"What do you want?
'Cause you've been keeping me awake
Are you here to distract me so I make a big mistake?
Or are you someone out there who's a little bit like me?
Who knows deep down I'm not where I'm meant to be?"

Frozen – Into to the Unknown.


Cabo Súnion.

Os olhos de Kanon começaram a se adaptar à luz que irradiava do corpo de Mirela. Assim que seus pés tocaram o chão rochoso próximo a caverna, ele soube que estava à salvo. Ela se afastou dele se dirigindo até a margem do penhasco. As ondas quebravam e espalhavam espuma e areia em todas as direções, mas aquilo não parecia incomodá-la.

"Por quê?" tornou a perguntar. "Eu tentei te matar".

Seus olhos eram repletos de amor quando pousaram sobre ele. Kanon recuou alguns passos, incomodado com aquele sentimento. Não sabia o que era ser amado por outra pessoa que não fosse o seu irmão. Não sabia nem se o que o irmão sentia por ele era amor. Talvez fosse medo, ou só se sentia responsável pelo mais novo.

"Eu preciso de um motivo para amar você?"

A voz dela não era a mesma da qual se lembrava. Pensando bem, ela não poderia ser a mesma pessoa que ele tentou matar. Ele sentia um cosmo quente e cheio de amor emanando dela. Podia jurar que a cor dos olhos dela era castanha, mas agora era de um dourado puro e brilhavam como chamas.

"Quem é você?" Sua voz titubeou.

"Ainda não conseguiu descobrir?" Mirela olhava para imensidão azul sendo iluminada pela lua por detrás das nuvens carregadas. Um raio cortou o céu, iluminando-o por frações de segundos.

"Athena…" a deusa a qual ele tanto quis matar estava parada de costas para ele, como se o mesmo não representasse perigo algum. "Não sente medo de mim?"

"Não". Athena esfregou os braços. Há muito não sentia frio. Estar no corpo de uma mortal lhe trazia sensações há muito esquecidas. "Por que eu sentiria medo de um cavaleiro meu?"

"Cavaleiro?" Kanon estava confuso. "Eu não sou nada seu…" Sua voz saiu cheia de tristeza. Ele não entendia o porquê de sentir-se triste ao constatar aquilo. Será que ele queria ser como o irmão? Usar a armadura de ouro e ter por quem lutar?

"Você não precisa ter uma armadura de ouro para lutar por mim". Ela virou o rosto o suficiente para vê-lo por cima do ombro. "Você sempre teve o meu reconhecimento, Kanon".

"Então por que eu tive que viver me escondendo?" Não queria ser rude com ela, mas não podia evitar que a frustração ficasse evidente em sua voz. "Por quê?"

"Porque eu fui fraca". Athena ignorou as ondas que açoitavam as pedras e virou para encará-lo. Lágrimas douradas escorriam pelo rosto pálido dela, contra a luz do luar. "Porque eu não imaginava que me manter afastada fosse causar tanta dor a vocês". Ela tornou a abraçar o próprio corpo. Estava bastante frio para um mortal. "Quando descobri o que a minha omissão poderia causar a vocês, saí da inércia na qual me mantinha e lutei com todas as minhas forças por cada um de vocês".

"Lutou?" Cerrou os punhos com raiva. "Eu vivi à sombra do meu irmão!"

"Eu sinto muito por isso". Ela diminuiu a distância entre os dois. "Eu sei que a culpa é minha, mas eu estou aqui para mudar isso. Para fazer com que você me odeie menos".

"Odiar?" Kanon perguntou, confuso. Ele a odiava? Levou as mãos à cabeça. Ele odiava a deusa Athena? Sim, odiava. Sentiu tanta raiva dela por tanto tempo que não conseguia sentir mais nada a não ser ódio. Mas agora, diante dela, vendo a dor em seus olhos e sentindo o amor em seu cosmo, ele duvidou daquele sentimento obscuro em seu coração. Será que era possível odiar alguém como ela?

Estava tão perdido em seus sentimentos confusos que não notou que a deusa estava tão perto dele. Somente percebeu ao sentir os braços dela em volta de seu corpo. Ela era bem pequena. Sua cabeça batia na altura de seu peito e seus braços, apesar de pequenos em comparação aos dele, eram fortes. Kanon se permitiu repousar a cabeça no topo da dela e sentir a fragrância de lavanda de seus cabelos.

Ali, em seus braços, ele não tinha dúvidas em relação à bondade dela e do que ela representava para o santuário. Por que demorou tanto para ele ver aquilo? Se permitiu afundar tanto na escuridão que esqueceu o verdadeiro motivo de querer que as pessoas tivessem conhecimento ao seu respeito – reconhecimento. Ele queria ser reconhecido, deixar de ser uma sombra presa ao irmão.

"Athena".

Kanon ergueu a cabeça para a voz que vinha da direção do mar. Um homem em uma túnica branca, bordada a ouro, e de longos cabelos loiros estava suspenso no ar com ajuda da água do mar. Metade de seu corpo era humano a outra estava fundida com as águas turvas e agitadas.

"Poseidon". Athena se libertou dos braços quentes de Kanon e sorriu para a imagem do deus do mar. "Obrigada por atender ao meu chamado".

"Você me libertou". Ele segurava firme o seu tridente. "Depois do que me contou no Monte Olimpo sobre Ares, eu não poderia negar-lhe esse pedido". As ondas do mar o direcionaram até as pedras da encosta. Ele caminhou até a deusa e o homem que parecia preocupado por vê-lo.

Poseidon não pode deixar de sorrir ao notar que o homem a colocou para trás de seu corpo, a fim de protegê-la. Os humanos eram engraçados… Em uma hora estavam repletos de ódio, noutra eles queriam defender aquilo que um dia tentaram matar.

"Vejo que ele é a minha tarefa". Objetou o deus do mar.

"Sua tarefa?" Kanon olhou do deus para Athena.

"Sim". Athena colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. "Pedi para Poseidon te fazer um Marina". A Deusa segurou a mão dele. "Não entenda errado".

"Quer que eu me torne um cavaleiro de Poseidon?" Não pôde deixar de ficar triste ao perguntar.

"Você será muito mais do que isso". Ela o tranquilizou. "Você será o elo entro o mar e a terra".

Kanon pensou naquilo por alguns segundos. Ele confiava em Athena. Ela era diferente do que ele imaginava e o tinha tirado daquela caverna. Ela salvara a sua vida.

"Como a senhora quiser". Ele se ajoelhou perante ela em sinal de respeito.

Athena colocou a mão na cabeça dele com carinho. Olhou para Poseidon e não pôde deixar de transmitir seriedade e preocupação.

"Estou confiando ele a você, Poseidon. Não me faça duvidar de sua palavra e nem me arrepender de tê-lo libertado".

"Nossas desavenças estão no passado. Serei eternamente grato à sua misericórdia, sobrinha".

A deusa da sabedoria depositou um beijo casto na testa de Kanon e lhe acariciou a face com ternura. Ares tinha feito o seu movimento primeiro ao mandar Ker interferir no destino de seus cavaleiros. Athena tinha que reconhecer que o deus da guerra era corajoso por desafiá-la, mas ela era a deusa da sabedoria e, assim como ele, também tinha seus truques para modificar o destino.


Santuário.

Mirela acordou molhada e com frio. Seu corpo tremia sem parar e ela não entendia como tinha parado no meio do quarto, ajoelhada no chão frio de mármore. Ela podia jurar que estava brigando com os pensamentos antes de adormecer e ser puxada para escuridão de uma noite sem sonhos, mas ela estava enganada. Tinha uma vaga lembrança do que havia acontecido com ela. Lembrava de Kanon se afogando dentro da caverna e de Poseidon sendo trazido pelas águas turvas do mar.

Um trovão ecoou pelo cômodo escuro lhe tirando do estado catatônico. Esfregou os braços tentando apaziguar o frio que lhe assolava. Ao mesmo tempo, tentava não pensar em Kanon se afogando. Será que seu sonho era real? Será que ele havia conseguido sair de lá? Precisava checar com os próprios olhos. Tinha que ir até o Cabo Sunion e ver.

Pegou seu casaco vermelho e colocou por cima da roupa molhada mesmo. Ela não sabia como chegaria no lugar onde Kanon estava preso, mas tinha que tentar. Passou pelos guardas na entrada do santuário, que lhe olharam com desconfiança. Ela teve sorte de Aioros não estar na porta de seu quarto naquela noite – e teve mais sorte ainda pelos guardas não lhe fazerem perguntas sobre o que ela fazia acordada àquela hora ou para onde ela estava indo.

Ela sabia que o Cabo Sunion era próximo ao mar, então, ela teria que ir para Rodório. Lembrou de Saga falando que os cavaleiros tinham bicicletas para se locomoverem pelo santuário. Só por se lembrar dele, sentiu o seu coração apertar contra o peito. Desceu apressada as escadas das doze casas até chegar em Peixes. Será que Afrodite sentiria a sua presença? Será que ele estava acordado?

De todos os cavaleiros, ele seria o único a lhe ajudar caso se encontrasse com ela. Pelo menos era o que ela achava. Será que ele estava em Peixes ou em Câncer? Ficou na dúvida, mas não podia se demorar ali. Entrou na casa do mesmo e sentiu o cheiro de rosas lhe invadir as narinas. Tudo estava do mesmo jeito do qual se lembrava. Um lindo trono cheio de rosas vermelhas ao fundo, assim como as paredes que exalavam um perfume intenso de rosas, deixando o nariz de Mirela coçando.

Ela passou pelo trono correndo, sem se importar com o som de seus passos ecoando pelo lugar. Não seria isso que a deduraria para Afrodite. Ela sabia que o mesmo poderia sentir a presença dela de longe. Chegou no caminho que dava para a casa dele e não se admirou ao vê-lo com os braços cruzados contra o peito, a lhe encarar.

"Estava te esperando". Ele lhe dirigiu um olhar azedo, como se a culpasse por tudo o que tinha acontecido com o cavaleiro de gêmeos.

Mirela se aproximou dele com certo receio. Não por medo do que ele faria, mas sim por não querer ver o desapontamento em seus belos olhos azuis. Ela não suportaria ser julgada por ele também. Não pelo homem que lembrava tanto o seu irmão.

"Afrodite, eu sei que me culpa. Mas por favor... Eu preciso que você me leve até o Cabo Sunion". Ela praticamente implorou para ele.

"Bem que você disse que ela apareceria". Máscara da Morte saiu de trás de uma das grandes pilastras de mármore da casa de Peixes. Mirela não se surpreendeu por ele estar ali. Só ficou surpresa por ela ter passado por ele lá dentro e não o ter notado. Ela revirou os olhos ao perceber que, mesmo que ela quisesse, não notaria a presença dele. Ele era um cavaleiro de ouro, portanto, sabia muito bem ocultar a sua presença.

"Câncer…" Agora ela estava ferrada. Com Afrodite ela podia tentar, mas com Máscara da Morte o jogo estava perdido.

"Não acho apropriado você ficar andando pelo santuário a essa hora da madrugada". Ele diminuiu a distância entre eles.

"Eu sei". Mirela suspirou. "Eu só pensei que…" Deixou as palavras morrerem em seus lábios. Quem ela queria enganar? Eles nunca a ajudariam.

"Eu vou te levar até lá". Afrodite se aproximou dos dois.

"Está louco, Peixes?" Câncer o chamava assim quando ficava irritado com ele. Aquilo rendeu um sorriso torto nos lábios de Afrodite.

"Não se preocupe, amor". Mirela teve que desviar o olhar dos dois. Era muito amor naquelas pequenas palavras, fazendo-a recuar alguns passos. Sentiu-se como uma invasora. "Ela só ficará tranquila se puder ver com os próprios olhos. Então, antes que ela faça alguma idiotice, eu a levarei".

"Eu vou com vocês". Falou, decidido.

"Não será necessário". Afrodite passou as mãos pelos cabelos dele. Beijou-lhe a testa e os lábios, fazendo com que Mirela olhasse para os próprios pés. "Será rápido. Não quero deixar o santuário com duas casas vazias".

"Tem certeza?" Perguntou Câncer entre um beijo e outro. "Eu posso ajudar vocês".

"Eu sei, mas não será necessário. Prefiro que você fique por aqui".

"Já que insiste". Câncer beijou os lábios de Afrodite com carinho. "Vou te esperar na minha casa".

"Estarei lá o mais rápido possível".

"Obrigada". Mirela agradeceu aos dois antes de ver Câncer sumir na escuridão da casa de Peixes. "Não sei o que faria sem você, Afrodite".

"Com certeza estaria perdida".


Cabo Súnion

Não demorou muito para que eles chegassem até o local onde Kanon estava preso. Afrodite a colocou no chão rochoso e advertiu sobre o lugar. Se era perigoso andar por ali de dia, de noite então… Um trovão ecoou fazendo com que Mirela levasse as mãos aos ouvidos. Logo começaria a chover e o som das ondas do mar ficariam mais ensurdecedor.

Gotículas de água do mar açoitavam a sua pele conforme andava até o local indicado por Afrodite. O cavaleiro de peixes andava um pouco atrás dela, dando-lhe um pouco de privacidade. Ela podia sentir as batidas de seu coração se ritmando com as ondas do mar – que se quebravam furiosamente contra as rochas. Finalmente chegou próximo o suficiente para ver onde era a caverna que, naquele momento, estava submersa.

Mirela olhou da caverna para Afrodite, desesperada. Como ele poderia sobreviver àquilo? Impossível! Esperava, então, que o seu sonho fosse verdadeiro. Queria acreditar que Kanon estava livre e bem.

"Ninguém sobreviveria a isso". Afrodite colocou em palavras o que se passava na cabeça atordoada de Mirela. Ele estava certo. Ela sabia que ninguém conseguiria sobreviver àquele lugar, nem mesmo um cavaleiro de Athena. "Eu sinto muito".

"Sente mesmo?" Ela perguntou, mas se arrependeu de imediato. É claro que ele não desejava a morte de Kanon. Nem ao menos o conhecia. Ela tinha sido injusta. "Desculpa".

"Eu sei que parece que somos insensíveis, mas esse é o nosso trabalho". Afrodite agora estava ao lado dela, encarando o lugar com certa curiosidade. "Juramos proteger a deusa e, se ele estava tramando contra ela, nada mais justo do que a prisão".

"Eu compreendo vocês, mas não posso deixar de pensar nos motivos que levaram Kanon e Saga a agirem dessa forma". Ela esfregou os braços com fervor. Mesmo estando com o casaco, parecia que o mesmo não a aquecia adequadamente. Começou a sentir pequenos pingos de chuva caindo contra o seu rosto. "Tento me colocar no lugar deles a todo momento. Não sei o que faria se tivesse que viver à sombra dos meus irmãos".

Afrodite notou a tristeza em sua voz. Era como se ela já o fizesse. Ou seja, como se já estivesse à sombra de seus irmãos. Mas negava a todo instante. Ele notou o desconforto dela, que estava lutando uma batalha interna. Algo que, por mais que ele tentasse entender, não conseguiria jamais. Tirou a sua longa capa branca e colocou sobre os ombros dela.

"Está começando a chover. Acho que deveríamos voltar".

"Você tem razão". Ela tentou esboçar um sorriso fraco contra a luz do luar. "Esse dourado da sua armadura chama atenção de longe. Começo a acreditar que está começando a afetar a minha vista".

Ele sabia que a brincadeira era uma forma de ela se distrair. Estava claro em sua expressão o quanto ver aquele lugar havia mexido com ela. A chuva começou a ficar mais forte e as ondas do mar começaram a avançar por cima do rochedo. Afrodite a pegou no colo e a levou embora dali. Não queria permanecer por mais tempo naquele lugar. Estava doido para acabar com aquilo, deixa-la em segurança no santuário e voltar para os braços de Máscara da Morte, de onde nunca deveria ter saído.


Monte Olimpo.

A deusa do amor se encolheu quando mais um objeto foi jogado por Ares contra o chão. O barulho de algo se quebrando estava se tornando rotina para a deusa. O plano A havia falhado e, agora, o plano B também. Pelo que ela entendera, Poseidon havia se metido nos planos do deus da guerra, fazendo com que este ficasse mais irritado ainda.

"Era por isso que eles estavam tranquilos naquele dia". O deus jogou uma jarra de prata contra a parede. "Eles estavam rindo de mim!" Ares agora andava em círculos. Afrodite tinha certeza de que o chão ficaria marcado pois, pelo tanto que ele pisava firme, labaredas saiam de seus pés. "Pelas minhas costas! Malditos!"

"O que você vai fazer agora?" Ela ousou perguntar.

"Eu não queria ter que dar esse passo com essa humana ainda viva". Ele parou de frente para a lareira, que queimava sem parar. "Não há outro jeito. Não posso esperar mais".

"Athena já está próxima de reencarnar". Afrodite disse o que ele já sabia e o que ele mais temia.

"Sim". Ele pegou um atiçador na lateral esquerda da lareira e mexeu com o mesmo na brasa. "O outono vai se iniciar daqui a uma semana". Objetou.

"Você só poderá falar com ela no submundo". Afrodite olhou pela janela e notou os raios brincando no céu, seguidos pelo barulho de trovões. "Deméter não deixará a filha sozinha nem por um segundo. Sua oportunidade será lá".

"Eu sei".