Naruto, obviamente não me pertence.

"Às vezes um simples momento de reflexão é tudo que precisamos para enxergar a vida com outra percepção".


Capítulo 6.

O sol aquecia a minha pele agradavelmente.

Não demorou muito para chegarmos a cidadezinha. Percebi que estávamos há duas horas daquele lugar pitoresco. A rua de paralelepípedo mostrava o quanto aquele lugar era isolado do mundo. População: menos de cinco mil habitantes, com certeza. Conforme Sasuke dirigia pelas ruas estreitas os moradores que caminhavam tranquilamente pela calçada lhe lançavam olhares desconfiados.

Não era para menos, já que Sasuke estava com a cara emburrada por eu estar no carro junto com eles. Kakashi parecia tranquilo e sereno e seus olhos vasculhavam cada canto daquela pequena cidade a procura de alguma ameaça. Assim que o Uchiha virou em uma esquina e achou um lugar para estacionar, o clima ficou mais leve dentro do carro.

— Vamos estar do outro lado da rua — falou Kakashi. Ele ajeitava os óculos escuros e a máscara — Na casa de material de construção.

— Pode deixar — disse de forma presunçosa — Vou bater perna por ai, vai que acho alguma coisa que valha a pena.

— Cuidado com quem você fala — alertou-me Sasuke — Vou ficar de olho em você.

— Falar com quem? — cruzei os braços — Não conheço ninguém nesse fim do mundo.

— Mas você — ele disse apontando para um outdoor a minha esquerda — é bastante conhecida.

De fato eu era. Lá estava uma foto minha. Linda, loira e plena. A marca de lingerie era fantástica, assim como a maquiagem que usaram em mim naquela sessão de fotos. Lembro-me perfeitamente daquele dia.

Suspirei.

Saudades de estar no meio de gente bonita e rica. Agora o meu cabelo estava em uma tonalidade diferente. Havia pintado de rosa claro para uma propaganda de cosméticos, na qual eu não havia gostado do resultado final, já que eles tinham aumentado o tamanho dos meus seios com o photoshop querendo chamar atenção do publico masculino.

Não gostei nem um pouco de ter sido modificada e briguei bastante com Ino por causa daquilo, mas como eu havia assinado o contrato e existia uma clausura no mesmo dizendo que aquilo poderia acontecer, tive que guardar a minha indignação para mim mesma.

Ajeitei o lenço no cabelo, colocando alguns fios soltos de volta no lugar e ajeitei os óculos escuros. Ninguém me reconheceria daquele jeito.

— Faça o que quiser, Uchiha — disse ao dar as costas para ele e seguir alegremente pela calçada.

Não era muito difícil andar pelo lugar. A cidade se resumia a uma grande rua principal, onde o comércio funcionava e suas ruas laterais davam para pequenas lojas ou fábricas. Fiquei feliz ao achar um pequeno café no estilo vitoriano. Estava cheio para uma manhã de segunda-feira. As mesinhas de vidro com lindos arranjos de flores silvestres estavam quase todas lotadas.

Próxima a uma grande lareira de tijolinhos brancos havia uma vazia. Logo que eu me sentei uma menina de aparência peculiar veio me entregar o menu. Ela usava um avental rosa claro, com algumas manchas amareladas na barra o nome do lugar estava bordado em lilás no bolso bem no centro dos seus seios redondos e fartos.

Não vou negar, fiquei com inveja. Os meus não chegavam aos pés dos dela. Seus olhos cinzas brilhavam com certa curiosidade, já que eu era a única pessoa diferente ali dentro. Todos pareciam se conhecer e conversavam amenidades logo pela manhã.

— Você me parece familiar — ela deixou escapar depois de avaliar de cima a baixo. — Acho que já te vi em algum lugar.

Sim, ela já havia me visto da televisão, nos outdoors, em revistas. Olhei para o menu de plástico duro em minhas mãos. Não havia muitas coisas para se pedir.

— Um chocolate quente com menta — pedi ignorando o que ela havia dito.

A mulher anotou em um pequeno bloco de papel o meu pedido e antes de ir até o balcão tornou a me olhar. Ela franziu o cenho, abriu e fechou a boca querendo falar algo, até que desistiu e foi fazer o meu pedido.

Tamborilei os dedos na mesa conforme olhava ao redor. Algumas pessoas me encaravam desconfiadas e eu podia até mesmo escutar um cochicho aqui e outro ali, mas nada que realmente me incomodasse. Já estava acostumada a ser o centro das atenções.

— Aqui está — disse a garçonete, colocando uma taça de vidro própria para bebidas quentes na minha frente. — Deseja algo mais?

— O que você me segure? — perguntei, bebericando o chocolate com cuidado para não me queimar. O gosto da menta era suave no final, deixando a minha boca com uma sensação refrescante.

— Nossa torta de mirtilo é muito famosa pelas redondezas.

— Traga um pedaço então, por favor. — pedi de forma educada. Estava começando a gostar daquele lugar. Se a torta fosse tão boa quanto o chocolate, não ficaria triste em passar alguns meses naquela cidadezinha.

— Posso te fazer uma pergunta? — ela me encarou, segurava firme o bloco de pedidos em mãos. Ela estava com vergonha, ficou claro em sua postura.

— Até duas. — falei tornando a beber.

— Você é a senhorita Haruno?

Pronto. Lá estava a pergunta que eu não queria responder.

Olhei em sua direção com os lábios levemente abertos de surpresa. Como ela conseguiu perceber quem eu era? Estava de óculos escuros, lenço na cabeça, minha roupa não era a que estava acostumada a usar em público.

Ela pareceu notar o meu incomodo com a pergunta e logo se desculpou por ter sido inconveniente.

— Desculpe-me, eu não queria ser um incomodo — ela disse rapidamente se preparando para sair.

— Não, eu não sou a senhorita Haruno. — menti da melhor forma que consegui no momento — Todos dizem que pareço com ela, mas confesso que sou um pouco mais alta e mais magra que ela.

Ela inclinou a cabeça levemente para a esquerda como se quisesse avaliar se o que eu havia acabado de dizer era verdade ou mentira.

— Estou ficando com água na boca de tanto esperar pela famosa torta de mirtilo — disse de forma dura.

— Claro — ela fez uma reverência estranha — Buscarei agora mesmo.

— Aquele ogro tinha razão — falei para mim mesma.

A garçonete voltou com o meu pedido e não tornou a me olhar ou me perturbar depois da nossa conversa. Fiquei no estabelecimento por uns quarenta minutos desfrutando de uma manhã tranquila e fresca. De fato a torta de mirtilo era sensacional. O que me fez pedir mais três pedaços para a viagem. Eu não queria levar comida para aqueles dois idiotas, mas não era ruim a esse ponto.

Depois de pagar, fui embora pensando em comprar algumas perucas. Se aquela mulher havia me reconhecido, outra pessoa podia fazer a mesma coisa. Precisava estar preparada para esse tipo de pergunta e situação. Passei em frente a um antiquário e me surpreendi em ver um lindo conjunto de pérolas negras na vitrine.

Eu sempre amei joias. Será que o povo daquela cidade sabia que aquilo eram pérolas? Abri a porta de vidro e escutei um sino indicar que um novo fregueis entrou no cômodo. Fui direto no balcão, onde um senhor de meia idade estava limpando várias pratarias antigas.

— Como posso ajudá-la? — ele perguntou sem tirar os olhos do objeto em mãos.

— Aquele conjunto de colar e brincos na vitrine, quanto é? — perguntei, tentava conter a minha empolgação.

— A senhorita diz o conjunto de pérolas? — o homem perguntou tranquilamente.

— Sim.

— Mil dólares.

— Eu quero! — quase gritei quando ele falou o valor. Eu não era uma exímia em joias, mas sabia perfeitamente que um conjunto daquele não era para ser vendido por menos que dez mil dólares.

Ele ergueu o olhar em minha direção e sorriu. Seus dentes eram amarelados, denunciando que o mesmo era fumante. Seus olhos verdes como os meus não tinham o mesmo brilho da juventude e seus cabelos grisalhos mesmo estando presos em um rabo ralo, alguns fios ainda estavam soltos o deixando com um ar um tanto quanto apavorante.

Confesso, eu tinha pavor de gente velha.

Só de imaginar que um dia eu ficaria daquela forma, já me deixava arrepiada. Graças aos Deuses a medicina estava evoluindo.

— Só um momento, pegarei para a senhorita. — ele disse de forma profissional.

— Obrigada.

Menos de um minuto e o senhor já estava de volta com a caixa de veludo do conjunto de colar e brinco. Ele colocou com cuidado em cima do balcão e voltou a limpar as peças de prata.

Peguei o colar sem me importar se podia ou não. As pérolas brilhavam intensamente com a luz do ambiente. O fecho era simples, e o colar pesava consideravelmente em minhas mãos. Coloquei em volta do pescoço e me dirige até um espelho antigo que estava pendurado em uma das prateleiras para a venda.

Mesmo estando com aquela blusa de banda, o colar ainda ficava lindo no meu pescoço. Voltei e coloquei os brincos. A pérola solitária brilhava em minhas orelhas me deixando feliz da vida. Não era algo extravagante e sim simples.

— Vou levar — falei ao depositar as peças em seus devidos lugares.

— Devo lhe contar a história desse conjunto, senhorita? — perguntou o velho ainda sem tirar os olhos da prataria.

— Tem uma história? — olhei dele para a caixa de veludo preta.

— Todo objeto tem uma história.

Não sabia se queria escutar, mas a curiosidade era a minha pior inimiga, então acenei e o senhor me olhou de forma penetrante, fazendo com que os meus pelos se arrepiassem.

— Esse conjunto foi de uma mulher jovem assim como a senhorita. — começou de forma lenta e meio macabra. Algo me dizia que o final daquele conto não era com felizes para sempre — A mulher era bonita, seus longos cabelos negros como a noite eram de dar inveja em qualquer mulher. — ele repousou as mãos sobre o balcão — Contudo, sua personalidade não era uma das melhores. Era arrogante, fria e esnobe. Não tratava as pessoas com respeito e sentia-se superior aos outros.

"Ela ganhou esse colar de um homem que fugia dos padrões de beleza imposto pela sociedade. Apesar de ter uma aparência um tanto quanto peculiar, ele tinha um bom coração. Quando a viu em um baile oferecido pela cidade, ele se encantou com a beleza exuberante da mulher. Porém, como uma mulher linda como um anjo poderia gostar de um homem como ele?"

"Foi então que ele decidiu comprar-lhe esse conjunto de pérolas negras. Poderia ter lhe dado as brancas, representando a pureza e a delicadeza, mas as negras, a seu ver, representavam a raridade. Aquela mulher era rara e ele queria lhe dar algo que lhe fizesse perceber o quanto ela era importante para ele".

"Mandou o presente através de um amigo. Não queria correr o risco de nem ser atendido pela jovem ao vê-lo. E assim foi feito. Seu amigo levou o conjunto de pérolas para a mulher e ela ficou feliz e envaidecida com o presente. Trocaram cartas por várias meses, quando finalmente a mulher se cansou de ficar sem saber quem ele era, marcaram um encontro".

— Espera — o interrompi — Acho que não quero saber o final dessa história — falei contendo o nervosismo.

— Bom — ele me encarou de forma triste — Quando quiser saber o desfecho, me procure. — ele colocou a caixa em uma sacola simples e me entregou. Fiz o pagamento no cartão e assim que ele me entregou a nota sai o mais rápido possível da loja.

O sol me recebeu do lado de fora com muito amor e fiquei grata por estar um dia lindo. A sensação ruim que me acometeu ao escutar a história por detrás do colar começou a sumir aos poucos. Parei em um estabelecimento onde vendia algumas perucas e acessórios. Comprei duas, uma vermelha sangue e outra loira. Fui colocando tudo dentro de uma cestinha rosa que me entregaram assim que entrei na loja.

Comecei a pegar algumas bijuterias, já que as minhas joias estavam no meu apartamento. Peguei uns esmaltes, batons, presilhas de cabelo e várias outras coisinhas. Sai com duas sacolas, feliz da vida. Parei em um departamento de roupas mais a frente, comprei várias blusas, shorts jeans e uns quatro vestidos floridos de alcinha que ficariam lindo no meu corpo.

Comecei a sentir falta de Ino. Ela sempre carregava as minhas coisas, agora estava cheia de sacola o que dificultava a minha movimentação pela calçada.

— Onde é que eles estão mesmo? — perguntei para mim mesma avaliando a rua já movimentada.

— Precisa de ajuda? — uma voz grossa soou atrás de mim. Inclinei meu corpo levemente para o lado a fim de ver quem estava falando comigo.

De imediato, a primeira coisa que eu vi foram os olhos azuis. Meu corpo tremeu por completo. A segunda coisa que eu vi, foi o cabelo loiro brilhar junto com o sol.

"Naruto?" Pensei.

—Er… — eu não sabia o que dizer. Meu primo estava parado na minha frente me encarando com aqueles belos olhos azuis iguais ao do meu tio. — Desculpa, quem é você? — perguntei tentando mudar a voz.

— Desculpa — ele ergueu a mão na minha direção, mas depois a abaixou ao perceber que seria impossível para mim apertá-la. — Me chamo Naruto. A senhorita precisa de ajuda?

— Meu amor — a voz de Sasuke surgiu atrás de mim me impossibilitando de respondê-lo. Mordi a boca por dentro para tentar controlar a tremedeira e o nervosismo que começou a brotar em mim. — Se eu soubesse que faria tantas compras, não teria te deixado sozinha.

— Ah! — Naruto encarou Sasuke com desconfiança. — Desculpe, eu não queria incomodar o casal. Achei que ela precisasse de ajuda.

— Obrigado por se importar com a minha esposa — falou de forma fria — Vamos. — disse pegando as sacolas das minhas mãos.

Acenei brevemente para o loiro e dei as compras para Sasuke. Ele estava rígido e seu semblante era inelegível. Caminhamos sem trocar uma palavra e quando Sasuke achou que estávamos longe o suficiente de Naruto me puxou para dentro de uma loja de cosméticos.

— Quem era aquele? — sua voz saiu em um sussurro.

— Meu primo — falei tão baixo quanto ele — Não sei como ele me achou aqui.

— Ele desconfiou que era você?

— Não sei. — disse nervosa — Não sei se pareço comigo mesma usando essa roupa e esse troço na cabeça.

— Alias, com que dinheiro você está comprando isso tudo? — ele agora estava mais aflito que antes. — Me diz que está usando dinheiro vivo.

— Bom, eu usei o cartão uma vez só — falei dando de ombros.

— Meu Deus, mulher! — Sasuke colocou as sacolas no chão com raiva — O assassino pode te rastrear através do cartão!

— Ah… — foi a única coisa que eu consegui dizer.

— Você quer morrer? — ele segurou meu braço com força. — Pelo amor de Kami, faz a morte do meu irmão não ter sido em vão!

— Não precisa ficar com tanta raiva, foi uma vez só.

— Vou ter que falar com o Capitão! — ele esfregou as têmporas com força — Talvez tenhamos que sair desse lugar e ir para outro.

— Dessa vez para um hotel cinco estrelas, por favor! — quase supliquei.

Ele me encarou com os olhos arregalados de raiva. Não sabia se me sacudia ou se me batia. Até me encolhi um pouco e ai ele percebeu que ainda me segurava e que estava me deixando com medo. Me soltou abruptamente, como se a minha pele queimasse a dele e me olhou com nojo.

— No momento eu não possuo um adjetivo para dar a você — sua respiração estava descompassada — Eu não sei o que o meu irmão viu em você…

— Seu irmão só brincou comigo — falei irritada. Itachi nunca sentiu nada por mim, foi tudo apenas uma brincadeira. — Ele me usou.

— Ele morreu por você.

Eu não tinha resposta para aquilo.

— Precisam de ajuda? — uma menina de aproximadamente quinze anos se aproximou. Ela usava um jaleco branco com os dizeres estagiária no bolso. — Se quiser, posso guardar as sacolas de vocês em um escaninho conforme olham a loja.

— Não — disse ríspido — Já estamos de saída.

A garota olhou dele para mim sem entender. Mesmo sendo grosso e estúpido, as mulheres ainda o avaliavam. Ele era bonito, assim como Kakashi. Era normal chamar atenção. Peguei minhas bolsas, já que ficou claro que o teatro anterior tinha acabado. Bufei irritada com o Uchiha e o segui muito a contragosto.

Quando cheguei no carro, encontrei Sasuke e Kakashi conversando um pouco alheios a minha presença. Kakashi foi o primeiro a me ver, ele acenou levemente com a cabeça e pegou o celular no bolso discando para sabe se lá quem. Abri a porta colocando minhas coisas com cuidado no banco e não me surpreendi ao ver outras sacolas ali atrás.

Teria que ir apertada para casa, já que o senhor Hatake comprou várias coisas para a obra da casa. Muitos fios, conduítes, cabos, eletrodutos e tubos, interruptores, lâmpadas, tomadas, fita isolante, adaptadores, entre tantas outras coisas. Se o banco de trás estava assim, não queria nem ver como estava o porta-malas.

Quando o carro começou a ficar quente o suficiente para me fazer suar, os dois entraram. Já estava começando a ficar puta por esperar a discussão deles acabar. Sasuke dessa vez sentou no banco do carona e Kakashi foi guiando o carro.

Olhei para a sacola do pequeno café e me arrependi de ter comprado os pedaços de tortas para eles. Não mereciam!

— Você acha que o seu primo possa estar aqui atrás de você? — Kakashi perguntou quebrando o silêncio.

— Não sei.

— Sua assistente deve ter dito a ele sobre esse lugar, afinal nós a mandamos embora daqui.

— Pode ser. — disse com certa indiferença. — Ele pode está querendo avisar ao meu tio que estou bem.

— Você sabia que ele é um suspeito? — Sasuke olhou para mim pelo retrovisor.

Eu quase engasguei com o que ele disse.

— Oi? — perguntei incrédula. — Naruto? — tive que me controlar para não rir. — Ele não mata uma formiga.

— Ele ligou para o meu irmão naquele dia. — Sasuke disse com raiva.

— Ele o quê? — me aproximei do banco dele ignorando as sacolas no banco.