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Quando a dor não cabe mais no peito, ela transborda pelos olhos.


Santuário – Quarto Mirela.

Mirela acordou com Layla colocando um pano molhado em sua testa. Ela sentia o seu corpo tremer de frio e o seu braço latejava conforme se debatia na cama. Ela não estava fazendo de propósito, só não tinha controle do mesmo. Escutava os trovões e podia ver os raios iluminando o céu nublado. Uma chuva torrencial caia sobre o Santuário como se os castigasse pelo que haviam feito naquela manhã.

Tentou sentar, mas Layla colocou a mão em seu ombro bom a impulsionando de volta para os lençóis. Quis argumentar com ela, porém não encontrava a própria voz. Uma dor estranha arranhava a sua garganta lhe enviando dores agudas até o ouvido e mandíbula. A última vez que tinha ficado doente desse jeito, ela tinha apenas treze anos. Tocou a garganta para avaliar se a mesma estava inchada, pois essa era a sensação que tinha ao abrir e fechar a boca; como se um pedaço de pão estivesse atolado no meio de sua traqueia.

"Você vai ficar bem, já está medicada". Layla a tranquilizou.

Mirela revirou os olhos para amiga, já que era a única coisa que ela podia fazer sem sentir dor – pelo menos não uma dor absurda –, já que sua cabeça latejou descordando dela. Ela viu a morena trocar o pano de sua testa e substituir por outro úmido. Seus pais não ficariam felizes em vê-la daquela forma.

Como médicos, saberiam o que fazer e o que receitar para o resfriado que havia adquirido por passar uma noite pegando sereno no mar. Afastou a lembrança de seus pais da sua cabeça e tornou a pensar no que tinha acontecido pela manhã. Uma multidão usando preto estava amontoada dentro da arena apreciando um show de horrores contra Saga, um ex cavaleiros de ouro –, ela teve que se forçar a acreditar que tinha escutado mesmo aquelas palavras – e mulheres indefesas.

Mirela entendia que elas haviam cometido um crime contra a deusa, mas não aceitava a forma arcaica e medieval de se fazer justiça naquele mundo. Açoitar, esfolar, retaliar pessoas, sejam elas quem fossem era inaceitável. Lembrou do dia em que conversou com Shion a respeito do julgamento.

"E como funciona o julgamento?"

"De forma simples". Ele a encarou buscando algum sinal de fragilidade. "Será exposto os atos que elas cometeram na frente da população e elas serão condenadas à forca".

"O julgamento é público?" Perguntou apavorada.

"Sim".

Mirela sentiu o estômago dar um nó. As mulheres seriam mortas em público por causa dela. Por tentarem matá-la.

"Shion, eu sei que não cabe a mim, mas eu não posso deixar de me meter nesse assunto". Ela começou a esfregar as mãos, tentando aliviar a tensão. "Não existe outro caminho? Talvez mantê-las presas?"

(…)

"Vou ver o que posso fazer, mas não vou te prometer nada".

Secou as lágrimas que escorriam pelo rosto. Shion de certo modo tinha cumprido com a sua palavra. O que aquelas mulheres prefeririam? Morte ou ter as mãos açoitadas? Mesmo a resposta sendo obvia para Mirela, não podia aceitar tamanha atrocidade. E Saga? Ele era diferente das mulheres. Não havia cometido crime algum, ela mesma tinha esclarecido o assunto ontem na frente de todos. Por que açoitar ele daquela maneira e ainda por cima lhe privar da armadura de ouro?

Rolou para o lado ignorando os protestos de Layla e a dor em seu ombro. Aquilo não era nada comparado ao que ele tinha passado. E por que os cavaleiros de ouro permitiram aquilo? Mirela lembrava da punição que Miro aplicou em Kanon na frente da própria deusa Athena, alegando que ele não era digno de usar a armadura de ouro de Gêmeos e nem de confiança. Quando Kanon aceitou a morte, Miro o perdoou curando-o de suas feridas. Quando leu no mangá o que Kanon havia passado, achou justo o que o escorpião fez, mas agora não conseguia ver da mesma forma.

Quando algo não passa de ficção tudo parece fácil de ser aceito, mas ao vivo e a cores… Era diferente. Só de lembrar da dor estampada nos olhos dele Mirela sentiu vontade de vomitar. Será que eles não sentiam o mesmo? Será que ver a dor de um companheiro era tão agradável assim? Não esqueceria da indiferença no rosto da maioria dos santos de Athena. Não os perdoaria jamais por terem ficado em cima daquele palanque do horror de braços cruzados vendo a dor afligir um amigo.

Sentou-se bruscamente na cama, teve que se segurar em Layla para se manter em equilíbrio. Pontos escuros dançavam diante de sua vista e ela podia sentir o cansaço da doença consumindo o seu corpo.

"Senhorita, você deve fazer repouso". Layla tentou forçá-la a deitar.

"Preciso ver Shion". Falou conforme colocava as pernas para fora da cama. "Preciso olhar nos olhos dele e perguntar: - Por que?"

"Senhorita, ele está ocupado com os outros cavaleiros".

"Ótimo!" Disse ao se por de pé.

Mirela precisou de alguns minutos para se estabilizar. Segurou o cordão que pendia em seu pescoço com força; estava frio ao seu toque, assim como tudo. Athena tinha lhe tirado do conforto do seu lar para mudar o destino dos cavaleiros de ouro, então ela faria as coisas do jeito dela não importando se quebraria as regras estúpidas e arcaicas do Santuário.


Salão do Grande Mestre.

"Como ela está?" Perguntou preocupado o Sagitariano.

"Com o ombro deslocado e parece que está com uma inflamação na garganta". Suspirou o grande mestre. "Eu não entendo como ela pode ter ficado doente de uma hora para a outra".

"Acho que tenho uma parcela de culpa". Afrodite se pronunciou. "Eu a levei até Súnion na madrugada".

"O quê?" Aioria cerrou os punhos. "O que ela esperava encontrar lá?"

"Ela queria ver com os próprios olhos se Kanon estava morto". Máscara da Morte não estava feliz em ter que revelar o pequeno segredo deles. Ele não contava que a garota fosse ficar doente só por pegar um pouco de sereno e algumas gotas de chuva.

"Você sabia disso?" Shaka não compreendia como os dois podiam ser tão irresponsáveis assim. "Nem tudo deve ser acatado".

"Ou eu a levava, ou ela iria sozinha". Afrodite falou aborrecido. "Preferi levá-la do que deixá-la a própria sorte".

"Fez bem". Shion tentou acalmar os ânimos. "E o que ela achou?"

"O que ela não achou…" Afrodite sabia que o desejo da garota era poder tirar Kanon daquele lugar, mas ao chegar lá teve os seus desejos destruídos. "As coisas estão acontecendo muito rápido".

"Afrodite tem razão". Aioros não conseguia tirar da cabeça o olhar de desespero no rosto de Mirela. Ele nunca viu nada parecido com aquilo. O pior de tudo era que ele compreendia aquele sentimento; por mais que ele não deixasse transparecer, ver Saga ser açoitado doeu. "Primeiro a morte de Kanon e depois o julgamento, foi muita coisa para ela assimilar".

"E coloca muita coisa nisso". Aldebaran se pronunciou. "Grande Mestre, eu sei que as coisas estão difíceis por aqui, mas eu quero partir com o Mu o mais rápido possível".

"Vocês dois estão liberados". Ele fez um gesto com a mão os dispensando. "Se não encontrarem nada, voltem o mais rápido possível".

"Sim senhor". Disse em uníssono.

Aldebaran abriu as grandes postas e quase chocou-se contra o corpo franzino de Mirela. Ela nem ao menos lhe dirigiu o olhar e ele soube de imediato que ela estava prestes a fazer alguma besteira.

Mirela passou por Touro e Áries sem se importar com os olhares deles; ela só tinha um foco, este, por sinal, estava em pé encarando-a de forma interrogativa. Ela passou por Sagitário livrando-se com muito esforço de sua mão estendida, assim como desviou de Peixes. Sua concentração era no antigo cavaleiro de ouro e ela estava acumulando as suas poucas forças em chegar até ele.

Shion diminuiu a distância entre eles, já que a garota parecia que cairia dura no chão de tão branca e trêmula que estava. Ficou claro que ela queria chegar até ele, já que ignorou por completo Aioros e Afrodite. Assim que eles estavam próximos o suficiente, ela o surpreendeu com um belo de um tapa no rosto, fazendo com que o seu elmo rolasse pelo chão acarpetado em vermelho.

Shion não se lembrava de ter recebido um tapa como aquele em toda sua vida como cavaleiro, nem mesmo quando ele se engraçava com alguma serva do templo de Athena. Ele queria poder refletir sobre o tapa, mas não teve tempo para fazê-lo, já que a garota ao bater em seu rosto esqueceu que o braço que havia desferido a bofetada era o que estava deslocado, com isso, uma expressão de dor surgiu em seu rosto branco como papel, e a única reação que ele teve foi de segurá-la antes que ela pudesse cair no chão.

"Não deveria se esforçar". As palavras saíram suaves de seus lábios.

"Por que?" Perguntou.

A pergunta não saiu com a entonação que ela queria. Queria ser rude e firme com ele, mas pareceu fraca quase como uma súplica. Shion limpou as lágrimas dela com a outra mão, mas não ousou soltá-la. Ela segurava firme em seus ombros e ele sentia o calor da febre que a consumia emanar de seus poros.

"A escolha foi dele". Shion sabia que o motivo do tapa era Saga e não as mulheres. Mirela podia entender a punição das mulheres, mas não entendia a de Saga. "Ele quis isso".

"Por que deixou?" Apoiou a cabeça no peito dele. Podia sentir o cheiro de alfazema fraco em sua roupa. "Por que não o impediu?" a pergunta saiu abafada.

Shion a abraçou com cuidado ignorando os olhares dos cavaleiros de ouro. Ele começava a entender o sentimento de Saga e Aioros por ela. Mirela era como uma luz no meio daquela escuridão. Se ele tinha alguma dúvida de que ela era a deusa Athena, agora ele não tinha mais. Mesmo estando fraca em seus braços ele conseguia sentir o cosmos da deusa vindo dela e pelo jeito ele não era o único, já que os olhares de indignação dos espectadores começavam a mudar aos poucos.

"Eu não entendo…" Camus olhava dela para Shion. "Quem é essa garota?"

"Ele precisava da punição para se perdoar". Shion acariciou os cabelos dela.

"Ela é o receptáculo de Athena em seu mundo". Aioros respondeu a pergunta do amigo ao mesmo tempo que Mirela se afastava o suficiente de Shion para poder encará-lo nos olhos.

"Não havia nada para ser perdoado". Falou convicta.

"O quê?" Afrodite se aproximou de Aioros assim como os outros. "E por que diabos a gente não sabia disso?"

"Shion queria manter em segredo até ele ter certeza". Aioros ainda não conseguia tirar os olhos do grande mestre e de Mirela. Ela parecia tão fraca nos braços dele. "Só Saga e eu sabíamos".

"Agora muita coisa faz sentido". Disse o virginiano. Ele tinha os olhos abertos e podia ver perfeitamente a áurea dourada envolta do corpo dela. O cosmo era fraco, mas estava lá. "Eu pensei que o colar fosse o responsável pelo cosmos da deusa, mas agora consigo ver que vem dela".

"Eu sei". Respondeu o grande mestre. Era nítido a dor nos olhos dela. Os dois estavam alheios a conversa paralela entre os cavaleiros de ouro. "Eu passei a noite inteira junto de Aioros tentando convencê-lo a não dar continuidade aquela loucura, mas Saga estava irredutível".

"E a armadura de ouro?" Mirela começou a sentir-se culpada por ter batido no rosto dele. A marca de seus dedos estava começando a ficar perceptível.

"Outra ideia absurda dele. Ele não se sente merecedor da armadura de Gêmeos pelas coisas que ele e o irmão fizeram".

"Mas ele não fez nada, estava possuído". Mirela rebateu a afirmativa dele.

"Eu sei, foi o que eu disse para ele também". Suspirou. "Ele disse que o irmão não estava e que ele deveria ser punido pelas ações do mesmo, ações estas que ele julga ser culpa dele, já que está convencido de que Kanon morreu por ser influenciado pela sua maldade".

"Eu fui estúpida". Fungou tentando controlar os espasmos que seu corpo dava conforme chorava. "Eu deveria ter ido até ele, eu deveria ter conversado com ele antes de ir até Kanon, ou, pelo menos, depois de ver com os meus próprios olhos que não podia fazer nada a respeito dele, tinha que ter ido até Saga".

"Não se culpe. O que passou, passou". Shion olhou para o ombro dela fora do lugar. "Temos que colocar seu ombro no lugar de novo".

"Preciso vê-lo". Mirela tentou se afastar do grande mestre pronta para procurar por Saga. "Preciso chegar até ele". Suplicou. "Tenho que me certificar de que ele vai ficar bem".

"Eu te levo". Aioros se pronunciou. "Ele está na enfermaria".

Mirela se livrou dos braços de Shion e o grande mestre sentiu um vazio o preencher. O que era aquilo? Ele não podia se apaixonar por ela. Ela era a deusa que ele jurou protegê-la. Mirela cambaleou até o Sagitariano.

"Por favor". Mirela parou na frente dele. Ela segurava o braço contra o corpo com força. Sentia sua garganta latejar assim como o ombro. Quando decidiu ir até Shion, tomou as dores de seu corpo como penitência por ter deixado as coisas chegarem onde estavam.

"Primeiro deixa eu te ajudar com o seu ombro". Aioros ameaçou tocar-lhe o braço, mas ela recuou.

"Não". Mirela encarou os próprios pés. "Não antes de encontrar com ele".

"Ele ficará chateado se a ver dessa forma". Afrodite interveio. "Deixe-nos ajudar".

Afrodite esperou ela dizer alguma coisa, mas ela se manteve calada. Tomou aquilo como permissão. Acenou para Aioros e o mesmo com muito cuidado colocou a mão sobre o ombro fora do lugar dela. Mirela continuou olhando para baixo, como se ele não estivesse fazendo nada com ela.

"Vai doer". Avisou.

Aioros se posicionou ao lado dela avaliando os dois ombros. Era nítido a diferença dos dois. O que estava deslocado estava mais baixo do que o outro e ele notou como era difícil para ela segurar o braço contro o corpo. Um hematoma se alojava na junção do ombro com o braço e ele sabia por experiência própria a dor que ela estava sentindo.

Ele podia ver que Camus tinha feito um bom trabalho ao esfriar o local por no mínimo uns quinze minutos antes deles colocarem no lugar pela manhã, Aioros não via sinal de inflamação no local apesar do hematoma. Ele olhou para o aquariano que veio para o seu lado lhe ajudar.

"Colocarei a palma da mão sobre o seu ombro, você sentirá algo gelado. Por favor, não se mecha". Pediu o aquariano.

Mirela assentiu e ele fez o que havia falado. Colocou a palma da mão em seu ombro direito e sentiu ela tremer sob seu toque gelado. Ficou tempo o suficiente para amenizar um pouco a dor.

"Quer que eu faça, Aioros?" Shion perguntou ao notar que o sagitariano tremia.

"Pode deixar comigo".

Não era fácil para ele fazer aquilo com ela. Mirela sentiria uma dor lancinante quando ele colocasse o ombro no seu devido lugar e aquilo o assustava. Não queria infligir dor a ela. Ele pediu que Afrodite a ajudasse a deitar no chão e que Máscara da Morte pressionasse o seu tórax contra o chão, caso ela se levante no processo.

Camus ajoelhou-se próximo a cabeça dela e estendeu a mão para o ombro deslocado enviando um ar gélido para que o local permanecesse dormente. Shion segurou a mão boa dela e Mirela apertou a mesma com carinho.

"Não hesite em apertar quando sentir dor".

Ela lhe deu um sorriso tímido e evitou olhar para os olhos de Camus e Máscara da Morte que estavam posicionados próximos demais dela. Depois que saiu de seu quarto decidida a gritar e bater em todos eles por terem feito aquela barbárie, não se surpreendeu ao ter seus sentimentos de raiva dissipados assim que os viu lado a lado diante de Shion.

Ela havia batido nele por ser teimosa e orgulhosa, mas a dor que sentiu ao fazê-lo tinha sido mil vezes pior do que ter um ombro deslocado. Mirela não compreendia o amor que sentia por cada um deles. Era tão pouco tempo para amá-los daquela forma.

"Por que eu os amo tanto?" Deixou escapar as palavras em um sussurro.

A pergunta pegou a todos de surpresa. Aioros sentiu a respiração parar em sua garganta. Ele olhou dela para os outros e notou que não tinha sido o único a ficar surpreso. Será que era assim que Athena se sentia?

Mirela fungou alto, alheia ao que estava acontecendo a sua volta. Ela não percebeu que Shaka chorava enquanto segurava as suas pernas, nem mesmo notou Shura esconder o rosto nas mãos sendo amparado por Mu e Aldebaran que tinham os olhos vermelhos. Até que um pingo caiu em seu rosto se misturando com as lágrimas dela.

Afrodite a encarava com lágrimas escorrendo pelo belo rosto tão familiar. Era como ver o seu irmão ali lhe encarando. Ela tentou secar as lágrimas dele, mas sua mão estava presa a de Shion e o outro braço estava tão dormente que já não o sentia mais.

"Por que choras?" Perguntou com a voz fraca.

Afrodite não respondeu. Não sabia o que dizer, só sabia sentir.

Independente do que eles fizeram ou não, ela os amava. Não havia nada que pudesse mudar o amor dela por eles, nem mesmo atitudes erradas. Apertou a mão de Shion e sinalizou para que o Sagitário acabasse logo com aquilo. Aioros segurou o braço dela aproveitando que a mesma estava imersa em seus sentimentos e o puxou em um ângulo de 90 graus. Um estalo foi escuto e o ombro voltou para o lugar.