"Sweet berries ready for two
Ghosts are no different than you
Ghosts are now waiting for you
Are you
Sweet berries ready for two
Ghosts are no different than you
Ghosts are now waiting for you
Are you, dreaming
Dreaming tonight
Dreaming alright"
Question! – System Of a Down
Capítulo 9 – Afrodite.
Apesar do silêncio, Mirela já não se sentia tão incomodada por estar ao lado de Saga. Ele estava mais tranquilo depois que ela cantou e isso a deixava feliz. Chegaram à casa de Áries e, assim como as outras, ela estava vazia. Seu estômago começou a roncar. Estava na hora do almoço e seu organismo necessitava ser alimentado.
"Toma". Ele entregou uma maçã para ela.
Mirela não sabia de onde ele tinha tirado a fruta, mas agradeceu pela gentileza. Eles continuaram andando até que finalmente ela já havia visto por completo a casa de Áries. Saga lhe mostrou o relógio das doze casas e ela ficou feliz em confidenciar a ele que aquele grande relógio também era mencionado no seu mundo.
"Ele acende e, conforme as horas vão passando, as chamas se apagam".
"Interessante".
Claro que ele lhe contou que não era assim. Que era um relógio normal, com ponteiros e tudo mais. Ela ficou um pouco desapontada no começo, mas achou mais realista ser apenas um relógio normal.
"Onde é que vocês treinam?" Ela perguntou depois de olhar para a longa escadaria que teria que subir.
"É lá para baixo". Ele apontou na direção oeste, onde podia-se ver várias construções em pedra. "Está vendo aquela construção com metade em pé e a outra destruída?"
"Sim".
"Então, é lá".
Mesmo daquela distância, ela conseguia ter um vislumbre do lugar. Era enorme, imagina de perto. Parecia muito o coliseu. Talvez até fosse e ela não sabia.
"É muito longe. Vai levar bastante tempo até chegarmos lá". Ela disse, desanimada. Ou subia os degraus, ou andava até aquela grande estrutura de pedra. "Meus pés já estão doendo só de imaginar".
"Nós não iremos andando". Saga parecia divertido com as queixas dela.
"Não?"
Ele sorriu com a expressão de dúvida no rosto dela.
"Nem tudo a gente faz andando aqui".
"Então nós iremos como?" Mirela ficou olhando para os lados à procura de algum carro ou qualquer outro tipo de veículo.
"De bicicleta".
Saga deixou-a esperando, sentada nos degraus de pedra da casa de Áries, e foi até a própria casa para pegar a sua bicicleta. Ele sabia que podia usar a de Mu, mas não gostava de mexer nas coisas dos seus amigos. Levou apenas quinze minutos e, quando voltou, observou Mirela encostada em um pilar de pedra, observando o horizonte. Tinha um semblante tranquilo, e cantarolava outra música de seu mundo.
Ele não queria atrapalhar, então ficou ali, esperando que aquela canção terminasse. Aproveitou o momento de distração dela para pensar no que ela tinha lhe dito mais cedo. Se ele e o irmão não eram o plano de Ares, então o que seria? Será que Kanon entenderia quando ele lhe contasse a respeito das coisas que Mirela lhe confidenciara? Ou será que o irmão tentaria matá-la? Ele não permitiria. Jamais permitiria que alguém a machucasse, muito menos o seu irmão.
– Não acredito que você tem uma bicicleta. – Perguntou, admirada.
– Sim. - Sorriu. - Vamos?
Mirela sabia que teria que ser carregada, o que lhe deixou desconfortável. Ela sentou entre o guidão e Saga. Ele parecia tão desconfortável quanto ela. Assim que ele começou a pedalar, o desconforto foi embora. Ela amava sentir o vento em seu rosto e cabelo. Aquela sensação de liberdade tomou conta dela e ela se permitiu abrir os braços enquanto sorria sem parar. Saga gostava da forma descontraída em que ela se encontrava. O cheiro da pele dela invadia as suas narinas conforme pedalava. Era uma descida, o que tornava o passeio mais empolgante ainda.
Saga mostrava os locais a Mirela conforme eles iam chegando próximo da arena. Ela escutava tudo, bastante atenta. Ele mostrou alguns aldeões de Rodório trabalhando na colheita de grãos. Algumas pessoas acenavam e se afastavam da bicicleta em movimento. Mirela, em certo momento, achou ter visto Kanon. Foi muito rápido, mas ela tinha certeza de que era ele. Teve mais certeza ainda quando sentiu que a atmosfera havia mudado entre ela e Saga.
– Era seu irmão ali atrás?
Ela não queria ficar pisando em ovos com ele.
– Era. - Respondeu de forma ríspida.
– Não precisa ficar com raiva. - Ela tentou tranquilizá-lo. - As coisas vão se resolver.
– Tenho medo de que ele resolva fazer alguma estupidez.
– Está tudo bem. - Ela segurou as mãos dele por cima do guidão. - Vamos resolver as coisas, você vai ver.
– Queria ter essa sua fé. - Saga apertou mais forte o guidão. - Queria muito acreditar em suas palavras.
– Tenha um pouco de fé! - Ela o encarou. - Confie em mim.
Saga a observou enquanto pedalava sem parar. Ele podia ver a certeza em seus olhos. É claro que ele confiava. Se Athena confiava nela, por que ele não confiaria?
– Eu confio.
– Então olha para frente e, cuidado. – Falou, autoritária. - Não quero cair dessa bicicleta. Tem noção de quanto tempo eu não me ralo? - Perguntou.
Saga tentou não rir da colocação dela.
– Você não vai cair. - Ele disse, ofendido. - Tenha mais um pouco de fé em mim!
Mirela não pode segurar o riso. Lá estava ele, relaxado como minutos atrás. Era isso que ela gostava nele. O resto da viagem foi feita em silêncio. Poucos minutos depois, Saga parou em frente à uma grande construção de pedra.
Mirela desceu da bicicleta sentindo um pouco o bumbum, mas não ia deixar ele saber disso. Esfregou as nádegas discretamente enquanto avaliava a construção à sua frente. Era enorme. Mais alta que o próprio maracanã. Ela ficou de boca aberta ao analisar os blocos de pedra empilhados um em cima do outro. Eram enormes e largos. Lembrava muito as pirâmides, porém, muito mais magnífica.
– Isso é incrível. - Ela olhava para cima avaliando a altura admirada. - Eu não tenho palavras para descrever o que estou sentindo agora.
Saga não conseguia parar de sorrir. Era encantador vê-la assim, admirada com as pequenas coisas que compunham o seu lar.
– Vamos entrar. - Ele a encorajou. - Tem que ver como é por dentro.
Mirela deixou Saga ir na frente e o seguiu. Sim, por dentro era muito mais majestoso do que por fora. Ela não conseguia fechar a boca. O que as suas amigas não dariam para estarem ali, no seu lugar? E ela não olhava mais a construção em si, e sim nos belos homens sem blusa à sua frente, treinando sem parar. Ela tentou desviar o olhar dos corpos sarados deles, mas não conseguiu.
Primeiro, ela viu Aioria e Aioros treinando juntos. Os dois eram maravilhosos. Dourados de sol, com o suor escorrendo pelas costas, se perdendo no viés da calça de algodão bege. Eles faziam uma sequência de socos e chutes sincronizados que mais parecia uma dança do que uma luta em si. Ao lado deles, Shura, Miro e Camus treinavam apenas de short colado ao corpo.
Mirela teve que desviar o olhar. Era muita informação para os seus belos olhos castanhos claros. Eles se ajudavam e revezavam no levantamento de peso. O cabelo loiro de Miro estava preso em uma trança, já o de Camus, em um rabo de cavalo. Mirela se sentia na obrigação moral de ir passar as mãos nos cabelos esparsos de Shura para avaliar se eles eram tão sedosos quanto pareciam.
Ela girou o corpo para esquerda. Tinha que evitar aquela cena custe o que custar, entretanto, seus olhos foram direto para o peitoral desnudo e imenso de Aldebaran. Ele era o mais forte de todos. Seus músculos muito bem definidos pareciam que foram desenhados por esses artistas gregos. Ele daria uma bela de uma estátua grega. E ela, definitivamente, queria aquela estátua em seu quarto no Rio de Janeiro.
– O.K. - Ela tentava não babar. - Vamos evitar olhar para aquele lado também.
Ao fundo, ela notou Máscara da Morte sentado, apenas observando os amigos treinando. Ao lado dele, Shaka – que, aliás, era o único que estava vestido adequadamente. Ele ajudava Mu a se alongar. O ariano era tão magnífico quanto os outros. Seus cabelos estavam soltos e grudados em sua pele molhada de suor.
– Vamos lá? - Saga perguntou, tirando Mirela de seus delírios.
– Claro. – Sua voz deu uma vacilada.
"Preciso me concentrar na estrutura desse local". Pensou ela. "Estrutura, Mirela".
– Saga. - Chamou Máscara da Morte.
Ele levantou-se e deu a Mirela uma boa visão do que estava escondido. Seu corpo era tão definido quanto os dos outros, porém seu peito era igual ao de Touro. Uma fina camada de pelos escuros desciam em uma linha maravilhosa pelo sem abdômen se perdendo na calça. "Puta que pariu, Mirela! Concentre-se na estrutura desse local". Pensou vencida pela visão do canceriano.
Ela até tentou olhar para cima, pra o chão, ou para qualquer lugar em que eles não estivessem, mas as coisas iam ficando mais difíceis conforme eles notavam a presença dela e de Saga.
– Mirela. - Aioros se aproximou. - Como foi o resto do passeio?
– Delic… - ela interrompeu o que ia dizer pigarreando em seguida. - Muito bom. - Concluiu sem graça.
– Eu acho que vocês poderiam colocar uma blusa, já que temos uma dama conosco. - Shaka usou o seu tom severo.
– Concordo. - Aioros notou o rosto vermelho da garota.
Houve alguns protestos, principalmente da parte de Miro. Mas, para a alegria ou decepção de Mirela, logo todos eles estavam com um tipo de regata.
– Obrigada.
– Então, pensou no que eu te disse? - Perguntou Shaka.
– Claro. - Ela não queria treinar, mas, se em todos os dias que ela treinasse com ele tivesse essa visão maravilhosa, com certeza valeria a pena. - Quero treinar contigo sim. Mas não sou muito boa.
– Não se preocupe. - Ele a tranquilizou. - Começaremos do básico.
– Shaka, você acha apropriado que ela treine conosco? - Saga ainda achava que Mirela deveria aprender a correr e se esconder em vez de tentar bater de frente com Ares. - Se Ares aparecer, ela não terá chances contra ele. Mesmo treinando.
– Eu sei. - Ele voltou sua atenção ao cavaleiro de gêmeos. - Farei com que ela tenha resistência física, pelo menos para ela aguentar correr por algumas horas.
– Horas? - Perguntou assustada.
– É só modo de dizer. - Tranquilizou o sagitariano.
– Não é não - disseram Miro e Câncer em uníssono.
– Parem de assustar a pobrezinha.- Touro repousou uma mão no ombro dela.
Automaticamente, o corpo de Mirela pendeu para o lado onde ele havia colocado o seu peso. Ela olhou para ele com os dois olhos arregalados enquanto os outros começavam a rir da reação dela.
– Você terá bastante trabalho, Shaka. - Foi a vez de Shura palpitar.
– Ela precisa ganhar um pouco de massa muscular. É muito magra. - Camus avaliou.
– Eu estou aqui. - Mirela resolveu se pronunciar. Não gostava de ser avaliada daquela forma por eles. - Não precisam falar como se eu fosse algum tipo de experimento.
– Ela tem razão. - Repreendeu Mu.
– Quem tem razão, meus queridos?
Mirela olhou para o dono da voz. Seu corpo tremeu assim que o viu. Aquela dor que sentia em seu coração desde o dia em que descobriu que estava no santuário apertou em seu peito de tal forma que a fez cambalear. Levou a mão ao coração, apertando com força a sua roupa e pele, como se tal ato aliviasse a sua dor.
Ela não sabia se sentia alívio em vê-lo ou se ficava devastada com o fato de saber que ele teria o mesmo destino que ela. Ela não perdoaria Athena, nunca a perdoaria por tê-lo trazido àquele mundo. Mirela afastou alguém que estava ao seu lado e correu na direção dele. Correu como se não houvesse um amanhã. Seu corpo se chocou contra o dele e seus braços se entrelaçaram em seu corpo em segundos. Ela chorava enquanto o apertava contra o seu corpo. Podia ouvir o som dos soluços que dava sendo arrastados por toda arena.
Afrodite não estava entendendo nada. Aquela mulher lhe abraçava tão forte e chorava com tanto afinco que a dor era palpável. Ele sentiu tristeza por ela. Seus braços a abraçaram involuntariamente. Mesmo não a conhecendo, ele sentia a sua dor. Lembrou-se de todas as vezes em que teve que se afastar da pessoa que amava para ir em alguma missão sem saber se voltaria a vê-la de novo.
Ele ousou olhar para o homem a quem tanto amava em meio a dor que irradiava daquela garota desconhecida. Máscara da Morte olhava para ele com uma fagulha de ciúmes nos olhos. Afrodite apenas ergueu a mão para que ele se acalmasse e não pensasse besteiras. Assim que a garota se acalmou o suficiente para olhar em seus olhos, ele constatou que aquele sentimento todo que ela acabara de colocar para fora era para outra pessoa.
– Martin? - Ela sussurrou o nome do irmão entre um soluço e outro.
– Não, meu amor. Afrodite. - Ele disse com delicadeza.
Um sorriso tímido brotou nos lábios dela antes que seu corpo frágil e pequeno ficasse mole em seus braços.
