"Your faith was strong but you needed proof

You saw her bathing on the roof

Her beauty in the moonlight overthrew you

She tied you to her kitchen chair

She broke your throne and she cut your hair

And from your lips she drew the Hallelujah"

Hallelujah - Leonard Cohen


Rodório.

Um vento frio vinha do mar em direção à cidade de Rodório. Kanon estava sentado no beiral da janela, observando o conglomerado de nuvens escuras se amontoando no céu. Já fazia mais de três dias que não via o seu irmão. Queria dar um tempo para Saga colocar a cabeça no lugar e esquecer a garota – a tal Mirela.

Os moradores de Rodório estavam organizando o festival que sucedia sempre o torneio pela armadura de bronze de Pégaso. Então ele se mantinha ocupado ajudando alguns aldeões aqui e ali. Era melhor do que ficar trancado dentro de quatro paredes. Nesse meio tempo, encontrou-se com Shina apenas duas vezes, o que não lhe agradou.

Ela, em vez de lhe contar sobre a mais nova moradora do santuário, perguntava para ele se tinha alguma novidade a respeito da mulher. É claro que ele não tinha. Desde a última vez em que a viu, não se arriscou a vê-la de novo. Tinha muitas perguntas para fazer ao seu irmão, principalmente sobre o que tinha acontecido entre ele e ela.

A forma como ela falou de Saga o deixou curioso. Sabe-se lá o que ele tinha presenciado para deixá-la daquela forma, tão constrangida. Ficar trancado era igual a ser torturado. Não aguentava mais permanecer naquele buraco. "Será que ainda demoraria muito para o plano deles dar certo?" Pensou. "Ou melhor, será que ainda existia um plano?" Saga não faria aquilo com ele, não depois de tanto tempo.

Fechou as janelas da pequena casa e saiu daquele lugar claustrofóbico. Não ficaria ali sentando esperando a solução cair do céu. Estava na hora de fazer uma visita ao seu irmão e esclarecer as coisas com ele. Se Kanon não conseguisse colocar um pouco de luz na cabeça de Saga, ele teria que agir e cortaria o mal pela raiz, mesmo que isso significasse tirar a tal garota do caminho.

Enquanto Kanon ia em direção à casa de gêmeos, não muito longe dali, Ares observava o seu maior aliado seguir adiante com o seu plano. Não era difícil para ele, como deus da guerra, incitar os humanos a cometer loucuras em prol dos seus ideais. Era só induzir pensamentos, ideias a respeito do que ele queria – ainda mais se a pessoa estivesse suscetível a isso. Difícil era camuflar o seu cosmo dos cavaleiros de ouro. Ele não tinha esse costume, de andar nas sombras como os cavaleiros de Hades.

Assim que Kanon sumiu no meio do mar de pessoas, Ares voltou para o Monte Olimpo. Agora ele tinha apenas que esperar que Kanon fizesse o serviço por ele. Além de matar a garota, ele conseguiria instaurar o caos dentro do santuário com a revelação de que Saga tinha um irmão gêmeo. "Está ficando interessante. Vamos ver o que você vai fazer a respeito disso, Athena". Pensou o deus da guerra, afinal, Kanon era o seu Plano B e ele não admitiria fracasso.


Casa de Gêmeos.

Saga colocou o casaco em cima da mesa de jantar e deixou seu corpo cair de encontro com o sofá. Ele ainda sentia o gosto de Mirela em seus lábios. Era difícil tirar a imagem dela de sua cabeça. Seu corpo ainda ansiava pelo dela.

"Eu preciso de um banho".

Esfregou o rosto e os braços e só aí se tocou de que estava sem a sua blusa.

"Merda!"

Ficou entre voltar para o santuário e pegar a blusa de volta ou deixar para lá. Achou melhor tomar um banho e se acalmar primeiro. Precisava atender as necessidades de seu corpo antes de aparecer para o treino naquela tarde. Ele a veria de novo, nem que fosse de longe. Ela começaria a treinar com Shaka.

Suspirou e foi tomar banho.

A água escorria pelo seu corpo conforme suas mãos acariciavam o seu membro ereto. Não era difícil para ele se saciar, pois, em sua cabeça, as imagens do corpo de Mirela eram bastante vívidas. Algumas partes do seu corpo ardiam lembrando do toque das mãos dela.

Deixou escapar um gemido por entre os lábios quando lembrou da quentura do corpo frágil e pequeno dela contra o seu. Se não fosse por Layla, ele estaria com ela nesse momento em seus braços. Socou a parede com força ao pensar nisso.

Seus movimentos começaram lentos e ritmados. Logo ele começou a sentir uns arrepios que desciam de seu pescoço até a base de sua cintura. Com isso, aumentou a velocidade com que a sua mão saciava a necessidade de seu membro viril. Para frente e para trás, para frente e para trás. Movimentos cadenciados que lhe tiravam o folego.

O clímax chegou em uma explosão que lhe tirou o fôlego. Seus músculos, antes tensos, relaxaram. E Saga começou a sentir a exaustam da noite tomar conta de seu corpo. Desligou o chuveiro, enrolando o seu corpo em uma toalha branca felpuda.

Pegou um copo de água na cozinha, bebendo-o em apenas alguns goles. Colocou o copo dentro da pia e voltou a se deitar no sofá. Antes mesmo de pegar no sono, sentiu a presença do irmão. Kanon abriu a porta de sua casa e adentrou no recinto com cautela. Não queria arriscar ser visto por algum dos outros cavaleiros de ouro.

"Desistiu de ficar escondido?" Perguntou saga.

Kanon fechou a porta atrás de si e se jogou na poltrona ao lado do irmão.

"Estive esperando por você, mas você não apareceu. Então resolvi vir aqui".

"Perdeu o seu tempo". Disse ríspido. "Estou cansado".

"É melhor colocar a sua cabeça no lugar, pois eu vim aqui para falar sobre o nosso plano de tomar o Santuário". Kanon cruzou os braços, encarando o irmão que ainda mantinha os olhos fechados. "Ou eu terei que agir sozinho mais uma vez?"

Saga bufou, irritado. Ele só queria descansar por algumas horas antes de voltar ao trabalho. Sentou-se encarando o irmão de forma firme.

"Não se atreva". Advertiu.

"Eu sabia". Kanon jogou as mãos pra o ar. "Você está me negligenciando por causa de uma mulher".

"Não faça drama, Kanon". Saga já não aguentava mais ficar no mesmo ambiente que ele. Kanon sugava as suas energias e deixava o clima tenso e pesado. "Vou resolver as coisas de outra forma".

"Que forma, Saga?" Ele perguntou espumando de raiva. "Vai chegar em Shion e dizer: Grande Mestre, eu esqueci de mencionar, mas eu tenho um irmão gêmeo".

Saga fechou os punhos.

"E se eu fizer exatamente isso? O que você vai fazer?" O desafiou.

"Eu não posso acreditar que você esteja disposto a ficar preso por traição por causa de uma mulher!" Kanon agora estava de pé. "Ela nem é isso tudo!"

Saga sentiu o corpo ficar rígido. Agora ele também estava de pé. Estava tão próximo do irmão que podia sentir a respiração dele em seu rosto.

"Quando e quantas vezes?" A pergunta saiu seca de seus lábios.

"Isso importa?" Perguntou com desdém.

O soco acertou o queixo de Kanon, lançando-o contra a mesa de centro da sala, quebrando-a no processo. Ele ficou ali, sentado em cima dos escombros, com a mão na mandíbula machucada. Nunca pensou que o irmão agiria daquela forma com ele – ainda mais por causa de uma mulher. Secou o sangue, que escorreu em um filete pelo canto de seus lábios, com as costas da mão.

"Se você ousar chegar perto dela mais uma vez, eu te mato". Saga o advertiu.

Kanon encarou o irmão com raiva. Levantou-se sem deixar de encarar os olhos frios dele. Estalou a mandíbula, colocando-a no lugar com um leve "crack".

"Eu me enganei com você, irmão". Ele se encaminhou para a porta. "Você vai se arrepender amargamente de ter escolhido ela ao em vez do seu sangue".

A porta se fechou em um estrondo. Saga já estava começando a se acostumar com as perdas de controle dele e de Kanon. Aquilo estava começando a se tornar um hábito do qual ele não gostava. Se o seu irmão levaria essa história adiante, então ele teria que agir, mesmo que isso significasse a sua prisão e, talvez, a sua morte por traição.


Santuário.

Mirela mergulhou na banheira e ficou submersa por alguns segundos. Quando voltou para a superfície, notou os olhos arregalados de Layla a encarando. A amiga não tinha falado nada desde que a pegara com Saga em seu quarto, e Mirela apreciava a descrição dela. Ela não conseguia parar de pensar nas mãos do cavaleiro percorrendo o seu corpo.

Voltou a mergulhar na água gelada. Tinha que esquecer aquilo o mais rápido possível. "Como olharia na cara de Saga de novo? E na de Aioros? Pelos deuses!" Pensou enquanto voltava mais uma vez à superfície, puxando lufadas e mais lufadas de ar.

"O que a senhora quer vestir hoje?" Layla perguntou tentando puxar assunto.

Sentia-se mal por ter atrapalhado o momento da amiga.

"Qualquer coisa". Disse dando de ombros. "Aliás, qualquer coisa não. Eu tenho que treinar com Shaka hoje".

Mirela queria passar o dia no quarto, refletindo sobre o que tinha acontecido com ela e Saga, mas não queria ter que inventar alguma desculpa esfarrapada para dar ao cavaleiro de virgem – e ainda teria que se explicar para Shion caso passasse o dia dentro do quarto.

"Ah!" Layla começou a procurar por um par de calças que tinha desenhado em cima da legging do mundo de Mirela.

Ela achou a calça de cor preta no fundo do armário. Não era justa como a de Mirela, pois era um pouco folgada no corpo, o que lhe permitiria fazer movimentos complexos com as pernas. Mirela secou-se e colocou a calça. Layla passou uma blusa preta, bastante curta para os padrões daquele mundo, e Mirela agradeceu. Ela não queria ter que usar um blusão se ia suar bastante. Em seu mundo, aquela blusa seria chamada de cropped. Ele era justo em seu corpo, fazendo com que ela não precisasse usar um sutiã. Ao se olhar no espelho, estranhou ter muita pele à mostra. Sentiu um calafrio na espinha ao lembrar que Saga e Aioros estariam naquele treino e a veriam naqueles trajes.

"Quer que eu prenda os cabelos?"

"Sim!" Mirela ainda se olhava no espelho.

"Um rabo de cavalo ou um coque?"

"Hum…" Ela não queria usar um coque, pois o mesmo iria se desmanchar e isto também aconteceria com um rabo de cavalo. "Que tal uma trança?"

"Ótimo". Layla sorriu. "A senhora vai ficar linda!"

As mãos da mulher começaram a trabalhar em seus cabelos. Aquele trabalho era prazeroso e fácil para Layla: em menos de cinco minutos ela já havia feito um magnífico trabalho nos longos cabelos de Mirela, que se olhava sorridente no espelho.

"Obrigada". Agradeceu.

Mirela calçava os sapatos quando escutou duas leves batidas na porta. Layla encarou a amiga antes de atender.

"Meu senhor". Layla fez uma reverência.

Shion acenou e entrou no quarto quando a mulher lhe deu passagem.

"Shion". Mirela se levantou e caminhou até o grande mestre. "A que devo a sua visita?"

Ele a encarou de cima a baixo. Aquela roupa era bastante indecente, mas ele compreendia que ela estava indo treinar. Tentou evitar olhar para o corpo dela e encarar somente os seus olhos. Seria difícil para os cavaleiros de ouro o treino daquela tarde – ele tinha certeza disso, pois ela estava muito bonita naquelas roupas.

"Vim te avisar que já pegamos a outra mulher que armou contra você". Falou de forma direta.

Mirela levou a mão à garganta. Ainda sentia uma leve ardência no local.

"O que vocês vão fazer com elas?"

"Elas ficaram presas por traição até serem julgadas".

"E como funciona o julgamento?"

"De forma simples". Ele a encarou buscando algum sinal de fragilidade. "Será exposto os atos que elas cometeram na frente da população e elas serão condenadas à forca".

"O julgamento é público?" Perguntou apavorada.

"Sim".

Mirela sentiu o estômago dar um nó. As mulheres seriam mortas em público por causa dela. Por tentarem matá-la.

"Shion, eu sei que não cabe a mim, mas eu não posso deixar de me meter nesse assunto". Ela começou a esfregar as mãos, tentando aliviar a tensão. "Não existe outro caminho? Talvez mantê-las presas?"

"Eu sei que no seu mundo as coisas funcionam de outra forma, mas aqui é assim que a lei funciona. Se você mata alguém, a dívida é paga com a própria vida".

"Mas eu não morri". Mirela sentiu um pouco de esperança crescer em seu peito. "Eu estou aqui, viva".

"Mirela, você morreu". Shion disse de forma cautelosa. Não queria deixá-la aborrecida ou triste. "Se Athena não tivesse lhe dado o cordão". Ele apontou para a joia que brilhava solitária em seu pescoço. "Você teria morrido".

"Eu sei, mas eu estou aqui, não estou?" Ela começou a andar de um lado para o outro. "Então, por favor, por mim". Ela implorou. "Não me faça ter que odiar esse mundo".

Shion não podia quebrar as regras do santuário só por causa dela. Ele entendia que as coisas evoluíam, e a tecnologia estava lá para lhe lembrar a todo momento sobre isso. Contudo, as leis continuavam retrógradas e não cabia a ele muda-las – e sim à própria deusa Athena.

"Vou ver o que posso fazer, mas não vou te prometer nada".

Mirela sentiu o coração se aquecer quando ele lhe deu esperanças. Ela pulou nele, abraçando-o com força. Shion se assustou com a atitude dela, mas retribuiu o abraço com carinho.

"Obrigada". Ela disse contra o ouvido dele. "Muito obrigada".