Naruto, obviamente não me pertence.

"O caráter do homem é o seu demônio".

Capítulo Five.

A porta da sala se abriu em um rompante. Pedaços de madeira voaram pelo ar aterrizando no chão do corredor longo e escuro. Sasuke foi o primeiro a aparecer, logo depois Kakashi surgiu com a arma em mãos apontando para todas as direções. Eu deveria ficar apavorada pelo fato dele segurar aquela arma de fogo direcionando-a para vários lugares, mas o meu maior medo se encontrava em cima da mesa de centro.

Ele não pulou, só ficou ali coaxando baixinho e me encarando com aqueles olhos cheios de musgos e aterrorizantes.

— O que houve? — o Uchiha perguntou, olhando para os lados a procura de alguém.

— Um sapo — falei em um tom de voz esganiçado. — Eu odeio sapos. — me abraçava com força, já que meu corpo inteiro tremia sem parar.

Kakashi guardou a arma no coldre e foi até a mesa de centro. Ela olhou o sapo por alguns segundos antes de pegar o mesmo com um suspiro e o levá-lo para fora.

— Você fez esse escândalo todo por causa de um anfíbio? — Sasuke cruzou os braços e me encarou com cara de poucos amigos. — Eu pensei que… — ele se interrompeu bufando. — deixa para lá.

Saiu da sala e voltou a me deixar sozinha, fechando a única porta que ainda estava intacta. Fiquei me pé no sofá um pouco mais antes de criar coragem e descer. Passei a mão pelo cabelo controlando as batidas do meu coração.

Olhei para a minha bolsa jogada no chão e fiquei com receio de pegá-la. Talvez tivesse outro no lugar. Contudo, eu não poderia ficar com roupão o tempo todo. Criei coragem e a levantei com as pontas dos dedos. Virei todo o conteúdo em cima da mesa vasculhando com o olhos cada objeto no intuito de achar outro animal nojento.

Quando fiquei convencida de que não havia mais nada nojento ali, peguei minhas roupas de baixo e as coloquei tomando o cuidado para que nenhum dos dois me vejam pela porta quebrada.

Comecei a pentear meus cabelos quando Kakashi bateu à porta.

— Entre.

Ele entrou seguido por um Sasuke mau humorado. Kakashi pegou um dos lençóis que cobriam os móveis e colocou na porta de forma que nenhum bicho pudesse entrar pela abertura das madeiras quebradas.

— Amanhã eu começo a fazer algumas mudanças — falou conforme preparava a lareira — A primeira coisa que vou fazer, vai ser trocar essa porta e depois ir na cidade comprar material para fazer a parte elétrica da casa.

— Você sabe fazer isso? — Sasuke perguntou ao amigo — Eu posso te ajudar.

— Sei sim, mas toda ajuda é bem-vinda — o platinado falou olhando para minha cara.

— Se está querendo a minha ajuda com esse tipo de serviço, saiba que eu não sou muito boa com essas coisas. — falei de forma seca — Não sei nem cozinhar.

— Não é possível! — Sasuke me encarou — Nunca se quer pegou em uma vassoura? Pensei que esse fosse o seu meio de transporte — disse de forma debochada.

— Deve ser o da sua mãe. — não me contive.

Ele arregalou os olhos e deu dois passos na minha direção, sendo parado por Kakashi que tentava não rir.

— Vamos deixar para falar sobre isso pela manhã — ele olhou o relógio de pulso — Estamos cansados da viagem.

Dei de ombros e voltei minha atenção para os meus cabelos emaranhados. Pequenos nós se formavam nas pontas dos fios me avisando que o mesmo precisava de uma hidratação com urgência.

Peguei um lenço umedecido passando em cima do sofá para tirar a fina camada de poeira do mesmo. Fiz um travesseiro com a minha bolsa e deitei, dando as costas para os dois homens. Eu poderia encher a paciência dos dois, já que eles haviam me levado para aquele lugar, mas estava cansada demais para protestar ou tentar arrumar confusão.

A única coisa que martelava em minha cabeça era o fato de Kakashi precisar ir a cidade pela manhã. Queria muito ir com ele e comprar alguns produtos de higiene, quem sabe roupas e outras coisas mais. Fora que eu poderia ver em que buraco me encontrava.

Fechei os olhos me obrigando a dormir, pensei que o sono fosse demorar a vir, porém me surpreendi ao sentir as minhas pálpebras pesadas serem fechadas rapidamente e a escuridão me engolir.

Acordei com o barulho de um galo insuportável cantando. Tentei me espreguiçar, mas senti meu corpo rígido. Estava toda dolorida por ter dormido naquele sofá duro. Se me encarasse no espelho, com certeza, tomaria um susto com a visão que teria de mim mesma. Sentei com certa dificuldade e não fiquei surpresa ao perceber que estava sozinha.

Prendi meus cabelos em um coque no topo da cabeça e fiquei encostada por alguns minutos ainda avaliando se voltava a dormir ou se levantava e procurava por Kakashi, já que eu gostaria de ir com o mesmo para a cidade. Resolvi optar pela segunda opção, já que o maldito galo tinha me despertado. Coloquei minha sandália mais uma vez tomando o cuidado ao sair pela porta estourada.

Passei pelo lençol com facilidade e o ar gélido da manhã açoitou as minhas pernas e braços desnudos. Tinha optado na noite anterior usar o short jeans e uma blusa de banda, já que não poderia usar o pijama na frente dos dois. A primeira visão que tive foi dos campos verdejantes que se estendiam até além do horizonte. O sol começava a nascer timidamente e seus feixes de luz deixavam o céu com uma cor bastante bonita.

O azul escuro indo para o azul-claro deixava em evidência uma linda tonalidade de roxo. Ainda era possível ver algumas estrelas tímidas no céu antes de sumirem por completo devido à claridade do sol. Era uma linda visão, eu tinha que admitir.

Respirei o ar fresco da manhã me sentindo renovada. Apesar daquele lugar não ter energia elétrica, um banheiro descente e cair aos pedaços, pelo menos a visão era bonita. O cheiro de café recém-feito preencheu o ambiente e eu virei meu corpo na direção daquela maravilha.

Fiquei surpresa ao perceber que não vinha da casa e sim de sua lateral.

Encontrei Sasuke e Kakashi segurando cada um, um copo em mãos. Eles haviam saído bem cedo, já que ficava evidente que o café havia sido comprado e não feito por eles. Notaram a minha presença assim que eu me debrucei sobre as madeiras da varanda em "L" e os encarei com olhos cheios de expectativas em relação ao líquido fumegante preto em suas mãos.

— Venha — Kakashi me chamou assim que notou minha língua umedecer meus lábios. Estava morrendo de fome — Espero que você goste de rosquinhas — falou assim que eu me aproximei.

— Do jeito que ela é magra, capaz de não querer comer algo repleto de calorias. — desdenhou Sasuke.

— Obrigada pelo elogio — falei ignorando a cara de bunda que ele fez. — Vou aceitar sim — o platinado sorriu.

Ele me entregou um copo que estava no banco do carro e abriu uma caixa assim que eu aceitei de bom grado o café.

— Não sabia se devia pedir com açúcar ou não, então optei por sem e trouxe uns sachês, caso você queira adoçar. — agradeci mais uma vez — Espero que goste de chocolate.

— Qual garota não gosta de chocolate? — falei. Estava com tanta fome que a minha boca salivava. Peguei uma rosquinha e a mordi com vontade — Está uma delícia — falei com a boca cheia.

— Pensei que não acordaria tão cedo — Sasuke se pronunciou — Achei que fosse dormir até tarde.

— Que… ria — respondi ao mesmo tempo que mordia mais um pedaço. Engoli e beberiquei um pouco do café. Amargo do jeito que eu gostava. — Eu queria muito, mas o galo não me deixou.

— Ah! Pensei que tivesse um sono de pedra — ele deu de ombros.

— Não tenho, qualquer barulho me acorda.

— Qualquer barulho te acorda? — Sasuke me encarou perplexo. Era possível ver a diversão em seus olhos escuros — Tu não acordou com o próprio ronco.

— Ronco? — mais que garotinho petulante. — Eu não ronco!

— Ronca sim. — disse Kakashi.

— Eu sou como uma gata, eu ronrono. — falei indiferente aos risos que os dois deram. — É verdade. Roncar é coisa de brutamontes, como vocês.

— Dá próxima a gente grava ela, Kakashi.

— Para de ser indelicado comigo — peguei outra rosquinha — Você deve tratar bem uma dama como eu.

— De dama você não tem nada. Está mais para uma bruxa.

— Me chama de bruxa de novo e eu tasco esse café na sua cara.

— Acho melhor a gente para por aqui — Kakashi se meteu no meio de nos dois — Eu preciso ir na cidade. Temos muito o que fazer.

— Em falar nisso — comecei ignorando por completo o Uchiha — Será que eu posso ir com você?

— Não. — responderam os dois ao mesmo tempo.

— Por que não?

— Não viemos aqui a passeio, senhorita Haruno. — Sasuke estava irritado. Ele oscilava de humor muito facilmente. — Meu irmão não morreu protegendo você atoa. Aqui você estará segura.

— Segura? — segurei firme o copo em minha mão — Como estarei segura em um lugar que está caindo aos pedaços? — Kakashi tentou se pronunciar, mas eu o calei apenas com um olhar — Além do que, eu preciso comprar algumas coisas. Não tenho roupa o suficiente, já que eu praticamente sai fugida de Miame. Preciso fazer compras.

— Faça uma lista do que você quer que eu trarei. — Kakashi falou tentando me tranquilizar.

— Fazer uma lista? — olhei dele para o Uchiha — Tu está disposto a comprar calcinha, sutiã, absorvente… — comecei a contar nos dedos o que eu precisava.

— Espera. — Kakashi olhou para Sasuke com uma súplica velada nos olhos. O moreno negou com a cabeça, o gesto era quase imperceptível. Kakashi olhou para mim e depois para ele novamente fazendo o sinal de sim. Aquilo estava me irritando.

— Deixem de bobeira! — explodi — Eu vou sim e acabou. Estamos no meio do mato, eu coloco um boné e um óculos de sol, ninguém vai saber que sou eu.

— Então vamos todos. — o Uchiha disse a contragosto.

— Feito! — falei satisfeita.

Peguei mais uma rosquinha e voltei para dentro da casa. Pegaria meu óculos escuros e eu sabia que Ino havia colocado um lenço de seda na bolsa. Assim que terminei de me arrumar, procurei por minha escova de dentes, não podia sair sem ao menos fazer a higiene pessoal.

Kakashi me mostrou o banheiro que ficava dentro da casa. Era um lavabo bem pequeno. O vaso era imundo e a água estava preta. Moscas pairavam por ali me dando ânsia de vômito. Ele se desculpou falando mais uma vez que precisavam arrumar as coisas por ali. Eu estava começando a acreditar que aquele lugar não tinha solução. A única medida a ser tomada era destruir e construir do zero.

Abri a torneira com receio de como a água sairia. No começo ela começou a sair preta e foi clareando para um marrom até ficar completamente cristalina. O cheiro de ferrugem e poder sumiram assim que a tonalidade ficou perfeita. Os canos deviam estar podres.

Não sabia se escova ou não os dentes. Optei por escovar se utilizar água. Cuspi o creme dental sem lavar a boca e a escova. Usaria a água do chuveiro la fora, era mais seguro. Sequei a boca no roupão que tinha colocado para pegar um sol na varanda.

— Acho que a tubulação precisa ser trocada v falei assim que passei por Kakashi. — Melhor não arriscar com essa água, podemos pegar alguma doença.

— Meu medo era esse — bufou — Acho que terei que começar do zero, usando apenas o esqueleto da casa.

— Eu só quero saber onde eu ficarei nesse processo de transformação a lá irmãos a obra.

— Com a gente — respondeu o Uchiha subindo os degraus de pedra. — Estão prontos para sair?

— Sim. — o platinado me encarou esperando por uma resposta.

— Sim. — disse irritada.

— Então vamos!

Entrei no carro seguida por aqueles dois homens. Eu não sabia como seria a minha vida a partir daquele momento, o que eu conseguia sentir era a minha vida se esvaindo pelos meus dedos, como se eu tivesse perdendo o controle das coisas e que a cada passo que eu desse algo pudesse acontecer e me surpreender e não de uma forma boa. Só esperava poder encontrar algo que valesse apena naquele lugar, mesmo que as minhas esperanças estivessem se extinguindo.