Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Abby Green, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books.

OBS: O trecho em itálico é um flashback.


Capítulo 2

Ichigo estava em transe. Quando Orihime Inoue saiu, ele só via a imagem das costas nuas e dos cabelos alaranjados sobre a pele clara. Ela tropeçou nos sapatos, o que a fez parecer dolorosamente vulnerável, mas se recuperou e saiu do salão como uma rainha. Ela não tinha o direito de se aborrecer por ele a ter chamado de "princesa", porque era o que ela sempre fora. Quando mais jovem, parecia uma delicada boneca de porcelana, e ele odiava admitir, mas sempre ficara fascinado com a sua pele pálida e com seus olhos cinza. Ichigo se envergonhava da sua ingenuidade, mas houvera momentos em que acreditara que ela não se sentia à vontade no seu ambiente social, quando parecera quase enojada pela mãe empurrá-la e exibi-la. Ele percebera que, sob a sua delicada aparência, existia algo mais sólido.

Ichigo contraiu a boca. Bem, ele experimentara pessoalmente o quanto havia de sólido sob aquela beleza etérea. Como se precisassem lhe lembrar do tipo de pessoa que era ela. Uma vez tentara desafiar seus preconceitos, mas não passara de uma encenação. Ela herdara a natureza sedutora da mãe: uma sensualidade capaz de enfeitiçar o homem mais resistente, e que, antes dele, enfeitiçara seu pai. E Orihime só tinha dezessete anos. Ele se sentia humilhado ao recordar, mas não conseguia controlar as lembranças. Não logo depois de tê-la visto de perto pela primeira vez em anos.

Uma noite, ele estivera inspecionando as vinhas próximas às terras dos Inoue. Precisavam estar vigilantes para o caso de sabotagem. Naquela noite em particular, ele se sentia cansado e frustrado. Cansado da constante tristeza de sua mãe, nunca diagnosticada como depressão, da corrosiva crueldade e da habitual violência de seu pai. Durante o jantar, o pai estivera bebendo e reclamando sobre como o sucesso dos Inoue ameaçava suas vendas. Ichigo sempre acreditara que cada um faz o próprio sucesso, mas, contido pela autoridade do pai, não fora capaz de dizer o que pensava.

Algo o fizera levantar os olhos para a pequena colina que servia de limite natural entre as duas propriedades, e ele vira uma mulher de cabelos alaranjados montada num cavalo. Orihime Inoue. Olhando diretamente para ele. O seu cansaço imediatamente se transformara em uma raiva irracional por ela fazer com que ele pensasse nela, sonhasse com ela, apesar de ela ser proibida. Também representava a obscura e confusa briga que ele jamais entendera. Mas a imagem orgulhosa que ela formava, montada no cavalo, só fez fasciná-lo ainda mais. Cedendo a um impulso mais forte que a vontade, Ichigo esporeara o cavalo e galopara na sua direção, só para vê-la dar meia-volta e desaparecer.

Oito anos depois, ele ainda sentia a necessidade premente latejar no seu sangue: necessidade de ir até ela, de vê-la de perto. Durante toda a vida, jamais haviam permitido que os dois se falassem, mas ele percebera a maneira como ela o olhava à distância e, depois, desviava os olhos, envergonhada.

Por fim, ele conseguira vê-la ao longe, com os cabelos esvoaçando ao vento, galopando pelo vale como se fosse uma bala, e fora atrás dela. Encontrara o seu cavalo amarrado a uma árvore no limite das duas propriedades, num lugar remoto onde haviam plantado orquídeas. Ela estava em uma clareira entre as árvores, como se soubesse que ele iria segui-la. Ficara mais fascinado pelos cabelos brilhantes e pelo rosto corado do que queria admitir.

Ichigo apeara do cavalo e se aproximara. A sua raiva se dissolvera como a neve sobre a pedra quente. A natureza proibida do que estavam fazendo se impregnara no ar que os cercava.

- Por que você me seguiu ? - perguntara ela de repente, com a voz rouca.

Ele respondera instintivamente:

- Talvez eu só quisesse ver a princesa Inoue de perto.

Ela recuara, pálida como um fantasma e com os olhos brilhando. Ele estendera as mãos...

- Espere. Não sei por que eu disse isso… desculpe - ele suspirara - Eu a segui porque queria… e porque acho que era isso que você queria que eu fizesse.

Ela corara, e Ichigo, sem se dar conta, tocara-lhe o rosto, fascinado pela maneira como ela demonstrava suas emoções claramente. Havia sentido a maciez de sua pele sob a mão calejada e um desejo tão forte que quase o derrubara. Ela mordera o lábio e dera um passo para trás, parecendo preocupada.

- Nós não deveríamos estar aqui. Se alguém nos vir…

Ele a vira estremecer. Os seus seios esticaram o tecido da blusa e as calças de montaria que lhe envolviam os quadris. Ele tentara se controlar, mas sentira o fogo se espalhar pelo seu corpo. Ela lançara um olhar de desafio, confirmando que não era tão delicada quanto parecia - como se o galope pelo campo já não houvesse confirmado a suspeita que ele tinha.

- Eu não sou uma princesa. Odeio ser exibida em público como uma espécie de manequim. É a minha mãe que… ela gostaria que eu fosse mais parecida com ela. Não me deixam sequer cavalgar sozinha: preciso sair às escondidas, enquanto estão ocupados…

Ele a vira olhar para a sua boca e corar novamente. A energia e a testosterona se espalharam pelo seu corpo e ele sorrira.

- Eu passo praticamente o dia montado num cavalo… trabalhando nos vinhedos.

- Foi isso o que eu sempre quis. Mas, quando o meu irmão morreu, o meu pai me pegou colhendo uvas e me mandou para casa. Disse que, se me encontrasse nos vinhedos outra vez, ele me bateria com o cinto.

Ele se admirara e sentira o peito se encolher. Sabia muito bem o quanto doía a cólera de um pai.

- O seu irmão morreu há alguns anos, não morreu ? - perguntara ele. Orihime desviara os olhos e respondera com dificuldade.

- Ele morreu num acidente, quando estavam esmagando as uvas. Só tinha treze anos.

- Sinto muito. Vocês eram muito próximos ? - perguntara ele com tristeza.

- Eu o adorava - respondera ela, com os olhos brilhando - O meu pai é dado a… crises de raiva. Um dia, eu o aborreci, e ele teria me batido se Sora não tivesse me defendido. O meu pai não hesitou em bater nele, furioso por ter sido enfrentado pelo próprio filho. Naquela época, ele tinha apenas oito anos… - os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Ichigo já fora objeto de várias surras e agira por instinto, abraçando-a.

A sua necessidade de consolá-la fora impressionante e totalmente inesperada em alguém que costumava manter as pessoas a distância. Orihime não passava de uma estranha, mas, naquele momento, ele sentira uma profunda afinidade com ela. Depois de um longo tempo, ela se afastara e ele a soltara com relutância.

- Preciso ir - dissera ela - Devem estar procurando por mim.

Ele a pegara pelo braço, sentindo uma agitação no peito. Ela se voltara, e ele perguntara:

- Espere… Você me encontra aqui, amanhã ? - o mundo parecera ter parado, e ele esperara ouvir uma gargalhada, alguma indicação de que se enganara, mas ela corara.

- Eu gostaria muito - respondera ela.

Eles haviam se encontrado todos os dias, durante uma semana, e, naqueles momentos roubados, o tempo parecia suspenso numa bolha e as inibições se desmanchavam. Ichigo lhe contara coisas que nunca dissera a ninguém, com a maior facilidade, como se a conhecesse há anos. A cada dia que passava, mais ele se deixara absorver por Orihime Inoue, mais ficara fascinado pela sua beleza, que ele descobrira ter uma sensualidade natural e que o deixava aturdido de desejo. Mas, depois do primeiro dia, quando a abraçara, assustado com a dimensão do próprio desejo, evitara tocá-la. A tensão sexual que existia entre os dois tinha explodido no último dia. Quando ele chegara para encontrá-la, os dois haviam ficado calados. O ar parecera vibrar de tensão em volta deles, e ela já estava em seus braços, antes que ele os estendesse.

Ele a beijara e ela se agarrara a ele como se estivesse se afogando. Ele a agarrara pelos cabelos macios como seda e sentira que as pernas dela tremiam. Os dois haviam escorregado para o chão e se deitado sobre a grama, sob a sombra das árvores, indiferentes ao ambiente idílico. Consumido de desejo, ele lhe abrira a blusa com dedos trêmulos. Não era um adolescente inexperiente, um novato, mas se sentira como um quando ela olhara para ele por entre as pestanas e com o rosto rosado. Quando ele lhe abrira a blusa e o sutiã e descobrira seus seios brancos de mamilos róseos, quase perdera a cabeça. E, quando ele já estava embriagado pelo gosto de seus doces seios, pelos gemidos que ela soltava e pelos movimentos que fazia com os quadris, só percebera que acontecera alguma coisa ao senti-la endurecer em seus braços. Os dois levantaram a cabeça ao mesmo tempo e viram as figuras sinistras, montadas a cavalo, que os observavam. Tudo ficara confuso. Ichigo se apressara a cobrir Orihime, e ela se escondera atrás dele. Os dois tinham sido empurrados, sem cerimônia, para fora da clareira, por seus respectivos empregados, e levados de volta para casa…

- Alô ? Terra chamando Ichigo ?

Ichigo estremeceu e voltou ao presente. Arisa segurava duas taças de champanhe, e lhe ofereceu uma delas.

- Tome. Acho que lhe fará bem.

Ele se sentia sensível e exposto, mas se fez de indiferente e tomou a bebida, controlando-se para não tomá-la de um só gole.

- Então aquela moça era mesmo da família Inoue ? Pensei que precisaria de uma mangueira para esfriar as coisas entre vocês.

- Ela é a última Inoue. Voltou para assumir os negócios da família - resmungou ele, querendo esquecer as lembranças.

- Que interessante…- Arisa falou, em tom inocente - Você também é o último da sua linhagem…

- A única coisa interessante é que ela será forçada a vender as terras, e finalmente ficaremos livres dos Inoue para sempre.

Muito tenso, ele se afastou, fugindo do olhar curioso de Arisa. Não queria que analisassem o seu encontro com Orihime Inoue. E a última coisa que desejava era que o nome dos Kurosaki voltasse a ser arrastado na lama dos boatos, e que houvesse o recrudescimento de antigas hostilidades. Quanto mais depressa Orihime Inoue percebesse a inutilidade do seu plano e o quanto não era bem-vinda, melhor seria para todos.


- O que ele estará pretendendo ? - Orihime murmurou para si mesma, virando e revirando o convite como se fosse uma armadilha. A mensagem havia sido escrita de um lado e era muito simples. "Você está convidada para provar o melhor vinho produzido este ano pela famosa Vinícola Kurosaki. Sábado, 19h. Casa Kurosaki, Villarosa, Mendoza. Traje de gala".

O convite chegara pelo correio e lhe fora trazido por Byakuya Kuchiki, um dos mais leais empregados, e viticultor de seu pai. Ele e a esposa, Hisana, que cuidava da casa, trabalhavam em troca de comida, ainda que Orihime houvesse lhes dito que não sabia quando poderia lhes pagar novamente o salário. O capataz da vinicultura tinha ido embora há muito tempo, e ela sabia que, até poder pagar outro, precisaria assumir este cargo. Recém-formada em Enologia e Viticultura, faltava-lhe experiência, mas lhe sobrava entusiasmo e ansiava por aquela oportunidade, ainda que fosse um cálice envenenado.

Ela engoliu a emoção que sentia pela prova de lealdade de Byakuya e lhe entregou o convite. Ele leu silenciosamente e o devolveu a ela com uma expressão inescrutável.

- Sabe que, se aceitar este convite, você será a primeira Inoue a ser convidada para ir às terras dos Kurosaki ?

Orihime assentiu, calada. Era extraordinário. Ela não sabia o que ele estaria tramando, mas precisava admitir que estava intrigada para ver a famosa propriedade. Para sua surpresa, ele deu de ombros.

- Talvez você devesse ir. Os tempos mudaram e as coisas não podem continuar como sempre foram. Ele está pretendendo algo. Não tenho dúvida. Ichigo Kurosaki é muito mais inteligente que o pai e, talvez, que o avô. Ele é um inimigo perigoso de se ter… mas, talvez, um inimigo que você conheça...? - ele se calou.

Ela olhou o convite, pensativa. O encontro tumultuado dos dois ocorrera exatamente há duas semanas, e ela ainda ficava abalada quando se lembrava. Examinar os documentos do pai, desde então, mostrara-lhe o quanto Ichigo Kurosaki desejava se apoderar de suas terras.

Seu pai fora bombardeado por cartas que o aconselhavam a vender a propriedade. Algumas, persuasivas, quase amigáveis, e outras claramente ameaçadoras. Todas enviadas pelo advogado dos Kurosaki, mas assinadas por Ichigo Kurosaki. Havia uma carta ameaçadora datada do dia em que seu pai morrera.

Por mais que ela tivesse vontade de rasgar o convite e mandá-lo de volta a Ichigo, sabia que não poderia se isolar e precisava ver contra o que iria lutar. A festa seria na noite seguinte. Ela colocou o convite dentro de uma gaveta, levantou resolutamente e voltou a colocar o chapéu de caubói que estivera usando.

- Vou pensar no assunto. Enquanto isso, nós precisamos inspecionar novamente o vinhedo do leste. Parece que ele é a nossa melhor perspectiva de ter uma colheita este ano.

- Você quer dizer, a única - disse Byakuya sombriamente, enquanto se dirigiam para o velho jipe.

Ela tentou não deixar que a sensação de pânico a dominasse. Estava acontecendo com assustadora freqüência, e não lhe agradava. Perceber que a tarefa monumental de aproveitar a única chance de colheita que teriam naquele ano dependeria dela, de Byakuya e dos amigos que ele conseguisse convencer a ajudar em nada a aliviava. Seu pai fora um viticultor da velha escola e evitara os métodos modernos. Isso dava certo quando se produzia vinhos mais caros e de primeira qualidade e também mais acessíveis, porém, nos últimos anos, seu pai só produzira vinhos de mesa mais baratos. A sua única esperança eram as uvas que haviam sobrevivido à negligência de seu pai, florescido e amadurecido no vinhedo do leste. Eram uvas Sauvignon que produziam o famoso vinho branco que colocara o nome dos Inoue no mapa - principalmente porque os vinhos tintos eram mais comuns na Argentina. Se eles pudessem colhê-las e garantir qualidade e quantidade aos investidores, talvez algum deles lhes desse o dinheiro de que precisavam para voltar aos negócios, ou, pelo menos, que lhes permitisse pagar as contas.


Ichigo estava parado no jardim interno da sua hacienda, muito tenso. Concentrava-se na imponente porta de entrada, onde se via uma longa fila de convidados elegantes que haviam viajado de todos os lugares do mundo para a degustação. Centenas de velas tremulavam em lanternas, garçonetes impecavelmente vestidas em preto e branco circulavam, servindo vinho e canapés. E ele só conseguia pensar… se ela viria. Por que a convidara realmente ?

Ele disse a si mesmo que fora porque queria que ela fosse embora e sentiu um espasmo no peito. Sabia que era muito mais que isso. Na verdade, o que ele queria, desde oito anos atrás e desde que a vira num clube em Londres, era vê-la alquebrada e arrependida. Destruir a sua perfeição. Vê-la tão humilhada como ele havia se sentido, exposta. Ela o levara a se expor e ele estupidamente acreditara na sua encenação. As palavras que Orihime dissera ainda soavam em sua cabeça: "Eu estava entediada. Queria seduzir você porque você era proibido. Era excitante…".

Uma voz maldosa soou ao lado dele.

- É apenas questão de tempo para você comprar a propriedade dos Inoue.

Ichigo tirou os olhos da porta por um instante e olhou para o seu advogado, que fora amigo de seus pais - mais de sua mãe que de seu pai. Ele era um homenzinho baixo e acima do peso, com olhar duro e calculista. Ichigo jamais gostara dele, porém fora mais fácil mantê-lo que dispensá-lo, depois da morte de seu pai, e pensou que deveria pedir ao secretário que procurasse outro advogado. Ele seria justo e daria ao señor Tsukiyomi um belo plano de aposentadoria.

Ele notou um movimento na porta, voltou-se e viu Orihime Inoue entrando. A sua reação instantânea foi quase ridícula: seu corpo se contraiu, a necessidade de vê-la mais de perto voltou, chocando-o com a sua intensidade. Nunca sentira isso por outra mulher nem por alguma amante. De onde ele estava, ela parecia mais estonteante que há duas semanas. Prendera os cabelos e usava um vestido justo azul-escuro, sem alças, que revelava a delicadeza dos ombros e do pescoço, a firmeza dos braços. No entanto, embora Ichigo não conseguisse definir o que fosse, o vestido tinha algo de estranho como o que ela usara em Mendoza, que parecera não lhe assentar perfeitamente - como se não fosse dela. Estava tão acostumado a ver mulheres imaculadamente vestidas que podia detectar a menor anomalia a um quilômetro de distância, e não era o que esperava de Orihime Inoue.

- Quem é ? Ela me parece conhecida.

- Aquela - disse Ichigo, não gostando que o advogado também estivesse olhando para ela - é Orihime Inoue. Ela voltou e assumiu a propriedade da família.

O advogado riu cruelmente.

- Aquele lugar está em ruínas. Ela vai implorar para que você o compre.

Ichigo se afastou do advogado e caminhou em direção a ela. Não conseguia compreender o impulso intenso e perturbador que sentira de dar um soco no homem e que ainda o perturbava ao se aproximar e se deparar com os olhos cinzas que o fitavam. Ela corou, e ele notou as sombras discretas sob seus olhos: sinais de cansaço. Ele sentiu o peito se contrair. Antigamente, ele teria acreditado no artifício, mas, como sua mãe lhe ensinara, não passava de um truque para angariar simpatia, para fazer com que um homem acreditasse que ela era inocente como parecia. E Orihime era inescrupulosa. No entanto, ele sabia que sua cabeça não controlava o seu corpo, e o desejo foi instantâneo.

- Seja bem-vinda à minha casa.


Orihime tentou esconder o quanto estava perturbada só de vê-lo caminhando em sua direção, e conteve a respiração. Chamar aquilo de casa era pouco para um verdadeiro palácio. No passado, a sua casa já fora semelhante, mas agora não passava de um esqueleto desintegrado. Ela não acreditara no charme de Ichigo nem por um segundo. Os seus olhos eram duas lascas de gelo, e ela estremeceu imperceptivelmente, esquecendo que resolvera se mostrar indiferente.

- Por que me convidou para vir aqui ?

- Por que você veio ? - retrucou ele imediatamente.

Ela corou. Todos os seus motivos agora pareciam inconsistentes e transparentes. Deveria ter devolvido o convite rasgado, como pretendera, mas não devolvera. Ela deu de ombros.

- Eu vim porque já se passaram duas semanas, e eu queria que você soubesse que não pretendo ir a lugar algum.

Ichigo fez um gesto com a cabeça, e ela mal notou o homem que se aproximava.

- Sim, senhor ?

- Orihime Inoue, gostaria de lhe apresentar o administrador da minha casa, Kyouraku Shunsui. Ele lhe mostrará a casa e providenciará tudo que você precisar. Se me dá licença… preciso receber outros convidados.

Ele se voltou para ir embora. Ela se sentiu inexplicavelmente desamparada, abandonada… a intensidade do que ele lhe provocara ainda era grande e ela se amaldiçoou por ficar tão vulnerável. Precisava ser forte para enfrentar Ichigo Kurosaki e sua arrogância, ou não sobreviveria. Ela forçou um sorriso e se virou para o homem ao seu lado.

- Obrigada - a cabeça de Orihime girava quando Kyouraku, que provara ser um encantador anfitrião, levou-a de volta ao jardim, que agora estava cheio de convidados. Os homens usavam smokings e as mulheres cintilavam em longos vestidos, cobertas de jóias. Era difícil lidar com a opulência que acabara de ver. A parte que vira da casa era mobiliada com móveis lindos, mas confortáveis. Era um lar. Aquilo a afetava profundamente. A sua própria casa sempre se assemelhara a um mostruário frio e austero, cheio de antiguidades empoeiradas que, infelizmente, já tinham sido vendidas para cobrir a derrocada do pai.

- Vou deixá-la aqui, se não se importa ?

Orihime olhou para o administrador e viu que ele esperava uma resposta.

- Claro. Você deve estar ocupado. Desculpe se o desviei das suas tarefas.

- Foi um prazer, señorita Inoue. O enólogo, Kisuke Urahara, irá lhe servir o melhor da nossa seleção de vinhos para degustar.

Um homem simpático levou-a até a mesa de degustação. Só quando ela viu o olhar sarcástico de Ichigo entre os convidados, do outro lado da sala, entendeu que estava sendo levada exatamente para onde ele pretendia, para ver o que ele queria que ela visse. Ficou chocada com a transparência da intenção de Ichigo e com a maneira como ela esquecera o que estava acontecendo ali. Voltou a atenção para Urahara, que discorria sobre os vários vinhos. Quando alguém o interrompeu, ela aproveitou para se afastar de Ichigo, mas odiou perceber que sabia sempre onde ele estava, como se um fio invisível os ligasse. Desde que atingira a puberdade, sempre tivera consciência dele como homem.

Ela cruzou uma sala silenciosa e pouco iluminada, cheia de estofados luxuosos e móveis de madeira rosada. Saiu para uma varanda que cercava a casa e amparou-se na grade que a delimitava. A brisa trazia o som de uma banda de jazz. Orihime sorriu cinicamente. Ichigo poderia tê-la parado na porta, e ela ainda estaria admirada com o seu sucesso e a sua fortuna. Os caminhos de cascalho, fileiras e fileiras de videiras bem-cuidadas e os galpões iluminados serviam de amostra. Era o que ela queria ver nas suas terras: vê-las florescer, como acontecia quando ela era pequena, com fileiras de videiras carregadas de uvas maduras suculentas…

Ela ouviu um ruído e se virou. Seu coração bateu mais forte ao ver Ichigo parado na porta da sala, bloqueando a luz, com as mãos nos bolsos. Ele estava tão bonito que, por um momento, ela se esqueceu de tudo e só conseguiu enxergá-lo. Precisou recorrer a todo o seu domínio e sorriu. Um sorriso nervoso. Ver a casa de Ichigo de perto a abalara mais profundamente do que gostaria de admitir.

- Você realmente acha que exibir o seu sucesso me faria correr para o aeroporto com o rabo entre as pernas ?

Ele contraiu o queixo e se aproximou. A respiração de Orihime parou na garganta ao sentir o seu perfume, mas ela não tinha como recuar. Suas costas já estavam na grade de madeira.

- Isso aqui deve parecer chato para você, depois do brilho de Londres. Sem mencionar as pistas de esqui em Gstaad. Você não está perdendo a estação ?

Ela ficou muito vermelha e aumentou o sorriso, escondendo a dor daquela lembrança.

- Eu jamais o teria imaginado como leitor do Celebrity Now, señor Kurosaki - Orihime já se repreendera: deveria ter desconfiado, quando a mãe irresponsável desejara vê-la e se oferecera para pagar o vôo que a levaria até a estação de esqui. Ela era a mesma mãe que se recusara a ajudá-la, por acreditar que já havia se sacrificado demais pela filha. Assim que ela chegara, ficara evidente que a mãe precisava dela para criar a imagem de mãe dedicada. Na verdade, a sua intenção era seduzir o atual marido, que era divorciado, mas também um pai devotado. Orihime ficara extremamente desapontada e magoada, e não tivera coragem de discutir com ela. O resultado é que concordara em tirar uma foto para uma revista, onde as duas apareciam como grandes amigas.

- Eu estava voando da Europa para casa. A aeromoça me deu a revista errada e, quando eu vi a capa, não consegui resistir e fiquei sabendo como você e sua mãe têm uma relação maravilhosa, e como foram em frente depois do doloroso rompimento com seu pai.

Orihime sentiu-se enojada. Também lera a reportagem e não acreditava como, por carência de afeto, deixara que a mãe a manipulasse tão completamente.

- Esta noite foi uma tentativa inútil da sua parte, Kurosaki. Você só me fez ficar mais determinada a ter sucesso - o fato de ele pensar que a havia acuado e de tê-la julgado provocou-lhe uma onda de revolta - Acabo de passar duas semanas em uma casa sem luz e, como pode ver, eu não estou fugindo para o spa mais próximo. Agora, se não se importa, está tarde e eu preciso levantar cedo - Orihime segurou a saia para sair, mas naquele momento o sapato muito largo saiu do seu pé e a fez tropeçar. Ele a pegou pelo braço e a sensação que ela sentiu foi de choque.

Ichigo não a soltou. Ela se virou para encará-lo, sem um pé do sapato.

- O que quer dizer com "sem luz" ?

Orihime tinha estatura mediana, mas, no momento se sentia extremamente pequena. A amargura lhe embargou a voz por ela se sentir tão vulnerável, sabendo que fora exatamente o que ele pretendera.

- Estamos usando um velho gerador para iluminar a casa, já que cortaram a luz há meses… desde que o meu pai parou de pagar as contas.

Ele abanou a cabeça, chocado.

- Eu não sabia que estava ruim a esse ponto.

Orihime tentou puxar o braço e entrou em pânico quando ele a segurou com mais força.

- Como se você se importasse. Estava ocupado demais, assinando as cartas do seu advogado, fazendo de tudo para convencer um moribundo a lhe vender a casa. Sabe que ele recebeu a última carta no dia em que morreu ?

Ichigo pareceu confuso.

- Do que você está falando ? Nunca assinei carta alguma. Toda a correspondência entre a minha família e a sua parou no dia em que meu pai morreu. Eu estava ocupado demais, recuperando a nossa produção e renovando a propriedade e a casa.

- Pode dizer as mentiras que quiser, Kurosaki. Esta noite foi um erro. Eu desapontei todas as gerações da minha família e o meu pai ao vir aqui. Não acontecerá novamente.

Ele relaxou o aperto no seu braço. Orihime se sentiu desorientada e a sua raiva se dissipou. Ele olhava para ela com os olhos em chamas, transmitindo-lhe algo básico, instintivo, que a atingia profundamente.

- Mas você veio aqui esta noite, e há algo no ar… algo que já nos aproximou antes e que ainda existe…

Ela sentiu-se ainda mais desorientada. Conseguiu soltar o braço, mas as palavras que ele dissera a levaram de volta ao momento em que ele declarara:

- Você não passa de um brinquedo tentador. Eu estava curioso para sentir o sabor da princesa Inoue, e agora sei que é veneno.

A amargura e a raiva daquela conversa de oito anos antes fora aguda e obscurecera a sua vida. Ela nunca mais confiara em outro homem. Havia mantido uma parte de si mesma escondida, por medo de se magoar novamente, de enfrentar dolorosas revelações. Precisava afastá-lo, antes que ele percebesse como ela estava vulnerável.

Ela endireitou os ombros e olhou-o diretamente nos olhos.

- Eu já seduzi você uma vez, Kurosaki. Realmente pensou que esta noite eu tentaria seduzi-lo outra vez ? Oito anos não foram suficientes para recuperar o seu ego ?

Ichigo se empertigou e ficou muito pálido.

- Você é uma vadia.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 3.