era a cabana de Hopper e Eleven. Desde que eles haviam se mudado para a casa dos Byers, todos os envolvidos usavam como uma base secreta caso fosse necessário. Os meninos pedalaram até lá assim que a aula acabou. Eleven não foi para escola, porque era dia de ficar com a sua mãe. Isso acontecia uma vez por mês e Mike havia esquecido completamente. Normalmente teria ficado chateado uma vez que havia se arrumado tanto, mas dessa vez estava feliz por ela não o ter visto de terno. Ia mudar todo o visual novamente.
Will contou que havia dito toda a verdade para Bethany mantendo em segredo as habilidades de El e todos quase tiveram um ataque cardíaco. O combinado era que ninguém soubesse, mas a mentiria acabava com Will. Apesar do devorador de mentes ter ido embora, algumas sequelas sempre ficavam e Bethany notava, aí que ele mentia. Não podia passar o resto de sua vida com ela assim.
— É fácil pra vocês! – ele disse na defensiva. – A El sabe, o Dustin não namora ninguém. – E o mencionado fez uma careta. – E você Lucas, não tem nada que te faça mentir pra Lily! A Beth sabe que tem algo de errado comigo! O problema é que agora ela não acreditou. – Will desanimou novamente, pensando que estava perdendo a única pessoa que realmente o conseguia fazer feliz. E ainda por cima, ela carregava um segredo mortal.
Mike suspirou. Sempre o mais próximo de Will, sabia como ele sofria. Lucas e Dustin deveriam entender também, principalmente Lucas, por conta de quando conheceram a Max.
— A El não prova que o Mundo Invertido existe, mas se a Bethany acreditar nos poderes da Eleven, talvez acredite no que o Will já contou! – Todos concordaram sabendo muito bem o que tinham que fazer. Tudo isso era em nome da felicidade de Will. – Eu cancelaria a minha noite com a Eleven por você, mas… ela já tá na casa da mãe, ou seja, teríamos que avisar os adultos e eles não iriam deixar. Todo mundo de acordo? – Eles assentiram mais uma vez. – Aguenta só até amanhã. Vou tentar fazer a El voltar mais cedo.
Mike mais uma vez assaltou o cofrinho de Nancy. Ela estava na faculdade mesmo, não sentiria falta. Foi que nem um tiro até a única loja de roupas em Hawkins e tentou encontrar as roupas mais próximas ao estilo Billy. Sua mãe tinha concordado em emprestar o carro e quando Mike percebeu, ele já estava em frente à casa da mãe de Eleven. Hesitou ao bater. Coragem.
