"Meu amor por você é como o universo: mesmo sendo infinito ainda continua em expansão".


Brasil. Rio de Janeiro - Friburgo.

Mirela acordou com o barulho de um bipe regular. A primeira coisa que fez ao abrir os olhos foi se acostumar com a claridade do cômodo. Sentia seu corpo doendo em todos os lugares possíveis, até mesmo nos que ela nem sabia que existiam. Sentou-se e só ao fazê-lo sentiu tudo girar. Ela estava em um quarto. Ele era um pouco familiar, as longas janelas e a vista para a mata lhe fazia lembrar do hotel em que se hospedou meses atrás em Friburgo.

Olhou para os lados e viu uma mala no chão aberta. As roupas que estavam meticulosamente dobradas eram tão parecidas com as suas próprias. Esfregou os olhos por alguns segundos tentando lembrar o que tinha acontecido. Onde ela estava e por que sentia-se tão confusa. Não foi preciso muito tempo para as imagens de um mundo completamente diferente do seu lhe invadir a mente.

Lembrou-se do cheiro do mar, de uma cidadezinha humilde e de como as pessoas eram acolhedoras, da sensação ao ser tocada por mãos quentes e grandes. Seu coração se contraiu em seu peito de forma intensa. Doía lembrar daquelas coisas que ainda não fazia sentido para ela. Levou a mão ao peito esfregando-o com ardor, com a ilusão de que ao fazê-lo, aquela sensação iria embora.

Seus dedos finos tocaram algo gelado em sua garganta. Um cordão ela supôs Levantou-se cambaleando até a frente do espelho para poder analisar melhor o seu estado. Mal lembrava-se de seu próprio rosto. Seus cabelos estavam desgrenhados, sua roupa era um tanto quanto peculiar demais aos seus olhos.

Um vestido branco de um ombro só bordado com fios dourados, ela podia jurar que era ouro, mas achou melhor deixar essa questão de lado, pois sua atenção estava voltada para o cordão em seu pescoço. Ela tinha certeza que aquele cordão não era seu, mas só de olhar para ele a dor em seu peito se intensificou.

Apoiou as mãos na cômoda colocando o peso do seu corpo ali. Ela precisava se lembrar o que tinha acontecido. Respirou fundo tentando em vão acalmar as batidas descompassadas de seu coração. Fechou os olhos e, ao fazê-lo, imagens foram preenchendo a sua mente. Uma atrás da outra. Rostos, lugares, momentos.

Quando finalmente tudo tinha voltado ao seu devido lugar em sua mente, seu corpo estava tremendo, suas lágrimas não paravam de rolar pelo seu rosto e um pavor avassalador fazia com que os seus ossos doessem. Ela só pensava em Ares.

"Merda!" Mirela gritou ainda segurando com força a cômoda. Seus dedos estavam brancos e dormentes de tanta força que ela aplicava na madeira. "Athena, por favor, me mande de volta!" Implorou desesperada.

Não obteve resposta.

Levou a mão até o cordão segurando firme. Sempre que fizera isso e pensava na deusa, era trasportada até o Monte Olimpo, tinha que dar certo daquela vez também. Seus pensamentos gritavam com fervor o nome da deusa da sabedoria, implorando para que ela lhe levasse de volta até os cavaleiros de ouro, até Saga. Contudo, por mais que ela limpasse a sua mente e só focasse em Athena, nada acontecia.

Arrancou o cordão do pescoço jogando-o do outro lado do quarto. Seu corpo foi de encontro ao chão vencido pelo cansaço e pela dor tão palpável que lhe consumia por inteiro. Abraçou os joelhos e ficou como uma bola encolhida chorando pelo que havia perdido.

Ficou por horas naquela posição, mesmo quando bateram em sua porta, ela não se moveu. Estava em um estado de torpor, ou até mesmo choque. Apesar de escutar o que acontecia a sua volta, não conseguia se levantar, não conseguia seguir em frente.

A porta do quarto se abriu revelando uma mulher de uniforme, seus cabelos estavam presos em um coque baixo e seu crachá dourado lhe remetia as armaduras de ouro dos seus cavaleiros. Tornou a chorar ao associar aquele objeto tão pequeno e insignificante a algo tão importante.

"Senhorita, você está bem?" A mulher perguntou preocupada. Mirela queria muito responder a ela, mas não encontrava a própria voz. "Eu vou pedir ajuda".

Ela a viu se afastar e se encolheu mais ainda quando notou que mais uma vez estava sozinha naquele quarto. Automaticamente pensou em Layla, a mulher lhe fazia companhia a tanto tempo que se imaginar sem ela fazia o buraco em seu peito de abrir mais.

Longos minutos se passaram até a porta se abrir novamente e dois homens vestidos com uniformes médicos adentraram o quarto se ajoelhando ao lado dela e começaram o processo de verificação de sinais vitais. Deixou seu corpo ser manuseado por eles o tempo inteiro, já que seus pensamentos estavam longe.

Apesar de escutar as vozes dos homens, não conseguia assimilar o que eles estavam falando. Ela tinha certeza que estavam perguntando qual era o nome dela, se tinha alguma família ou algum telefone que eles podiam usar para entrar em contato com alguém. Levou as mãos a cabeça nervosa.

Por que aquilo estava acontecendo com ela?

O que havia feito de errado?

Será que por mexer com o Destino teria que pagar aquele preço?

Fechou os olhos obstinada a esquecer tudo que acontecia a sua volta. Não queria saber de mais nada, só se afogar em suas memórias doloridas.


Brasil. Rio de Janeiro Capital.

Três meses havia se passado e Mirela se encontrava perdida em pensamentos no seu quarto. Depois que recebeu alto do hospital e começou a fazer tratamento para depressão, sua vida tinha melhorado um pouco, mas sempre se pegava preza em um mundo do qual não podia contar para ninguém.

Toda vez que alguém mencionava qualquer coisa relacionada a cavaleiros do zodíaco saia de perto. Não queria saber, pois se manter ignorante a tudo que envolvia aquele universo fazia com que a sua dor diminuísse. Não escutou a porta se abrir, na realidade não escutava muitas coisas desde que voltara do Santuário. Sua mãe colocou a roupa limpa dobrada em cima da cama e ficou parada observando Mirela encarar as próprias mãos por um bom tempo.

"Eu queria muito saber o que aconteceu com você em Friburgo". Sua voz saiu em um sussurro. Aquilo não bastou para a filha lhe encarar. Ela sabia que Mirela não estava presente com eles, seu corpo poderia estar ali, mas a sua alma estava em outro lugar.

Vendo que Mirela sequer lhe dava atenção suspirou a deixando sozinha. Ninguém conseguia fazer a garota falar, nem mesmo o psicólogo fez com que ela mencionasse o que tinha acontecido naquele final de semana em Friburgo. Mirela olhou para as roupas na cama e automaticamente pensou em Layla, em como a mulher lhe ajudava com coisas simples do dia a dia. Ela tinha costurado vestidos maravilhosos para ela, só porque Mirela não queria usar os vestidos da deusa Athena.

Levantou-se a contragosto e guardou as roupas em seus lugares. Demorou-se um pouco mais no armário, pois seus olhos capturaram um tecido branco com bordados dourados nas mangas e saia. Seus dedos dedilharam a costura sentindo falta da maciez do tecido em sua pele. Era uma das poucas coisas que tinha do Santuário com ela além do cordão de ouro que guardava em sua caixinha de joias.

Logo quando sua família a encontrou no hospital ao qual o hotel a designou depois de achá-la, seus pais lhe perguntaram onde ela tinha comprado o vestido, já que os funcionários tinham lhes dito que a garota não havia saído do quarto para nada.

"Você não é de comprar vestidos, e os que você possuí foi eu quem os comprou". Sua mãe dizia conforme preenchia a papelada para lhe tirar do hospital. "Tenho certeza que o teria visto caso o tivesse comprado antes de viajar". Seguia especulando.

O cordão foi a única coisa que passou despercebido aos olhos de seus pais, já que joias era algo que Mirela usava bastante, não as extravagantes como as que sua mãe gostava, mas as delicadas e finas. O cordão se encaixava perfeitamente dentro do gosto da garota, o que não levantou suspeita, mas, mesmo assim, Mirela o guardou, para evitar possíveis problemas futuros.

Fechou a porta do armário e antes que pudesse se jogar na cama mais uma vez, seu irmão Martin abriu a porta em um rompante. Seus cabelos loiros e agora curtos estavam bagunçados e seus olhos de um azul tão claro pareciam vermelhos, como se o mesmo tivesse chorado a noite toda.

"Temos que conversar". Ele se aproximou a pegando pelas mãos. "Você vai viajar comigo para a África daqui a três dias, então arrume as suas coisas".

"Eu não quero sair do Brasil". Falou.

"Mas você vai!" Martin a direcionou até a cama e os dois sentaram um de frente para o outro "Preciso que vá comigo, não vou suportar ter que vê-la em alguma clínica para pessoas com problemas mentais".

"O que quer dizer com isso?" Mirela o encarou. Seus olhos pela primeira vez expressando algum tipo de reação.

"Nossos pais…" Ele não tinha coragem de encará-la. "Eles acham que você pode estar com algum problema mental". Disse triste. "Eu sei que você só está triste e solitária. Eu sinto isso". Martin apertou mais aos mãos da irmã. "Sinto como se você não pertencesse mais a esse lugar, como se quisesse estar em outro".

Mirela não pode deixar de sorrir com o comentário dele. Ele a conhecia tão bem. Desde que voltou do Santuário evitava ficar perto de Martin por ele lembrar muito Afrodite. Era um martírio muito grande carregar aquilo tudo sozinha, queria tanto contar para ele, mas só de olhá-lo seu coração latejava. Um buraco se abriu em seu peito e garras afiadas arranhavam as bordas querendo abri-las a todo o momento em que se pegava pensando no outro mundo. Olhar para Martin era ter uma fera arisca dentro do peito esfolando-a de dentro para fora.

"Se eles me querem em um hospício, tudo bem, irei de bom grado". Disse voltando ao tom indiferente. Seria a melhor solução para todos. Assim ela poderia se afundar em seu próprio mundo sem dar trabalho a ninguém.

"Você não pode estar falando sério". O desgosto em sua voz era palpável. "Não vou deixar você se afundar, você vai comigo. Verá que existem pessoas em uma condição de vida pior que a sua".

Mirela sabia que aquilo não tinha sido um pedido e sim uma ordem. Ele era mais novo do que ela, mas já mandava nela como os gêmeos. Se era isso que ele queria, então iria com ele. Nenhum lugar poderia mudar o que tinha acontecido com ela. Nada a faria se sentir melhor.

"Esteja preparada para daqui a três dias". Falou lhe beijando a testa e em seguida a deixou sozinha.


Em algum lugar da África.

O sol esquentava muito naquela região e Mirela teve que usar roupas que lhe cobriam o corpo inteiro para se manter protegida. Já estava na África a três meses com o irmão e agradecia aos céus por ter embarcado naquela aventura com ele. Martin cursava engenharia civil e tinha se inscrito em uma ONG que prestava serviços voluntários em comunidades carentes na África.

Ele, assim como outros, construíam casas para a população mais pobre e Mirela os ajudava no que podia. Quando chegou no país descobriu que os seus problemas eram insignificantes perto daquela gente que sofria por falta de água, comida e saneamento básico.

Mesmo não tendo nenhum diploma, ensinou muitas crianças a lerem e escreverem o seu próprio nome. Sentia-se feliz ao ver o progresso que aquela pequena comunidade afastada da cidade grande fazia. Era gratificante ver o sorriso no rosto dos adultos e das crianças a cada letra aprendida ou a cada casa erguida. Aprendeu a dar valor as pequenas coisas e a apreciar os pequenos momentos de felicidade que aquele povo lhe proporcionava.

Conheceu lugares, pessoas e se inscreveu em novos projetos. Já estava inscrita em outro grupo que dali a dois meses viajariam para o Haiti levando comida, água e medicamentos. Mirela sabia que se parasse de fazer aquele trabalho voluntário, seja ele qual for, o buraco em seu peito se abriria novamente e ela não sabia se aguentaria a dor de novo.

Estava sentada em uma larga varanda de tábua corrida e desgastada pelo tempo olhando o pôr do sol. O céu era uma mistura de amarelo, laranja e vermelho e uma brisa quente açoitava a sua pele. Escutou a madeira ranger, mas não se virou para ver quem era.

"O pôr do sol daqui é maravilhoso".

"O pôr do sol é lindo em todos os lugares, Derick". Mirela respondeu sem tirar os olhos da grande bola amarela que começava a se esconder por detrás da linha do horizonte.

"Você tem razão". Ele respondeu sentando-se ao seu lado. "Não existe nada mais bonito do que o sol".

Ela podia fazer uma lista das coisas que considerava bonitas para ele, porém ele nunca entenderia do que ela estava falando. Pensou nas construções magníficas do Santuário. Na arena, nos templos, no próprio santuário da deusa. Pensou nas armaduras de ouro e nos seus respectivos cavaleiros, nas casas. Em como a cor do cosmo era dourada e quente. Nas mãos suaves e gentis de Saga…

"O que você quer?" Perguntou cortando a linha de seus pensamentos. Não queria se afundar naquilo mais uma vez. "Está precisando de algo?"

"Eu preciso querer algo para desfrutar da sua presença?" Ele perguntou se tirar os olhos do sol que agora era apenas uma linha fina no horizonte.

"Geralmente as pessoas preferem ficar longe de mim, eu nunca estou no clima para festas e bater longos papos".

"Eu gosto de apreciar o silêncio com você".

Mirela desviou o olhar da linha do horizonte virando para encará-lo nos olhos. Ela não queria se envolver com ninguém e tinha que deixar isso claro, seu coração já pertencia a uma pessoa e seria dele para sempre.

"Eu sinto muito, mas eu gosto de ficar em silêncio sozinha". Tentou não soar rude.

"Bem que o seu irmão disse que você é uma mulher bastante difícil".

"Não sou uma mulher difícil, sou uma mulher quebrada". De fato essa era a verdade. Ela se sentia quebrada por dentro. Por mais que juntasse os cacos, nunca seria mais a mesma. "Obrigada pelo papo". Mirela se levantou e o deixou sozinho. Por mais que ela achasse Derick atraente, com seus belos olhos escuros e seus cabelos pretos como a noite, não sentia nada por ele além de amizade.


Sul da França.

Cinco anos se passaram e Mirela residia em uma pequena casa no sul da França. Escolheu o lugar porque era acolhedor, tinha imensos campos de lavanda e aquela imagem lhe lembrava demais o Santuário. O cheiro era maravilhoso e lhe acalmava. Trabalhava em uma pequena livraria no centro da cidade e nas suas férias que eram duas vezes ao ano, fazia trabalho voluntário. Onde precisavam estava lá ajudando.

Se afastou de todos que conhecia, inclusive Martin. A última vez que o viu foi em seu casamento, já que foi madrinha junto de Derick. Seu irmão até tentou juntar os dois, mas nem mesmo Derick aguentou por muito tempo o seu humor. Os gêmeos também estavam casados e os seus pais tinham se aposentado e agora viajavam ao redor do mundo, vez ou outra eles lhe visitavam, mas eram raras as exceções, já que Mirela sempre arrumava uma desculpa para ficar sozinha.

Naquele dia em especial tinha combinado com as crianças do vilarejo que as levaria até o riacho tomar um banho. Ela preferia ficar com as crianças do que com os adultos, já que as crianças não faziam perguntas a respeito do que tinha acontecido com ela, o motivo dela não se envolver amorosamente com ninguém. Já os adultos, estavam sempre lhe perturbando com alguma pergunta indiscreta.

Escutou o som de batidas na porta. Pegou uma cesta com frutas, pães e queijos. Naquela tarde em especial estava usando o vestido e o colar que trouxera consigo do santuário. Sempre que os vestia sentia como se o que tivesse vivido fosse real. Conforme os anos se passaram algumas lembranças se perderam e ela já nem sabia se o que tinha acontecido com ela era verdade ou fruto de sua imaginação, mas ao olhar para aquele vestido e aquele colar, algo se acendia em seu interior.

Abriu a porta e vários olhos brilhantes e felizes lhe encaravam ansiosos pelo que estava por vir.

"Estão preparados?" Perguntou em Francês fluente.

"Sim". Responderam em uníssono.

Ela fechou a porta e uma fileira de crianças a seguiu pelas ruas de paralelepípedo cercadas por casas coloridas até um bosque que dava para um imenso lago. Era possível escutar as vacas ao longe mugindo conforme pastavam. Estendeu a toalha quadriculada de vermelho e branco na grama próximo ao lago e colocou a cesta em cima. Sentou-se em uma ponta enquanto observava a maioria das crianças tirarem as roupas e pularem para dentro da água sem se importarem com a temperatura da mesma.

Sorriu ao ver a cara de Liz se contorcer por causa do frio. Mesmo o sol brilhando majestoso no céu límpido, não era o suficiente para esquentar a água. A menina fez uma careta ao ser atingida por um jato de água bem nas costas, arrancando uma gargalhada de Mirela que assistia a tudo extasiada.

Mirela deitou na toalha e virou de lado querendo observar os campos de lavanda ao norte, mas seus olhos se deparam com vários mangás espalhados pela grama. Sentiu seu corpo ficar rígido ao ler o nome em Francês na capa. Por mais que ela quisesse se afastar do seu passado ele sempre arrumava um jeito de bater a sua porta.

"Lohan, por que está aqui e não na água se divertindo com os seus amigos?" Evitou o máximo olhar para os mangás focando sua atenção somente no garoto loiro de olhos azuis.

"Não tenho vontade". Seu Francês era carregado como a maioria das pessoas que moravam ali. No começo Mirela sentiu muita dificuldade, por mais que falasse fluente a língua, mas depois seus ouvidos foram se acostumando lentamente. "Prefiro ler esse mangá".

"Eu não gosto de mangá" Mirela deixou escapar. Suas palavras saíram duras e frias. Porém, o menino não pareceu se importar muito, já que seu foco era na leitura.

"Você sabia que existe uma personagem nesse mangá com o seu nome?" Ele falou depois de longos minutos em silêncio. Mirela já tinha até fechado os olhos e começava a querer cochilar quando ele se pronunciou.

"Como?" Perguntou incrédula.

"Tem uma personagem com o seu nome. Ela vem de outro mundo para mudar o destino dos cavaleiros de Athena…" Mirela nem deixou ele terminar de ler. Pegou o mangá da mão dele e começou a ler.

A maioria das coisas eram iguais ao que ela tinha vivido. É claro que por mais que a personagem tivesse o seu nome, não se parecia nada com ela. Os cabelos eram cacheados e vermelhos e os olhos verdes. Com certeza aquela versão era muito melhor que a original.

Aquilo era tão misterioso. Devolveu o mangá para o menino, já que aquele era o início da sua aventura e procurou por aquele que responderia as suas perguntas mais apavorantes. A capa do mangá tinha o rosto de Ares, Hades e o da tal "Mirela".

"Pelos deuses!" Apertou o mangá firme em suas mãos. Seu corpo tremia e uma sensação estranha lhe acometia, assim como um frio na boca do estômago. Abriu na última página e começou a ler.

As primeiras páginas ela já sabia, já que eram voltadas para o torneio, até que a cena mudou e Ares apareceu no submundo. Passou os olhos pelos diálogos o mais rápido que conseguia. Seu coração acelerado parecia que sairia pela boca.

"Filho da Puta!" ele exclamou assim que terminou de ler o mangá. "Então foi isso o que aconteceu… Coitada de Perséfone". Ela pegou outro mangá que tinha o rosto de Ares e Afrodite na capa. Começou a ler desesperada. Queria saber o que tinha acontecido depois que voltou e assim que terminou de ler, levou as mãos ao rosto e começou a chorar baixinho.

Escutou Lohan falando alguma coisa com ela, mas não tinha cabeça para dar atenção ao garoto. Shion e Dohko haviam morrido na luta contra Ares. Ela não podia acreditar que Shion estava morto. Ela amava o grande mestre, assim como amava Dohko sem nem ao menos ter tido a oportunidade de conhecê-lo. O grande mestre sempre tão gentil e amável faria grande falta no santuário. Ele era como um pai para os cavaleiros de ouro.

Mirela sentiu o buraco em seu peito abrir um pouco mais com aquela descoberta.

"Shion…" Fungou ao pensar no amigo. Lembrou do primeiro dia em que o conheceu. Ele havia feito a muralha de cristal para impedir que Shina a machucasse com o seu cosmo. Quantas vezes ele a havia ajudado? Quantas vezes lhe dirigiu palavras de carinho e conforto? Shion era a sua família e não poder se despedir dele doeu demais.

Não podia nem imaginar a dor que os cavaleiros de ouro sentiram ao perdê-lo. Dohko então, não o conhecia, mas sabia que o libriano era justo e amoroso. Só de ter se sacrificado para que os outros permanecessem vivos, já a deixava arrasada.

Pelo que ela entendeu, Shion criou a muralha de Cristal para conter os poderes dos deuses e não afetar a população de Rodório que estava na arena por causa do Torneio. Os cavaleiros de ouro e prata começaram a lutar contra os Berseks de Ares e os espectros de Hades. Dohko os ajudou com as suas armas, eliminando os Berserks, e os espectros pararam de lutar contra os dourados devido as revelações feitas por Athena a Hades.

"Athena…" Mirela olhou para o céu como se assim pudessem quem sabe ver a deusa nas nuvens. A mulher a tinha levado até o seu mundo para manter os cavaleiros vivos, mas as coisas não haviam dado certo. Apesar de salvar Aioros e Saga, Shion e Dohko haviam sucumbido e aquilo, com certeza, desestruturou a deusa da sabedoria. Ela amava a todos como se os mesmos fossem seus filhos.

O que Athena contou a Hades fez com que o deus do submundo perdesse o controle. Ele havia descoberto que a sua amada Perséfone havia perdido a imortalidade depois de liberar o selo que o prendia. Hades se enfureceu com o deus da guerra por ter usado Perséfone em seus planos de destruir a terra. Mirela não sabia que Hades era tão apaixonado assim pela deusa, ela sabia da história da mitologia e do amor dos dois, mas não pensou que isso equivalia também para o universo de Saint Seiya. Foi uma surpresar saber do amor de Hades por Perséfone.

"Coitado…" Falou baixinho. Por mais que não gostasse de Hades, não desejava mal a ele e muito menos para a deusa. Foi nesse momento em que as coisas começaram a ficar complicadas para o deus da guerra.

O deus do submundo perdeu o controle e sua cosmo energia ficou tão agressiva e violenta com a descoberta, que tudo o que ela tocava morria. Dohko foi auxiliar Shion ao ver que o amigo estava em seus últimos momentos, assim como os cavaleiros de ouro, mas o libriano depois de sentir a cosmo energia do seu amigo se extinguir, acabou puxando a responsabilidade toda para si, já que o mesmo não poderia conviver com a morte dos outros, livrando os amigos do mesmo destino que Shion.

Mirela não podia compreender o poder imensurável dos deuses. Ares, Athena, Hades, Poseidon e Afrodite lutando uns contra os outros deve ter sido uma imagem assustadora. Ler no mangá não se equiparava a vida real. Assim que Dohko conteve o cosmo do deus do submundo, Athena e Poseidon conseguiram dar fim em Ares, mandando os pedaços da sua alma para o tártaro onde ficaria por toda a eternidade.

Afrodite com medo de ter o mesmo destino que o deus da guerra voltou para o monte Olimpo se esconder nos braços do marido Hefesto e Hades implorou para Athena lhe ajudar a devolver a imortalidade a Perséfone.

Mirela pegou o outro mangá que tinha Hades e Perséfone na capa e começou a ler. Seus olhos ardiam de tanto chorar. Não havia nada que Athena pudesse fazer para ajudar o deus do submundo. Se ela desse a imortalidade para Perséfone, perderia a sua e viveria como mortal e Athena não poderia deixar a terra desprotegida. Hades não tinha permissão de Zeus para trazer a mulher de volta com a sua cosmo energia já que o submundo dependia dele e de mais ninguém.

Deméter até tentou trocar a sua vida pela da filha, mas nada poderia reparar o irreparável, nem mesmo os deuses. Por perder a sua imortalidade, Perséfone não poderia viver nem no monte olimpo e nem no submundo, então Athena lhe ofereceu moradia no Santuário até a sua vida mortal se findar.

Hades, Athena e Poseidon selaram um acordo de paz. Os deuses ajudaram a deusa da sabedoria a reconstruir o santuário, já que o mesmo havia sido destruído por causa da cosmo energia do deus do submundo. Hades passou a frequentar o Santuário todos os dias para desfrutar da presença de sua esposa, que mesmo depois de perder sua divindade, continuava feliz e amorosa com o deus e pelo que Mirela pode entender, ela não se arrependia de tê-lo trago de volta antes do tempo, já que aquilo representou tempos de paz apesar de todas as perdas.

Mirela fechou o mangá e enxugou as lágrimas que teimavam em rolar. Ela colocou o mangá em cima da toalha pronta para pegar o próximo quando Lohan a chamou desesperado. Ele estava na beira do lago e seus olhos arregalados lhe diziam que algo de ruim estava acontecendo. Ela seguiu o olhar do menino e viu Liz se afogando enquanto as outras crianças tentavam nadar até ela para lhe ajudar.

"Voltem para a margem!" Gritou ao mesmo tempo que tirava os sapatos e os jogava na grama. Ela correu na direção do lago entrando de roupa e tudo. Viu as crianças se afastando da garota que se debatia. Mirela nadou o mais rápido que conseguiu mais ao chegar no ponto em que a garota estava, percebeu que a mesma tinha afundado. Puxou todo o ar que conseguiu e submergiu atrás da criança.

Ela não podia perder mais ninguém, já havia perdido tudo, não aguentaria perder Liz também. Pode ver o reflexo do sol bater nos cabelos dourados da garota que afundava lentamente. Mirela segurou o braço dela e a puxou de volta a superfície. Assim que a cabeça da criança emergiu na superfície da água, Mirela a puxou até um píer de madeira que chegava até o meio do lago, onde as crianças o estavam usando para pular e mergulhar.

Colocou o corpo da menina com dificuldade em cima da madeira gasta e pode escutar o som dos pés descalços das outras crianças contra a madeira do píer correndo na direção de Liz. Mirela subiu e logo começou a fazer os procedimentos de reanimação. Como a garota não estava respirando posicionou Liz de barriga para cima mantendo a cabeça em um nível abaixo dos pés, já que se estivesse mais alta poderia prejudicar o fluxo sanguíneo cerebral. Ajoelhou-se ao lado dela pedindo calma para as outras crianças que gritavam sem parar.

Mirela ficou posicionada ao lado de Liz de maneira que os seus ombros fiquem diretamente sobre o meio do tórax da garota. Com os braços esticados, colocou as mãos bem no meio do tórax da garota, entre os dois mamilos, apoiando uma mão sobre a outra começou a iniciar as compressões torácicas, em movimentos fortes, ritmados e sem interrupções.

Por estar sozinha, sem a presença de outro adulto, evitou a respiração boca a boca, pois não queria interromper as compressões cardíacas. Ela sabia que o melhor seria revezar nas compressões, mas como estava sozinha e a troca não poderia demorar mais de um segundo, permaneceu apenas nas compressões.

"Meu Deus!" Se ela ao menos soubesse usar os poderes da deusa, poderia usar o cosmo para ajudar Liz. Já estava começando a ficar desesperada quando a menina cuspiu e tossir descontroladamente, ela a colocou de lado para ajudar a expulsar a água de seus pulmões.

"Liz?" Mirela esfregava as suas costas "Respira querida, você vai ficar bem".

Assim que a menina colocou tudo para fora, Mirela a pegou no colo e pediu para as crianças guardarem as coisas para que elas fossem até o hospital fazer os exames necessários na garota.

Mirela respondeu algumas perguntas, falou com os pais e quando já eram cinco da tarde foi liberada, assim como Liz. Só se deu quando que estava sem o cordão quando chegou em casa. Ela se olhou no espelho e percebeu o quão acabada estava, mas o que lhe chamou atenção foi a falta do brilho habitual em seu pescoço.

"Não acredito…" Sua mão esfregava o pescoço sentindo falta do frio característico da joia. "Aonde pode ter caído?"

Procurou na bolsa, na casa até que pensou no lago. Deve ter arrebentado o fecho quando ela estava nadando para salvar Liz. Mirela pegou a lanterna dentro de uma gaveta e voltou correndo para o rio. Ela não podia perder aquele cordão. Se tinha um jeito de voltar para o Santuário era através daquele cordão.

Passou correndo pelas pessoas do vilarejo e seguiu seu caminho sem nem ao menos cumprimentar as pessoas ou responder as perguntas daquelas curiosas que queriam saber o que tinha acontecido com a pequena Liz. Cidade pequena era ruim por causa disso, todo mundo sabia do que acontecia em apenas alguns minutos.

Chegou no lago e ainda podia ver o sol se escondendo por detrás das montanhas. Ela tirou os sapatos segurou a lanterna e foi em direção onde supostamente acreditava que o cordão estaria – bem no meio do lago.

Ela não sabia dizer quantas vezes mergulhou a procura do colar, já estava exausta de tanto procurar, mas não via nem sequer o brilho característico do mesmo. Voltou a superfície e não pode conter as lágrimas de frustração que irromperam de seus olhos. Sem aquele colar ela não era ninguém, o que viveu não passou de uma fantasia e cairia no esquecimento.

Puxou mais uma vez o ar, essa seria a sua última tentativa, se não achasse tentaria no dia seguinte e assim por diante. Mergulho e começou a procurar com a ajuda da luz da lanterna e a luz da lua que iluminava o céu solitária. Já estava pensando em voltar a superfície quando um brilho chamou sua atenção. Mirela nadou mais para o fundo e com a luz da lanterna viu o colar preso no meio das algas.

Seus dedos roçaram no cordão, mas antes que o pudesse pegar, sentiu uma fisgada na batata da perna esquerda. Por causa da dor, deixou algumas bolhas de oxigênio escaparem de seus lábios. Se arrependeu de imediato por ter sido tão descuidada. Estava com cãibra. Voltou a olhar para o cordão, se voltasse para a superfície sem ele, seria difícil achá-lo de novo.

Tentou pegá-lo mais uma vez, mas a dor da sua perna era absurda. Esfregou a batata com força antes de tentar mais uma vez pegar o cordão. Nadou um pouco mais para o fundo com o auxílio dos braços e da perna boa, e assim que a sua mão se fechou em volta do cordão. Seus pulmões gritaram implorando por ar. Segurando o cordão com força, nadou para voltar a superfície, ela só não sabia que estava tão no fundo assim. Seu pé ruim se enroscou nas algas que mais pareciam garras lhe segurando o tornozelo.

Dessa vez não tinha o que fazer, pois não tinha mais forças para lutar. Sua perna doía e seu pulmão ardia, involuntariamente abriu a boca para puxar o ar, mas a água gelada do lago invadiu a sua laringe, faringe e inundou as suas vias aéreas. Foi desse jeito que Liz se sentiu ao se afogar? Uma ardência esmagadora em seus pulmões até a sua visão foi ficando turva, o cordão começou a ficar frouxo em seus dedos, a lanterna já havia caído há muito tempo de sua mão e a única luz que conseguia ver era a da lua.

Antes de fechar os olhos por completo e ser de vez levada pela escuridão, pensou em Saga. Será que poderia vê-lo algum dia? Seus olhos azuis apareceram para ela e aquele sorriso torto surgiu em seus lábios. Se morrer fosse assim, morreria tranquila, pois a única imagem que tinha em sua mente era a dele.

"Saga". Chamou seu nome antes de ser engolida pela escuridão.