"E que nunca nos falte a esperança de dias melhores".
Mundo Inferior – Castelo do Imperador Hades.
Ares se aproximou da entrada do submundo com certo receio do que estaria por vir. Ele tinha uma meta traçada em sua cabeça e esperava que as coisas funcionassem de acordo com que havia planejado. Passou por cérberos e entrou no domínio de Hades. Algumas almas se distanciavam dele assim que percebiam quem ele era. O deus da guerra nem se dava ao trabalho de encará-las.
Parou diante os portões de ferro fundido do castelo onde a alma de Hades estava selada. As grandes portas se abriram sozinhas revelando um interior um tanto quanto peculiar. Tudo era muito frio e escuro. Paredes de uma tonalidade de cinza escuro, assim como o piso. Sombras se esgueiravam pelos cantos dando um certo arrepio em quem adentrasse aquele local. Tudo incitava o medo.
Escutou uma voz melodiosa preencher o ambiente. Lá estava ela. Seus longos cabelos castanhos esvoaçavam conforme apertava o passo para ficar diante dele. Perséfone era a única cor que dava vida aquele local morto. Sua veste branca com dourado chegava a abrilhantar um pouco o cômodo mostrando a Ares que nos cantos sombrios daquele castelo seres repugnantes rastejavam a espera de algum deslize do deus.
"O que deseja, Ares?" Seu tom era amigável.
"Gostaria de ter uma conversa com você, minha querida". Ares estendeu o braço na direção da mulher que o aceitou um tanto quanto receosa. "Andei conversando com Afrodite". Começou ele despreocupado.
Perséfone sabia do caso dele com a deusa do amor, aquilo não era segredo para ninguém, a não ser para o deus do fogo. Apesar de não gostar do que os dois faziam pelas costas de Hefesto ela não se intrometia nos assuntos deles.
"E qual era o assunto da conversa? Suponho que deva me interessar". Perséfone não era estúpida. Se Ares tinha se dignado ir até o mundo inferior, era porque o mesmo queria alguma coisa. "Diga".
"Afrodite não para de se lamentar sobre o tio". Ele estudou o semblante da deusa "Ela não acha justo você permanecer esse tempo inteiro no submundo sem poder desfrutar do calor dos braços de Hades".
"Meu marido está selado, Ares". Ficou evidente a pontada de dor em sua voz "Ele escolheu seguir um caminho, cujo eu, como sua esposa, não acho certo". Agora ela havia parado de andar para poder encarar o deus da guerra nos olhos. "Está pagando por isso".
"Eu compreendo". Ele tentou soar atencioso e compreensível. "Contudo, acho que temos uma solução para os seus problemas".
"E quem lhe disse que eu tenho algum problema, Ares?" A deusa da agricultura estreitou os olhos a fim de avaliá-lo melhor. "Vá direto ao ponto".
"Afrodite sabe como trazer Hades de volta sem ter que esperar mais". Ele não sabia ficar enrolando, não tinha tato para essas coisas.
"Suponho que trazer o meu marido de volta signifique alguma coisa para você". Perguntou.
"Não me leve a mal, Perséfone". Colocou os ensinamentos de Afrodite em ação. Ele sabia que Perséfone não faria nada para prejudicar Athena, então teria que apelar para o egoísmo da deusa. Tentou soar o mais ultrajado possível sem parecer falso. "Estou aqui por causa de Afrodite. Ela é a deusa do amor, você sabe como ela fica infeliz ao ver um casal sofrendo".
Perséfone pensou naquilo por uns segundos. Ares aproveitou para continuar a encher a cabeça dela com dúvidas.
"Não seria fantástico poder viver de fato com Hades sem se preocupar com a deusa da sabedoria?" Ele tornou a puxá-la, indo em direção a uma grande janela. "Olhe para o reino do seu marido". Ele apontou para as planícies desmatadas, labaredas de fogo consumiam galhos secos de árvores e gritos podiam ser escutados "Quer mesmo permanecer neste mundo sem o amor da sua vida? Tenho certeza que você não suporta ficar aqui sem ele".
"E como podemos trazer ele de volta?" Perguntou ludibriada por ele. Ares tinha razão, ela não queria permanecer naquele mundo sem Hades. Se suportava aquele horror era por amor incondicional ao deus do submundo.
Lá estava a vitória. Era quase palpável agora. Ele podia ver o santuário pegando fogo, a estátua de Athena sendo destruída e seus cavaleiros tão preciosos perecendo, um por um.
Perséfone estava na palma de sua mão e com isso, Athena pagaria muito caro por tudo o que havia feito com ele. Ela e os seus bichinhos humanos sofreriam em suas mãos. Uma nova era banhada de sangue e terror estava para começar.
"É simples". Ele apoiou as mãos nos ombros dela "Só quem pode libertá-lo é alguém que o ame verdadeiramente. Ou melhor dizendo, um ato de amor verdadeiro".
"Eu o amo, Ares". Disse cheia de esperanças. "Faria qualquer coisa por ele".
"Eu sei". Sorriu. "É só você ir onde sua alma está selada e retirar o selo".
"Somente isso?" Ela perguntou incrédula. "Não terá nenhum tipo de consequências?"
"Se você não for digna do amor de Hades, isso poderá te consumir e a sua alma será arremessada para o tártaro". Falou dando de ombros. "Mas, como todos nós sabemos, Hades é apaixonado por você, se não, não a teria raptado e a ludibriado a comer aquela romã".
"Não me lembre disso". Bufou irritada. "Nosso amor pode ter começado errado, mas nos estamos muito bem agora. Eu o amo e ele me ama".
"Então retire o selo". Incentivou.
"Vou pensar no assunto, irmão".
E com aquela resposta Ares sabia que o assunto havia se encerrado. Ele fez uma pequena reverência para mulher mostrando respeito e a deixou sozinha. Voltando para o Monte Olimpo onde esperaria ansiosamente a mulher tomar a decisão que mudaria a sua vida.
Contudo, Ares tinha deixado um detalhe de lado. Mesmo sendo digna do amor de Hades o preço a pagar pela retirada do selo seria a sua imortalidade. Somente o deus que o aprisionou poderia tirar o selo sem sofrer dano algum. Aquilo tinha ficado claro como águas cristalinas que corriam pelos rios do monte olimpo para Ares.
As moiras o haviam alertado sobre isso. Ele lembrava-se perfeitamente das palavras ditas por elas:
"Só o amor verdadeiro poderá abrir o lacre que prende aquele que lhe ajudará nessa sua jornada". Cloto olhava para o tear de forma séria. "Uma vida por outra".
Uma vida por outra. Tinha ficado claro que Perséfone teria que se sacrificar para trazer Hades de volta, mas aquele detalhe ela não precisava saber. Ares estava satisfeito com o que havia feito e sabia que logo poderia sentir o cosmo de Hades preencher mais uma vez o mundo dos vivos, pena que teria que ser as custas de seu grande amor.
Ele olhou mais uma vez para o Castelo imponente de Hades e seguiu o seu caminho, pois agora ele teria que se livrar de uma certa garota que poderia colocar todos os seus planos a perder.
"Se você quer algo bem-feito, faça você mesmo". Disse assim que passou pelo cão de três cabeças.
Santuário.
O primeiro grupo já tinha lutado e um garoto talvez mais novo do que ela, tinha conseguido derrotar homens com o dobro de tamanho do cavaleiro de Touro. O que fez Mirela pensar em Seiya lutando mais uma vez contra Cassius.
Ficou feliz em perceber que aquele primeiro grupo não tinha sido tão violento quanto ela achava. Parecia com as lutas da UFC, um homem que ela supôs ser o juiz ficava rondando o grupo, ele observava os movimentos e se teria que interromper ou não a luta. Shion fez questão de esclarecer que eles não lutavam até a morte, que isso tinha se perdido há muito tempo, para a satisfação de Mirela.
O segundo grupo, este por sua vez continha uma mulher. Começaram a se engalfinhar e ficou claro para Mirela que os homens queriam eliminar a mulher primeiro antes de um acabar com o outro, o que a deixou incomodada. Ela até tentou falar com Shion, mas ao olhar para a frente mais uma vez, percebeu que a amazona estava dando uma surra em todos eles. Seus longos cabelos vermelhos como o fogo esvoaçavam conforme a brisa vinha do mar e Mirela se perguntou várias vezes se aquela máscara não era desconfortável.
Por fim, a mulher foi a única que havia se mantido de pé. Mirela se sentiu feliz por ver que ela tinha sobrepujando os homens. Com dois já classificados para as semifinais, o torneio deu uma parada para as pessoas interagirem umas com as outras e se alimentarem, já que o sol estava a pino e o calor que fazia era insuportável.
"O que você está achando?" Perguntou Shion, próximo ao seu ouvido.
"Um pouco bárbaro, mas até que é bem diferente do que eu imagina". Disse sorrindo.
"Como você imaginava?" Perguntou curioso. Não era todo dia que ele podia desvendar como era a percepção de alguém de outro mundo a respeito de seus costumes. Ele já sabia o que ela achava sobre seus julgamentos, agora queria muito saber sobre o que ela pensava a respeito do torneio.
"Eu imaginava mais sangue, sendo honesta". Mirela pegou uma jarra de água depositando um pouco em seu copo. "Achei que fosse ver gente arrancando membros de alguém, essas coisas". Sorveu um pouco do líquido sem tirar os olhos da grande arena a sua frente.
"É isso que acontece em seu mundo?"
"Não!" Ela quase engasgou com o que ele falou. "Não, de jeito nenhum. Lá existem vários esportes de luta e são bastante parecidos com o que vejo hoje aqui".
"Fico feliz que isso não tenha se tornado algo ruim para você".
Ela sabia que ele estava se referindo ao dia do julgamento de Saga. Definitivamente ela nunca compreenderia o que tinha acontecido aquele dia e como as pessoas podiam gostar tanto de ver outra sofrendo. Mas resolveu não entrar nesse assunto.
Pegou uma maçã e se concentrou em Saga que estava de pé junto dos outros observando a multidão andar livremente pelas arquibancadas. Logo as pessoas foram voltando para os seus lugares e ficou claro que se iniciaria mais uma vez as lutas.
Um novo grupo pisou na arena e as lutas se iniciaram, dessa vez era composto por duas mulheres e Mirela se pegou torcendo para elas. Nem percebeu que Shion a encarava enquanto ela vibrava gritando para as mulheres não desistirem. O grande mestre tinha um sorriso no rosto de orelha a orelha, encantado com a forma que ela encorajava as amazonas a não desistirem.
Para alegria de Mirela, as duas amazonas sobraram e começaram uma dança muito elaborada de socos e chutes que a deixou encantada. Ela queria muito aprender a se defender, claro que sabia que nunca chegaria no nível delas, mas queria muito aprender o mínimo.
"Será que eu consigo ser treinada dessa forma por Shaka?" Ela se ouviu perguntar e escutou um sonoro sorriso vindo de Shion.
"Com certeza". Ele falou sem tirar os olhos das duas amazonas. "Ele com certeza faria um trabalho excepcional com você".
"Vou pedir para retomar os treinos". Disse contente. Ela precisava disso, queria voltar a normalidade. As coisas já estavam em seus devidos lugares e os cavaleiros pelo jeito só teriam que se preocupar com Hades daqui há no mínimo quinze anos.
"Acho que ele vai gostar, mas com certeza a tratará um pouco diferente". Declarou Shion.
Ela compreendia o que ele queria dizer. Agora que eles sabiam que ela era o receptáculo de Athena, eles a tratariam como se ela própria fosse a deusa, por mais que isso não fosse verdade. Aquele corpo era dela, era a sua alma habitando-o e não a da deusa.
"Se ele pegar leve, nos vamos brigar".
"Tá ai algo que eu gostaria de ver". Disse Shion divertido. "Ninguém consegue tirar Shaka dos eixos".
"Será?" Ela procurou por ele no meio dos dourados e não se surpreendeu os vê-lo com a cabeça inclinada para trás, como se estivesse olhando para eles. "Vamos ver se ele é realmente o cavaleiro mais próximo de Deus".
Shion colocou seu cálice de ouro em cima da mesa e encarou a mulher de longos cabelos castanhos. Ela tinha um sorriso divertido no rosto e aquilo aquecia o seu coração. Depois de tudo o que aconteceu, era gratificante vê-la descontraída e curtindo estar no santuário com eles. Ele segurou a mão dela com carinho e Mirela retribuiu o aperto que ele lhe deu.
"Estou feliz por você". Ele declarou sem soltar a mão dela. "Estou feliz que esteja com Saga".
"Obrigada". Disse sem jeito.
"Você sabe que precisa conversar com Aioros, não sabe?" Ele não queria tocar nesse assunto, mas como "pai" dos cavaleiros de ouro, ele precisava cuidar de todos do mesmo jeito. E sabia que o sagitariano estava sofrendo calado.
"Eu sei". Mirela encarou as costas do cavaleiro. Era possível ver suas assas brilhando por causa do sol. Mirela olhou para o lado e sentiu Layla ficar tensa com a conversa dos dois. O que será que estava acontecendo com ela? Não pode deixar de pensar.
"Layla". Mirela chamou a amiga.
A mulher que até então tinha estado calada o tempo inteiro apenas observando o desenrolar do torneio, volte-se para amiga.
"Sim, senhorita".
"Será que você se importa de me acompanhar até o banheiro?" Perguntou sem graça.
"Não senhorita, de jeito nenhum". Ela estendeu a mão para Mirela que pegou de imediato. As duas deixaram Shion para trás e se encaminharam para as laterias da arena onde os vestiários femininos e masculinos ficavam. Ela passou pelo primeiro grupo que tinha disputado mais cedo pela armadura de Pégasos. Eles a cumprimentaram e ela trocou rápidas palavras com os mesmos antes de entrar no vestiário destinado as mulheres.
Para sua sorte o mesmo estava vazio. Ela lavou as mãos, molhando os pulsos e o pescoço, tentando pensar em um jeito para falar com a amiga. Mirela notou que Layla estava na porta do banheiro vigiando se alguém entraria.
"Layla". Chamou Mirela, fazendo com que a atenção da mulher fosse voltada para ela.
"Sim, senhorita".
"Você gosta do Aioros?" Resolveu ser direta. Ela era mulher, conseguia muito bem ler a amiga, sabia que tinha alguma coisa errada e sempre que o nome do dourado era citado Layla ficava rígida e mudava a forma como falava com ela.
"Gosto". Não mentiria para Mirela e agora que a mesma tinha feito a sua escolha, o caminho estava livre para ela investir no sagitariano, por mais que ele não a enxergasse da mesma forma. "Sou apaixonada por ele desde o momento em que o vi". Confessou.
Mirela não sabia o que dizer. Só conseguia pensar na época em que estava dividida entre os dois e nas conversar que elas tinham. Muitas das vezes desabafou com a mulher sobre o que sentia por Aioros. Inclusive, Layla havia presenciado vários momentos dos dois juntos, momentos íntimos de carinho.
"Por que não me disse antes?" Perguntou quando finalmente encontrou a própria voz.
"Porque eu sou apenas uma serva, não mereço o amor de um cavaleiro de ouro e ele está interessado na senhorita, não queria ser mais um empecilho na vida da senhora".
"Nunca mais diga uma coisa dessas". Mirela tratou de adverti-la. "Você é minha amiga, não é uma serva. E se você tivesse me dito antes, talvez as coisas fossem mais fáceis de se resolver. Eu sempre amei o Aioros, mas, no fundo, eu sabia que o nosso relacionamento era muito mais que algo íntimo. Ele é precioso demais para mim, mas eu não consigo enxergá-lo da forma que você o vê".
"Eu sei. Eu sempre soube que sua escolha seria por Saga. Quando e os peguei aquele dia, eu vi o seu olhar. Não tinha só desejo ali, tinha amor, paixão e eu me peguei pela primeira vez sentindo inveja da senhorita. Você tinha dois homens aos seus pés, e eu só queria que um deles me enxergasse".
"Eu sinto muito, Layla". Mirela não sabia o que dizer. Ela queria ajudar a amiga a conquistar Aioros, mas não sabia como fazer isso ofender ela e o próprio Aioros. Talvez deixar as coisas seguirem o seu rumo aos poucos fosse a melhor decisão. "Eu vou conversar com Aioros, vou colocar os pingos nos i".
Layla a encarou sem entender a última expressão dita pela garota, mas assentiu.
"Eu quero que ele seja feliz". Disse enxugando as lágrimas. "Eu serei feliz em saber que ele está feliz".
"Eu te entendo". De fato Mirela a entendia muito bem. Ela mesmo pensava isso em relação a Saga. Se ele fosse feliz sem ela, já bastaria para acalentar o seu coração. Se por ventura ela viesse a voltar para o seu mundo e soubesse que Saga estava vivo e feliz, aquilo bastaria. "Vamos voltar para a tenda".
"Sim, senhorita".
Mundo Inferior – Castelo do Imperador Hades.
Perséfone andava em círculos preocupada com a decisão que deveria tomar. Ela havia dito a Ares que pensaria no assunto, mas sabia que a sua escolha já havia sido tomada assim que ele mencionou a possibilidade de libertar a alma de Hades. Seus passos a levaram até a sala onde um grande caixão em ouro amarelo flutuava sob a luz da lua.
O mundo inferior tinha seu próprio céu. Geralmente ele sempre se mantinha escuro com camadas de nuvens cinzas que Perséfone logo quando foi "morar" com Hades descobriu que eram névoas vindas dos confins do submundo. Quando estava dia, o céu ficava meio alaranjado como um final de tarde, só que mais fantasmagórico.
Ela parou em frente ao caixão e passou os dedos finos sobre as figuras incrustadas no ouro. Eram desenhos que representavam as Guerras Santas que Hades travara com Athena. Ele fora esculpido em sua armadura divina e segurava sua espada em riste apontando para a deusa e seus cavaleiros de ouro. Atrás dele, todos os espectros e ao seu lado, os dois deuses irmãos – Thanatos e Hipnos.
Um brilho dourado emanava da caixa, mas não era por causa do ouro, Perséfone sabia que aquele brilho era o cosmo do deus do submundo. Não tinha muito mistério, era simples o processo de liberar o selo. Ela tinha que apenas levantar a tampa e estava feito.
"Por você meu amor, eu sou capaz de qualquer coisa". Disse baixinho olhando para as próprias mãos sobre o caixão. "Sinto falta de viver ao seu lado, longe da guerra que você tanto almeja ganhar. Quero tanto poder desfrutar da sua presença sem ter que dividi-la com mais ninguém".
Ela olhou para a lua e em um pedido silencioso, desejou que Hades voltasse para os seus braços e que o amor que eles nutriam um pelo outro fosse capaz de superar as desavenças que ele tinha contra a deusa.
"Desculpe ser egoísta, mas dessa vez eu o quero só para mim". E dizendo isso ela levantou a tampa fazendo com que o cômodo fosse banhado pela luz dourada.
Santuário.
Layla se sentia mais leve por ter colocado para fora o que guardava a sete chaves de Mirela. As duas tinham acabado de sair do vestiário quando Mirela cambaleou para a frente caindo de joelhos no chão.
"Senhorita". Layla se ajoelhou ao seu lado preocupada. "Está se sentindo mal?"
"Eu não sei o que aconteceu". Ela se apoiou na amiga para conseguir ficar de pé. "Eu senti uma coisa estranha". Falou procurando o rosto de Saga pela multidão que continuava a aplaudir e gritar.
Não foi difícil achá-lo, já que os cavaleiros de ouro tinham largado o seu posto e estavam todos dentro da tenda conversando com Shion que parecia perturbado.
"Aconteceu alguma coisa". Mirela confidenciou a amiga.
"O que a senhorita quer dizer?" Layla começou a olhar para os lados a procura de algum inimigo, mas tudo parecia normal. O torneio continuava e as pessoas pareciam completamente felizes com o que viam. Ela olhou para a tenda, buscando o cavaleiro de Sagitário, ela poderia lê-lo com facilidade.
Ele gesticulava conforme falava e o seu rosto era sério e indecifrável. Definitivamente estava acontecendo algo. Layla sentiu a mão gelada de Mirela tocar-lhe o braço.
"Eu preciso me sentar". Disse Mirela.
"Sente-se aqui". Layla a levou até a ponta da arquibancada, onde estava vazio, já que a maioria das pessoas se concentrava no meio para ver melhor a luta. "Eu vou chamar o cavaleiro de gêmeos para te ajudar".
"Obrigada".
Mirela observou a amiga se enfiando no meio da multidão. Logo os cabelos castanhos claros dela se perderam e ela não pode mais distinguir Layla dos cidadãos de Rodório. Olhou para a Tenda que ficava a um nível superior e procurou os olhos de Saga que para a sua surpresa também a procurava no meio da multidão.
Quando seus olhos se encontraram, ela constatou um alívio acometê-lo e não podia julgá-lo, já que sentiu-se da mesma forma. Ela acenou e ficou evidente para ele que ela não estava bem. Mirela o observou falar qualquer coisa com Shion que direcionou o olhar para ela, ao mesmo tempo que Layla chegava na tenda e apontava em sua direção.
Um clarão cruzou os céus e o sol se escondeu timidamente atrás das nuvens que há alguns segundos não estavam ali. Em seu âmago, ela sabia o que estava para acontecer. Reuniu todas as forças que tinha e tornou a se levantar. Iria encará-lo de frente, como a suposta deusa que ela era.
Uma labareda de fogo irrompeu o céu fazendo com que trovões rugissem como leões famintos. Rapidamente tudo escureceu, o dia se tornara noite e Mirela teve que se controlar para não levar as mãos aos ouvidos e recuar diante da presença do deus da guerra que trajava a sua armadura divina em preto e vermelho.
Ele apontou a sua lança na direção de Mirela que involuntariamente recuou alguns passos, fazendo com que um sorriso brotasse nos lábios do deus.
"Vejo que não é imune a mim". Sua voz saiu fria e seca.
Para Mirela ele seria lindo, como toda aquela imponência e magnitude. Seus longos cabelos escuros como a noite caiam como cascatas por trás de sua armadura tão bela quanto o deus, entretanto, só de olhar ela sabia o quão ruim o deus era. Um arrepio lhe acometeu assim que percebeu que os cavaleiros de ouro vinham em sua direção e uma gritaria sem fim se sobressaía aos trovões.
"Veio me matar?" Perguntou querendo ganhar tempo.
"Não. O que te aguarda é pior do que a morte". Falou com um sorriso cínico nos lábios.
"Você não ousaria". Ela nem sabia o por quê tinha dito aquelas palavras. Ela simplesmente deixou escapar. É claro que ele ousaria machucar Saga. Era assim que ele a faria sofrer. Matá-lo na sua frente acabaria com toda a esperança que sentiu ao salvá-lo de Lêmur.
"Você acha mesmo que o que vou fazer tem a ver com Saga?" Seu deboche era evidente e fez com que os cabelos do braço de Mirela se arrepiassem. "Eu vou matá-lo em batalha, mas primeiro vou desestabilizar todos os cavaleiros de Athena, mandando você de volta!"
E quando ela compreendeu as palavras dele, procurou por ele na multidão que só atrapalhava o grupo a chegar perto deles. Ela queria poder dizer que o amava, mas nem isso Ares a permitiria. Ele apontou a lança na direção de seu peito no mesmo instante em que escutou o seu nome sendo proferido aos berros por Saga.
"Adeus…" Foi a única coisa que conseguiu falar antes de ser engalfinhada por uma luz dourada e logo depois tudo ficar escuro.
