"Skin against skin, blood and bone
You're all by yourself but you're not alone
You wanted in now you're here
Driven by hate consumed by fear"
Drowning Pool – Bodies.
Santuário.
Depois que Afrodite deixou Mirela no quarto, a jovem jogou-se contra os lençóis de seda e ficou encarando o teto. Por mais que ela tentasse dormir o sono não vinha. Olhar para a imensidão azul engolido aquele pequeno pedaço de terra a deixou apavorada. Ninguém merecia morrer daquele jeito, muito menos Kanon. Mirela rezava aos deuses para que ele estivesse bem e a salvo.
"Espero que o meu sonho tenha se tornado realidade". Choramingou baixinho contra o travesseiro.
Passou a maior parte da noite pensando em Saga, Kanon e Aioros. Sua vida estava de cabeça para baixo e quanto mais ela se envolvia nos problemas do santuário não conseguia se imaginar vivendo em outro lugar que não fosse ali. Estava começando a esquecer o rosto das pessoas que amava.
Começou a cantar músicas do seu mundo tentando ao máximo não esquecer de nada. Algumas eram fáceis de lembrar, outras nem tanto. Depois começou a comentar sobre os filmes que gostava e os clássicos da Disney que marcaram a sua vida. Aquelas coisas pareciam estar há muitos anos-luz dela. Mirela tinha certeza que não tinha passado nem três meses no santuário, tinha chegado no final de janeiro e estava no meio de março, logo o outono estaria se iniciando, mas parecia que já tinha vivido por anos naquele lugar.
"Como se este mundo sempre fosse a minha casa". Desabafou desolada. "Como vou viver depois disso?"
Mirela ficou analisando aquela pergunta até que Layla entrasse no quarto. A mulher não disse nada achando que a mesma estivesse dormindo, somente quando Mirela suspirou alto o suficiente lhe mostrando que estava acordada que Layla a cumprimentou.
"Bom dia, senhorita". A voz dela saiu arrastada e triste. Mirela podia jurar que não foi somente ela que tinha passado uma noite em claro.
"Bom dia, Layla". Mirela já não aguentava mais ficar deitada na cama. "Acho que vou dispensar o banho pela manhã, vou correr um pouco".
"Correr?"
"Sim". Mirela começou a tirar a roupa que ainda estava úmida contra o seu corpo. Alguns pontos haviam secado outros não. Ela não se importou em escolher a roupa que usaria aquele dia. Não estava no clima de ser paparicada e fazer a sua própria escolha a fazia lembrar de sua antiga vida.
Colocou a legging de seu mundo assim como sua camiseta branca. Pediu para que Layla lavasse o seu casaco vermelho, pois precisaria dele mais tarde. Não podia ficar se vestindo com as roupas daquele mundo. Cada vez que se acostumava aos costumes deles, mas ela ficava presa ali e precisava sair daquele lugar.
Suas botas não seriam uma boa escolha para correr, então usou o sapato que Layla tinha lhe oferecido. Prendeu o cabelo em um rabo de cavalo alto pegando uma maçã antes de sair. Não se importou com o olhar enviesado que recebeu da amiga por agir de forma estranha. Mirela só queria sair dali, ir para um lugar diferente e tentar colocar os pensamentos no lugar.
Passou por Aioros e Aioria no processo. Os irmãos estavam discutindo alguma coisa que ela não fez questão de ouvir. Eles trajavam a armadura de ouro e Mirela teve que se conter para não ficar admirando as mesmas, ela queria distância de tudo que envolvia os cavaleiros de ouro. Pelo menos por alguns minutos. Ela desviou da mão do sagitariano e mantendo-se firme sem parar de correr e olhar para trás uma única vez.
Os guardas não pararam ela e ela não se importou com isso. Gostava de ser tratada como uma ninguém. Isso a fazia se lembrar de seu mundo e de como sua vida era insignificante lá. Simples, porém era a sua vida e ela não tinha que escolher o que fazer para salvar a vida de ninguém em seu mundo. O peso da responsabilidade estava acabando com ela. Parou em frente a casa de aquário. Estava ofegante e suas pernas tremiam tanto que precisou se escorar em uma das pilastras para não cair.
Não demorou muito e sentiu o frio característico daquela casa lhe beijar as pernas e braços. Naquele momento o "frescor" era muito bem-vindo. Mirela olhou para a entrada da casa e não se surpreendeu quando dois pares de olhos azuis lhe encaravam. Camus segurava firme um livro contra o peito. Era de capa dura e de couro vermelho com ouro -, pelo menos era isso que Mirela achava – bordado nas laterais e suas letras de uma caligrafia impecável deixava o livro com aquele ar de "importante".
"O que está fazendo?" Ele perguntou de forma fria. Mirela já estava se acostumando ao jeito frio de Camus. Ele era idêntico ao mangá/anime. Não se deixava envolver tão facilmente pelos outros, era desconfiado e achava que se manter frio e indiferente sofreria menos com a perda.
"Estou apenas correndo". Ela tentou não soar fria como ele, mas não conseguiu. Ela se sentia assim – fria.
"Pelo jeito não conseguiu correr muito". Mirela notou o tom de deboche. Ela não era uma exímia corredora. Ela sabia perfeitamente disso, sabia qual era o seu lugar, mas nem por isso diminuía ninguém que fosse diferente dela.
Se repreendeu por ter parado justamente naquela casa. Se tivesse feito isso em peixes sabia que o amigo a deixaria em paz, talvez nem estivesse por lá. Ela olhou de lado para ele e ignorou o comentário feito pelo aquariano. Se ele queria provocá-la, ele se decepcionaria. Não ficaria dando ibope para ele, por mais rancor e raiva que ele sentisse dela.
Mirela não era burra. Ficou evidente que depois do ocorrido os cavaleiros de ouro não confiariam mais nela e ela não os culpava por isso, talvez ela mesma não se desse esse benefício. Deu as costas para ele e voltou a correr. Era mais vantagem se manter em silêncio do que perder tempo batendo boca com ele. Desejava muito ter o seu celular com ela, pelo menos poderia escutar música e passar um pouco de tempo alheia ao que estava acontecendo ao seu redor.
Passou por capricórnio o mais rápido que conseguiu. Ainda teve um vislumbre do ouro reluzente da armadura de Shura. Ele a observou em silêncio descer as escadarias laterais sem se importar com ela. Mirela agradeceu por ter aquele caminho para seguir, se tivesse que passar entre as casas, com certeza, teria que parar para conversar com alguns deles e ela não queria isso. Aquele caminho era conhecido apenas por alguns. Saga e Aioros haviam lhe mostrado ele há alguns dias lhe dizendo que ela deveria usá-lo caso precisasse de ajuda e ser mais rápida em ter que se esconder, pois poucos usavam aquelas escadas.
Agradeceu por ainda se lembrar das instruções deles. Quando se afastou por completo da casa de Shura não pode deixar de pensar no por quê eles estavam usando armadura aquela hora da manhã. Em todos os dias que se encontrava ali com eles, os viu muito pouco com a armadura de ouro. Eles estavam sempre a paisana andando pelo santuário, mas hoje em especial eles estavam ali todos plenos com o seu traje dourado.
Mirela ignorou aquilo. Jogou aquilo para os confins de seu subconsciente. Não precisava daquela informação. Chegou em Virgem exausta. Mesmo descendo, suas panturrilhas gritavam com ela lhe pedindo arrego. Seus pulmões queimavam e sua cabeça latejava. Comer apenas uma maçã não tinha sido uma boa ideia. Como se não bastasse isso tudo, uma coriza irritante escorria pelo seu nariz lhe tirando a paciência. Estava ficando gripada por ter passado a noite com a roupa molhada e por ter pego chuva de madrugada.
O tempo não estava bom. O sol não deu as caras e as nuvens estavam carregadas, mas o dia estava quente, aquele mormaço característico do seu estado. Aquele dia a remetia demais ao Rio de Janeiro e, por alguns segundos se imaginou molhando os pés no mar. Era o que ela faria. Parou encostando mais uma vez em uma grande pilastra de pedra. Shaka não estava na lateral da casa e agradeceu por não ter que ver o cavaleiro também. Não queria ter que encarar os olhos dele mais uma vez. Será que o mesmo a olharia daquela forma como no dia anterior. Nunca esqueceria o brilho feroz do olhar dele. Como se a confiança que ele havia depositado nela tivesse se partido em milhares de pedaços impossíveis de se juntarem.
Controlou a respiração e olhou uma última vez para a casa de Virgem. Notou um brilho dourado vindo lá de dentro e se apressou em correr. Não foi diferente ao passar pelas outras casas. Dessa vez ela encontrou com todos os cavaleiros –, menos Aioria – trajando suas armaduras nas laterais da casa lhe encarando como se ela fosse algum tipo de Et. Depois da casa de virgem não parou mais em nenhuma, nem mesmo em câncer ao notar que Afrodite estava lá com Máscara da Morte.
Ela só viu o olhar triste dele antes de virar na primeira esquina que levava até a próxima casa. Depois de passar por todas as doze casas se permitiu sentar próximo da estrada que levava até Rodório. As pessoas andavam de um lado para o outro e todas elas usavam preto. Mirela achou aquilo muito estranho, parecia que todos estavam de luto por alguma coisa ou alguém. Será que algum aspirante ou soldado de Athena havia morrido? Mas será que todos estariam de preto?
Mirela percebeu que muitas carroças carregavam madeira, cordas, assentos para dentro da Arena. Será que eles estavam terminando os preparativos para o torneio? Será que uma coisa tinha a ver com a outra? Tentou dissipar aqueles pensamentos de sua cabeça. Ela tinha uma meta – ir até o mar e esquecer aquele mundo por algumas horas.
Voltou a andar e não demorou muito para chegar em Rodório. As coisas não eram diferentes por ali. As pessoas andavam de um lado para o outro, apressadas com alguma coisa. As casas estavam em sua maioria vazias e o comércio começava a fechar suas portas. Mirela passou pela sala onde Aioros a havia levado para tratar os seus pequenos cortes, aquilo parecia ter ocorrido ha tanto tempo… Sua pela formigava só de lembrar do momento íntimo que teve com o sagitariano.
Até isso ela precisava esquecer. Ela não podia se permitir escolher entre um e outro porque não ficaria naquele lugar por muito tempo, sua missão estava praticamente completa. Só precisava esperar Athena voltar para lhe mandar de volta ao seu mundo. Ela tinha que parar de se preocupar com Ares. Aioros estava a salvo e Saga pagaria pelos seus crimes. Ela revirou os olhos quando pensou sobre isso.
Saga era um idiota por querer um julgamento. Não somente ele, mas todos os outros por insistirem nisso. Ele não tinha feito nada e pagaria por algo que nunca aconteceu. Lêmur tinha sido destruído e ela havia explicado que a culpa de tudo era da merda da estrela do infortúnio, mas ele queria insistir no julgamento. Se ele se sentiria melhor com aquilo, quem era ela para falar alguma coisa. Ninguém se importava com o que ela tinha a dizer mesmo.
Tentou não pensar mais naquilo. Foi chegando próximo ao mar, ela podia sentir a brisa da maresia acariciar a sua pele. A sensação era maravilhosa, ela precisava sentir o mar tocar a sua pele. Foi tirando o sapato assim que avistou a areia branquinha e pode escutar as ondas do mar se quebrando ao longe. Correu até poder sentir a água tocar a ponta de seus dedos. A areia não estava fria e nem quente devido ao tempo fechado. As ondas eram enormes e Mirela sabia que não poderia arriscar entrar no mar, por mais que ela quisesse muito.
Se permitiu chegar o mais próximo possível, tendo a água encostado em seus joelhos quando as ondas quebravam levantando areia e espuma do mar. Molhou os pulsos e a nuca, em seguida lavou o rosto e pediu proteção a Iemanjá. Ela não acreditava nos deuses em seu mundo, então não deveria rezar para eles, ela tinha que pedir ao seu Deus. Se afastou das ondas e ficou em uma distância segura. Deitou-se na areia sentindo a mesma lhe envolver com carinho. Não se importava com a aspereza da mesma, sentia tanta falta daquilo que fechou os olhos para apreciar aquele momento de paz.
Mirela não soube por quanto tempo permaneceu naquele estado de paz, se foi alguns segundos, minutos ou horas. Ela sentiu algumas gotas de chuva em seu rosto lhe despertando do seu transe. Sentou-se e admirou mais um pouco a imensidão azul a sua frente antes de voltar para a sua realidade naquele momento. Inspirou o máximo que pode e segurou aquele ar puro em seus pulmões antes de soltar.
Não levou muito tempo para chegar em Rodório. A volta sempre era mais rápida do que a ida. Estranhou o fato da cidade estar praticamente vazia. Um ou outro morador que ainda permanecia fechando sua casa ou comércio e logo que terminavam o que tinha que fazer se dirigiam em direção ao santuário. Conforme foi chegando próximo ao Santuário a quantidade de pessoa na rua foi aumentando. Todas elas seguindo na mesma direção e todas de preto.
Chegou em uma bifurcação e não pode deixar de notar que todos se dirigiam para a Arena e não ao Santuário em si como ela havia achado anteriormente. Eles entravam na imensa construção de pedra que ainda deixava Mirela sem ar só de admirá-la. Olhou em direção as doze casas em dúvida se voltava para o santuário ou se entrava naquele lugar e matava a curiosidade do que estava acontecendo.
"Por que não?" Mirela deu de ombros e caminhou junto com a multidão para dentro da construção. Passou pelas pedras e notou um grande palanque no meio da arena. Mirela nunca tinha visto tantas pessoas assim em sua vida, nem mesmo nos shows que ia no Rio de Janeiro. Deveria ter centenas, talvez milhares de pessoas se apinhando por ali. Crianças sobre os ombros dos pais, idosos sentados na arquibancada, mulheres rezando baixinho pedindo misericórdia a deusa Athena, já outras gritando por justiça.
Em alguns momentos Mirela teve que tampar os ouvidos, pois o barulho era tão ensurdecedor que sua cabeça latejava a cada grito de protesto. Tentava se concentrar na quantidade de gente que estava ao seu redor, mas os seus olhos logo foram capturados por onze estruturas estranhas em cima do palanque. A primeira que era diferente das outras dez, tinha um mecanismo que parecia uma escada em forma de A; e as outras dez eram um grande bloco de madeira com dois furos dos dois lados.
Mirela foi andando no meio da multidão tentando chegar o mais perto possível do palanque. Ela virou o corpo na direção esquerda e notou que um longo caminho livre das pessoas era monitorado por guardas e por ele Shion caminhava em direção ao palanque com uma expressão impassível. A multidão gritava e aplaudia ovacionando o Grande Mestre. Ficou pior ainda o barulho quando os cavaleiros de ouro começaram a seguir pelo mesmo caminho.
"Que merda é essa?" Indagou para ninguém em especial.
Tentou chamar por Afrodite mas nada o que ela fizesse chamava a atenção dele ou te qualquer outro cavaleiro. Aioros até olhava preocupado pela multidão a procura de alguma coisa, mas Mirela não sabia o quê. Será que era ela? Tentou se aproximar, porém quando conseguiu chegar próximo dos soldados que faziam um cordão de isolamento, os cavaleiros já estavam em cima do palanque, os mesmos estavam posicionados ao lado direito das estruturas atrás de Shion.
Mirela até tentou falar com os soldados para deixarem ela passar e ir até os cavaleiros, mas nenhum deles parecia lhe enxergar. Um momento depois, as ovações da multidão se transformaram em vaias e ofensas. Mirela procurou ver o que os deixava tão infelizes. Ela girou a cabeça a procura do motivo até encarar um grupo de dez mulheres que andavam cabisbaixa.
Algumas estavam sujas, magras e com os cabelos desgrenhados, já outras estavam piores. As roupas estavam rasgadas na parte inferior da saia, seus braços estavam arranhados e suas mãos eram sujas como se tivesse passando a maior parte do tempo mexendo no carvão. Mirela sentiu o coração parar de bater. Reconheceu uma das mulheres no meio das outras. Ela era a que estava mais suja e mais machucada. Seus belos olhos escuros estavam sem brilho algum e ela podia ver as marcas das lágrimas em seu rosto.
Não demorou muito e as mulheres estavam em cima do palanque atrás das dez estruturas iguais. Quando Mirela pensou que não poderia piorar, a multidão ficou em silêncio. Um silêncio que chegou a doer os seus ouvidos. Ela começou a procurar por ele. Ela sabia que ele estava vindo. Só poderia ser isso o motivo daquele silêncio. Ela o notou primeiro. Ele andava no meio da multidão com a cabeça baixa. Estava sujo como se tivesse passado a noite rolando na lama. Seus braços estavam machucados e um corte em seu supercílio esquerdo ainda sangrava lentamente.
Se antes o seu coração tinha parado de bater, dessa vez ela não sentia mais o seu corpo. Todo ele estava dormente. Sua respiração estava presa na garganta e uma sensação estranha de que o mundo desmoronaria a atingiu bem na boca do estômago a fazendo ter ânsia de vômito. Era como se o seu mundo caísse. Por frações de segundos os seus olhos se encontraram no meio daquela multidão e ela pode notar o desespero no olhar dele. Era como se antes ele estivesse preparado para o que aconteceria, mas com ela ali, vendo a sua alma exposta ele já não sentia tanta coragem assim.
Assim que ele subiu no palanque, um homem de máscara que ela não o havia notado antes começou a falar. A multidão se calou para ouvir. Aparentemente, aquilo – fosse o que fosse – já tinha acontecido antes, e as pessoas sabiam como se comportar.
Contudo, Mirela não. Ela sentia o corpo se contorcer, a barriga estava gelando e agradecia por não ter comido nada além de uma maçã. O homem anunciou o nome das mulheres uma atrás da outra, mas os ouvidos de Mirela estavam surdos naquele momento. Ela não escutava nada, não conseguia nem ler os lábios do homem com a máscara. Ela só conseguia focar nos olhos escuros dele cheios de intensidade.
O carrasco continuou a falar e as mulheres foram postas uma a uma nas estruturas de madeira com os dois buracos nas laterias. Elas ficaram ajoelhadas no chão diante do bloco de madeira. Seus punhos passaram pelos buracos e amarraram suas mãos dos dois lados, com as palmas para cima enquanto o homem lia a sentença.
"Vocês foram acusadas de traição contra a deusa Athena". A voz dele saiu fria fazendo com que os cabelos dos braços de Mirela se arrepiassem. Finalmente ela conseguia escutar o que aquele homem dizia. "É um crime para pena de morte, entretanto, o Grande Mestre se mostrou misericordioso e vocês serão poupadas". A voz do carrasco transbordava um excesso de arrogância que deixou Mirela irritada só de olhar para ele. A multidão mais uma vez vaiou e gritou acusações grosseiras contra as mulheres.
Logo depois foi a vez de Saga. Ele olhava para a multidão procurando por Mirela. Ela o viu lançando vários olhares para Aioros como se estivesse avisando ao sagitariano que a mesma estava na multidão. Mirela até tentou chegar mais perto, mas as pessoas não a deixavam passar. Saga foi amarrada à armação em forma de A e por outro mascarado que mais uma vez passou despercebido pelo olhar de Mirela.
Suas pernas e braços foram esticados ao máximo para imitar a forma daquela peça. Cingiram a sua cintura com tiras de couro acolchoadas, tão apertadas que incomodavam mesmo a quem apenas presenciava a cena.
Mirela notou que as mulheres choravam sem parar e pediu por misericórdia enquanto a multidão gritava palavras ofensivas para as mesmas. Todos se calaram quando o carrasco se aproximou de Saga para ler a sua sentença.
"Saga, cavaleiro de ouro de gêmeos". Mirela encarou o homem e notou que Saga ainda a procurava no meio da multidão. Ela começou a empurrar as pessoas para conseguir chegar perto dos soldados que continuavam a fazer um cordão de segurança próximo ao palanque. "A pena para o seu crime é a morte".
Mirela sentiu o corpo tremer ao escutar aquilo. Se é que aquilo ainda era possível, pois seu corpo já convulsionava antes. Empurrou uma família com força para a esquerda e recebeu olhares zangados dos que estavam perto. Não se importou com os xingamentos direcionados a ela, só queria chegar na frente do palanque e encarar Shion e os outros e implorar para que aquilo não acontecesse.
"Mas, em sua misericórdia, o Grande Mestre poupará a sua vida". A multidão fez coro a voz do homem. Se Mirela não estivesse perdida no meio daquela multidão já teria pulado no meio do palanque e dado um soco na cara daquele carrasco asqueroso. "Saga, você será destituído de sua posição como cavaleiro de ouro!"
"O quê?" Engasgou com as palavras. "Não. Não. Não. Não!" Mirela sacudia a cabeça em desespero. Voltou a empurra a multidão tentando chegar até Saga e as mulheres. Agora ela podia ver os olhos assustados de Aioros nela. Ele ameaçou dar um passo em sua direção, mas Aioria o conteve ao segurar o seu ombro. Ela pode ver que não era somente ele que tinha lhe visto no meio da multidão e sim todos os outros.
A multidão comemorou o que pareceu um erro aos ouvidos de Mirela. Como assim eles apoiavam aquilo? Ele era o cavaleiro de gêmeos. Ele protegia o Santuário e a todos. Tinha nascido para aquilo.
"Para infligir em vocês a vergonha e a dor que trouxeram a deusa Athena, vocês serão açoitados com quinze golpes. Que suas cicatrizes lhes recordem dos seus muitos pecados!"
"Açoitados? O que isso quer dizer?" Mirela perguntou para um homem ao seu lado que lhe ignorou por completo. "Espera!" Ela voltou a empurrar as pessoas quando se tocou o que estava para acontecer.
A resposta para a pergunta dela veio logo depois, por mais que ela não precisasse de resposta alguma mais. Onze carrasco subiram no palaque. Dez se posicionaram ao lado de cada mulher tirando longas varas de dentro de baldes d'água. Eles a agitaram no ar algumas vezes para testá-las. Mirela não sabia como eles não tinham batido um no outro com aquilo.
Ela pode escutar o zunir enquanto cortavam o ar. A multidão aplaudiu aquele aquecimento com o mesmo êxtase e a mesma adoração que tinha dedicado aos cavaleiros de ouro quando eles marcharam pelo longo corredor em direção ao palanque.
Em poucos segundos o dorso de Saga seria golpeado humilhantemente, assim como as mãos daquelas mulheres. Mirela tinha notado agora o outro carrasco atrás de Saga fazendo o mesmo movimento que os outros dez com as mulheres.
"Não!" Gritou ela. "Não!" Mirela sentiu o desespero entranhar em seus ossos e pontos negros brilhavam na frente de seus olhos. Ela se recusou a desmaiar ali no meio daquele povo em fúria. Conseguiu finalmente chegar até os soldados e os empurrou com força para o lado querendo passar no meio deles.
"Shion!" Ela resolveu apelar para o Grande Mestre que a encarava com os olhos inexpressivos. "Shion, não deixa isso acontecer!"
"Você precisa se afastar, senhorita". Um guarda a puxava para trás. Mirela notou que Aioros mais uma vez tentou ir até ela, mas os outros o impediram. Ela sentiu raiva de Camus e Shura que o seguravam com força o impedindo de ir ajudá-la.
"Aioros!" Implorou para o cavaleiro de Sagitário. "Por favor! Eu imploro!"
"A senhorita está se arriscando". O guarda disse de forma brusca. "Quer ter o mesmo destino que essas mulheres?" Mirela o ignorou por completo.
"Saia de perto de mim!" Gritou para o guarda, chutando-o o mais forte que podia. E por mais que ela tentasse, ele ainda se mantinha firme a segurando pelo braço. Ela sabia que teria uma marca roxa naquele lugar.
"Mirela, acalme-se, por favor". Aioros pediu, mas sua voz morreu com o zunir do chicote no ar.
"Um!" Gritou o carrasco no palco. Mirela viu a vara cair nas costas de Saga e o rosto dele franziu com a dor que aquilo lhe proporcionou. As mulheres emitiram um gemido dramático que ecoou pela arena, parecia que alguém tinha dado um chute em vários cachorros.
"Shion! Shion!" Tornou a gritar. "Faz isso parar! Faz isso parar, por favor!"
Mirela sabia que ele estava ouvindo. Ela o viu fechar os olhos devagar e engolir em seco, como se pudesse tirar aqueles sons de sua cabeça.
"Dois!"
Ela gritou junto com as mulheres. Seu olhar caiu sobre Saga que continuava sem emitir ruído algum. Um brilho dourado impregnava o chicote e ela soube que por ele ser um cavaleiro de ouro um simples chicote não infligiria tanta dor assim, mas com aquele cosmo era diferente. O choro das mulheres era pura angústia. Mirela já não se importava mais que as mesmas tivessem tentado matá-la. Ela desejou não ter ido para aquele mundo. Desejou estar em Friburgo no hotel curtindo a suas férias em paz. Ela não podia imaginar a dor que eles estavam sofrendo e ainda faltavam treze golpes.
"Afaste-se, senhorita." O guarda exigiu torcendo o braço dela para trás do corpo. Ela escutou um "crack" em seu ombro e um grito agudo escapou de seus lábios assim como os gritos das mulheres.
"Três!"
"Me solta!" Tornou a gritar com o soldado ignorando a dor latejante em seu ombro. "Shion!" Ela continuava a implorar. "Você prometeu!" Olhou para Aioros e o viu desviar o olhar para o chão.
"Quatro!"
As lágrimas escorriam pelo rosto dela e começavam a atrapalhar a visão de Mirela, mas ela conseguia ver o suficiente para saber que os cavaleiros de ouro a estavam ignorando. Olhou para a multidão em busca de ajuda, mas todos estavam curtindo a tortura.
"Cinco!"
O som dos gemidos das mulheres assombrariam Mirela pelo resto da vida. Jamais tinha presenciado nada como aquilo em seu mundo. Ou o eco doentia da multidão, vibrando, como se aquilo não passasse de mero entreterimento. Ou o silêncio dos cavaleiros de ouro e Shion.
"Seis!"
Mirela olhou para Saga que tremia e suava com o trauma, ele conseguiu balbuciar algumas palavras na direção dela.
"Vai… acabar… logo". Ela conseguiu ler os seus lábios.
"Sete!"
Mirela não aguentava mais. Tentou arranhar o soldado, mas a armadura o protegia. Gemeu quando ela a apertou mais forte fazendo com que seu ombro latejasse mais ainda de dor.
"Oito!"
"Tire as mãos da senhorita!" Layla surgiu no meio da multidão gritando contra o guarda que não parecia abalado com a intromissão da mulher.
"Nove!"
Mirela se aproveitou da distração do guarda e deu uma joelhada mais forte que pode no meio das suas pernas. Ele soltou um grito abafado antes de soltá-la e caiu no chão de lado sendo amparado por outro soldado. Mirela correu na direção do palanque desajeitada segurando o braço contra o peito com força.
"Dez!"
"Saga! Saga!" Berrou, correndo o mais rápido que pode. Quase chegou aos degraus, mas foi agarrada por trás dois soldados. Era uma briga que ela não podia ganhar. Por aquele ângulo que ela se encontrava pode ver as costas de Saga. A pele já rasgada, despedaçada, pendendo em tiras asquerosas.
"Onze!"
O sangue escorria, arruinando aquilo que havia sido a calça de algodão que ele vestia por de baixo da sua armadura de ouro. Mirela foi incapaz de imaginar o estado das mãos das mulheres.
"Doze!"
Só de pensar naquilo ela caiu em uma histeria mais profunda. Gritou, chutou, tentou morder, mas tudo o que conseguiu foi perder um dos sapatos.
"Treze!"
Foi arrastada para longe do palanque aos olhos dos cavaleiros de ouro que não sabiam mais se permaneciam indiferentes ao que estava acontecendo ou se interferiam. Ela se debatia tanto que a multidão se afastava para evitar ser atingida pelos chutes que ela desferia no ar.
"Quatorze!"
Um guarda apareceu para ajudar os outros dois. Ele ergueu o punho na direção dela, ela apenas fechou os olhos esperando pelo soco que levaria no rosto, mas aquilo não aconteceu.
"Quinze!"
Quando tornou a abrir os olhos Aioros e Afrodite estavam ao seu lado. Shion segurava o punho do homem com força enquanto os outros cavaleiros afastavam a multidão de perto deles. Afrodite tirou os dois guardas de perto dela e Aioros a segurou nos braços quando ela foi solta por eles. Mirela sentiu sua vista apagar quando o cavaleiro a pegou antes de cair no chão e assim tudo se tornou escuridão.
