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"O amor tem uma cor que acende o dia,
é como um sol amarelinho e brilhante.
Ele azuleja o céu da vida e o coração,
pois todo bem que ele faz, reacende
e aquece a negritude dos desencantos".
Almany – Sol.
Enfermaria.
Chegar na enfermaria fez o coração de Mirela disparar. Seus olhos começaram a varrer o local a procura dele. O lugar era enorme com várias camas separadas por um biombo branco, ao todo deveriam ter umas vinte macas. Três delas estavam ocupadas e enfermeiras vestindo branco com uma cruz vermelha no chapéu andavam de um lado a outro com bandejas de medicamentos, algodão, esparadrapo, álcool entre outras coisas que ela não conseguiu identificar.
O ambiente era bem iluminado e arejado. Grandes janelas ficavam em cada canto daquele enorme cômodo, as mesmas estavam abertas deixando a brisa entrar. Mesmo chovendo muito, as janelas permaneciam abertas deixando o cheiro de terra molhada preencher o lugar. Mirela o viu deitado de bruços no final da sala. Seus longos cabelos estavam caídos de lado, era nítido a crosta de sangue em seus fios escuros.
Apenas quinze passos os afastavam. Queria poder conversar com ele sozinha, mas sabia que os cavaleiros de ouro não a deixariam ter um momento de privacidade com ele. Todos estavam preocupados com ela. Seu corpo estava fraco, a febre não havia cedido devido a sua garganta está inflamada e seu braço mesmo estando no lugar e preso a uma tipoia ainda doía consideravelmente.
"Aioros". Mirela encarou o Sagitariano. "Será que vocês podem ficar aqui? Queria falar com ele sozinha".
"Acho que não tem problema algum em ficarmos aqui no corredor esperando por ela, Aioros". Afrodite ajudou a amiga. "Acho que devemos isso a ela".
"Você tem razão". Disse ele, com um suspiro.
"Você tem dez minutos". Shaka ainda permanecia de olhos abertos. "Faça o que tem que fazer e depois irá para o seu quarto descansar".
"Não sabia que além de treinador você era babá". Mirela olhou para os olhos azuis do loiro. Ela nunca se acostumaria com aquele brilho em seu olhar. Era como ver a galáxia por eles. Tão intensos e vibrantes. Talvez fosse por isso que ele sempre os mantivesse fechados.
"Quinze minutos". Disse convicto ignorando o comentário dela.
Ela assentiu e foi caminhando até Saga quando os cavaleiros de ouro esvaziaram a enfermaria. Mirela empurrou o biombo um pouco para o lado a fim de ver Saga melhor. Segurou a respiração ao ver as costas dele. Teve que se segurar no encosto da maca para não cair com o que via. Quinze marcas profundas marcavam a sua pele dourada. Em alguns lugares onde o chicote tocou mais de uma vez, era possível ver o músculo.
Mirela sentiu seu corpo convulsionar ao sentir a ânsia de vômito lhe acometer. Fechou os olhos e respirou pela boca, puxando o máximo de ar que conseguia e depois soltava o mesmo devagar.
"Não era para você estar aqui". Disse ele, de maneira fraca. "Eu disse que não queria receber visitas, principalmente a sua".
"Felizmente, ninguém nesse santuário manda em mim". Ela não queria ser grossa com ele, mas estava com raiva pela decisão que havia tomado com os outros sem nem ao menos consultá-la. "Pensei que fossemos amigos". Mirela puxou uma cadeira com o braço bom e colocou ao lado dele. "Achava que éramos muito mais que isso…" Falou baixinho depois de alguns segundos em silêncio.
"O que?" Saga não havia escutado direito. Ele tentou erguer um pouco o corpo para virar a cabeça e poder olhar para ela. "O que você disse?" Tornou a perguntar antes de se acomodar e enfim poder olhá-la.
Foi a primeira vez que ele a viu depois de ser chicoteado em público. Saga notou o escuro profundo abaixo de seus olhos, como se ela tivesse passado a noite em claro. Seus olhos castanhos já não tinham o mesmo brilho habitual e suas maçãs do rosto estavam coradas. Era visível a dificuldade que ela tinha em respirar. Seus lábios estavam entreabertos, rachados e o que mais o assustou foi a tipoia segurando o braço direito dela.
"O que aconteceu com você?" Ele quis levantar mais não conseguiu. Sua pele enrugou e uma expressão de dor surgiu em seu rosto fazendo com que a mão boa de Mirela repousasse em seu ombro esquerdo, uma parte dele ainda estava intacta, o que era milagre.
"Permaneça deitado". Ela o repreendeu.
"Diga-me, o que houve com você?" Seus olhos azuis analisavam o resto de seu corpo pequeno. "Quem fez isso no seu braço? E por que parece que você está há dias sem dormir? Parece até que está com febre. Você está doente?"
"Você tem muitas perguntas".
"É claro que tenho. Eu que estou com as costas na merda, mas parece que você está pior que eu". Debochou ele.
"O que você tinha na cabeça ao se submeter a esse tipo de julgamento?" Ela deixou transparecer a raiva em sua pergunta. Era assim que ela se sentia em relação a escolha dele. Ela sentia raiva.
"O que eu faço ou deixo de fazer é problema meu". Usou o mesmo tom que ela.
"Então por que está preocupado comigo?" Mirela fechou os olhos esfregando a têmpora esquerda com força. Estava com dor de cabeça, seu ouvido latejava e sua mandíbula doía horrores.
"É diferente…"
"Não, não é diferente seu idiota. Você sabia que as suas escolhas podem influenciar na vida de outras pessoas? O que você achou que aconteceria?" Mirela quis dar um soco nele, mas a visão de suas costas anulava a sua vontade.
Saga permaneceu em silêncio absorvendo o que ela acabara de falar. O que ela queria dizer com aquilo? Escolher ser julgado influenciou em que na vida de alguém que não fosse na sua própria? Para ele as pessoas até tinham gostado do espetáculo. Se ela não conseguia entender o propósito de sua intenção, talvez ela não o conhecesse tão bem assim.
"O que foi? Não sabe o responder?"
"O que a minha escolha tem a ver com os outros?"
Ela cerrou os punhos com a estupidez dele. Seu ombro doeu ao fazer aquilo e uma expressão de dor tomou o seu rosto. Ela não sabia o que mais estava doendo, seu ombro ou seu coração.
"Você achou que eu fosse assistir você ser açoitado na frente de todos sem fazer nada? Achou mesmo que os seus amigos que estão no corredor nos dando um pouco de privacidade não estão preocupados com você? Acha que foi fácil para eles ver você sendo destituído de sua armadura e ainda ser humilhado daquele jeito? Acha mesmo que essa decisão ajudou a diminuir a merda da culpa que assola o seu coração? Mudou alguma coisa dentro de você?"
Ela tinha razão. Ele não sentia nada a não ser as mesmas coisas de antes. A tristeza, a dor, o arrependimento, solidão e até mesmo raiva. Raiva por ter sido usado por uma criatura amorfa, uma criatura que planejava acabar com a vida deusa, cujo ele jurou defender com a própria vida. Sentia-se culpado pelo irmão, pelas escolhas que ele acabou tomando por influência sua e pela sua morte.
Mirela notou a briga interna dele. Se ela pudesse pelo menos pegar um pouco da culpa que ele carregava para si. Ela nunca compreenderia os sentimentos dele por completo, não entenderia a necessidade que ela tinha de querer se punir, como se aquilo o livrasse de seu atormento.
"Para você se sentir em paz consigo mesmo, precisa se perdoar". Ela se ajoelhou ao lado de sua maca. Estavam a poucos centímetros de distância. Saga cheirava a ferrugem e suor e aquilo a impulsionava a enfiar a cabeça na curvatura de seu pescoço e absorver aquela fragrância inebriante dele.
"Eu não sei como…" Esticou o braço para colocar uma mecha do cabelo dela atrás da orelha. "Não sei como me perdoar".
"Você é o cavaleiro de ouro de Gêmeos, serve a deusa Athena, use a armadura de ouro e perdoe-se. Se você precisa se redimir com a humanidade, sente a necessidade disso, então faça da maneira correta; da maneira pelo qual foi treinado. Mantenha o mundo seguro como sempre o fez e proteja a deusa junto de seus companheiros e amigos".
"Não sou digno…"
"Quem julga se você é digno ou não é a armadura e ela nunca te deixou. Então não coloque pedras em seu caminho e faça por merecer. Se acha que não é digno, prove-se ser merecedor dela".
"Como posso fazer isso?" Ele segurou sua mão, mesmo ela estando contra o corpo por causa da tipoia, ele a ainda a alcançava. Tentou sentar mais a dor não o deixava ergue o tronco a dez centímetros da maca.
"Sendo um cavaleiro de ouro". Disse esfregando os dedos no dorso de sua mão. "Fazendo o que nasceu para fazer".
Gostava de acariciá-lo e sentir o calor da pele dele. Sempre que ficava perto dele, lembrava do que tinha acontecido entre eles. Queria tanto que Layla não tivesse atrapalhado aquele momento dos dois. Mirela amava Aioros, mas o sentimento que ela tinha por Saga era muito mais forte. Depois que o viu sendo açoitado pela manhã, achou que fosse perdê-lo para sempre. Sentia raiva dele, mas não conseguia deixá-lo de amar. Ela sabia que a atração que sentia por Sagitário não chegava aos pés do que sentia por Saga.
Ela via Aioros como amigo, como um protetor, alguém que estaria lá por ela, mas somente isso. Seu coração não acelerava da mesma forma que fazia ao ver o geminiano. Não perdia o ar ao estar com ele, não sentia as pernas trêmulas e nem borboletas no estômago. Tudo com Saga era diferente. Ela sentia tudo com mais intensidade. Seu amor crescia a cada dia por ele e quando ela se viu sozinha com Aioros naquela sala, ela teve certeza de que Saga era o escolhido. Ela nunca teria parado Saga, ela nem ao menos pensaria em sua virgindade estúpida.
Com Saga ela não tinha medo de nada, não pensava na sua família, no que aconteceria com o seu futuro, ela só pensava no aqui e no agora. Ela queria muito tocar a pele dele, beijar sua boca, sentir a língua dele em contato com a sua. Ergueu a mão para tocar o rosto dele. Saga segurou a mão dela quando os dedos quentes tocaram-lhe a bochecha. Mirela tremeu com o toque dele e deixou um gemido escapar por entre seus lábios.
Ela estava quente, muito quente. Ele sabia que aquela quentura não era normal. Beijou a mão dela devagar, apreciando o cheiro de sua pele. Não pode deixar de notar a reação dela ao ser beijada por ele. Saga queria muito poder levantar e tomá-la em seus braços, mas aquelas malditas feridas em suas costas o impossibilitavam de fazer qualquer movimento brusco.
"Queria muito poder tocar você adequadamente". Confidenciou.
Mirela sentiu as bochechas arderem mais do que já estavam. Ela pensou que aquilo fosse impossível, mas pelo visto não. Aquela reação de seu corpo toda vez que ele lhe tocava ou falava algo era surreal. Tinha coisas que não sabia que podia sentir. Ele tinha esse efeito sobre ela. Se pegava querendo desvendar o desconhecido.
"Saga eu…"
"Tudo bem". Ele a cortou. "Eu sei que você também sente algo pelo Aioros, eu sei esperar".
Mirela não pode deixar de rir com a colocação dele. Então ele ainda achava que ela estava confusa em relação aos seus sentimentos. Puxou a mão de encontro com os seus lábios.
"Eu amo você". Falou sem desviar os olhos dos dele beijando o dorso de sua mão.
Aquelas três palavras o pegaram desprevenido. Ele não sabia que ela já havia se decidido. Ela não falaria aquilo se não fosse verdade, não é? Fez uma força descomunal para levantar e sentar-se na cama. As costas gritavam com ele, mas naquele momento apenas três palavras preenchiam a sua cabeça e coração.
Mirela se assustou quando ele com muito esforço sentou-se na cama e a encarou com os olhos brilhando. Ela não sabia que os azuis dos olhos dele podiam brilhar tanto assim, era como se várias estrelas fizesse ali a sua morada. Sentiu que ele explodiria a qualquer momento. Seus lábios abriram e fecharam várias vezes tomando coragem para perguntar o que é que estivesse em sua mente lhe atormentando.
Ela não pode deixar de rir com aquilo. Ele ficava fofo de mais perdido em seus sentimentos, ela sabia que haviam muitas perguntas em sua cabeça borbulhando. Um vinco se formou em sua testa ao notar que ela achava graça da sua insegurança. Não havia nada a mais que ela pudesse dizer para esclarecer os seus sentimentos. Então fez a única coisa que achou necessário para acalmá-lo. Colocou as duas mãos em seu rosto ignorando a dor em seu ombro.
Ele tentou fazer com que ela não se esforçasse, mas Mirela segurou firme o seu rosto. Saga sentia a respiração dela contra a sua pele, com o dedão ela acariciou um lado de seu rosto antes de puxá-lo diminuindo a distância entre eles. Os lábios dela estavam quentes ao toque, ele podia sentir que os seus lábios estavam gelados em comparação aos dela, com certeza a febre estava alta. Saga experimentou o amor dela naquele beijo.
Ela levou as mãos aos cabelos dele, a aspereza dos fios não impediu que brincasse com o emaranhado de sangue e sujeira. Se permitiu descer com cuidado e tocar as suas costas. Seus dedos tocaram o primeiro corte próximo ao seu pescoço e ela o sentiu tremer de imediato. Se afastou dele o suficiente para tornar a encará-lo. Saga colou sua testa na dela respirando fundo. Suas costas latejavam, mas o beijo era a única coisa na qual ele conseguia pensar.
"Eu amo você". Falou com ternura. Nunca tinha amado ninguém, até ela aparecer. Não conhecia o amor antes, agora tinha certeza de como era ser amado e amar alguém. Não queria desgrudar os braços e o corpo do dela, não queria se afastar, se pudesse permaneceria ali pela eternidade. Sentindo o calor de seu corpo e carinho em cada toque que ela desferia.
Saga secou as lágrimas que escorriam pelo rosto dela. Lágrimas essas que ela mal tinha se dado conta que rolavam pelo seu rosto. Seu dia tinha começando de forma estranha. Ela queria ficar sozinha, se isolar de tudo e todos e voltar para casa, depois ela presenciou uma cena horrenda e que com toda certeza ainda lhe atormentaria e, agora ela estava com ele se declarando e descobrindo que os seus sentimentos eram correspondidos.
Algo no fundo do seu peito queimou, lhe aquecendo por completo. Cada parte de seu corpo vibrou com aquela nova sensação. Aquilo era felicidade? Amor? Mirela notou o olhar de Saga se intensificar cada vez que aquele calor aumentava dentro dela. Ele tentou se afastar por causa da intensidade da luz que emanava dela, mas Mirela o segurou firme o obrigando a fechar os olhos. Sentiu o toque de seus dedos em suas costas, assim como a boca dela na sua.
Dessa vez o beijo se aprofundou de tal forma que não se importou com o barulho de passos no cômodo, não se importava com a mão dela alisando as suas costas machucadas, ele já nem sentia mais dor, só um calor agradável como se o sol estivesse lhe agraciando com a sua presença. Sim, era aquilo! Mirela era o brilho do sol em sua vida. Era ela que lhe aquecia o seu coração gelado. Saga sentiu uma brisa refrescar a sua pele e uma alegria transbordar de seu peito. Mirela era dele, assim como ele era dela.
