Kitty estava dormindo como um bebê. Eleven realmente a relaxava e, pela primeira vez, desde que fora meio atropelada por Mike e quebrara seus dedinhos de uma pata, ela estava em paz.

Mike estava orgulhoso de ver sua namorada tão maternal. Isso o levou a um lugar que nunca havia pensado tão nitidamente assim. Talvez ela pudesse fazer isso com seus filhos um dia. E ele queria também. Mas acima de tudo, adorava ver como estava preocupada com uma vida. Sim, ela o estava ignorando e desprezando, mas era muito fofo ver um animalzinho dormindo na sua barriguinha. Kitty ia para cima e para baixo de acordo com a respiração da menina e Mike achou adorável. Pela primeira vez se sentiu mal pelo guaxinim.

Mike não era um monstro, mas estava assustado. Ele torceu o pulso no momento em que girou o volante bruscamente para desviar do bicho e mesmo assim pegara uma pata. Ficou bravo por apesar do nervosismo que passara e o tamanho da curva que fizera, que, a propósito, por alguns milímetros teria despencado de um barranco, havia ainda assim acertado a coitada. Talvez se tivesse continuado reto, ela teria se abaixado e Mike conseguiria passar sem machucar ninguém. Com isso, a traquinagem dele e de Eleven fora revelada e por El ser tão inocente, a culpa ficaria mais para ele. Hopper já o odiava antes, agora então... Quase morrera duas vezes naquele dia: uma vez no acidente e a outra nas mãos de Hopper.

Agora que tudo havia passado e o chefe estava trabalhando, ele pôde visitar El e ficar mais tranquilo. Assim pôde pensar em tudo e ter dó do bichinho.

Estava assustada. Tivera a pata esmagada pelo pneu de um carro, fora tirada de seu ambiente natural, não conseguia se locomover direito... Talvez o nervosismo dela havia sido maior. E o mais impressionante era perceber que apesar de ter matado tanta gente, Eleven ainda assim conseguia ser tão cuidadosa.

Ele suspirou admirado e a garota o olhou.

— Que foi?

— Vocês dois são só tão... lindos!

Ela soltou um riso sarcástico.

— Não pense que vou ficar de bem com você fácil! Não pense que os elogios vão fazer isso.

Mike revirou os olhos. Eleven conseguia ser inocente e esperta ao mesmo tempo. Assim como não tinha noção do que de fato era namorar, mas sabia controlar seu homem muito perfeitamente. Não ia facilitar.

— El, estou com pena da Kitty. Ela é só uma guaxinim indefesa, mas você sabe que foi um acidente! Quer dizer, claro que eu estava distraído na estrada, mas como não ficar depois do que aconteceu entre a gente? Tipo, você é maravilhosa – ela abriu um sorriso – e eu só conseguia pensar nisso. Eu sinto muito, mas não acho que seja só isso. – Porque ele a conhecia muito bem. – Você está preocupada demais.

Eleven suspirou, acariciando as costinhas de Kitty. Ela estava em tanta paz. Eleven desejou que aquilo fosse a única coisa traumatizante que sofrera de verdade.

— Só não gosto de ver animais indefesos sofrendo...

— O... – Mike ia perguntar, mas logo percebeu o que ela queria dizer. O Dr. Brenner a fizera maltratar animais como experiências laboratoriais. Sem contar que havia matado um monte de bichos para comer e sobreviver. Não era à toa que a maior parte da dieta de El era vegana. E o pior: pensava que também era culpa sua, pois Mike estava naquela estrada por sua causa também. Pelo menos abrira-se rápido com ela algo que era bem difícil. Isso o deixava feliz.

Colocou a mão em cima da dela e disse:

— Você não tem culpa de nada El. Nem disso nem daquilo – referiu-se ao acidente e às torturas de Brenner, respectivamente. – E você está sendo ótima para a Kitty. Não precisa se preocupar.

Eleven sorriu de lado e levantou-se segurando a guaxinim em seus braços. Colocou-a numa caminha improvisada que havia construído para ela no canto do quarto e voltou para a sua cama.

— Só queria que não tivesse mal no mundo. Que eu pudesse fazer algo pra que nada de ruim acontecesse...

Fazia um tempo que ele não via Eleven tão insegura.

Mike se aproximou e passou seus braços pelo ombro dela, acariciando-a. Eleven se encaixou no abraço, encostando-se nele e relaxando.

— Você é maravilhosa, El. – Beijou rapidamente sua cabeça. – Nada disso é culpa sua e o pouco que você faz todo dia dá uma grande diferença. Vai achar um jeito de se sentir melhor com isso. Algum modo de ajudar...

E ela queria mesmo. Ainda estava decidindo o que faria na faculdade, mas sabia que teria alguma coisa a ver com ajudar os outros. Só não sabia por onde começar e exatamente qual área: animais ou humanos?

O importante era que se sentia tranquila com Mike ao seu lado. Sabia que encontraria seu caminho, um que o incluísse também.

Sabia muito bem que Mike não tinha culpa. Mas pensava que se não tivessem feito aquilo, talvez o bichinho estaria a salvo. Realmente pensou que nunca mais machucaria alguém assim. E se fosse um castigo por mentir daquele jeito?

Não! Não era isso. Eleven mexeu a cabeça negativamente para si mesma. Não ia culpar o sexo maravilhoso que tiveram. Claro que mentiram, não fizeram a coisa mais certa, porém não ia se arrepender jamais.

Resolveu tirar aquilo da cabeça.

— Como tá a sua mão? – perguntou lembrando-se que Mike também não saíra ileso.

— Tá bem. Não foi tão sério e tô deixando ela bem quieta, pra melhorar logo. Ainda bem que estamos de férias! – Ele riu referindo-se ao fato de que era destro e justamente havia torcido a mão direita. Seria difícil escrever se estivessem tendo aula.

Chegou um pouco mais perto do ouvido dela e sussurrou:

— Infelizmente, tem uma coisa que eu não posso fazer... Vou precisar de ajuda...

Eleven ficou esperando ele dizer exatamente para o que, mas como estava demorando, virou um pouco seu rosto para encontrar Mike com um sorriso claro. Finalmente entendeu o que ele queria dizer. Precisava de uma mão direita. Ela estava ficando esperta.

Na hora, com aquele pensamento, Eleven apertou suas coxas, lembrando-se do que haviam feito. Com certeza queria repetir. Estava brava? Com quem? Não se lembrava mais disso, só enxergava Mike naquele momento.

Ele quebrou o espaço entre os dois selando seus lábios nos dela que correspondeu com vontade.

Quando perceberam, Mike já estava deitado por cima da namorada.

— Seu pai volta pra janta? – Mike perguntou ofegante querendo se garantir. Estava com vontade, mas não o suficiente para não zelar pela sua vida.

— Uhum. – Isso queria dizer que eles tinham tempo, por isso atacou a boca de Eleven novamente, surpreendendo-a. Fora mais delicado na noite anterior... as duas vezes, porém naquele momento, mais confiante como estava, só pensava em matar a saudade de um pouco mais de 12 horas.

Eleven colocou as mãos por debaixo da camiseta de Mike e passou as unhas pelas suas costas.

— A Joyce não vai ligar, né? – ele perguntou enquanto passava os beijos para o pescoço dela.

— Não... – El respondeu concentrada no que Mike fazia.

A realidade é que nem processara a pergunta direito. A sorte deles era que Joyce realmente queria deixá-los a sós.

Então, El abriu uma frestinha dos seus olhos, não sabendo o que fazer para controlar aquelas sensações quando viu Kitty dormindo no canto. – Mike... Mike – tentou dizer, mas cada vez ele ia mais baixo... – A K-kitty...

Mike demorou meio segundo para entender. Então percebeu que El não queria que a guaxinim visse aquilo apesar de que não iria entender nada.

— A gente não vai fazer barulho... Prometo – sussurrou abrindo as calças de Eleven que esqueceu de tudo a sua volta por um tempo.


Max estava prestes a surtar com aquela situação. Há uma hora Dustin estava sentado no sofá, apoiando os cotovelos nas coxas, com as mãos juntas segurando a sua cabeça, sem dizer uma palavra.

Max estava sentada na poltrona a frente dele, batendo os pés de ansiedade, esperando que dissesse algo, mas ele continuava na mesma.

Eis o que aconteceu uma hora antes...:

*Flashback On*

— Dustin, pensei que Lucas tivesse te contado... Eu perdi a virgindade com ele!

— Ah, tá – Dustin falou naturalmente e voltou a atenção para seu prato.

Max achou a reação dele esquisita contando que tinha certeza que ela não havia feito nada desse porte com Lucas, porém relaxou. Realmente por que seria um tabu? Eles namoraram por muito tempo. Chegaram na idade certa e transaram. Infelizmente não deu certo.

Eles ficaram mais alguns minutos comendo em silêncio, só o som dos talheres batendo nos pratos podendo ser ouvido. Max não gostava daquele silêncio, mas havia passado um momento muito bom com Dustin. Não queria estragar e por isso esperava um momento bom para falar.

Assustou-se com o estrondo que as mãos de Dustin fizeram ao atingirem a mesa bruscamente.

— O que?! – ele gritou. – Você e o Lucas transaram?!

Dustin queria tanto que aquilo não fosse verdade que entendera a informação minutos antes de vários modos, menos o correto. Passou em sua cabeça que poderia ter sido outro cara, ou que ela estava brincando, ou que estava na cara ou… as desculpas ridículas haviam acabado e ele acordou, finalmente entendendo a informação, o que o levou a bater na mesa com força.

— Sim, Dustin – Max respondeu baixinho, mais que o necessário para ver se ele a seguia e parava de gritar. – Quando namorávamos...

— O que?! Eu não acredito nisso!

Ele se levantou, andou até o sofá e ficou ali na mesma posição por minutos. Max no começo tentou falar com ele, porém decidiu lhe dar espaço e lavou toda a louça depois a guardou. Entretanto, após uma hora ficou preocupada e sentou-se na frente dele para fazer pressão. Talvez assim ele conversaria com ela.

*Flashback Off*

Ajoelhou-se no chão, bem de cara com ele e acariciou seu braço.

— Dustin, por favor, fala comigo. Você me deixa preocupada assim – falou com água nos olhos. A noite havia sido tão boa. Não iria acabar por conta daquilo, certo?

Dustin levantou os olhos e a encarou. Respirou fundo e disse:

— É que eu não tô acreditando nisso!

Em um ato de desespero, Max retrucou assim:

— Dustin, estamos no final dos anos 80. Qual o problema deu já ter tido mais de um homem? Eu o amava e achava que ia ficar com aquele. Não fiz por mal...

— Não é isso, Max... – ele a interrompeu, levantando-se. – Apesar deu te amar e querer ser seu primeiro e único... – O coração de Max acelerou com a declaração – eu entendo que você tava com o Lucas antes e respeito mesmo que fosse outra pessoa, mas eu não entendo porque mentiram pra mim!

— Eu não menti, Dustin, só nunca contei. Você nunca perguntou... – Ela se levantou. – Tipo, eu só falei com a El porque estava meio insegura, mas ela mal entendia o que eu queria dizer. Eu e o Lucas estávamos brigando muito. Foi num momento de raiva, a gente tava gritando um com o outro, que acabou se agarrando e foi. – Pegou nos braços de Dustin tentando confortá-lo, esperando que amolecesse um pouco. – Quando acabou, percebemos tudo que tinha acontecido e terminamos. Eu fiquei frustrada por muitos dias, mas eu não queria que ele soubesse então estava sempre de cabeça erguida e depois me mudei! Eu literalmente fiz sexo duas vezes na minha vida e com dois caras maravilhosos... – Dustin baixou os olhos, perdendo a parte em que ela dizia que ele era maravilhoso e focando na parte em que talvez Max ainda nutrisse sentimentos por Lucas. Ela pegou no rosto dele. – Eu... tô apaixonada por você, Dusty! Você é o único que me importa. O que aconteceu com o Lucas é tão importante assim?

Dustin suspirou e se desvencilhou dela. Como iria explicar?

Sentou-se no sofá novamente sentindo-se derrotado.

— Eu me apaixonei por você na primeira vez que te vi, Mad Max – confessou. – Eu tava tão ligado em outras coisas nada importantes que o Lucas chegou primeiro e eu te deixei escapar... Não teve um dia que eu não me arrependi disso. – Seus olhos encheram d'água ao lembrar-se dos tempos que sofria por amor. Foram bem difíceis. – Eu tinha me preparado pra saber que vocês tinham feito algo assim. Afinal, era natural, vocês estavam namorando... Mas depois que o Lucas arrumou a Lily e você foi embora, e ele contou pra gente que tinha feito com ela, nós imediatamente pensamos que foi a primeira vez, porque ele teria contado, não é mesmo? – Bufou. – Pelo menos entendo porque não contou. Não foi tão bom assim... Eu só fiquei todo esse tempo crente de que vocês não tinham feito nada, então foi um choque. Dormir com a garota com quem meu amigo já dormiu. Já era esquisito sabendo que vocês já tinham namorado, mas agora... Problema nenhum ter feito, só queria que tivesse sido com outro cara.

Max estava segurando as lágrimas. Sempre se culpara muito por ter escolhido Lucas e não saber lidar com Dustin. Claro que tinha que seguir seu coração, e apesar de ter brigado muito com o ex, passaram por muitos momentos bons também, por exemplo, ele fora o primeiro a entendê-la, mas ficara tão sem graça por conta de Dustin gostar dela, que o evitou muito. Não foi sua amiga. Era tão nova, não sabia como lidar com isso.

— Me perdoa, Dustin. Por favor! – Ela não conseguiu se segurar mais e enterrou o rosto em suas mãos.

Imediatamente Dustin levantou e a abraçou. Jamais queria fazê-la sofrer. Só estava em choque. Por muito tempo pensou que a verdade era outra. Só precisava de tempo para digerir.

— Não tem porque se desculpar, Max! Eu te amo de qualquer jeito, só não esperava por isso. O que importa é que ontem foi bom!

Ela o abraçou relaxada com suas palavras e assim ficaram por um bom tempo. Sempre sofrera muito por ver Dustin machucado e não saber como lidar. Chegou a se sentir culpada por ter escolhido Lucas, mas pareceu o mais certo no momento. Não podia se culpar. Ela era praticamente uma criança. O que importava é que estavam juntos e ela queria somente ele.

Dustin estava bem. Claro que ele queria ser tão experiente quanto ela, por orgulho e medo de fazer algo errado, mas percebera que não foi tudo isso. Só era esquisito que ele e Lucas já haviam explorado aquele lugar mágico que tanto sonhara, se é que me entende. Mas iam superar. Era ele que Max queria agora.

Mas ei, e Lily nessa história? Será que ela sabia?