Saint Seiya, obviamente não me pertence.

"But I see your true colors
Shining through
I see your true colors
And that's why I love you
So don't be afraid to let them show
Your true colors
True colors are beautiful
Like a rainbow"

True Colors – Cyndi Lauper.


Capítulo 4 – Revelações.

Casa de Gêmeos.

Saga estava atrasado para o Jantar no templo de Athena. Ele não queria socializar e muito menos ter que ficar próximo a garota. Já tinha sido muito constrangedor o episódio mais cedo e o que ele mais queria era evitar outro tipo de situação embaraçosa. Depois que ele praticamente destruiu a porta do quarto de Mirela e a viu nua, ele não conseguia tirar a imagem dela da cabeça. Aquilo o estava irritando e para o seu azar, seu irmão tinha tirado o dia para lhe fazer companhia.

"Eu sei que você não quer ir, mas você tem que ir." Kanon era idêntico a Saga, até mesmo a voz era parecida. Ele sabia que o irmão prezava a solidão, mas ele não podia se dar esse luxo. Ele tinha que se manter sempre um passo a frente de Aioros e o cavaleiro de sagitário, com certeza, estaria presente nesse jantar. "O que eu não entendo, é porque o Grande mestre resolveu fazer esse jantar." Kanon encarou o irmão. "Está acontecendo alguma coisa especial?"

Saga não havia contado ao irmão da chegada de Mirela. Ele não queria precipitar as coisas. Não sabia o motivo de Athena tê-la trazido de seu mundo até este, mas estava disposto a descobrir.

"Ele deve estar querendo falar sobre o torneio que vai ser realizado daqui há alguns dias." Mentiu. Ele só contaria ao irmão sobre Mirela depois que ele entendesse o que ela representava para os dois.

"Hum… Entendo." Kanon sentia que o irmão estava escondendo algo dele, mas deixaria para investigar depois. "Se possível, traga algo gostoso para o seu irmão."

"A geladeira está cheia, coma o que tem lá." Saga disse ríspido. "Você sabe muito bem se virar sozinho. E não demore muito, não quero você aqui. Vá para o seu esconderijo."

"Ficar em Rodório é muito ruim." Kanon falou enquanto observava o que tinha dentro da geladeira do irmão.

"Lá é o melhor lugar, aqui a qualquer momento alguém pode entrar e te pegar." Saga pegou o casaco em cima da cama e o jogou por cima dos ombros. "Não quero te ver aqui quando eu voltar."

Kanon assentiu em resposta ao irmão e o viu ir embora. Saga por sua vez, ao fechar a porta de seu dormitório ficou ali parado esperando alguma reação do seu irmão. Ele andava desconfiado de que Kanon o andava seguindo. Depois de longos cinco minutos esperando, ficou convencido de que podia ser algo de sua cabeça.


Templo de Athena.

Mirela olhou-se mais uma vez no espelho e admirou o trabalho feito por Layla. Ela estava diferente, não era nada parecida com a antiga Mirela que vivia largada em seu mundo. Sua mãe ficaria feliz em vê-la assim. Ela sempre dizia. "Usar um vestido não vai te matar." Mirela sentia falta da mãe dela. Elas não tinham o mesmo tipo de pensamento ou o mesmo gosto por roupas, mas ela amava a família dela.

Seu estômago roncou, mostrando que apesar de tudo o que estava acontecendo com ela o seu corpo ainda tinha necessidades e comer era uma delas. Ela não sabia o que era fazer uma refeição sentada a mesa já tinha alguns dias. Se pegou pensando no tipo de comida que experimentaria.

"Que Deus me ajude." Pediu segurando firme o cordão dado a ela por Athena.

Instantes depois alguém bateu em sua porta. Mirela sabia que uma das servas de Athena a buscaria e sentiu seu estômago embrulhar. Essa noite ela contaria a verdade a eles, pelo menos um pouco da verdade. Estava se preparando para ser chamada de louca ou até mesmo ver gente debochando dela, mas o que a deixava mais nervosa era ter que olhar para Saga.

"Será que ele vai entender? Será que ele vai vir para cima de mim?" Mirela esfregou as mãos uma nas outras.

Contar mesmo que pouca coisa do que ela sabia significava muitas coisas e certeza que teria que responder perguntas e isso a deixava apavorada. Sacudiu a cabeça e jogou aqueles pensamentos para bem longe. "Nada de sofrer antes do tempo." Pensou.

Atendeu a porta e ficou surpresa ao ver Aioros. Ele estava lindo e Mirela teve que se controlar para não ficar boquiaberta. Usava uma calça de algodão escura e blusa de manga comprida branca com gola em V deixando a mostra um pouco do seu peitoral sarado. Seus cabelos estavam penteados e uma fita vermelha (que deixou Mirela enfeitiçada, já que era igualzinho no mangá) os mantinha fixos no lugar.

Antes de saber que aquele mundo era real, ela achava a fita vermelha dele meio estranha, mas agora vendo, parecia que sem ela, ele não era o verdadeiro Aioros e ela combinava perfeitamente com ele. Depois de vê-lo começou a se sentir um pouco constrangida por ter se sentido bonita antes. Esses caras estavam além do que era bonito.

"Você está muito bonito." Ela disse sem se controlar. As palavras meio que escaparam da boca dela. "Quer dizer…" Mirela não sabia o que dizer, então apenas sorriu.

"Obrigado." Agradeceu com um lindo sorriso. "Você também está bem bonita."

"Layla fez milagre." Mirela fechou a porta e ficou encarando ele. "Então, vamos?"

"Claro." Ele ergueu o braço para ela.

Mirela ficou um pouco na defensiva, não sabia se aceitava ou não, mas resolveu deixar de ser idiota e entrelaçou o braço no dele. Eles andaram em silêncio o caminho todo e ela percebeu que o silêncio não era constrangedor ou ruim, era bastante agradável.

Chegaram em um grande salão com uma mesa rústica no centro. Era tão bonito que era difícil assimilar tudo de uma vez. As paredes tinham mais de três metros de altura, no teto alguns desenhos feitos a mão. Era uma representação daquela sala em si, a mesa comprida e larga com os deuses sentados a sua volta, muita comida e vinho e a deusa Athena em todo o seu esplendor estava sentada na ponta, de frente para Zeus, que ocupava a outra ponta. O que surpreendeu Mirela foi o fato de que Hades e Poseidon estavam ali também, representados naquela pintura.

Mirela nem se tocou que tinha largado Aioros e estava andando olhando para cima analisando a pintura. Tinha bastante detalhes, e as cores eram vivas e fortes. O dourado e vermelho eram as cores que mais sobressaia. Mirela analisou cada um dos deuses. Primeiro ela observou Athena, andou até a ponta, onde a deusa estava sentada. Era idêntica a verdadeira. Só a cor dos olhos que estavam dourados e o cabelo lilas. A própria Athena tinha dito que ela podia mudar.

"A pintura é idêntica a ela." Mirela falou consigo mesma apoiando-se no encosto de uma das cadeiras. Ela nem se tocou que tinha apoiado mesmo no ombro de um dos cavaleiros.

"Foi desenhado pela própria deusa." Falou Shion a trazendo de volta.

"É linda!" Mirela respondeu com sinceridade. "Athena é boa em muitas coisas."

"Ela é uma deusa, tem que ser."

Mirela olhou para a pessoa que havia falado. Saga estava sentado e encarava a mão dela em seu ombro. Mirela imediatamente retirou a mão.

"Você tem razão." Ela disse sem jeito.

"Sente-se, Mirela." Shion indicou a cadeira vazia que estava do outro lado da mesa, de frente para Saga. Aioros estava de pé, esperando que ela se sentasse para poder fazer o mesmo.

"Obrigada." Mirela não pode deixar de notar os olhares dos cavaleiros. Ela foi até a cadeira segurando a respiração. Só soltou quando Aioros sussurrou no seu ouvido:

"Relaxa." Falou segurando o riso.

Depois que ela sentou e Shion fez as apresentações, dizendo o nome de cada um e a sua respectiva casa, isso incluindo Aldebaran que já estava presente. A comida foi servida. Os talheres, assim como o resto da louça eram decorados com símbolos das constelações em ouro e prata. Era visível que tudo tinha sido feito a mão. Mirela segurou o garfo e analisou a constelação desenhada nele. Para a sua surpresa, representava a constelação de gêmeos. Seus olhos foram de imediato até Saga, que a observava em silêncio.

Mirela sentiu o rosto arder e voltou a sua atenção para Aioros que segurava firme em sua mão uma taça cheia de vinho tinto. Ele tomou um gole e sorriu para ela, mostrando aqueles perfeitos dentes brancos. Mirela se sentiu presa entre os dois. Seu estômago parecia estar em uma montanha-russa. Olhou para a quantidade de comida a sua frente e resolveu focar na comida, afinal, logo mais ela teria que explicar algumas coisas.

Procurou alguma coisa que fosse parecido com a culinária brasileira. Muitos pratos levavam frutos do mar ou cordeiro, o que não era do gosto dela, já que a mesma era vegetariana, mas eles tinham um prato muito parecido com um brasileiro. Pimentão recheado. Podia ser feito com tomates também. Aldebaran fez questão de explicar para ela.

"Se chama Gemista, o que significa recheado em grego." Ele pegou um e colocou no prato dela. "Eles são recheados com arroz e cozido com molhos e azeite. É um prato simples, mas gostoso por conta dos temperos utilizados."

"Obrigada." Mirela cortou um pedaço experimentando em seguida. De fato era um prato simples, mas como ele havia mencionado, delicioso. O pimentão não estava amargo e nem seco, estava bastante suculento e as especiarias explodiam na boca de Mirela. "Isso é muito bom!" Falou empolgada. "Que temperos tem aqui?" Perguntou enquanto colocava outro pedaço na boca.

"Muitos." Foi a vez de Shion responder. "Porque você não experimenta esse." Ele apontou para um prato que lembrava muito uma lasanha. "O nome é Moussaka."

Mirela analisou o prato a procura de algum pedaço de carne, mas aparentemente ela só via queijo, berinjelas e tomates. Não queria fazer uma desfeita para Shion, então aceitou e ele ficou feliz em servir. Ela cortou um pedaço e levou a boca. Primeiro sentiu a berinjela e o queijo e logo depois veio o gosto da carne.

.

"Mamãe, posso comer com a vovó?" Mirela perguntou enquanto corria para o colo de sua avó. Ela tinha prometido fazer um prato bem colorido e cheio de sabores para ela experimentar, já que a sua mãe sempre lhe dava a mesma papinha de sempre.

"Não sei se é prudente. Você ainda está aprendendo a comer sozinha." Disse avaliando a filha. "Você só tem dois anos."

"Deixa de ser chata, Milena." A avó de Mirela cortou a filha, "Mirela já era para comer legumes, verduras, carne e grãos sem estar amassados. Ela precisa aprender a mastigar."

"Desculpa mãe, mas quem manda na minha filha sou eu." Milena pegou Mirela do colo da avó e levou ela até o quintal. "Está vendo a Lucy e Cynthia?" Milena apontou para a vaca e o bezerro.

"Sim mamãe." Mirela encarava os bichos da fazendo de seus avós. "O que tem eles?"

"Você gostaria de comer eles?" Ela perguntou baixinho em seu ouvido."Seus avós matam os bichinhos, tiram tudo o que há dentro deles e depois comem. Você quer matar os animaizinhos?"

Mirela chorou por muito tempo depois do que escutou da sua mãe, ela levou anos para voltar a fazenda de seus avós e desde então nunca colocou um pedaço de carne na boca quando era criança. Quando se tornou adolescente, até tentou comer, mas vomitou assim que sentiu a textura e o gosto em sua boca. Sua mãe havia tirado qualquer escolha que ela pudesse ter feito na infância.

.

Levou a mão a boca imediatamente. Não sabia o que fazer. Se cuspia, se engolia, só sabia que precisava dar um fim naquilo. Sentia que ia vomitar a qualquer momento.

"O que houve?"

Escutou Aioros perguntar baixinho. Ela olhou para ele e o Sagitariano viu o desespero nos olhos dela.

"Você está entalada?" Ele perguntou já levantando para socorrê-la.

Mirela sacudiu a cabeça em desespero. A primeira onda veio e ela segurou mais forte a boca. Olhou pela mesa a procura de um guardanapo, mas a única coisa que ela viu no meio de tudo foi a taça de vinho de Aioros. Ela pegou e começou a beber o líquido veemente. Terminou rapidamente, mas ainda sentia o gosto da carne em sua boca. Esfregou os lábios com a costa da mão e devolveu a taça para a mesa e pegou a garrafa. Ela não ia colocar o líquido no copo, não dava tempo, uma nova onda de náusea a pegou desprevenida e ela fez um movimento de que ia vomitar.

Saga compreendeu na mesma hora o que tinha acontecido. Ele levantou e tomou a garrafa da mão dela lhe dando água ao em vez de vinho. Puxou ela para o lado e falou gentilmente.

"Se quiser vomitar, vomite. Não segure."

Shion pegou o prato dela e já estava cheirando para ver se tinha alguma coisa diferente.

"Ela foi envenenada?" Aioria perguntou de pé do seu lugar.

Todos olhavam assustados. Alguns em pé observando a cena e tentando ser útil já outros continuavam apenas parados sem entender. Deba que tinha um pedaço em seu prato já estava colocando-o de lado.

"Não." Saga falou tranquilizando os amigos.

Mirela não ia vomitar na frente de ninguém. Muito menos com Saga ali do seu lado, segurando os seus cabelos e esfregando suas costas. Ela não ia passar essa vergonha. Apertou a garrafa de água nas mãos e levou a boca. Bebeu tudo e se deixou ser guiada por ele até a cadeira. Sentou-se e respirou fundo absorvendo o máximo de ar que seus pulmões podiam aguentar.

"Obrigada." Disse envergonhada. Ela devolveu a garrafa de água vazia para a mesa e pegou a sua própria taça. Olhou o líquido e o bebeu de uma vez. O gosto da carne ainda estava ali. Aquela textura e aquele sentimento horroroso.

"O que aconteceu?" Aioros perguntou se ajoelhando ao lado dela.

"Ela é vegetariana." Saga respondeu por ela. Ele ficou ali com aos mãos ainda afagando as costas dela sem percebe que estava sendo observado pelos outros.

"Isso explica o motivo de você ser só pele e osso menina." Aldebaran voltou a pegar o pedaço da comida de volta. "Você tem que se alimentar direito."

"Me desculpe." Mirela não sabia o que dizer naquela situação. Se a sua mãe estivesse ali a repreenderia com certeza.

"Mas a culpa é minha." Shion pegou um lenço e entregou a ela. "Eu deveria ter dito que tinha carne de cordeiro moída no meio."

Mirela aceitou o lenço com um sorriso tímido. Ela olhou o pedaço de pano fino em seus dedos. Era feito de seda e tinha o nome dele bordado em fios de ouro. Ela não sabia se deveria usá-lo, parecia ser algo caro.

"Minha mãe…" Ela começou a dizer ainda segurando firme o lenço em suas mãos. Seus olhos estavam fixos em Aioros que permanecia ajoelhado ao seu lado. Ela via preocupação em seus olhos. Era como se eles tivessem acabado de se encontrar em Rodório quando ela estava sendo esmagada pelo cosmos de Shina. "…Ela nunca me deixou comer carne." Mirela deu um fraco sorriso. "Quando eu tinha dois anos, estava na fazenda dos meus avós e ela fez questão de me mostrar da maneira mais cruel o que acontece com os animais quando comemos carne." Ela levou o lenço a boca como se a carne ainda estivesse ali. "Eu chorei o dia todo." Mirela olhou para Saga que ainda a acariciava. Os olhos dele eram de um azul-escuro muito bonito. "Eu era uma criança, ela me traumatizou. Existiam várias formas para ela me apresentar ao vegetarianismo, mas ela achou que essa forma seria a mais eficaz." Mirela suspirou. "Quando eu fiz treze anos, eu fiquei meio rebelde sabe?" Ela encarou Aioros e depois Saga, eram os que estavam mais próximos a ela naquele momento. Ela sabia que estava sendo exposta a todos eles, mas ali naquele pequeno círculo, ela se sentia segura. "Fui em um restaurante e pedi o maior pedaço de carne, qualquer um, desde de que fosse carne. E ai quando o prato chegou eu fiquei com medo de comer, mas mesmo com medo eu mordi um pedaço, afinal, eu precisava saber o gosto." Mirela ficou olhando para o nada. Ela lembrava muito bem daquele dia. "Eu vomitei logo em seguida." Concluiu voltando a olhar para o lenço em suas mãos.

"Me desculpe, mas a sua mãe foi bem ruim com você." Aldebaran falou colocando um pedaço de carne na boca. Ele recebeu vários olhares de repreensão, mas não se importou em ter falado a verdade a ela.

Mirela olhou para ele e começou a rir. Tinha sido a primeira vez que alguém falou com tanta sinceridade em relação a sua mãe. Geralmente as pessoas morriam de medo dela.

"De fato ela era bem ruim comigo." Ela falou dando de ombros.

"Você é filha única?" Aioria perguntou do seu lugar. Ele estava interessado na vida dela.

"Eu?! Não! Eu tenho três irmãos." Ela procurou o Leonino na mesa. "Eu tenho três irmãos homens. Eu sou a única mulher. Eu sou a irmã do meio."

"Ah! Deve ser por isso então, eu acho. Sua mãe deve ser super protetora." Ele falou tentando ser solidário com ela.

"É, talvez você tenha razão…" Mirela suspirou.

Saga percebeu que ainda estava ali do lado dela e com as mãos em suas costas. Ele pigarreou e voltou ao seu lugar. "Agora que você está melhor." Ele sentou-se e encheu a sua taça de vinho. "Será que pode nos esclarecer o porque de Athena ter trazido você para cá?"

"Será que não é melhor deixar isso para outro dia?" Aioros perguntou erguendo-se do chão. "Essa noite já foi bastante agitada."

"Não." Mirela o cortou. Ela segurou a mão dele e apertou de leve para mostrar que estava bem. "Eu estou bem. Eu quero contar."

"Ah que bom, porque eu quero saber." Escorpião disse satisfeito.

"Você não perder a oportunidade de ficar calado." Shura o cortou.

Foi a primeira vez que Mirela os escutou aquela noite. Eles estavam um pouco mais afastados, na outra ponta da mesa. Do lado direito, Aldebaran, Mu, Mask, Aioria e Saga e do lado esquerdo Miro, Shura, Kamus, Aioria e ela. Shaka estava em uma ponta e Shion na outra.

"Tudo bem." Ela não queria que eles brigassem. "Eu disse que ia contar, não tem motivo para adiar por causa do meu ataque."

"Isso não irá lhe trazer problemas com a deusa?" Shion perguntou preocupado. "Ela não parecia querer que nós soubéssemos."

"Athena me permitiu dizer certas coisas, outras não e eu espero que vocês entendam." Falou com sinceridade.

"Então conte o que pode." Máscara da Morte disse tomando um gole de vinho em seguida. "O resto a gente descobre sozinhos."

"Como vocês sabem eu não sou desse mundo." Mirela tentou parecer a mais séria possível. "No meu mundo isso aqui…" Ela fez um gesto que englobasse a todos. "Não passa de uma história."

"Uma história?" Kamus perguntou com um leve tom de deboche na voz. "É melhor você explicar direito."

"Ok…" Mirela não gostou do tom dele. Talvez eles pensassem que ela fosse uma maluca. "Na última guerra santa o nome de Athena era Sasha e o nome do cavaleiro de Pégasos era Tenma. Só dois cavaleiros de ouro sobreviveram a guerra Santa, Shion e Dohko."

"Como você sabe disso tudo?" Shion perguntou incrédulo.

"Então, foi o que eu disse antes, no meu mundo vocês são apenas ficção. Uma história." Mirela olhava de Shion para os outros. Ela via vários tipos de expressão e nenhuma delas era a que ela queria. Eles não estavam acreditando nela. "Olhem para mim." Ela se levantou. "Vocês acham que Athena ia me chamar aqui por causa de força? Cosmos? Gente, eu não tenho poder algum. A única coisa que eu sei é o que vai acontecer no futuro."

"Ok, se você está dizendo a verdade, prove." Máscara da Morte a desafiou.

Mirela ficou pensando no que ela poderia dizer que não fizesse tanto estrago e mudasse alguma coisa do futuro.

"Kamus." Ela olhou para o cavaleiro de Aquário. "Você tem um discípulo, ele irá se tornar o Cavaleiro de Cristal e será o mestre do Cavaleiro de bronze que usará a armadura de Cisne." Ela viu a expressão no rosto do cavaleiro de Aquário mudar e antes que ele pudesse fazer qualquer pergunta ela se virou para Shion e o encarou antes de dizer: "A armadura de Pégasos não escolherá nenhum cavaleiro nesse torneio. Porque o cavaleiro de Pégasos ainda não nasceu. Quando Athena reencarnar ele nascerá."

Mirela ficou olhando de Shion para os outros e todos pareciam assutados. Ela estava começando a ficar na dúvida se o que ela tinha dito era suficiente ou não.

"Ok… Vocês não parecem convencidos." Ela tirou uma mecha de cabelo dos olhos.

"Eu acredito em você." Shaka falou pela primeira vez aquela noite. Ele tinha ficado ali apenas observando o desenrolar das coisas. Ele sabia que Athena não traria um qualquer para o santuário. "O que ela quer que você faça?"

"Ela quer que eu mude algumas coisas." Mirela não queria demostrar medo, mas ela sabia que Shaka via muito além do que ela queria. Sentiu-se nua na frente dele. Era como se ele soubesse tudo e se passava em sua cabeça e coração. Até ela conseguia enxergar a áurea que emanava dele.

"E é isso que você não pode nos dizer." Ele concluiu.

"Sim." Mirela voltou a encarar as próprias mãos. Nem lembrava que ainda segurava o lenço de Shion. Ele estava sujo de vinho e amarrotado de tanto que ela o enrolava sem parar em seus dedos.

"Nós perdemos para Hades?" Aioria perguntou.

Mirela encarou o leonino e depois olhou para Aioros e Saga. "Não." Ela sorriu. "Vocês protegem a deusa, fazem um ótimo trabalho."

Ela pode sentir que a tensão diminuiu entre eles.

"Então porque Athena quer que você mude algumas coisas?" Milo perguntou sem entender.

"São só pequenas coisas, para que no futuro o caminho de vocês seja mais fácil." Mirela disse dando de ombros. "Eu só não posso dizer o que é, pois temos medo de que o conhecimento do que está por vir e do que eu estou para mudar acabe tendo um efeito cascata no destino."

"Você quer dizer que se a gente souber mais do que o necessário o futuro pode mudar?" Shura perguntou.

"Sim." Mirela bebeu mais um pouco do vinho. "Só a minha presença aqui já é uma grande mudança na história e só isso já significa que talvez o futuro já tenha se modificado, ou seja, Athena pode ter perdido a guerra santa." Mirela pensou. Isso a atormentava.

"E o que Ares tem a ver com isso? Ele sabe que você tem conhecimento do futuro?" Mu perguntou.

"Não. Ele não pode saber." Mirela quase gritou. Ela começou a sentir medo. Lembrou-se de Layla falando sobre os servos serem espiões. "É melhor eu ir para o meu quarto." Ela se levantou. "Por favor..." Ela falou diretamente para Shion. "Não deixe que isso saia daqui."

"Não se preocupe." Ele a acalmou. "Você está protegida conosco."

"Não." Mirela foi até ele. Segurou as mãos dele com força. Ela não estava nem ai para o que os outros pensariam. "Não tenho medo por mim." Ela olhou para todos eles e depois voltou a falar ainda segurando firme as mãos dele. "Temo por vocês." Ela engoliu o choro. Meu Deus ela estava chorando por eles. "Se Ares descobrir, acabou tudo Shion, tudo."

Saga sentiu o coração apertar quando viu lágrimas escorrendo pelo rosto dela. Ele sentiu um impulso de levantar e abraçá-la e dizer que ela ficaria bem e que nada aconteceria com ela e nem com ninguém. Mas Aioros foi mais rápido. O Sagitariano já estava ao lado dela. Ele a abraçou com carinho e ternura. Mirela se permitiu chorar nos braços dele.

Ela estava com aquele choro entalado na garganta desde o dia em que chegou no Santuário. Estava triste pela sua família, triste por eles, com medo de não conseguir mudar as coisas e Aioros morrer. Ela não queria ver Shion morrendo também e muito menos ver Saga sucumbir a maldade. Ela tinha visto amor nos olhos dele. Ele não era nada daquilo que ela tinha lido nos mangás, ele era real, assim como os outros. Tinha empatia, medo, coragem, ele era cheio de sentimentos bons, assim como Aioros, tão gentil e acolhedor com ela. Ela precisava mudar as coisas, por eles e por ela.

Mirela deixou Aioros a levar até os seus aposentos. Ele abriu a porta e se despediu com um beijo em sua testa. Ela ficou imóvel quando os lábios quentes dele tocaram a sua pele fazendo-a estremecer.

"Obrigada por me trazer até aqui." Agradeceu

"De nada. Vê se descansa, amanhã é outro dia." Ele disse com carinho. Aioros estava preocupado com ela. Mirela estava com a expressão preocupada e seus olhos estavam vermelhos e inchados de chorar. Ele queria poder fazer mais por ela. "Amanhã, se você quiser, posso mostrar as doze casas para você."

Mirela sabia o que ele estava querendo fazer. Sentiu seu coração ficar mais leve. Ele era gentil e tão atencioso com ela. Se ela ao menos pudesse permitir apaixonar-se por alguém.

"Obrigada. Eu vou amar."

Ele sorriu e foi embora deixando ela sozinha em seu quarto perdida em seus pensamentos. Mirela apenas tirou as sandálias e se jogou na cama. Achava que seria difícil dormir, já que a sua cabeça estava cheia de informações, mas foi ao contrário. Ela estava tão cansada por causa dos últimos dias que nem sentiu quando dormiu. Naquela noite ela não sonhou com nada.


Escadarias das Doze Casas.

"Saga." Chamou Shura.

Ele conseguiu alcançar o geminiano antes que o mesmo se escondesse em sua casa. Logo mais atrás do Capricorniano, Miro e Kamus se aproximavam.

"O que vocês querem?" Perguntou observando Miro e Kamus alcançarem os dois.

"Queremos conversar, pode ser?" Perguntou Kamus.

"Estou cansado, pode ser amanhã?" Não era uma mentira, mas no momento ele queria ficar sozinho.

"Será rápido." Insistiu Miro.

"Tudo bem." Ele sabia que os amigos iam continuar a insistir, então era melhor acabar logo com isso. "O que querem?"

Saga esperava que eles não mencionassem Mirela. Ele já estava cheio de coisas na cabeça a respeito dela, não queria mais coisas para pensar. E só de imaginar elas nos braços de Aioros momentos atrás o estava deixando irritado e ele nem sabia o porque.

"Queríamos saber como você está lidando com tudo que está acontecendo em relação a se tornar o grande mestre." Miro foi direto ao ponto. Ele não era de enrolar.

Saga ficou surpreso com a pergunta. Ele achava que o rumo que eles iam levar aquela conversa fosse outro. Ficou um pouco desapontado e feliz ao mesmo tempo.

Suspirou. "Eu estou bem. Confesso que um pouco preocupado, mas nada que eu não possa lidar."

"É disso que temos medo." Kamus notou que ele parecia um pouco desapontado com a pergunta. "Não queremos que você e até mesmo o Aioro carregue esse fardo sozinhos. Queremos ajudar."

"Vocês podem ajudar o Aioros, acho que ele ficará muito feliz com a ajuda de vocês, agora em relação a mim, eu prefiro lidar com tudo isso sozinho."

"Não." Shura não ia deixar ele simplesmente os afastar como já vinha fazendo. "Nós somos uma família. Não importa quem ocupe aquele cargo, você entendeu?"

Ele entendia. Ele realmente entendia que todos eram uma família, foram criados juntos, treinando e lutando sempre juntos. Mas eles não sabiam o que era viver com medo de alguém descobrir o seu irmão e matá-lo só pelo fato deles serem gêmeos. Porque um tinha que ser bom e o outro mal. Ele não gostava de como as coisas já tinham sido decididas sem nem ao menos os dois terem a oportunidade de mostrar que aquelas lendas e histórias eram mentiras. Se havia algum irmão para Saga, esse irmão era Kanon, sangue de seu sangue.

"Entendi."

"Já que esclarecemos isso." Miro colocou os braços em volta dos ombros do Geminiano. "Conte-me, você está apaixonado por aquela humana?"

Saga parecia ter levado um soco na boca do estômago. Ele apaixonado por aquela mulher que não representava nada para ele. Nem bonita ela era. Tirou os braços de Miro de si e o encarou com a cara mais fria possível.

"Não diga bobagens, Miro." Sua voz era cheia de desprezo. "Porque achas que eu me apaixonaria por uma mulher daquelas?"

"Porque você estava bastante preocupado com ela e porque eu vi a forma como você a olhava." O Escorpião parecia certo do que dizia.

"Acho que vocês dois deviam se preocupar com o Miro. Ele anda tendo alucinações e ideias estranhas." Voltou a descer as escadas. "Ser legal com alguém não significa que estamos dando mole ou gostando da pessoa. Athena disse que era para protegê-la, só estou fazendo o meu papel."

Saga sumiu da vista dos três e Miro recebeu um tapa de Shura e Kamus. O escorpiano ficou bastante ultrajado com o ato dos amigos. Ele tinha certeza que Saga estava sentindo algo pela garota. Ele era praticamente um guru dos relacionamentos. Tinha certeza que se ele jogasse um pouco de faíscas as coisas pegariam fogo.