"Such a lonely day
And it's mine
The most loneliest day of my life

Such a lonely day
Should be banned
It's a day that I can't stand

The most loneliest day of my life
The most loneliest day of my life"

Lonely Day – System of a Down.


Capítulo 10 – Escolha.

Mirela acordou com o som de vozes.

Estava deitada em uma superfície macia e quente. Levantou devagar tentando se lembrar do que tinha acontecido com ela. Seus olhos estavam úmidos e podia sentir uma tristeza profunda se instalar em seu coração. Olhou para os donos das vozes e percebeu doze pares de belos olhos lhe encarando. Não lembrava de Shion na arena com eles. O grande Mestre foi o primeiro a se aproximar dela.

– Como você está? - Aproximou-se ajoelhando para olhá-la nos olhos.

Mirela reparou que estava deitada em cima de alguns casacos. Obviamente, eram dos cavaleiros de ouro. Eles haviam improvisado uma cama para ela. Ficou feliz por isso. A mão quente e calejada de Shion repousou em seu ombro, dando-lhe um certo conforto.

– Com dor de cabeça. - Admitiu. - E constrangida pelo que aconteceu anteriormente.

– Quem é Martin? - Afrodite se juntou ao mestre.

Mirela voltou a encarar aquele rosto tão familiar e, ao mesmo tempo, tão estranho. Martin não tinha aquela pinta embaixo do olho esquerdo. Aquela característica era do cavaleiro de peixes. Os cabelos do seu irmão, apesar de terem a mesma tonalidade loira que a do cavaleiro, não eram grandes. Mirela agora podia analisar melhor.

Ela levantou a mão na direção do rosto dele. Um ato involuntário.

– Meu irmão.

Saga, por mais que soubesse quem era Martin, não pode deixar de sentir um certo incômodo quando ela abraçou e tocou o rosto de Afrodite daquela forma.

– Então seu irmão deve ser muito bonito. - Afrodite falou querendo dissipar a tristeza dos olhos dela.

– Sim. - Ela se permitiu esboçar um pequeno sorriso. - Shaka. - Mirela procurou o cavaleiro de virgem. Ele estava de braços cruzados e, pela primeira vez, seus olhos estavam abertos. - Podemos começar o treino amanhã?

Mirela queria muito estudar o semblante do cavaleiro de virgem, mas, naquele momento, ela só queria ficar sozinha.

– Claro. – Ele respondeu de forma serena.

– Obrigada. - Levantou-se com a ajuda de Shion. - Será que o senhor pode me levar de volta ao santuário?

– Como você quiser, mas não me chame de senhor, pois me sinto um velho. - Ele colocou a mão nas costas dela, guiando-a até a saída.

Aioros tentou se aproximar, mas Shion o impediu com um gesto de mão. Então ele apenas observou ela partir junto do grande mestre, deixando um vazio para trás.

– Gostei dela. - Afrodite falou se aproximando de Câncer. - Sentiu minha falta? - Beijou o rosto do canceriano.

– Como foi a missão? - Perguntou Camus, ignorando a demonstração de afeto dos dois.

– Estranha. - Confessou. - Eu fui até os domínios de Poseidon, porque era de lá que eu sentia uma perturbação, mas quando cheguei lá, não tinha nada.

– E você se encontrou com os marinas de Poseidon? - Quis saber Shaka.

– Sim. - Afrodite tinha a expressão séria. - Sorento.

– O que aquele verme queria? - Saga perguntou.

– Ele também sentiu uma perturbação. - Afrodite passava os dedos distraidamente nos cabelos escuros de câncer. - Conversamos brevemente, mas, pelo que entendi, Poseidon também está preocupado com alguma coisa.

– Poseidon, assim como a deusa Athena, ainda não reencarnou. - Aioros parecia preocupado. - Será que ele e a deusa Athena estão preocupados com a mesma coisa? Não tem outra explicação. Por que os dois estariam preocupados com os seus domínios se ainda não assumiram sua forma humana?

Saga pensou nas palavras de peixes e sagitário. Se Poseidon estivesse preocupado com alguma coisa também, talvez o que Mirela disse a respeito de Ares fosse verdade. Talvez as intuições dela, de que os problemas deles iam muito além dele e do irmão, eram verdade.

– Mirela me confidenciou estar preocupada com o que Ares pode estar planejando. - Revelou o geminiano.

– Ela disse isso? - Aioros estava preocupado e se sentindo um pouco incomodado por ela ter falado aquilo para gêmeos e não para ele.

– Sim.

– Será que alguém pode me explicar quem é essa garota? - Pediu peixes.

– Ela veio de um outro mundo. - Câncer encarou o loiro. - Athena a trouxe para o Santuário com uma missão.

Máscara da Morte mantinha um braço envolto da cintura de Afrodite.

– Que missão?

– Ela não disse. - Aioria tinha voltado a treinar. - Ela só disse que Ares não pode saber que ela está aqui para mudar algumas coisas que acontecerão.

– Mudar? - Peixes estava confuso. - Ela por acaso é algum espírito de Delfos?

– Não. - Shaka já tinha tornado a fechar os olhos. - Ela disse que, no mundo dela, nós somos ficção. - A última palavra saiu de forma estranha.

– Fic.. O quê?

– Que a gente não passa de uma estória. - Esclareceu Camus.

– Isso quer dizer que a gente perde a guerra Santa? - Afrodite perguntou, triste.

– Não. - Máscara da Morte o tranquilizou. - Ela disse que a gente ganha, que o objetivo dela era mudar alguns detalhes. Somente.

Aioros não parava de pensar na possibilidade de alguém morrer. Quando ele estava com ela em escorpião, isso tinha ficado bem claro. Alguém ia morrer e o objetivo dela era este: impedir a morte de algum deles.

– Devo admitir a vocês que quando estava com ela na casa de Escorpião. - Aioros não queria guardar nenhuma informação dos amigos. - Ela estava muito triste e abalada com a possibilidade de um de nós morrer.

– Ela disse isso? - Shura olhou para os amigos. Ele não queria perder ninguém, por mais que a morte fosse algo inevitável.

– Ela não disse com essas palavras, mas quando eu perguntei se alguém ia morrer, ela recuou. Disse que não, mas eu sabia que ela estava mentindo.

– Ela falou quem? - Perguntou Miro.

– Não.

Saga não sabia para onde olhar. Será que ele seria responsável por alguma morte? Ou será que o irmão faria alguma besteira como no passado? Ele não aceitaria levar a culpa mais uma vez por algo que ele não fez. Há alguns anos, Kanon se passou por Saga e acabou complicando a vida de alguns aspirantes. Kanon havia mandando eles em uma missão suicida, só por diversão, e ninguém voltou.

Quando o grande mestre ficou sabendo, muitas testemunhas afirmaram que a última pessoa que esteve com os aspirantes tinha sido Saga. Antes que o grande mestre pudesse fazer qualquer interpretação a respeito do ocorrido, foi Aioros quem manteve a integridade do caráter de Saga. Ele foi o primeiro a intervir por ele. Mesmo Shion não o culpando por falta de provas, a partir desse momento, todos os olhavam de forma diferente e agiam com cautela com ele.

– Precisamos conversar com ela e tentar nos planejar da melhor maneira possível. - Saga disse, decidido.

– Você acha que ela nos revelaria mais alguma coisa do futuro? - Aldebaran perguntou pela primeira vez. Ele não era muito de opinar e sim de realizar tarefas.

– Talvez não tudo, mas ela pode deixar escapar algumas coisas. - Declarou Miro.

– Eu não acho que seja o momento para esse tipo de investida. - Mu não entendia muito de mulheres, mas ele sabia quando elas queriam ficar sozinhas.

Shina e Marin eram o exemplo disso. As amazonas sempre deixavam claro em suas ações quando queriam ficar só.

– O que você quer dizer? - Aioria não entendia o que o cavaleiro de Áries queria dizer.

– Leão, você é muito egocêntrico às vezes. Foca tanto no seu mundinho que não consegue observar o que está a sua volta. - Declarou peixes.

Aioria revirou os olhos para o amigo e tornou a treinar. Ele não conseguia entender as mulheres, nem mesmo Marin. Uma hora ela estava bem, em outra, estava mal. Tinha horas que queria a presença dele e em outras não queria olhar na cara dele.

– É por isso que Marin vive brigando com ele. - Miro disse rindo. - Ele não sabe lidar com as mulheres.

– Mu está certo. - Shaka não aguentava mais essa conversa. - Mirela precisa de um tempo sozinha. Ela deu muitas evidências de que está abalada e com saudades de sua família mundana.

– Talvez se Aioros for falar com ela. - Shura sabia que o sagitariano era o mais próximo dela.

– Eu posso falar com ela também. - Saga disse, determinado.

– Não sabia que você gostava de fazer esse tipo de coisa. - Câncer disse, surpreso.

– Talvez Saga esteja se apaixonando. - Afrodite disse, divertido.

– Eu? - Ele não conseguia pensar em nada para mudar aquela situação.

– Você está apaixonado por ela? - Aioros perguntou sem desviar o olhar do dele.

Os dois ficaram se encarando por alguns segundos. O clima ficou pesado e era notável entre os cavaleiros que alguma coisa estava acontecendo entre Aioros, Mirela e Saga.

– Isso não importa. - Shaka não queria que esse tipo de situação afastasse ou até mesmo prejudicasse a amizade e o respeito deles. - Vocês dois não devem se apaixonar por alguém que não pertence a esse mundo.

– Shaka tem razão. - Camus se intrometeu. - Eu gostaria que vocês se apaixonassem por alguém desse mundo, afinal, Mirela voltará para o dela assim que as coisas se resolverem.

– Eu não estou apaixonado por ela. - Saga finalmente encontrou a própria voz. - Eu só a respeito. - Aquilo era verdade. Entretanto, nem ele mesmo sabia o que sentia por ela além do respeito.

– Mas eu estou - declarou sagitário. - Eu sei que ela não pertence a esse mundo, mas no final a escolha vai ser dela.

– Você acha mesmo que ela largaria a família dela para ficar aqui no Santuário? - Aldebaran fez a pergunta que gritava na cabeça de Gêmeos. - Por que parece que a escolha dela já havia sido tomada antes mesmo de ela descobrir sobre tudo isso. - Ele falou abrindo os braços. - E isso ficou muito claro quando ela viu Afrodite.

– Eu sei que ela sente falta da família, eu sei disso, eu tenho um irmão. - Aioros entendia a situação em que Mirela se encontrava. - Mas eu também sei que ela pode mudar de opinião, que ela pode querer ficar, porque ela mesma pode perceber que esse mundo também é a casa dela.

– Eu estou adorando isso. - Afrodite apertou mais ainda câncer contra o seu corpo. - Eu também não saberia viver sem o meu amor. - Declarou beijando a testa do cavaleiro, que lhe retribuiu com um revirar de olhos.

– Isso não é brincadeira, Peixes.- Mu não gostava desse tipo de situação. Ele não queria que os amigos sofressem. Por que estava na cara de Saga que ele também gostava da garota. - Acho que a melhor solução, no final, vai ser ela ir embora.

– Isso supondo que tudo dê certo no final. - Ponderou Shura.

– Você acha que a gente pode perder? - Aioros estava ultrajado com aquela suposição do amigo.

– Não me refiro a isso. - Esclareceu o capricorniano. - Estou querendo dizer que nós estamos fadados a conviver com a morte. Sabemos que isso pode acontecer e aceitamos essa condição, mas e a garota?

– Mirela não vai morrer. - Saga estava irritado com o caminhar daquela conversa. - Eu não vou deixar.

– Nem eu. - falou Aioros.

Os dois se olharam mais uma vez.

– Eu entendo que vocês estejam preocupados com a garota. - Camus queria encerrar aquele assunto. - O que o Shura quer dizer que nós não estaremos com ela vinte e quatro horas por dia, e que participar de uma guerra santa, ou qualquer outro tipo de guerra, há consequências. - Ele encarou os amigos. - Vocês acham mesmo que ela vai conseguir passar por tudo isso sem nem mesmo um arranhão?

– É por isso que eu vou treiná-la. - Concluiu Shaka.

Aioros e Saga até tentaram rebater, mas Shaka os cortou apenas com um meneio de mãos. Os dois fecharam a cara para o cavaleiro de virgem, que usou de toda a sua autoridade como o cavaleiro mais próximo de Deus para mandar os amigos voltarem ao seu treino.

Aos poucos, as coisas foram voltando ao normal. Saga se juntou a Aioros para treinar. Por mais que os dois estivessem apaixonados pela mesma mulher, Saga compreendia que o único que podia entender os seus sentimentos era o Sagitariano e vice e versa. Aldebaran começou a lutar contra Mu e a fazê-lo controlar a sua telecinese, Shura estava no levantamento de peso junto com Camus; Aioria treinava com o mudjong de parede. Miro fazia flexões junto de Máscara da Morte e Afrodite apenas observava junto de Shaka.

– O que você acha dessa disputa pela garota? - Afrodite só queria puxar assunto.

– Não acho certo. - Declarou o virginiano.

– Por quê?

– Porque ela vai voltar para a sua antiga vida.

– Você acha mesmo que ela não se apegou nem um pouco a esse mundo?

– Não é o que eu acho ou deixo de achar, Afrodite. - Shaka suspirou. Estava cansado. - Você tem que fazer essa pergunta para a deusa Athena.

– Se Athena a trouxe para esse mundo, talvez não se importe que ela fique.

– Você acredita mesmo que a deusa vai permitir que uma mundana fique em nosso mundo por mais tempo do que o necessário? Ainda mais ela tendo o conhecimento sobre o futuro?

Afrodite permaneceu em silêncio.

– Foi o que eu imaginei.


Santuário de Athena.

Mirela deixou seu corpo cair contra as almofadas de sua confortável cama. Layla não estava em lugar nenhum e ela apreciava aquele momento a sós. Ela estava com tantas saudades de casa que nem tinha percebido que chorava só de pensar no que tinha feito mais cedo. Afrodite era tão parecido com Martin que, vê-lo ali, na sua frente, abriu as feridas de seu coração.

Sua vida tinha se transformado por completo. Ela nunca mais seria a mesma Mirela de antes. Mesmo se, por alguma sorte, ela conseguisse voltar para casa, ela nunca poderia ser a mesma, sempre faltaria um pedaço dela. Estaria incompleta. Ficar no santuário para sempre martelava em sua cabeça toda vez que ela se aproximava de Aioros e Saga. Tê-los por perto era como se um pedaço do quebra-cabeças que era sua vida se encaixasse. Mas a outra parte nunca se completaria.

Esfregou o rosto no lençol de seda, sentindo a textura do tecido. Encarou o teto cheio de arabescos, tentando controlar as batidas de seu coração. Estar no santuário era a realização de um sonho, afinal, que não gostaria de conhecer os personagens de sua estória favorita? Enquanto tudo não passava de mera ficção, ela não via problema algum, mas quando a realidade se confunde com o irreal, as coisas podem começar a dar errado.

Se ela ao menos tivesse a certeza de que sobreviveria a isso tudo... Mas, dentre todas as coisas, ela tinha total convicção de que a vida dela poderia se perder para sempre naquele mundo. Ser apagada da história. E por mais que nutrisse sentimentos pelos cavaleiros de Athena, será que ela estava preparada para enfrentar o esquecimento?

– Ficar significa carregar sempre o medo de ser morta a qualquer momento por algum deus egocêntrico. - Rolou na cama. - Também significa apreciar todos os pequenos momentos convividos com os santos de Athena.

Se Athena lhe deixar ficar naquele mundo, como sua família ficaria? Será que eles esqueceriam dela? Será que ela simplesmente sumiria? Ou ela seria dada como desaparecida? Sentiu um arrepio percorrer o seu corpo. Abraçou os joelhos e ficou em posição fetal, rolando de um lado para o outro. Se aquele tipo de pensamento a perturbava, significava que ela já estava cogitando ficar?

– Não! - Sacudiu a cabeça veementemente. - Eu vou voltar para casa! Minha família precisa de mim.