Saint Seiya, obviamente não me pertence.

"É difícil de aceitar, recomeçar do zero
Levantar e caminhar.
Perceber que quem se ama
Já não se importa com você
E acordar sozinho ouvindo o som da sua Tv.
Chegou a hora de recomeçar!
Acreditar, que pode ser, melhor assim
Tentar crescer, fingir feliz,
E te deixar para depois, a cada dia que eu morrer,
Espero que você morra após."

CPM 22 – Não sei viver sem ter você.


Capítulo 3 – Os Cavaleiros de Ouro.

Santuário.

Mirela se assustou com a postura de Shion. Ela não imaginava que ele poderia ficar tão sério e frio em poucos minutos. Nos poucos momentos em que esteve com ele, ele sempre pareceu ser uma pessoa doce e gentil, além de muito sensato. Ela não queria que ele brigasse com os outros por sua causa.

"Tá tudo bem". Ela segurou o braço dele. Mirela não queria passar por cima dele ou qualquer coisa do tipo; ela só não queria que ninguém lutasse, ou, melhor dizendo, ela não queria sentir aquela sensação de ser puxada para baixo por causa da força dos cosmos deles. Além do mais, eles não podiam brigar entre si, ainda mais por causa dela. "Eu no lugar dela teria feito a mesma coisa".

Shion estava começando a entender o porquê Athena tinha escolhido ela. Ele não ia machucar Shina, ele só queria assustá-la. No entanto, lá estava aquela garota, longe do seu mundo, longe de pessoas que a amavam e ela ainda estava pensando na amazona que a queria morta. "Desculpe. Eu não queria assustar você". Falou sem tirar os olhos da mão dela em seu braço.

Mirela suspirou aliviada. Sua mão ainda segurava firme o braço dele; ela só se deu conta que ainda o fazia quando notou vários olhares para os dois. Ela não entendeu de imediato, mas depois seguiu o olhar de Aioros e se assustou ao notar que o motivo dos olhares era por causa do gesto dela. "Desculpa". Ela sussurrou e retirou a mão com pressa.

"Será que alguém pode explicar o que está acontecendo aqui?" Máscara da Morte estava intrigado com a presença daquela menina, ainda mais com o gesto e as palavras duras de Shion para a amazona de prata. Ele nunca imaginou que o mestre seria capaz de falar algo assim. E tudo por causa daquela garota. Ele a encarou com as sobrancelhas arqueadas. Ela não tinha nada de especial ao seu ver. Era magra, fraca e nada nela chamava atenção dele. Talvez os olhos, mas somente isso.

Shina cerrou firme os punhos, dando as costas para o grupo. Ela não fazia parte daquele grupo em específico. Eles sempre foram bem preconceituosos em relação aos outros, e com ela não era diferente, ainda mais sendo mulher. Ela sabia que nem todos ali a respeitavam e, agora, com aquela menina ridícula, tudo tinha piorado. Ninguém nunca falou com ela assim, nem mesmo Kamus ou Saga. Ela não ficaria ali para ser ridicularizada na frente de todos. Se Shion queria dar hospitalidade àquela humana, problema dele. "Acho que não sou bem-vinda aqui". Falou enquanto caminhava em direção à saída.

Mirela viu a amazona ir embora. Ela queria se meter, mas só faria com que a guerreira sentisse mais raiva dela e, talvez, o gesto a deixasse mais humilhada. Ninguém disse nada ou tentou parar a amazona. Quando a mesma saiu e as grandes portas de madeira branca se fecharam atrás dela, os olhares se voltaram para ela. Mirela sentiu o rosto arder. Eles não usavam armadura, mas ela podia decifrar quem era quem só pela postura e por detalhes em sua vestimenta que entregavam a qual casa pertenciam.

Mu tinha as pintas características de sua raça. Seus cabelos eram castanhos claros, quase loiros, e estavam presos em um rabo de cavalo. Ele estava próximo de Aioros, e Mirela sabia que o outro era Aioria, pois a semelhança com o sagitariano era enorme – tirando a cor dos olhos: os de um eram verdes, enquanto que os do outro eram azuis. Logo atrás estava Saga. Ele tinha os cabelos escuros. Tanto que, quando os raios de sol batiam em seus fios, ela podia jurar que eram azuis-escuros. Ele estava sério e, de todos ali, era o que dava mais medo.

Mirela sentiu os lábios e a garganta secarem. Um calafrio percorreu a sua espinha. Ele era a sua missão. Ele e Aioros. "Puta que pariu". Pensou. Agora, olhando para eles dois, ela sabia que tinha se colocado em uma situação muito difícil, talvez impossível. Quem ela era para mudar o destino dos dois?! O pior de tudo era que isso teria consequências nos cavaleiros de bronze. Definitivamente, ela estava ferrada.

Mirela engoliu em seco e deixou Saga em escanteio nos seus pensamentos. Ela podia jurar que ele estava incomodado pela forma como ela o estava encarando. Ela não podia queimar seus neurônios agora, depois ela ia bolar algum plano, e tinha que tirar aqueles belos olhos azuis-escuros de sua visão.

Do lado oposto estava Milo, que era o mais fácil de todos, já que ele era muito parecido com a descrição do mangá e anime. Seus cabelos eram grandes e loiros, e seus olhos também eram claros. Era alto e, em seu rosto, gritavam masculinidade e galinhagem. "Talvez seja só preconceito meu". Pensou. Ele tinha um cordão de ouro em forma de escorpião. Sendo honesta, a maioria tinha um cordão ou alguma coisa que indicasse a qual constelação pertencia. "E eu me achando a esperta". Sacudiu a cabeça ignorando esse último pensamento.

"Mestre, onde vocês estavam?" Aioros quebrou o silêncio. Era muito difícil ver uma amiga sendo tratada daquela forma, mas Shina andava muito estranha.

"No Monte Olimpo". Falou olhando para as portas atrás do grupo. Depois ele conversaria com Shina.

"Com Athena?" Shaka perguntou, apesar de já saber a resposta. Ele sentia o cosmo de Athena tanto na garota quanto no mestre, apesar de o cosmo ser mais forte nela.

Mirela encarou o budista. Seus olhos estavam fechados, o que o diferenciava dos demais, além da postura e altivez. Não precisava nem do cordão para saber quem ele era. Suas roupas eram as mais limpas do grupo. Era visível que eles estavam treinando antes de chegarem ali, pois alguns estavam até sem blusa e pareciam meios desgrenhados. Só Shaka estava impecável em sua toga branca de um ombro, com detalhes em ouro bordado na barra das mangas e na cintura. Usava sandálias de couro simples, e o seu cabelo estava preso em uma trança longa e loira.

"Sim". Shion voltou a encarar o grupo. "Vejo que Aldebaran e Peixes ainda não voltaram da missão". Shion parecia desapontado. Queria poder contar a todos de uma vez, mas nem tudo era do jeito que ele queria. Contaria aos outros depois. "Athena nos deu a missão de cuidar de Mirela".

"Dessa garotinha?" Mask perguntou desconfiado. "Quem é ela?"

"Eu sou ninguém". Mirela respondeu por Shion. De fato, ela não era alguém especial. Era só uma menina perdida no mundo deles, com a missão de mudar a história. Nada demais. "Eu sou apenas uma garota comum".

"Athena a trouxe para cá com a missão de fazer alguma coisa". Shion não era burro e sabia que a deusa tinha algum plano em andamento. "Entretanto, nós não saberemos que missão foi dada a ela". Ele ergueu a mão para impedir que alguém o interrompesse. "Enquanto ela faz o que ela tem que fazer, nós iremos protegê-la dos deuses. Athena disse que Ares está tramando alguma coisa, que é para a gente manter a guarda".

"Será que Ares está mesmo planejando algo?" Mirela não queria discordar da deusa ou duvidar de sua palavra, mas ela estava apavorada com tudo isso. Ela não queria nem imaginar ele mandando os seus berserks.

A deusa não tinha dito muita coisa para Mirela. Ela só queria que ela mudasse algumas coisas. Para ser franca, Athena não tinha nem lhe pedido para manter segredo dos cavaleiros, apesar de ter falado diretamente com ela. Talvez só isso já signifique que é para manter segredo… Mirela suspirou. Ela estava cansada, com fome, se sentindo suja e começava a sentir o peso daquela responsabilidade caindo em seus ombros.

"Você está bem?" Aioros se aproximou. "Você parece preocupada". Ele estava preocupado com ela, era visível em seus olhos.

Mirela sentiu o coração palpitar. Mesmo estando longe das pessoas que a amavam, ela conseguia sentir certa familiaridade vinda dele. Em seguida, olhou para tantos rostos que a encaravam, esperando por alguma informação.

"Não se preocupe com Ares". Shion a tranquilizou. "Você estará segura aqui".

"Eu não vou mentir: estou preocupada com ele sim. Só de pensar em seus berserks..." Mirela sentiu um calafrio correr pela sua espinha.

"Como você sabe sobre os cavaleiros de Ares?" Kamus perguntou, intrigado. Ela não era daquele mundo – pelo menos era isso o que ele tinha escutado. Então, como ela poderia saber sobre os Berserks?

"É…" Mirela se repreendeu por ter deixado escapar aquela informação. Ela não sabia se podia contar ou não. E, se ela pudesse, o quanto de informações poderia dar a eles.

"Mestre, acho que a nossa convidada precisa descansar". Shaka cortou o assunto começado por Kamus. "Ela deve estar cansada. Há quantos dias ela não come ou dorme?"

Mirela queria muito abraçá-lo. Ela acenou discretamente com a cabeça, apesar de saber que ele não veria tal gesto, já que os olhos dele estavam fechados.

"É verdade". Aioros também intercedeu por ela. "Qualquer coisa que ela tenha a nos dizer pode esperar".

"Eu vou lhe mostrar os seus aposentos". Shion encerrou o assunto.

Mirela sorriu para Aioros, agradecendo. E não pode deixar de olhar para os rostos sérios e cautelosos de alguns cavaleiros. Ela sabia que Kamus, Saga e Shura a estavam avaliando, e estava visível em seus semblantes que eles não confiavam nela. Só iam protegê-la por ser uma ordem de Athena. Portanto, ela tinha que esclarecer as coisas o mais rápido possível.

"Eu prometo que, depois que eu tomar um banho e comer, eu explico tudo a vocês". Mirela se pegou prometendo algo que talvez ela não pudesse cumprir. "Digo, eu sei que vocês não confiam em mim". Ela não ia citar nomes, mas sabia que a maioria ali não confiava mesmo. "E eu não tiro a razão de vocês…"

"Você não tem que se explicar". Aioria falou gentilmente, interrompendo-a. "Meu irmão acredita em você, então eu acredito".

"Obrigada". Mirela ficou satisfeita em poder contar com ele também. "Eu aprecio muito a sua confiança e a do seu irmão, mas eu também sei que confiança deve ser conquistada, e eu não quero começar esse..." Ela ficou tentando colocar em palavras o que queria dizer. "… esse relacionamento". Ela fez um gesto que englobava todos eles com as mãos. "… errado. Acho que, se eu for sincera, as coisas vão fluir melhor entre a gente". Falou um pouco envergonhada.

"Eu não sei o porquê de Athena ter escolhido você, mas eu gosto da sua sinceridade". Milo disse satisfeito.

Mirela pôde sentir a tensão no ar e entre eles diminuir. Até mesmo Máscara da Morte aparentava estar mais tranquilo e com uma expressão amigável no rosto. Entretanto, Saga ainda a olhava com aqueles olhos assustadores.

"Então eu espero todos vocês na sala de jantar, já que alguns pontos serão esclarecidos". Shion encerrou o assunto.

Uma serva levou Mirela até seus aposentos. Não era muito longe dos aposentos de Shion, então ela se sentiria segura. O quarto era grande e bastante acolhedor. As cores eram neutras ali, nada em tom quente e sim suave. Paredes brancas, roupa de cama lilás, móveis em madeira clara. Grandes janelas que iam do chão ao teto estavam abertas e uma brisa gostosa lhe dava boas-vindas. Bem à frente delas estava uma banheira de pé cromado, repleta de água quente.

Mirela agradeceu internamente por poder tomar um banho. Ela não sabia o que era isso há uns dois dias. Fechou a porta com o trinco, pois não queria ninguém entrando e saindo sem a sua permissão. Retirou as roupas e colocou as mesmas em cima de um grande sofá em couro branco que ficava aos pés da sua cama.

Entrou na água e agradeceu por esta estar morna. Ficou ali, admirando o teto do quarto por alguns minutos. Sua cabeça estava cheia de informações e ela não sabia como digerir tudo. A primeira coisa que vinha a mente era a sua família. De acordo com Athena, ela voltaria para o mesmo ponto de onde partiu. Provavelmente acordaria de volta no quarto daquela pousada. Contudo, ela nunca seria a mesma. Teria vivenciado experiências e histórias indescritíveis, mas não poderia contar a ninguém.

Isso se ela conseguisse voltar. Será que, se ela morresse naquele mundo, ela voltaria para o seu? O que será que estava acontecendo agora lá? Será que o tempo tinha parado ou as coisas estavam acontecendo? Eles estavam vivendo como se ela não existisse? Sacudiu a cabeça se livrando daqueles pensamentos.

"O que eu vou fazer?" Perguntou para o teto.

"Não sei, mas eu posso pentear seus cabelos".

"Ahhhhh!" Mirela gritou com todas as suas forças.


Pátio central – Próximo as escadarias das doze casas.

"O que vocês acham?" Milo perguntou para Shura e Kamus. Ele estava sentado nas escadarias que levavam para a casa de peixes. "O que será que está acontecendo?"

"Não sei". Kamus, diferentemente dos outros cavaleiros, não tinha um cordão com o símbolo da sua casa, e sim um anel. Ele girava o anel no dedo como se, a qualquer momento, fosse desvendar algum mistério bastante perigoso. "Eu acredito em Athena".

Diferente de Kamus e Milo, Shura não estava preocupado com a garota. Ele pensava mesmo em Saga. O amigo estava estranho e o seu mal humor estava aumentando. Era como se algo o estivesse incomodando. Ele até tentava se aproximar e ajudar o cavaleiro de gêmeos, mas sempre que ele dava um passo para frente, Saga o obrigava a dar dois para trás.

"O que foi, Shura?" Milo perguntou. Shura sempre foi reservado sobre as coisas em que pensava, mas Milo sabia que o amigo não estava com a cabeça ali com eles. "O que te aflige?"

"Saga". Shura não pretendia esconder as suas preocupações dos amigos, mas não queria contar algo que, talvez, fosse só a sua imaginação. "Não é nada demais. Só estou preocupado com ele. Ele anda meio mal-humorado".

"Talvez a responsabilidade de concorrer com Aioros para a vaga de Grande Mestre esteja mexendo com ele". Milo disse dando de ombros.

"Milo tem razão". Kamus tranquilizou o amigo. "Talvez a gente possa tentar ajudá-lo". Kamus não era muito de conversar, mas ele faria qualquer coisa pelos seus amigos.

"Vocês têm razão". Shura suspirou. "Vamos conversar com ele depois do jantar, o que acham?"

"Perfeito". Milo encerrou o assunto.


Templo de Athena – Salão do Grande Mestre.

"Mestre, recebi uma mensagem de Afrodite". Máscara da Morte estava ajoelhado. Ele já trajava a sua armadura de ouro. Seus cabelos estavam soltos e despenteados, e o elmo estava firme embaixo de seu braço esquerdo.

Shion fez um gesto para que o cavaleiro de câncer se levantasse. Shion tinha tantas coisas burocráticas na cabeça e, agora com a ameaça de Ares rondando o Santuário, uma leve dor de cabeça começava a martelar por entre os seus olhos.

"Prossiga". Falou esfregando as têmporas.

"Ele disse que ficará ausente por mais dois dias e que as coisas estão estranhas para o norte, próximo das terras de Poseidon". Mask não pôde deixar de deixar transparecer a sua preocupação com o amigo e com a situação. "O senhor quer que eu vá até ele?"

"Não". Shion sabia que Mask era bastante ligado a Peixes, mas não podia deixar outro cavaleiro se ausentar do Santuário. "Afrodite logo estará de volta e eu não quero mais um cavaleiro de ouro longe do Santuário. Temo que Ares possa mandar os seus Berserks".

"O senhor acredita então que Ares entrará em guerra conosco?" Mask não queria entrar em uma guerra, apesar de gostar de lutar. Entretanto, ele sabia que Athena estava para nascer e ele não queria colocar a deusa em perigo.

"Temo que sim". Shion encarou o cavaleiro. "Por isso que peço que não vá até Afrodite. Preciso de você e dos outros aqui. Se Ares está tramando algo, temo que ele tente algo contra Mirela".

"Sim, senhor. Avisarei aos outros sobre Afrodite e sobre não sair do Santuário".

"Obrigado". Shion dispensou Máscara da Morte e voltou a analisar a documentação dos novos recrutas. Muitos estavam treinando para conquistar as armaduras de prata e bronze. "Preciso organizar isso e começar o treinamento de Saga e Aioros".

Saga escutava a conversa de Mask e Shion. Ele não queria que os dois soubessem que ele estava por ali, escutando e espiando. Ele tinha muitos problemas no momento, e saber que Ares poderia ser mais um não o deixava feliz. O cargo de Grande Mestre pesava em suas costas. Ele o queria muito e, quem sabe com ele, seu irmão não precisaria mais ficar escondido de todos.

Só de pensar em Kanon, ele sentia o coração apertar. O irmão tentava encher a sua cabeça com coisas ruins a respeito de Shion e dos outros. Ele sempre dizia a Saga que o cargo de Grande Mestre já era de Aioros e que ele estava fazendo papel de tolo. Que todos preferiam Aioros a ele. Saga tentou ao máximo não ficar com aquela ideia na cabeça, mas, a cada dia que passava, ele conseguia ver por gestos e pequenos detalhes que o seu irmão tinha razão. Eles o estavam fazendo de tolo.

Todavia, outro problema parecia ter surgido. Aquela garota parecia saber de algo sobre ele. Ela o olhou de modo tão profundo mais cedo, naquele dia, que era como se ela visse a sua alma. Pensou em contar a Kanon sobre ela, mas resolveu contar apenas quando ela explicasse alguns detalhes sobre a sua vinda para o Santuário. Não queria deixar Kanon preocupado à toa.

Finalmente, Mask estava saindo e deixando Shion sozinho. Ele pensou em ir falar com Shion, mas algo o deteve. Shion parecia mais pálido do que o habitual – talvez não fosse o melhor momento de sondar o Grande Mestre. Saga esperou ele colocar uma pilha de papéis dentro de uma pasta e, vendo que não aconteceria mais nada de importante, deixou-o sozinho.

Seus pés o levaram direto para o corredor onde a garota estava. Ele não sabia porque tinha ido até lá, mas ficou parado em frente a porta do quarto dela. Alguma coisa o estava deixando nervoso, e ele queria entender o que era. Queria poder tirar aquele sentimento estranho do peito. Ela era apenas uma humana qualquer, sem qualquer poder ou qualquer outra coisa que poderia lhe dar algum benefício.

"Devo estar maluco". Falou baixinho.

Deu as costas para a porta e voltou a andar. Não deu tempo nem de virar no final do corredor quando um grito ecoou pelas paredes do santuário. Saga não levou nem um segundo para estar na frente da porta do quarto dela. Ele nem conferiu se a porta estava destrancada, simplesmente chutou com força, despedaçando-a em segundos. Entrou no quarto e se arrependeu instantaneamente.

Assustada, Mirela levantou quando a porta de seu quarto foi explodida em milhares de pedaços; e Saga entrou tão rápido que ela só conseguiu ver um borrão. Seu rosto era sério e estava pronto para enfrentar qualquer coisa por ela, mas quando seus olhos azuis a viram, frágil e nua, ele imediatamente deu as costas a ela.

Ela sentiu uma toalha envolver o seu corpo e percebeu que a voz que falara com ela era de uma mulher que estava tão constrangida quanto ela. Mirela não sabia se agradecia ou se gritava com a mulher para ficar longe dela.

"Eu sinto muito". Saga falou sem jeito. "Eu pensei que você estivesse em perigo".

Mirela saiu da banheira e vestiu um roupão.

"A culpa é minha". A mulher disse aos dois. "Eu entrei no quarto sem que ela me visse".

"Você já pode virar". Mirela falou sem graça para Saga.

Ele engoliu a seco e se virou para vê-la. "Me desculpe". Voltou a se desculpar. Ela fez um gesto com a cabeça indicando que estava tudo bem. "Quem é você?" Ele exigiu saber da mulher. Era melhor evitar olhar para a garota.

"O que está acontecendo aqui?" Shion perguntou aparecendo por entre o que restava da porta. Logo atrás dele estava Aioros.

Os dois olharam de Saga para Mirela e para a mulher misteriosa no quarto. Shion percebeu que algo estava incomodando Saga e ele notou que Mirela estava apenas com um fino roupão de seda branco. Ele mesmo estava ficando sem graça com aquela situação. Antes que pudesse fazer algo, Aioros entrou no quarto e cobriu Mirela com uma coberta que estava em cima da cama. Ele não queria que a garota se sentisse violada por eles a verem naqueles trajes.

"Desculpa". A mulher tornou a falar. "Athena me pediu para ficar com Mirela por alguns dias".

"Athena?" Saga voltou a sua atenção para a mulher.

"Sim". A mulher mostrou o emblema da deusa em sua roupa. "Eu sou serva da deusa. Ela queria que Mirela se sentisse em casa e me pediu para cuidar dela por um tempo. Eu me chamo Layla".

"Está tudo bem". Aioros falou mentalmente. Ele apertou o braço de Mirela gentilmente e saiu do quarto. Estava avisando aos outros que não tinha acontecido nada.

Mirela percebeu que Saga ainda a encarava. Ela queria enfiar a cabeça em um buraco, mas não podia. Percebeu que a culpa de tudo era dela e não da serva. Ela não tinha o porquê de gritar daquele jeito. Tudo bem que ela estava nervosa e que estava com medo de Ares se materializar do nada para matá-la, mas não precisava daquilo tudo.

"Shion, eu sinto muito. A culpa é minha. Eu confesso que estou com um pouco de medo, então qualquer coisinha me assusta". Ela se virou para Saga. "Desculpa por fazer você se preocupar". Ela não ia mencionar que ele a viu pelada. Na realidade, ela ia fingir que isso não aconteceu.

"Não tem motivo para eu estar aqui". Saga evitou o contato com os olhos dela. "Shion". Ele fez um gesto coma cabeça e saiu do quarto.

Aioros ia parar Saga para perguntar o que tinha acontecido, mas o cavaleiro de gêmeos passou por ele sem ao menos cumprimentá-lo. O sagitariano deu de ombros e voltou para o quarto de Mirela.

Shion estava falando com uma outra serva sobre trocar a porta o mais rápido possível. Aioros passou por ele e avisou que todos já sabiam e que estava tudo bem. Ele se dirigiu até Mirela, que estava sentada na cama com as mãos no rosto. A coberta ainda estava envolta em seu corpo e seu cabelo pingava sem parar, encharcando o tecido em volta de seu pescoço.

"É melhor você colocar uma roupa antes que pegue um resfriado". Ele falou sentando-se ao lado dela.

"Me sinto idiota". Mirela falou sem olhar para ele.

"Está tudo bem. Não tem por que ficar pensando nisso. Não é nenhum fim do mundo se assustar". Aioros disse gentilmente. "Ter medo não é ruim. Ter medo nos faz sentir vivos".

Não era só isso que estava afligindo Mirela. Ela não queria contar para ninguém que Saga a tinha visto nua. Sacudiu a cabeça para dispersar aquelas lembranças. Olhou de Aioros para Layla, que limpava o quarto sem reclamar. Era a primeira vez que Mirela parava para analisar a mulher. Ela tinha longos cabelos castanhos, presos em uma trança embutia, e seu vestido era longo e branco. Tinha algo naquela mulher que lhe era familiar.

"Eu te conheço de algum lugar?" Mirela perguntou levantando-se da cama com Aioros logo atrás.

"Desculpa". Ela começou dizendo antes de qualquer coisa. "Eu sou aquela mulher que esbarrou em você".

Mirela ficou encarando-a sem entender, até que a ficha caiu. Ela só estava há dois dias no santuário, mas parecia uma eternidade. Tinha se esquecido completamente do encontrão que deu em uma mulher na pousada em que tinha se hospedado em Friburgo.

Layla percebeu que ela estava tentando se lembrar, então, resolveu dizer logo de uma vez. "Você esbarrou em mim na pousada".

"Eu lembro". Falou. "Foi você que colocou o cordão no meu casaco".

"Sim. Athena me pediu para vigiá-la durante dois meses inteiros. Foi bem difícil conseguir uma brecha e estar sozinha com você". Layla olhou dela para Aioros e Shion, que observavam as duas em silêncio. "Vocês se importam se eu arrumar a senhorita Mirela para o jantar?" Perguntou aos dois homens com delicadeza. Ela queria ficar sozinha com a garota.

"Estamos de saída". Disse o grande Mestre. "Mirela, a nova porta já foi instalada".

"Obrigada e desculpa, Shion".

Os dois cavaleiros deixaram o quarto, fechando a porta em seguida. Layla esperou alguns minutos antes de voltar a falar. Enquanto isso, ela pegou um vestido lilás e entregou para Mirela, que o aceitou de bom grado. Ela esperou que a garota terminasse de se vestir e auxiliou a mesma com os botões de pérolas em suas costas.

"Athena quer ter certeza do que eu falarei para os cavaleiros, não é mesmo?" Mirela perguntou sem rodeios.

"Sim". Layla começou a pentear os longos cabelos de Mirela. "Ela pediu para lhe dizer que você não deve contar nada a respeito de Saga e seu irmão".

Mirela sentiu uma pontada de raiva em seu âmago. Ela não era estúpida de contar isso. Sabia que essa informação poderia causar um caos dentro do santuário. Antes ela acreditava que Athena confiava nela, agora ela tinha as suas dúvidas.

"Eu nunca falaria algo que pudesse prejudicar os cavaleiros de ouro". Mirela falou em um tom duro. "Se ela diz que confia em mim, deveria saber disso".

"Não a leve a mal, ela está tão impaciente e nervosa quanto você". Layla terminou a trança e já começava a prender pequenos arranjos de flores nos cabelos de Mirela. "Ares está jogando pesado. Ele busca aliados".

"Aliados?!" Mirela sentiu um calafrio na espinha. Ficou encarando o seu rosto no espelho. Seus olhos castanhos a encaravam, aterrorizados. Ela se sentia exatamente assim. "Quais deuses?"

"Deuses menores". Layla sussurrou. Ela tinha medo que alguém as escutasse. "Nenhum deles aceitou ainda, mas é questão de tempo".

"O que Athena quer que eu faça?" Mirela se virou para encarar a garota. "Se com Ares sozinho já é difícil, se outros deuses entrarem na equação, será impossível".

"Estamos trabalhando nisso, mas você deve sempre estar em alerta. Nunca fique sozinha, sempre esteja na presença de algum cavaleiro". Layla agora começava a passar um pouco de maquiagem nela. "Não confie nos servos também, eles podem não ser confiáveis".

"Mas são servos de Athena!" Mirela queria gritar. Como os servos de Athena não eram confiáveis?! Isso era algo ilógico. "Você é serva dela, então devo desconfiar de ti".

"Sim, você deveria". Layla a encarou. "Criança, eu nunca trairia a deusa, ela me criou, me deu uma vida digna, mas isso não significa que todos sejam assim". Layla voltou a sussurrar. "Você já ouviu falar do 'Cavalo de Tróia'?"

Mirela assentiu. É claro que ela sabia sobre essa história. Aquiles lindo e maravilhoso, quem não saberia disso?!

"Alguns servos podem ser considerados como esse cavalo". Layla terminou de maquiá-la. "Ficam esperando o momento certo para agir".

"Você quer dizer que Ares ou até mesmo Hades tem gente infiltrada no santuário? Pessoas comuns como eu e você?" Mirela estava boquiaberta com a descoberta. Estava se sentindo no meio dessas guerras políticas que aconteciam em seu país. Todos os lugares eram iguais. Ela ainda não conseguia entender como existiam pessoas tão ruins a esse ponto. Ainda mais ali, tendo tudo do bom e do melhor. Casa, comida, proteção e o amor da deusa... As pessoas nunca estão satisfeitas. "Isso já aconteceu antes? Sabe de algum caso?"

"Vários, desde os primeiros tempos". Layla olhou para ela, avaliando o seu serviço. Mirela estava em um vestido lilás rodado e de decote coração tomara que caia. Ele não era longo e muito menos curto, estava na altura dos joelhos. Possuía pérolas nas costas que davam um lindo toque de realeza. Ela parecia uma deusa. A trança embutida, com pequenos arranjos lilás e brancos, dava um toque inocente e levemente despojado. A maquiagem era simples: não escondia quem ela era de verdade, apenas realçada o que ela tinha de mais bonito, como os olhos. Layla estava satisfeita com o seu serviço. "Coloque essas sandálias".

Mirela pegou as sandálias da mão da mulher e as colocou. Ficou boba quando as mesmas serviram perfeitamente em seus pés. "Como eles sabem até isso?!" Falou para si mesma.

"Eles pegaram as medidas das suas botas". Layla falou dando de ombros.

"Ah!" Mirela ficou olhando para as sandálias em seus pés e agradeceu por não ser nenhum sapato fechado. Tinha passado bastante tempo com aquelas botas. E ela gostava da simplicidade das fitas de cetim e couro. Eram bem delicadas.

"Não se esqueça do que eu te falei". Layla não podia deixá-la esquecer. "Não fique sozinha e cuidado com o que você conta. Athena não quer discórdia entre seus cavaleiros e ela não quer que o inimigo saiba qualquer coisa relacionada a você". Layla chegou mais perto e colocou o colar que Athena tinha impregnado com seu cosmos em Mirela. "Não tire isso por nada. E boa sorte".

Mirela concordou e observou a mulher sumir diante de seus olhos. "Como eles fazem isso?" Pensou enquanto olhava o quarto a procura da mulher. Será que foi desse jeito que Aioros e Shina se sentiram quando ela e Shion do nada sumiram? Ela não podia culpar Shina por ter ficado desesperada. Ela própria ficaria. "Eu nunca vou me acostumar com isso".


Casa de Áries.

Aioria contemplava o horizonte na presença de Mu. Ali, da casa de Áries, era possível ver o coliseu e os aspirantes treinando. Dali a alguns meses haveria um torneio em que a armadura de Pégaso seria disputada. Muitos queriam a armadura de bronze, afinal, a mesma era repleta de histórias e o cavaleiro que a possuísse estaria destinado a ser lembrado por sua coragem e bravura.

Era a armadura que escolhia o seu dono, e a de Pégaso só escolhia o seu cavaleiro quando Athena estava prestes a ressurgir no mundo humano. Seria um torneio bastante interessante e os próprios cavaleiros de ouro lutariam contra os aspirantes para testá-los ao máximo. Aioria estava empolgado com o torneio. Queria muito mostrar ao irmão o que ele era capaz. Já Mu só queria que as coisas dessem certo. Seu mestre estava sempre muito ocupado com todos os preparativos e, se esse torneio fosse um fracasso como o do ano anterior, ele sabia que Shion ficaria preocupado, pensando que não existia alguém à altura da armadura.

Eles aguardavam a chegada de Aldebaran de Touro. O mesmo tinha ido atrás de alguns discípulos, já que era bastante escassa a quantidade de soldados e cavaleiros no santuário. Nem todo mundo tinha aptidão para ser um guerreiro. Não era simplesmente saber lutar, tinha que ter honra e, acima de tudo, estar disposto a dar a sua vida por Athena. De todos os cavaleiros de ouro, touro era o que mais se encaixava nesse papel. Ele amava garimpar novos recrutas, então, o mesmo estava sempre viajando por terras desconhecidas.

Muitas vezes, Mu o ajudou telepaticamente a procurar por cosmos, mas era uma tarefa bastante difícil e cansativa. Além do cavaleiro de Áries concertar as armaduras dos cavaleiros de prata e ouro, ele também ajudava a equipar os soldados que faziam a segurança do santuário. Já Aioria gostava de ajudar no treinamento deles e a mantê-los em forma. Hoje era a vez de Saga treinar os aspirantes com Aioros. Assim, os dois também aprendiam alguma coisa com os novos recrutas.

"Você acha que a armadura de Pégaso vai escolher alguém?" Aioria perguntou para Mu, que não tirava os olhos do horizonte na esperança de ver o brilho da armadura de touro – ou de sentir o cosmos do amigo. "Ele vai chegar logo, não se preocupe".

"Eu sei. Não é que eu duvide da capacidade dele". Mu suspirou. Era difícil explicar a relação dele com o taurino. Eles eram muito próximos. "Touro é o cavaleiro mais teimoso que eu conheço e isso me assusta".

"A relação de vocês dois me lembra muito a minha com o meu irmão". Falou com sinceridade. "Eu aprecio isso em vocês".

"Obrigado. Eu o vejo como um irmão mesmo". Mu encarou o amigo. "Não é que eu não considere você e os outros como minha família, não é isso. Vocês são". O ariano tratou logo de deixar claro as coisas. Não queria menosprezar ninguém.

"Eu sei". Aioria apertou o ombro do amigo com carinho. "É uma questão de afinidade". Ele sorriu. "Vocês sempre foram agarrados desde pequenos. Aldebaran sempre te defendeu".

Mu sorriu ao lembrar do amigo o defendendo. Deba sempre foi o protetor, nunca deixou ninguém tirar sarro da cara dele. Ele sabia que Mu nunca gostou de lutar. Assim como Shion, ele sempre preferiu o diálogo. Usar a força era a última opção.

"Você tem medo de perder o controle?" Perguntou o leonino.

Nunca tinha visto Mu perder o controle, mas sabia de algumas histórias contadas pelo seu irmão. Aioros contou uma vez para ele que, quando os dois saíram em missão há dois anos, eles se depararam com uma aldeia devastada pelas forças de Hades. Mu perdeu o controle quando viu uma família inteira, com os corpos queimados, abraçada. Aioria nunca vai esquecer da dor e do horror nos olhos do irmão. Então, ele não podia nem imaginar como o ariano tinha reagido àquela situação. Por mais que o irmão tenha lhe contado, ele sabia que Aioros tinha escondido a verdadeira face do amigo.

"Sim". Ele respondeu com sinceridade. "Tenho medo do que posso fazer quando estou com raiva. Por isso, sou muito agarrado a Aldebaran. É ele quem consegue cortar a minha impulsividade". Falou sorrindo, apesar do sorriso nunca alcançar seus olhos.

Aioria pensou em continuar a conversa, mas parou quando um brilho dourado surgiu no horizonte. Imediatamente um sorriso surgiu em seus lábios, e ele pôde notar que a tensão devido à conversa com Mu tinha se dissolvido por completo.

"Lá vem o grandão". Mu falou sorrindo, só que dessa vez o sorriso era verdadeiro.