"I wish I was like you

Easily amused

Find my nest of salt

Everything is my fault

I'll take all the blame

Aqua sea foam shame

Sunburn with freezerburn

Choking on the ashes of her enemy"

All Apologies - Nirvana.


Templo de Athena – Escritório do Grande Mestre.

Shion se encontrava em seu escritório à espera de Saga. Não demorou muito para o cavaleiro bater à porta e adentrar na sala. Saga observou o grande mestre sentado de frente para sua mesa de mogno, com vários papéis espalhados pela mesma. Ele usava óculos de armação circular, a qual lhe dava um ar mais sério.

"Chamou-me?"

"Sim. Sente-se".

O cavaleiro de gêmeos fez o que lhe foi pedido, sentando-se de frente para Shion, que ainda avaliava a papelada.

"O que houve?" Perguntou o geminiano, querendo que a conversa fosse a mais sucinta possível, pois recisava conversar com Mirela o quanto antes. Ele queria esclarecer logo a situação entre eles e se livrar do peso que sentia.

"Eu ainda não falei sobre isso com Aioros". Shion começou devagar. Ainda estava avaliando se falava aquilo primeiro para Saga – ou se chamava o sagitariano para falar de uma vez para os dois.

"Você quer falar com ele primeiro?" Gêmeos perguntou, entendendo errado o que ele havia dito.

"Não". Shion suspirou. "Eu só não sei se falo com vocês separadamente ou se falo com os dois ao mesmo tempo". Esclareceu.

"Chame-o. Eu espero".

Shion aceitou o pedido do geminiano e chamou Aioros telepaticamente. Não demorou muito para ele aparecer. Saga notou o rosto vermelho dele e aquilo o deixou nervoso.

"Desculpa a demora. Eu tive que passar em casa para pegar uma blusa".

Shion fez um gesto com a mão para que ele se sentasse ao lado de Saga. Os dois cavaleiros se encararam antes de dirigir a atenção ao grande mestre.

"Qual o problema, senhor?" Perguntou Aioros

"Eu quero ser franco com vocês dois, já que um de vocês será o futuro grande mestre do santuário". Ele cruzou os braços. "Quando Mirela chegou ao nosso mundo com o objetivo de mudar algo para a deusa Athena, um detalhe passou despercebido aos meus olhos".

Saga sentiu um calafrio percorrer sua espinha.

"O quê?" Perguntou interessado o sagitariano.

"Todos nós sabemos sobre a existência de outros mundos. Temos muitos livros relatando-os e, especificamente, como alguns deles cultuam os deuses. Entretanto, o que nós não sabíamos era que esse caminhar entre mundos não é algo que possa acontecer com um simples humano". Shion esperou ser interrompido, mas Saga e Aioros aguardavam o fim do seu raciocínio. "Mirela, mesmo com a ajuda de uma deusa, nunca poderia ter vindo para o nosso mundo".

"Como assim?" Saga perguntou, incrédulo.

Aioros estava tão confuso quanto o amigo. Como Mirela não poderia entrar no mundo deles? Ela estava ali, isso era óbvio para o sagitariano. Então, o que Shion queria dizer?

"A pergunta que eu me fiz foi: como a deusa Athena conseguiu trazê-la até o nosso mundo?" Ele se levantou e foi até uma prateleira com vários livros encadernados a ouro. "Esses livros contam as histórias dos deuses". Ele segurou um dos livros firmemente em suas mãos. "E foi aqui que eu descobri como Athena conseguiu trazê-la até o nosso mundo". Shion voltou a se sentar e abriu o livro na página que queria.

"Os deuses eram cultuados em vários mundos e, com isso, a força dos mesmos aumentava junto com a fé dos humanos. (…) Athena, Poseidon e Hades eram os únicos a obter um receptáculo humano. Poseidon e Athena possuíam um vínculo com os humanos muito maior que o próprio Zeus. Já Hades queria a destruição do mundo e, com isso, achou apropriado lutar de igual para igual contra os dois outros deuses. Sendo assim, ele também optou por ter um receptáculo". Shion virou a página à procura do que ele queria.

"No começo, os deuses eram muito poderosos e somente eles podiam andar livremente pelos mundos. Podiam, inclusive, escolher em qual mundo renascer. Eles sempre optavam por aquele onde a sua 'fé' era mais forte, com isso, os mesmos possuíam um corpo humano à sua espera em cada mundo".

"Você quer dizer que Athena, se quiser, pode reencarnar no mundo da Mirela?" Perguntou Aioros.

"Sim". Ele fechou o livro com cuidado. "Athena pode reencarnar em qualquer mundo que ela queira, desde que a fé dos humanos nos deuses seja forte".

"E como ficam os cavaleiros?" Foi a vez de Saga perguntar.

"O cosmos despertará nos humanos do mundo escolhido pelos deuses".

"Você quer dizer que, se Athena tivesse escolhido o mundo de Mirela, nós seríamos apenas humanos normais?" Saga se ajeitou na cadeira, levemente incomodado com aquilo.

"Exatamente". Shion olhou de Saga para Aioros. "Mas isso não respondeu à pergunta: Como Mirela conseguiu vir para o nosso mundo?"

Saga e Aioros pensaram naquilo por alguns minutos. A sala ficou silenciosa, podendo ser escutado apenas o som da chuva batendo contra as grandes janelas.

"Você disse…" Saga pigarreou. Sentia-se estranho em dizer aquelas palavras. "Você disse que somente os deuses podem andar pelos mundos".

"Sim. Eu disse".

"Então…" Aioros entendeu o raciocínio dos dois. "Mirela é o receptáculo da deusa em seu mundo?"

Aquilo soava estranho aos ouvidos do cavaleiro de sagitário. Como ela poderia ser o receptáculo de Athena se ela tinha vinte anos? Talvez dezenove… Não fazia sentido.

"Como? Ela deveria ser um bebê, ou melhor, nem ter nascido ainda".

"O tempo-espaço é diferente entre os mundos". Shion caminhou até as janelas e ficou observando as gotículas de chuva escorrerem pelo vidro. "O mundo dela é muito mais desenvolvido do que o nosso. A tecnologia acabou de chegar aqui". Ele avaliou a expressão no rosto dos dois. "O mundo dela deve estar uns vinte anos ou mais na frente do nosso".

"Então é por isso que ela tem o conhecimento do que vai acontecer no nosso mundo?" Perguntou Saga.

"Sim. Essa é uma teoria". Shion suspirou.

"Então vamos relembrar tudo o que nos foi dito anteriormente pelo senhor". Aioros organizou os pensamentos. "Athena pode renascer em qualquer mundo, já que a mesma possuí receptáculos em todos eles".

"Sim". Concordou Shion.

"E ela escolheu este mundo em particular, pois a fé dos humanos nos deuses é mais forte neste mundo do que nos outros". Saga completou o raciocínio de Aioros.

"Exato". Shion tornou a cruzar os braços contra o peito. "E somente os deuses podem andar livremente pelos mundos".

"O que nos leva a seguinte indagação: Como Mirela chegou ao nosso mundo?" Aioros parecia chocado com essa parte em especial.

"Ela só conseguiu porque é o receptáculo de Athena de seu mundo". Agora as coisas faziam sentido para Saga. Mirela conseguir entendê-lo tão bem... E ela confiar nele. A bondade dela. O fato de ela nunca ter desistido da alma dele. "Isso muda tudo". Aquelas palavras saíram pesadas de sua boca.

"Você acha que a deusa Athena já sabia disso?" Perguntou Aioros.

"Sim". Shion olhava um ponto fixo no horizonte chuvoso. "Acho que ela a encontrou por acaso, não sabia que Mirela era a sua outra parte daquele mundo. Acredito que a intenção de Athena não era nem trazê-la para este mundo, mas quando viu que Mirela poderia fazê-lo, não pensou duas vezes. Juntou o útil ao agradável".

"Será que Ares tem noção disso?" Saga perguntou.

"Não. Ele nem deve se lembrar disso. Essa informação eu só descobri nos livros". Shion parecia ter envelhecido dez anos em apenas um dia. "Às vezes, eu acho que nem a própria deusa sabe disso".

"Mas você disse…" Começou Aioros.

"Eu sei. É no que eu quero acreditar também".

"Mas por quê diz isso?" Saga agora estava de pé. "Tem alguma coisa lhe incomodando?"

"Sim". Shion tirou os óculos do rosto e os guardou no bolso. "Se algo acontecer com Mirela neste mundo, a parte da deusa do mundo dela morrerá. A minha preocupação é no que isso acarretará para os mundos e para a própria deusa Athena".

O silêncio que se perdurou entre os três foi ensurdecedor. Aioros não queria ver Mirela de outra forma, mas o seu cérebro gritava com ele lhe dizendo que ela era a própria deusa Athena, por mais que a divindade não estivesse em seu corpo. Será que era por isso que ele sentia aquele carinho por ela? Aquela sensação de querer protegê-la de tudo e todos? Será que o amor que ele sentia por ela era o mesmo que ele, como cavaleiro de Athena, sentia pela deusa? Talvez, no fundo do seu inconsciente, ele já sabia da resposta. Ele sempre soube que ela era especial desde o primeiro dia em que a vira, em Rodório.

"Era isso que eu queria que vocês dois soubessem". Shion resolveu dar um basta naquele silêncio incomodo. "Não sei quais são os objetivos da deusa Athena ao trazer Mirela a este mundo, mas confio nela".

"Contaremos para ela?" Perguntou Saga.

"Primeiro, eu quero realmente ter certeza de que o que eu li está certo".

"Você acha que pode estar enganado?" Aioros perguntou confuso. Ele já não sabia mais no que pensar.

"Eu quero comprovar com os meus próprios olhos. Se ela for mesmo o receptáculo da deusa em seu mundo, ela deve ter o cosmo da mesma adormecido dentro dela".

"Talvez por isso ela não morreu envenenada". Aioros especulou.

"Não. Aquilo foi obra da própria deusa Athena. Não foi do fragmento do cosmo da deusa dentro de Mirela. Se fosse, Athena não precisaria ter vindo até o mundo mortal".

"Como pretende descobrir se a teoria é verdadeira?" Perguntou o geminiano.

"Ainda não pensei em nada, mas espero que, até o final do dia, eu já tenha algo em mente".

"Senhor, e o torneio?" Aioros precisava mudar de assunto.

"Já está tudo pronto em Rodório. A Arena deve começar a ser preparada amanhã". Shion agradeceu pela mudança repentina de assunto. "Vamos manter isso só entre nós até eu resolver o que fazer com essa situação".

"Sim, senhor". Responderam em uníssono.


Quarto Mirela.

"Como foi o treinamento?" Perguntou Layla quando a jovem se jogou na cama.

"Cansativo".

Layla achou estranha a forma como a garota estava se comportando. Parecia que havia algo além do treino em sua mente. Será que ela tinha conversado com Saga?

"A senhora está bem?"

Mirela se remexeu na cama, inquieta. Olhou para o teto do quarto sem saber realmente o que responder para a mulher. Ela estava bem, pelo menos achava que estava. Sua cabeça não parava de pensar em Aioros e Saga. Estava dominada pelos dois e não sabia o que fazer. Tinha ido para o santuário para mudar as coisas, mas estava mesmo era se envolvendo em um triângulo amoroso bastante perigoso.

Sentou-se rapidamente, observando Layla encher a banheira. Estava na hora de deixar Aioros e Saga de lado um pouco e começar a pensar em Kanon. Ela precisava conversar com ele. Tentar entendê-lo melhor. Só havia visto ele de relance em Rodório uma única vez, e ela tinha que mudar isso. Ele ainda podia ser uma influência ruim para Saga e, de acordo com a história, ele seria capaz de influenciar o próprio deus do mar. Por mais que Athena não tivesse lhe pedido isso, ela tinha que tentar fazer com que a "Saga de Poseidon" não acontecesse.

"Se é para fazer as coisas, vamos ter que fazer direito". Objetou ela.

"O que a senhora disse?"

"Nada". Mirela foi até a banheira e tocou a água. "O que você colocou aqui desta vez?"

"Camomila". Layla deu de ombros. "A senhora anda muito estressada".

"Obrigada".

"A senhora vai jantar no quarto ou com o mestre Shion?" Perguntou Layla.

"Acho que eu devo ir jantar com ele". Mirela começou a tirar a roupa suja de suor. "Já tem um tempo que eu não faço as refeições com ele".

"É verdade". Layla pegou as roupas dela do chão e as colocou dentro de uma pequena cesta com roupas sujas. "Na última a senhora quase morreu".

"Nem me lembre". Mirela entrou na banheira e tentou relaxar.

"Eu vou avisá-lo, então, da sua presença".

Layla jogou alguns sais de banho na água antes de pegar a cesta no chão.

"Quando voltar, eu lavo os seus cabelos".

"Obrigada, Layla".

Mirela escutou o som da porta se abrir e, em seguida, um leve "click" indicando que a mesma havia se fechado. Gostava da presença de Layla, contudo, nunca desejou tanto ficar sozinha por alguns minutos. Aproveitaria aquele momento para colocar a mente no lugar e tentar dar um rumo à sua vida amorosa.

"Merda!" Ela se debateu, espirrando água para tudo que é lado. "Resolver os problemas do santuário!" Disse. "Nada de vida amorosa e sim resolver os problemas do santuário".

Fechou os olhos e, como se aquela frase fosse seu mantra particular, ficou pensando nela enquanto tentava relaxar. De vez em quando, deixava escapar por entre seus lábios abertos, tentando firmar ainda mais o pensamento.

"Resolver… Preciso resolver…" Deixou seu corpo afundar um pouco mais na água. "Tenho que resolver…"


Corredores.

Kanon sabia que era arriscado ficar andando pelos corredores do Santuário, mas ele tinha um dever a cumprir. Precisava colocar o irmão no lugar dele e, se para isso ele tivesse que dar um jeito na garota, então ele o faria.

Kanon sabia que o seu irmão estava trancado com o grande Mestre no escritório, junto de Aioros. Então, se esbarrassem com ele, todos achariam que era Saga. Ele tinha certeza de que aquela reunião era particular. Sendo assim, poucos saberiam que os três estavam juntos.

Passou pelos funcionários que lhe acenaram brevemente conforme ele adentrava mais e mais no templo de Athena. Até bater à porta, ele não teria certeza se Mirela estaria sozinha ou se estaria com a sua serva. Porém, quando virou no corredor do quarto da menina, ele viu a mulher vindo em sua direção.

"Senhor". Layla fez uma reverência. "O senhor veio ver a senhora? Ela está no banho".

"Ah!"Kanon não sabia o que fazer.

"Posso avisá-la da sua presença".

"Não. Eu volto outra hora". Disfarçou.

"Tudo bem então".

Layla achou aquilo estranho, mas seguiu o seu caminho. Antes de virar o corredor, ela olhou para ele, ali parado como se não soubesse o que fazer em seguida. Deu de ombros e seguiu rumo ao escritório de Shion. Ela avisaria ao mesmo que Mirela jantaria com ele e, depois, passaria na lavanderia para deixar as roupas sujas da garota.

Kanon viu a mulher virar no fim do corredor e seguiu para o quarto de Mirela. Talvez tivesse apenas alguns minutos sozinho com ela, mas seria o suficiente para dar fim à sua vida. Abriu a porta com cuidado, para que a mesma não fizesse barulho algum. Não teve tanto sucesso ao fechá-la, pois a mesma produziu um leve "click".

"Resolver…" Murmurou cochilando.

Kanon se aproximou da mulher. Ela estava com os braços apoiados na lateral da banheira e o seu corpo era coberto por uma camada de espuma que já estava se dissipando na água. Ela falava coisas incoerentes sobre resolver alguma coisa no santuário. Depois, sussurrava as palavras "triângulo amoroso", o que fez Kanon franzir o cenho. "Do que essa mulher está falando?" Pensou enquanto ela falava mais alguma coisa, porém, ele não conseguiu entender.

O braço esquerdo de Mirela escorregou para dentro da água, despertando-a de seu cochilo e assustando Kanon no processo. Seus olhos se encontraram por alguns segundos, e ele soube que ela o tinha reconhecido.

"Kanon". Mirela falou confirmando o que ele já tinha certeza.

Antes que ela pudesse falar alguma coisa, ele se jogou sobre ela, afundando-o na água.