Disclaimer: Bleach, bem como os seus respectivos personagens, não me pertence, e sim a Tite Kubo. Eu posto esta fic apenas por diversão e entretenimento, e sem nenhuma intenção de lucrar algo com isso.

Esclarecimento: Esta história também não é de minha autoria, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Abby Green, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books (edição 313, publicada no Brasil em 2013).

OBS: Esta adaptação com certeza tem OoC. Muito bem, o aviso foi dado a todos...


NOITE COM O INIMIGO

Capítulo 1

Orihime Inoue se mantinha nas sombras como uma fugitiva. A alguns metros se erguia o hotel mais luxuoso de Mendoza em sua gloriosa majestade colonial, de frente para a imponente Plaza Independencia. Ela garantiu a si mesma que não era uma fugitiva. Estava apenas se preparando… avaliava o nível das pessoas que entravam no saguão: ricas e exclusivas, a elite da sociedade de Mendoza.

A tarde escurecia e as lâmpadas que piscavam nos arbustos e nas árvores criavam um ambiente de contos de fadas. Orihime endureceu os lábios e tentou acalmar o coração. Há muito tempo deixara de acreditar em contos de fadas - se é que já acreditara. Jamais abrigara ilusões a respeito do lado sentimental da vida. Era o que provavelmente acontecia com qualquer criança que a mãe tratasse como uma boneca para ser mostrada, e cujo pai se ressentisse por ela não ser o filho que ele perdera.

Ela sacudiu a cabeça para afastar a repentina melancolia e, ao mesmo tempo, percebeu a chegada de um carro esporte prateado - evidentemente antigo e luxuoso - à entrada do hotel. Ela se encolheu, sentiu a boca seca e as mãos úmidas de suor. Seria…? O porteiro do hotel abriu a porta do carro e uma longa silhueta saiu do banco do motorista.

Era ele.

Orihime sentiu o coração parar por um instante. Ichigo Kurosaki. O mais bem-sucedido vinicultor de Mendoza e provavelmente, naquele momento, de toda a Argentina. Sem contar a sua vinícola na região de Bordeaux, na França, que garantia que ele tivesse duas vindimas por ano. No meio reconhecidamente instável da produção de vinhos, os lucros de Ichigo haviam triplicado nos últimos anos e ele irradiava sucesso de cada centímetro dos seus 1,81 m e dos ombros largos.

Ele vestia um smoking preto e olhava ao redor com um olhar entediado. Orihime podia ver o seu belo rosto arrogante e severo. O olhar dele passou pelo lugar onde ela estava escondida, e só então ela sentiu o coração bater novamente e voltou a respirar. Esquecera como aqueles olhos castanhos eram impressionantes. Ele parecia mais magro. Mais bronzeado. Mais sexy. O seu notável cabelo alaranjado facilitava a sua identificação no meio da multidão - não que o seu carisma e a sua elegância não o distinguissem. Ele tinha mais que aparência… tinha uma aura quase tangível de poder e de energia sexual.

Um movimento inesperado fez com que ela desviasse os olhos e visse o porteiro ajudar uma bela loira a sair do outro lado do carro. A moça se aproximou de Ichigo. Seus cabelos brilhavam quase tanto quanto o vestido muito justo de lamê prateado. Ela enlaçou o braço no dele e Orihime não conseguiu ver o olhar que os dois trocaram, mas, pelo sorriso da loira, não duvidou que tinha sido intenso. Ela sentiu uma pontada de dor e colocou a mão no peito. Não ! Não deixaria que ele a perturbasse daquele jeito. Não deixaria que ele a perturbasse de jeito nenhum.

Ela passara a maior parte da adolescência sonhando com ele, desejando-o. E seus sonhos tolos haviam terminado em desastre, no agravamento da hostilidade que existia entre as suas famílias há gerações. O desacordo acabara com todas as chances e levara a sua própria família a se separar. Ela realizara todas as suas fantasias, mas também fora jogada em um pesadelo de terríveis revelações. A última vez em que vira Ichigo Kurosaki fora alguns anos atrás, em um clube, em Londres. Os olhares dos dois haviam se cruzado através da sala cheia de gente, e ela jamais esqueceria o desprezo que vira em seu rosto, antes que ele se virasse e fosse embora.

Ela respirou profundamente várias vezes, rezou, implorando por calma, e endireitou os ombros. Não podia se esconder no escuro a noite inteira. Fora até ali para dizer a Ichigo Kurosaki que estava em casa e que não pretendia vendê-la a ele. O antigo legado da família estava em suas mãos e ela não deixaria que morresse com ela. Era preciso que Ichigo soubesse, ou iria pressioná-la da mesma maneira que fizera com seu pai, aproveitando-se da sua fraqueza para tentar convencê-lo a vender suas terras ao vizinho mais bem-sucedido.

Por mais que ela preferisse recorrer a advogados, não estava em condições de pagar seus honorários. E não queria que ele pensasse que estava amedrontada demais para enfrentá-lo pessoalmente. Orihime tentou esquecer o último encontro catastrófico que haviam tido: se voltasse ao passado, com certeza iria dar meia-volta. Precisava se concentrar no presente. E no futuro.

Mais do que ninguém, ela sabia como a família Kurosaki podia ser impiedosa e, ainda assim, se impressionara com a pressão a que Ichigo Kurosaki submetera um homem debilitado. Era o tipo de atitude que ela esperaria do pai dele, mas não dele… que grande tola ! Deveria ter sabido o que esperar.

Orihime ajeitou o vestido preto brilhante. Suas mãos tremiam. O orçamento, que encolhera desde que deixara a Argentina, não lhe permitia comprar trajes de baile. Naquela noite haveria o prestigiado Jantar Anual dos Vinicultores de Mendoza, e ela não conseguiria entrar se não se misturasse aos outros. Por sorte, ela encontrara alguns vestidos que haviam sido de sua mãe, e que seu pai não destruíra durante o ataque de fúria que tivera há oito anos… escolhera um que lhe parecera discreto, com um decote alto na frente. Só depois que o vestira e percebera que se não saísse logo iria perder a oportunidade, ela viu que o vestido deixava as costas à mostra… até a altura das nádegas. Todas as outras roupas precisavam de uma boa lavada. Só aquele fora miraculosamente protegido por uma capa de plástico. Portanto, seria aquele ou nada.

Orihime só desejava que sua mãe fosse menos audaciosa. Ela tinha 1,60 m, e o vestido acabava na altura do meio das coxas, mostrando grande parte das pernas. A sua combinação incomum de cabelos alaranjados, olhos cinza-escuros e pele clara fora uma cortesia da mãe de sua bisavó, que viera para a Argentina com uma onda de imigrantes e se casara com um membro da família Inoue.

Portanto, quando ela saiu das sombras e o sopro de uma brisa suave lhe atingiu a pele nua, sentiu-se extremamente exposta. Reunindo toda a coragem de que precisaria para aquele encontro, ela corajosamente ignorou os olhares que provocava e entrou no luxuoso saguão de mármore.


Ichigo Kurosaki abafou um bocejo. Trabalhara dobrado para garantir que as uvas daquele ano logo estivessem prontas para a colheita. Depois de um verão caprichoso, elas produziriam a melhor vindima que pudessem conseguir, ou a pior. Ele sorriu sutilmente. Sabia que a produção da vindima não era a sua única desculpa para trabalhar como o diabo. A sua ética de trabalho estava profundamente enraizada na infância problemática.

- Realmente, querido - disse uma voz seca ao seu lado - Eu sou tão entediante ?

Ichigo olhou para sua acompanhante e deu um sorriso bem-humorado.

- Jamais.

A loira fingiu lhe dar um beliscão no braço.

- Acho que o tédio está começando a afetá-lo, Ichigo. Você precisa ir para Buenos Aires e se divertir um pouco. Não sei como fica neste lugar parado - ela estremeceu dramaticamente, disse algo a respeito de ir ao banheiro e se afastou com um sexy andar sinuoso.

Ichigo ficou feliz por ser imune àquele tipo de demonstração feminina, observou os homens se virarem para olhá-la, sacudiu a cabeça e agradeceu à sorte por Arisa tê-lo acompanhado naquela noite. Isto afastaria, pelo menos temporariamente, as mais ousadas devoradoras de homens de Mendoza. Não estava disposto a agüentar as mulheres mercenárias, que parecia atrair aos montes. Sua última namorada gritara histericamente com ele durante uma hora, acusando-o de não ter alma nem coração. Ele não queria passar por isso outra vez tão cedo. Podia passar sem sexo, se fosse esse o resultado. Para dizer a verdade, seus últimos relacionamentos sexuais tinham parecido estranhamente… vazios. Satisfatórios apenas em um aspecto. E quanto a relacionamentos de longo prazo ? Com certeza, ele não pretendia sequer pensar no assunto. A relação venenosa de seus pais lhe ensinara, desde a mais tenra idade: ele escolheria uma parceira de longo prazo com extremo cuidado e prudência. Naturalmente, em algum ponto do seu futuro haveria uma companheira estável: ele tinha um legado valioso para passar à próxima geração e não pretendia romper o precioso ciclo da herança.

Nesse momento, ele viu alguém aparecer na porta do salão de baile. Ichigo se arrepiou e sentiu uma comichão na nuca, exatamente da mesma maneira como acontecera quando, ao chegar ao hotel, tivera a sensação de estar sendo observado. Ele não conseguia ver as feições da moça. Só conseguia ver as suas longas pernas claras, bem torneadas, e o curto vestido preto cintilante que acentuava a sua silhueta esguia. Mas algo nela lhe era familiar. Ele sentia isso em suas entranhas. Os cabelos alaranjados desciam em ondas sobre seus ombros, e ele a viu virar a cabeça. Mesmo de onde estava, ele percebeu que ela se acalmava e que depois começava a andar… diretamente em sua direção. Ichigo sentiu um impulso absurdo de se virar e ir embora, mas ficou parado onde estava. Enquanto ela se aproximava cada vez mais por entre a multidão, ele percebeu que uma suspeita se formava e se firmava em sua cabeça. Não poderia ser, ele disse a si mesmo. Fazia anos… ela morava em Londres.

Ele mal percebia os murmúrios, que aumentaram de volume quando ela parou diante dele, a poucos centímetros de distância. A certeza e a incredulidade lutavam em sua cabeça, além do reconhecimento de que ela estava linda. Ela sempre fora bonita - levemente etérea - , mas amadurecera e se tomara deslumbrante desde a última vez em que a vira. Era escultural, esbelta e curvilínea ao mesmo tempo. Um pacote excitante.

Ichigo não tinha percebido que a examinara detalhadamente, até que os seus olhos se encontraram e ele a viu corar. Aquilo teve um efeito direto no seu corpo, levando-o a sentir um latejar quente de desejo na virilha. O tédio que ele fora acusado de sentir desaparecera. Várias sensações e muitas emoções começaram a se agitar em suas entranhas, as mais fortes sendo a amargura da traição e a humilhação. Ainda, depois de tantos anos. Ele se protegeu atrás de um frio muro de raiva. Qualquer coisa serviria para extinguir a indesejada pontada de desejo. Seus olhos desafiaram os olhos dela, e ele precisou recorrer a todo o seu férreo controle para não voltar no tempo e reviver a sensação de neles se afogar.

- Orihime Inoue - disse ele, separando as sílabas, sem um traço de perturbação na voz - O que diabos você faz aqui ?


Orihime se encolheu e tentou manter a compostura.. a caminhada da porta até ali parecia ter durado séculos, não segundos, e os sapatos de sua mãe, que calçava um número a mais, também não a tinham ajudado. Ela ouvia os murmúrios em volta e sabia que nenhum seria elogioso, depois de seu pai ter expulsado publicamente a ela e à sua mãe, oito anos antes.

A boca de Ichigo Kurosaki formou um falso sorriso.

- Por favor, aceite as minhas condolências pela morte de seu pai.

Uma labareda subiu pelas costas de Orihime.

- Não vamos fingir que você se importa - disse ela, sem se incomodar que ouvissem. Ichigo não se embaraçou por ter audiência, mas a dor e a revolta inútil que ela sentiu pela morte do pai quase a sufocaram. O homem à sua frente cruzara os braços, parecendo ainda mais intimidador. A pele de Orihime formigava incomodamente nas costas descobertas. Suas mãos, caídas ao lado do corpo, se fecharam e se crisparam. Ele deu de ombros com indiferença.

- Não. Não posso dizer que me importei. Mas pelo menos sou educado.

Orihime corou intensamente. Alguns anos antes, ela soubera da morte do pai dele pelos jornais. Os dois eram produto de gerações que teriam alegremente dançado sobre os túmulos uns dos outros, mas não era do seu feitio se deleitar com a morte de alguém, até mesmo de um inimigo.

- Eu também sinto pela morte do seu pai - disse ela desajeitada, mas sinceramente.

Ele levantou a sobrancelha e contraiu o rosto.

- Isso também se aplica à minha mãe ? Ela se suicidou ao descobrir que a sua mãe e o meu pai tiveram um caso durante anos… depois que o seu pai lhe contou.

Ela empalideceu ao ouvi-lo dizer que sabia do caso. Percebeu quanta raiva estava contida naquela máscara de civilidade, quando os olhos dele brilharam perigosamente e marcas de tensão surgiram ao redor da sua boca sensual. Ela ficou atordoada e sacudiu a cabeça. Não tinha idéia de que seu pai contara à mãe dele sobre o caso, e nem de que ela havia se suicidado.

- Eu não sabia de nada disso…

Ele sacudiu a mão com desdém.

- Nem poderia. Você se apressou em ir embora e em gastar a fortuna da família, viajando pela Europa com a sua mãe perdulária.

Orihime sentiu-se enojada. Estava sendo pior do que ela receara. Imaginara ingenuamente que diria as poucas palavras que pretendia dizer a Ichigo Kurosaki, que ele a responderia civilizadamente, e que isso seria tudo. Mas a antiga hostilidade entre as famílias ainda estava forte e viva, e irrompera entre os dois, com algo mais que ela não queria admitir.

De repente, Ichigo deu uma olhada ao redor, praguejou e pegou-a pelo braço. Antes de saber o que estava acontecendo, ela se viu sendo literalmente arrastada para o outro lado da sala. Em um canto afastado, ele a fez virar e encará-lo. Desfizera-se de toda a civilidade e seu rosto brilhava de raiva e de indignação.

Orihime se soltou e massageou o braço que latejava, decidida a não deixar que ele percebesse o quanto estava abalada.

- Como ousa me tratar como uma criança indisciplinada ?!

- Eu já lhe perguntei uma vez: o que está fazendo aqui, Inoue ? Você não é bem-vinda.

Diante daquela arrogância, ela sentiu a raiva subir e se lembrou da razão pela qual estava ali e do que estava em jogo: a sua subsistência. Ela se aproximou.

- Para sua informação, aqui eu sou tão bem-vinda quanto você. Eu vim lhe dizer que, assim como meu pai não cedeu à sua pressão para vender as terras, eu também não cederei.

Ichigo Kurosaki escarneceu:

- A única coisa que você tem agora é um pedaço de terra inútil com vinhas estragadas. É um horror. A sua terra não produz nenhum vinho digno de nota há anos.

Ela disfarçou a dor de saber que seu pai perdera tudo e retrucou:

- Você e o seu pai pressionaram o meu e sistematicamente o expulsaram do mercado, até que ele não podia mais competir - ela o viu endurecer o queixo.

- Não foi nada além do que fizeram conosco várias vezes. Eu adoraria dizer que gastamos tempo planejando meios de sabotá-lo, mas os vinhos dos Inoue deixaram de vender porque simplesmente eram inferiores. Vocês provocaram isso, sem precisar de nossa ajuda.

As palavras a atingiram dolorosamente porque era verdade, e Orihime recuou ao perceber o quanto ele estava furioso e indignado. A maneira como ela reagia tinha mais a ver com a proximidade de Ichigo e com o efeito que isso provocava em seu corpo, e pior, com lembranças perturbadoras, do que com a raiva que ele demonstrava. Ela não conseguiu se impedir de ter uma visão do tempo em que pressionava tanto o corpo contra o dele que podia sentir todos os seus músculos e a evidência da sua atração por ela. Era atordoante e excitante. Ela o desejava tanto que chegara a lhe implorar…

- Aqui está você !

- Agora não, Arisa - resmungou Ichigo.

Orihime agradeceu silenciosamente pela interrupção, deu uma olhada na linda loira que vira com ele, na entrada do hotel, e tentou se afastar, mas ele a agarrou novamente pelo braço.

- Espere por mim na mesa, Arisa - resmungou ele. A moça arregalou os olhos e olhou de um para outro, soltou um assobio, sacudiu a cabeça e foi embora. Orihime pensou vagamente que ela era tolerante demais para uma namorada. Ainda abalada pela lembrança vívida que tivera, ela tentou se soltar furiosamente. Sentiu o vestido escorregar do seu ombro, notou que ele a olhava e viu um brilho ardente passar pelos seus olhos castanhos. Ela começou a falar rapidamente para não reagir àquele olhar - que provavelmente fora obra da sua imaginação. Aquele homem não sentia nada por ela, a não ser ódio.

- Eu simplesmente vim lhe dizer que estou de volta e que não vou vender a propriedade dos Inoue. E, se eu vendesse, você acha que, depois do que nós passamos, seria para um Kurosaki ? Eu preferiria incendiá-la. Pretendo devolver à terra toda a sua glória.

Ele ficou parado e depois soltou uma gargalhada, jogando a cabeça para trás e mostrando o seu pescoço forte. Quando ele endireitou a cabeça, Orihime sentiu uma fraqueza e um calor perturbador.

- Você deve ter perturbado muito o seu pai antes de ele morrer, para convencê-lo a deixá-la para você. Depois que você e sua mãe partiram e todos souberam do caso, ninguém esperava vê-las novamente.

Ela crispou os punhos. Era-lhe doloroso pensar naquele tempo e no quanto seu pai, justificadamente, ficara furioso.

- Você não tem idéia do que está falando.

- Era de conhecimento público que o seu pai, quando morreu, não tinha um peso em seu nome. É o provedor suíço que se casou com a sua mãe que está sustentando esse capricho ? - ele endureceu o queixo - Ou será que também arranjou um marido rico ? Você encontrou um em Londres ? Da última vez em que a vi, você estava freqüentando os clubes certos.

Ela ficou indignada e apertou ainda mais as mãos.

- A minha mãe não está financiando nada. E eu não tenho um marido rico, nem namorado ou amante. Não que isso seja da sua conta.

Ichigo fez uma expressão perplexa e chocada.

- Está querendo me dizer que a princesa mimada dos Inoue acha que pode voar para casa e recuperar um vinhedo falido, sem ajuda ou experiência ? Cansou-se das festas em iates, em Cannes, e arranjou um novo passatempo ?

Orihime sentiu o sangue subir. Ele não tinha idéia de como ela lutara para se afirmar junto ao pai, para provar que poderia ser tão boa quanto qualquer homem… quanto seu pobre irmão que morrera. Agora jamais teria aquela chance porque seu pai também morrera. E não deixaria que o legado que herdara morresse com ela. Queria provar que era capaz de recuperar as vinhas, e não iria deixar que outro homem - além de seu pai - ficasse em seu caminho.

- É exatamente o que estou dizendo, Ichigo. Fique longe do meu caminho e não espere um anúncio de "Vende-se"… jamais - enquanto ela recuava, evitando que ele visse suas costas nuas, ele falou friamente:

- Eu lhe dou duas semanas para gritar e sair correndo. Você não sabe o que é necessário para administrar uma vinicultura de sucesso. Nunca trabalhou nem um dia nas vinhas. Faz muitos anos que a Inoue não produz um vinho que valha a pena, e o seu pai afundou com os preços acima do mercado. Você está dando um passo maior que as pernas, Inoue, e vai perceber que, não importa o preço que coloque no cartaz, eu pretendo cobri-lo. Só para ter a satisfação de saber que a sua família se foi para sempre.

Orihime escondeu a mágoa. Ele sabia que ela nunca trabalhara nas vinhas porque ela havia lhe contado. Fora uma revelação íntima que não deveria ser usada contra ela.

Ichigo se aproximou e falou friamente:

- Como você vê, eventualmente a propriedade fará parte da marca Kurosaki… recusando-se a vendê-la, você só está prolongando a sua agonia. Pense bem: em uma semana pode estar em Londres, sentada na primeira fila de um desfile, com dinheiro suficiente para satisfazê-la por muito tempo. Providenciarei pessoalmente para que você não tenha motivos para voltar aqui nunca mais.

Ela balançou a cabeça e tentou controlar a horrível sensação de que pulara num abismo. Estava chocada com a extensão do ódio daquele homem, mais magoada do que deveria, e isso a apavorava. Quando ela falou, não conseguiu impedir a rouquidão da própria voz.

- Aqui é o meu lar… tanto quanto seu… e, antes de me ver ir embora, você terá que carregar o meu cadáver - Orihime estava amargamente ciente de que, a despeito da sua declaração, tudo que ele dissera era verdade. A não ser pela idéia que ele tinha da sua vida. A esse respeito, ele nada sabia, e ela não pretendia lhe contar. Ela recuou mais um pouco - Não se aproxime da minha propriedade, Ichigo Kurosaki… nem você, nem ninguém do seu pessoal. Vocês não serão bem-vindos.

Ele sorriu com ironia.

- Admiro a sua atuação, Inoue, e estou ansioso para ver quanto tempo você vai sustentar o seu papel.

Por fim, ela conseguiu desviar os olhos de cima dele e ir embora, mas não antes de tropeçar nos sapatos demasiado largos. Ela trincou os dentes e orou silenciosamente para manter a dignidade e não perder um sapato na frente do arrogante Kurosaki e da multidão atônita, enquanto caminhava para a porta. Manteve a cabeça erguida. E só quando chegou ao velho jipe do pai, no estacionamento, foi atingida pelo choque e tremeu incontrolavelmente por longo tempo.

A terrível realidade é que ele tinha razão. Tentando fazer a propriedade produzir outra vez, ela estaria correndo atrás do nada. Mas não iria deixar de tentar. Seu pai lhe oferecera uma reparação há muito tempo devida, e, ainda que tivesse vindo tarde, ela sempre se agarrara à esperança de que ele iria procurá-la. Ela teria voltado antes, se soubesse que seria bem-vinda. Desde que conseguia se lembrar, sempre desejara trabalhar na propriedade. Quando recebera a carta comovente do pai doente, que desabafava seu arrependimento, Orihime não fora capaz de ignorar o pedido de que ela voltasse para casa e tentasse salvar as terras. Seu relacionamento com o pai nunca havia sido próximo. Ele deixara claro que queria ter tido filhos, não uma filha, e acreditava piamente que o lugar da mulher era em casa, e não nos vinhedos. Mas ele compensara uma vida de desprezo em seu leito de morte, quando percebera que poderia perder tudo.

Ela rezara e esperara chegar em casa a tempo de vê-lo, mas ele morrera durante o primeiro trecho do vôo que a levara a Buenos Aires. Um advogado viera lhe dar a notícia, e ela fora diretamente do aeroporto de Mendoza para o funeral particular e solitário, em uma sepultura localizada na propriedade. Não conseguira entrar em contato com sua mãe, que estava em um cruzeiro com o quarto marido, dez anos mais moço, e se sentia muito solitária diante da animosidade de Ichigo Kurosaki e da aparentemente insuperável tarefa de administrar a plantação dos Inoue.

A lenda dizia que os ancestrais de Orihime Inoue e de Ichigo Kurosaki eram dois amigos espanhóis imigrantes que haviam feito uma longa jornada até a Argentina para começar vida nova. Os dois tinham combinado plantar juntos uma vinha, mas alguma coisa acontecera. Uma mulher estaria envolvida nessa história: um caso de amor que dera errado e uma amarga traição. Como vingança, o ancestral de Orihime jurara destruir o nome dos Kurosaki. E para isso fundara a vinicultura Inoue, instalando-a exatamente ao lado da de seu rival. Os vinhos Inoue haviam feito um sucesso estrondoso, prejudicando o nome dos Kurosaki e garantindo que a briga se tornasse mais intensa e se agravasse, enquanto cada geração dos dois lutava para dominar e se vingar. A violência entre as famílias havia se tornado habitual. Uma vez, um membro da família Kurosaki fora assassinado, mas nunca haviam provado que o culpado tinha sido um Inoue. Reviravoltas da sorte haviam ocorrido através dos anos mas, quando Orihime nascera, as duas propriedades se igualavam em matéria de sucesso e as nuvens negras de hostilidade entre as duas famílias pareciam ter dado uma trégua. Apesar da relativa paz, ela crescera sabendo que seria punida, mesmo que estivesse apenas olhando na direção dos vinhedos dos Kurosaki.

Ela corou violentamente ao se recordar de que Ichigo a chamara de "princesa". Na verdade, ele só a via em alguns eventos sociais, quando as famílias eram forçadas a se encontrar, e quando os anfitriões nervosos tomavam cuidado para que eles realmente não se misturassem. A mãe de Orihime aproveitava essas ocasiões para exibi-la vestida na última moda, forçando a menina naturalmente discreta e estudiosa, tentando moldá-la para ser a filha sofisticada que ela tanto desejava. A linda mãe de Orihime desejava uma confidente, não uma criança.

Ela se sentia tão constrangida e mortificada naquelas ocasiões que dava um jeito de desaparecer, enquanto admitia ter uma fascinação proibida por Ichigo Kurosaki, seis anos mais velho e que, apesar de ainda adolescente, irradiava virilidade e uma clara arrogância. A tensão e a distância entre as famílias só o deixava ainda mais atraente e fascinante.

E então, quando ela fizera doze anos, fora mandada para um internato, em Londres, e só voltava para casa durante as férias. Vivia para aqueles poucos meses e suportava ser exibida pela mãe como se fosse uma boneca, porque isso significava que poderia ter o prazer proibido de ver Ichigo Kurosaki durante o torneio anual de pólo ou nas festas. Às vezes, ela olhava pela janela do seu quarto e o via à distância, montado a cavalo, inspecionando as vinhas vizinhas. Para ela, ele parecia um deus - forte e orgulhoso, e, quando ela o encontrava socialmente, ele sempre estava rodeado por garotas.

Ela comprimiu os lábios ao pensar na bela loira que ele acabara de dispensar com indiferença. Evidentemente, nada mudara…

Oito anos antes, a trégua entre as famílias explodira e se transformara em renovada inimizade, mostrando a Orihime a profundidade do ódio que existia entre elas. Ela queria esquecer o fato de que estragara a impressão que provocara em Ichigo, que se desmanchara tão rapidamente quanto se formara. Em que alguém como ele iria acreditar ? Numa vida de propaganda e impressões erradas ? Ou nos mais breves momentos cheios de desejo, que haviam azedado para sempre ?

Ela balançou a cabeça e estendeu a mão trêmula para dar a partida no motor. Tinha diesel suficiente para chegar até a pequena cidade de Villarosa, a meia hora de Mendoza. Com certeza, Ichigo passaria a noite em uma suíte do majestoso hotel, acompanhado da loira de pernas compridas, mas ela não tinha para onde ir, a não ser uma propriedade arruinada de onde a eletricidade fora cortada há meses, e onde ela e os fantasmas de trabalhadores leais dependiam de um antigo gerador para ter luz.

Ela saiu do estacionamento do hotel e pensou que vários ancestrais dos Kurosaki deveriam estar rindo do seu impasse.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 2.