Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Abby Green, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books.
OBS: O trecho em itálico é um flashback.
Capítulo 3
Orihime não sabia onde encontrara forças para dizer palavras que bem poderiam ser dirigidas a ela. Não se recuperara do que ocorrera oito anos antes, nem de longe. Sentiu um zumbido nos ouvidos, ignorou-o e ergueu a cabeça.
- Não se preocupe. Você não me verá novamente. Acho que podemos dizer que a farsa acabou. Eu vim aqui porque estava curiosa para saber o que você pretendia. Você me subestimou totalmente.
Ela se voltou para ir embora, mas esqueceu que estava com apenas um sapato. Perdeu o equilíbrio e teria caído se Ichigo não a segurasse contra o peito, passando um braço sob seus seios, e outro pelos seus ombros. Ela sentiu a adrenalina invadir suas veias. Tentou se soltar, mas ele a segurou com força. E os dois estavam sozinhos… ela sentiu vontade de gritar, mas ele lhe tapou a boca, como se adivinhasse seus pensamentos. Orihime entrou em pânico, não pela ameaça de violência, mas pela ameaça de algo muito mais poderoso. A evidência da excitação de Ichigo Kurosaki contra suas costas fazia com que ela sentisse o corpo derreter. Um grito silencioso ecoou em sua cabeça: Não ! Isso não, por favor. Se ele a tocasse, a sua vulnerabilidade ficaria exposta.
Ela mordeu a mão dele e o ouviu praguejar. Sentia as entranhas se contraírem e o fogo se espalhar em suas veias. Com a maior facilidade, ele a virou de frente e apertou-a contra o corpo. Orihime estava totalmente indefesa e, para seu desgosto, o que mais sentia era excitação.
- Solte-me.
Ele sacudiu a cabeça, com os olhos brilhando. Ela se sentiu perdida: o passado e o presente se misturavam e estava seriamente perturbada.
- Eu ainda não terminei com você, Orihime - Ichigo deu um sorriso de predador e a trouxe de volta ao presente - Se acha que eu a subestimei, você também me subestimou. Temos assuntos inacabados. E, ironicamente, eles não têm nada a ver com negócios.
Antes que ela pudesse entender ou prever, ele a puxou com mais força e pressionou os lábios contra os seus.
Por um instante, ela não reagiu. Mas, de repente, uma sensação de calor explodiu em seu corpo. Desesperada, ela tentou se agarrar à realidade e não deixar que o desejo vencesse a sua intenção de ficar imóvel, de não corresponder. Mas era o mesmo que esperar que o Sol não levantasse de manhã. Estar nos braços dele era como ver um raio de fogo do outro lado do mar e correr para a praia. Orihime sentia o impulso inevitável e poderoso de segui-lo, e a sua parte racional mandava que ela se soltasse, que não reagisse. Mas uma parte maior doía com o esforço que fazia para resistir.
Como se percebesse o seu conflito, Ichigo soltou-lhe as mãos e segurou-a pela cabeça, puxando-a para beijá-la melhor. Ele passou a língua pelos seus lábios e dissolveu a sua resistência. Ela sacudiu as mãos por um instante. Sabia que deveria usá-las para empurrá-lo, mas, quando as colocou no meio deles e sentiu os músculos de Ichigo sob a camisa… não o empurrou.
Ele gemeu ao perceber que ela cedia e se tornou mais ousado, abrindo-lhe os lábios com a ponta da língua, insinuando-a dentro da sua boca. A sensação causada por aquele gesto íntimo fez com que ela se encostasse a ele e sentisse os seios pressionados contra o peito de Ichigo. Ele a segurou pela cintura e puxou-a contra o corpo. Ela sentiu o tamanho da sua excitação contra o abdômen e o calor úmido que se espalhava entre suas pernas. O mundo se transformara em uma fornalha de sensações e de desejo desesperado… mas, subitamente, uma brisa fria a despertava do transe, e ela olhava para o rosto impassível de Ichigo. Ele parecia ser feito de pedra, e Orihime se sentia como uma gelatina. Os seus lábios estavam intumescidos, o seu coração batia como um tambor e os seus cabelos caíam sobre a pele sensível.
- Você…- ela não conseguiu dizer mais nada.
Com uma voz tão fria que a fez despertar ainda mais, Ichigo disse:
- O que você quer dizer, Orihime ? Queria que eu acreditasse nesta encenação ? Que eu a tivesse deixado muda de paixão ? - um brilho de amargura cruzou o seu rosto e ela se abalou. Por um instante, ela esqueceu a própria humilhação - Você esquece que já tentou isso uma vez comigo. Eu não sou bastante estúpido para cair outra vez. Mas não pode negar que me deseja. Tanto ou mais do que quando estava tremendo em meus braços há oito anos. Eu poderia tê-la possuído naquele dia, e você teria me acompanhado a cada passo. Você pode ter me seduzido por tédio, mas não havia nada de tedioso em sua reação, como não há agora. Você nunca foi capaz de admitir esta verdade.
A arrogância de Ichigo e a sua expressão fizeram com que Orihime saísse do seu torpor. Ela saiu dos seus braços abruptamente e percebeu que ele estava corado.
- Eu não estou interessada nas suas hipóteses, ou no seu entendimento do passado. O passado é passado, e é lá que ele deve ficar. Isto…- ela fez um gesto para indicar o que acontecera - não é nada além de uma prova de que a atração física pode ser desgraçadamente arbitrária. Isso é tudo.
Ele sorriu.
- Se eu não tivesse parado, poderia tê-la possuído aqui mesmo, a poucos passos de uma centena de convidados. E precisaria abafar os seus gritos de prazer com a mão.
A crueza das palavras fez com que ela levantasse a mão. Ele fora longe demais. Antes que a mão dela atingisse o seu rosto, ele a segurou com firmeza. Orihime se sentiu chocada. Jamais levantara a mão para alguém em sua vida.
- Eu só estava provando que você não tem controle sobre o desejo que sente por mim agora, como não tinha há oito anos, quando tentou me convencer de que o que nós fizemos foi tão abominável que a deixou doente. Você veio aqui esta noite para me testar, da mesma maneira que eu a testei. A minha cama está livre… será bem-vinda se quiser se juntar a mim. Podemos ceder à atração arbitrária até que você recupere o bom senso e decida me vender a propriedade dos Inoue.
Ela puxou a mão e dominou a vontade de tentar esbofeteá-lo outra vez. A versão que ele dera daquela tarde fatídica era diferente da sua. Ela sabia que havia lhe dado a impressão de que não gostara do que acontecera entre os dois… e por um tempo ela achara abominável, mas não pelos motivos que ele pensava, e não poderia dizer a ele. Por mais que o odiasse, naquele momento, dizer a verdade seria se expor ainda mais. Ichigo saberia que aquela semana significara muito para ela, que não o seduzira para se divertir. Não haveria como desligá-lo daquela crença porque era a única defesa que ela possuía contra ele. Orihime se empertigou e falou friamente:
- Você esquece que a sua cama estava bastante ocupada há duas semanas. Eu passo, obrigada.
Ela se voltou e foi embora. Para seu alívio, ele não a impediu. Só quando ela saiu pela porta de entrada, percebeu que estava sem sapato. Não iria voltar para pegá-lo. Ela entrou no jipe que o manobrista trouxera e observou as luzes da hacienda no retrovisor. Só então respirou.
Fora tola ao pensar que Ichigo Kurosaki não iria mencionar o que acontecera no passado. Ele era viril demais, e orgulhoso. Ela magoara o seu ego… Orihime estremeceu ao recordar a amargura que vira no seu rosto há poucos minutos. Ela não tinha idéia de que tudo ainda estivesse vivo e não resolvido entre os dois. Embora os eventos de oito anos atrás tivessem causado abalos violentos, imaginara que ele esquecera a semana que levara a esses eventos e que os anos e os vários casos que ele tivera com belas mulheres tivessem levado o seu encanto inocente e desajeitado a cair na insignificância.
A maneira como ele a beijara e a lembrança daquela semana - daqueles dias em que o desejo crescera tanto que ela implorara para que ele fizesse amor com ela - fizeram-na tremer tanto que ela precisou parar o carro, ou iria se arriscar a sofrer um acidente. Ela apoiou a cabeça no volante e tentou esvaziar a cabeça, mas era impossível. As lembranças eram muito fortes, principalmente depois do que acabara de acontecer.
Naquele dia, ela conseguira escapar dos pais e cavalgara sozinha. Esperava ver Ichigo Kurosaki de longe e o seu coração quase parara quando o vira a poucos metros. Ela se assustara com a sua expressão e fugira, sem saber por quê. Talvez, por causa da excitação deliciosa provocada pelo fato de ser proibido. Ela havia se virado, visto que ele a seguia e sua excitação atingira o auge. Sensível como estava, o movimento ritmado do cavalo quase a fizera gritar. Quando chegara ao orquidário, o seu corpo estava tenso como a corda de um arco, ansiando por ele. O orquidário era o seu lugar preferido, um refúgio secreto. E então ele chegara, tomado pela mesma energia tensa. Tinha sido incrível finalmente vê-lo de perto. Nada a preparara para a sua perfeita virilidade. Ele a tocara gentilmente e eles haviam conversado. Conversado de verdade. Depois de ter passado tantos anos achando que ninguém era capaz de compreendê-la, Orihime encontrara afinidade com a pessoa mais improvável: o filho do maior inimigo de sua família.
Naquele dia, quando ela fora embora, sentira o coração pesado até que ele perguntara se a veria de novo no dia seguinte. E depois, no próximo, e no outro. A semana adquirira um clima de sonho. Os momentos que passavam no orquidário haviam se tornado, para ela, a sua única realidade. Ichigo a consumia, preenchia as suas noites com sonhos vívidos. No final daquela semana, ela passara por tal tormento - desejando-o e temendo o próprio desejo - que se jogara em cima dele.
Ele a acariciara e a beijara, e Orihimje ainda corava ao recordar a falta de pudor com que se contorcera sob suas mãos, implorando por algo que só podia imaginar.
E, de repente, o inferno explodira.
Um bando de cavaleiros sinistros havia aparecido e acabado com o idílio. A ausência dos dois fora notada por olhos vigilantes. Ichigo a colocara atrás dele, enquanto ela abotoava a blusa e o seu pavor crescia ao ouvir as vozes que se transformavam em gritos. Os dois foram arrastados para fora da clareira. Ela olhara para trás e vira Ichigo se debatendo entre os homens de seu pai e sendo colocado sobre o cavalo. Orihime chorara ao ver que um dos homens dava um soco em Ichigo para sossegá-lo. A essa altura, ela já tinha sido colocada sobre o seu cavalo e estava sendo levada. Quando chegara em casa, sua mãe a esperava, muito pálida e furiosa, e perguntara:
- É verdade ? Você foi encontrada com Ichigo Kurosaki ?
Pela primeira vez na vida, Orihime sentira uma onda de revolta e erguera o queixo.
- Sim, é verdade.
Ela não estava preparada para a violenta bofetada que fizera seus dentes vibrarem dentro da cabeça. Sentira o sangue aflorar no canto da boca, levara a mão ao rosto e olhara horrorizada para a mulher que, até aquele momento, só a tocara em público para dar a impressão de uma proximidade que não existia. Em seguida, sua mãe tivera uma crise de choro e Orihime, ainda com o rosto ardendo, precisara levá-la para a sala e acalmá-la com uma dose de brandy.
- Mãe, é realmente tão terrível que eu estivesse com Ichigo ? Nós… gostamos um do outro - dissera Orihime, ainda chocada. A mãe a fizera sentar ao seu lado no sofá.
- Você não pode vê-lo novamente, Orihime. Eu a proíbo. Pense no que isso iria fazer ao seu pai.
Ela se revoltara novamente: negar que queria ver Ichigo outra vez seria como negar a si mesma. Ela se levantara, agitada.
- Isso é ridículo ! Você não pode me impedir de vê-lo. Nós não ligamos para essa briga estúpida. Ela já durou tempo suficiente.
Sua mãe também se levantara.
- Orihime Inoue, você não vai me desobedecer neste caso.
O uso do seu nome completo havia feito com que algo se rompesse no peito de Orihime. Anos de frustração por ter que suportar a exasperação do pai, provocada pela morte do filho, e o egocentrismo da mãe, fizeram com que ela explodisse.
- Se eu quiser me encontrar com Ichigo Kurosaki de novo, não há nada que você possa fazer para me impedir - um silêncio pesado caíra na sala e sua mãe ameaçara desmaiar. O copo que ela segurava tremia tanto que Orihime o tirara de sua mão - Este drama pode dar resultado com papai, mas comigo não vai funcionar…
- Posso lhe dizer por que você não pode vê-lo novamente.
Ela se calara. Havia algo que causava arrepios no tom que a mãe usara. E, quando ela prosseguira, destruíra o seu mundo para sempre.
- Desde quando eu era criança, quando nossas famílias se conheceram em Mendoza, eu me apaixonei por Isshin Kurosaki… eu não era daqui e não sabia detalhes a respeito da briga entre a família dele e a família Inoue…
- Você era apaixonada pelo pai de Ichigo ? O que isso tem a ver com o que está acontecendo agora ?
- A verdade é que eu queria que Isshin se casasse comigo, mas eu era muito jovem, e a família dele o forçou a se casar com uma mulher de sua escolha. Ele se casou com ela e logo tiveram Ichigo - a mãe de Orihime voltara a se sentar, e sua voz fraquejava - Pensei tê-lo perdido para sempre… até que conheci seu pai - ela olhara para a filha com um olhar angustiado - Um dos motivos para me casar com ele foi poder estar perto de Isshin. Quando ele me viu novamente, não conseguiu resistir a me levar para a cama. Nós nos encontrávamos, sempre que podíamos, em hotéis - ela retorcera a boca com amargura - Eu não tinha ilusões. Isshin vibrava por dormir com a mulher do seu inimigo, mas nunca iria contar a alguém e prejudicar a sua reputação.
Orihime se sentira estranhamente distante de tudo, como se a voz da mãe viesse de longe.
- Durante um inverno, ele foi para a Europa, a negócios, e, quando voltou, eu estava grávida de seu irmão, Sora. Ele cortou todos os contatos, achando que eu não iria querer mais vê-lo, que escolhera manter meu casamento - os olhos da mãe estavam cheios de lágrimas, mas Orihime não manifestara nenhuma simpatia. Sentira-se enojada ao saber o quanto sua mãe fizera para conseguir o que queria: casara-se com um homem que não amava para conseguir afastar outro da mulher e do filho.
- Não vejo o que isso possa ter com o fato de eu me encontrar de novo com Ichigo Kurosaki - comentara Orihime, virando-se para sair da sala, mas ouvira a mãe se levantando atrás dela.
- Tem tudo a ver com o porquê de você não vê-lo outra vez.
Orihime se voltara com relutância e vira a mãe engolir em seco.
- Eu não deixei totalmente de ver Isshin. Houve uma ou duas vezes em que consegui convencê-lo a me encontrar. Depois de uma dessas vezes, descobri que estava grávida… de você - ela corara intensamente - Mas naquela época eu também estava dormindo com seu pai. A verdade é que não posso ter certeza de que Isshin Kurosaki não é seu pai.
Ela olhara para a mãe. Suas palavras pareciam ter batido numa parede invisível e caído entre as duas, e ela não conseguira entender o seu terrível significado. A mãe percebera e se apressara a esclarecer.
- Você não pode se encontrar com Ichigo Kurosaki de novo porque ele pode ser seu meio-irmão.
Orihime deixara cair o copo que ainda segurava sem perceber. Ela entrara em estado de choque e a única coisa que o interrompera havia sido o rugido de cólera que ouvira atrás delas. Seu pai estava parado na porta, muito vermelho, em estado apoplético. Nos seus olhos se via uma espécie de loucura.
- Eu sabia ! Sempre soube que havia algo entre vocês. O meu filho era realmente meu filho, ou também era filho daquele bastardo ?
Depois disso, as lembranças de Orihime eram confusas. Ela se recordava de muitos gritos e choro, de ter sido arrastada até o seu quarto e trancada pelo pai. No dia seguinte, depois de uma noite insone, ela saíra pela janela e fora buscar um cavalo, sem se importar com a ira do pai. Precisava sair dali.
Ela cavalgara instintivamente até o orquidário e, perturbada como estava, desmontara do cavalo antes de perceber que não estava só. Ichigo Kurosaki saíra das sombras com o rosto muito tenso. Ela sentira um misto de repulsa e de excitação proibida nas entranhas. Teria esperado que ele estivesse ali, como durante toda a semana, a despeito do que acontecera ? Porém, o que no dia anterior lhe parecera puro e direito se tornara sujo e errado…
- Por que está aqui ?
Ele dera um sorriso tenso.
- Eu queria saber se você viria.
Vê-lo ali, esperançoso, quando ela carregava um terrível segredo, fora demais. Ela quase se engasgara com as palavras, mas dissera:
- Eu vim aqui para ficar sozinha. Eu não queria vê-lo. Você deveria ir embora. Agora.
Ele se aproximara e a segurara pelos braços.
- Não acredito que você não queira me ver. Vai deixar que eles a intimidem?
Orihime se soltara e entrara em pânico.
- Tire as mãos de mim. Não suporto que você me toque - ela se afastara, sem conseguir controlar o fel. Vomitara em cima da grama onde haviam se deitado no dia anterior. Tremendo e suando frio, levantara e o vira muito pálido - Por favor, vá embora. Não quero vê-lo novamente.
- Você teria me enganado ontem.
Ela sentira ânsias novamente, mas se controlara.
- Isso foi ontem. Agora é hoje. Eu não quero ter mais nada com você - ele não havia se mexido e o desespero de Orihime aumentara. Não conseguira encará-lo. Não quando ele lhe despertava tais sentimentos, e quando poderia ser… ela sentira o estômago se contrair de horror e dissera a primeira coisa que lhe viera à cabeça - Eu estava entediada, entendeu ? Eu estava entediada e queria saber se conseguiria seduzi-lo. Você era proibido. Era excitante. Isso é tudo…
Ela levantou a cabeça do volante, e a luz de um carro que passava a fez piscar. Sua cabeça estava pesada por causa das lembranças torturantes e ela tentou afastá-las. Não precisava se lembrar do que viera a seguir, da maneira como ele se tornara frio e desdenhoso, como lhe dissera que ela tinha gosto de veneno. Ele se aproximara e enfatizara friamente:
- Eu achava que a briga se tornara irrelevante. Bem, ela acaba de se tornar relevante outra vez.
Orihime só queria que ele fosse embora, mas, quando Ichigo se fora, ela sentara e chorara até cair no sono de cansaço. Quando, horas depois, ela voltara para casa, encontrara suas malas prontas e a mãe e o pai esperando por ela ao lado do carro. Sem uma palavra de explicação, ele as levara até a entrada do aeroporto e dissera simplesmente:
- Vocês não são mais minha esposa e minha filha.
Orihime e a mãe haviam embarcado num vôo para Buenos Aires e, só quando chegaram à casa de sua tia, ela se virara para a mãe e dissera:
- Quero saber com certeza quem é o meu pai. Acho que, pelo menos, mereço isso.
Constrangida, a mãe concordara, mas uma das condições para obter uma amostra de DNA do futuro ex-marido fora abrir mão de um acordo de divórcio generoso… algo pelo qual ela jamais perdoara a filha.
Um mês depois de saírem de Mendoza e de casa, Orihime entrara no consultório de um médico em Buenos Aires levando uma amostra de DNA, e se submetera ao teste. Duas semanas depois, recebera os resultados e descobrira não ter qualquer parentesco com Ichigo Kurosaki ou com o pai dele. Não havia dúvida de que era uma Inoue. A constatação não lhe servira de consolo, porque sabia que levaria as terríveis revelações da mãe para o túmulo - com a revelação ainda mais dolorosa de que Ichigo não sentia nada além de desejo por ela. Havia acreditado que ele partilhara uma parte íntima de si mesmo com ela, mas tudo não passara de uma trama para lhe dar uma falsa sensação de segurança. Ao pensar na maneira como ele a manipulara, levando-a a ansiar por ele em poucos dias, ela se envergonhava.
Orihime se sentiu controlada a ponto de dar a partida no jipe para continuar a jornada para casa. Escrevera ao pai para lhe contar o resultado do exame de DNA, mas ele não a perdoara pelos pecados da mãe até estar em seu leito de morte. Ela desejava honrar as vontades do pai e faria de tudo para esquecer Ichigo Kurosaki e salvar a propriedade dos Inoue.
- Você deixou isto para trás, ontem à noite, Cinderela.
Ela ficou muito tensa e se arrepiou, ao ouvir a voz conhecida. Desviou os olhos das vinhas que inspecionava e viu a longa silhueta delineada pelo Sol segurando um par de sapatos. Por um segundo, ela piscou, sem entender. Dormira muito pouco naquela noite. Toda vez que fechara os olhos, imagens tentadoras ou pesadelos apareciam. Talvez estivesse alucinando de cansaço. Quando a silhueta e os sapatos não desapareceram, ela fez uma careta e se levantou.
- Você não precisava ter se dado ao trabalho - ela se sentia empoeirada por dentro e por fora do jeans, da camiseta e de um velho par de botas de montaria. Felizmente o chapéu a escondia dos intensos olhos castanhos de Ichigo, mas ela podia ver muito bem que ele também estava vestido informalmente, com uma camisa pólo e um jeans justo e desbotado.
- Estou intrigado por você estar usando sapatos e vestidos que não são do seu tamanho.
Orihime corou e olhou para ele, sem ficar surpresa por ele saber o número do seu sapato. Perdera o fôlego por efeito do magnetismo de Ichigo e pelo fato de vê-lo em plena luz do dia. O castanho dos seus olhos parecia mais forte contra o tom de oliva da sua pele.
- Eles são da minha mãe - respondeu ela sem pensar.
- A sua bagagem foi extraviada ? - perguntou ele, espantado. Orihime começou a se afastar.
- Foi… todas as vinte e quatro malas luxuosamente marcadas com o meu monograma - naquele momento, ela se deu conta de que Ichigo Kurosaki estava vendo a sua plantação ridícula e do que isso significava, e se voltou para encará-lo - Como você entrou aqui ? Saia imediatamente: isto é uma propriedade particular.
Ele estalou os lábios e cruzou os braços, levando-a a admirar os seus músculos e se irritar por ser tão fraca.
- Que falta de educação ! E isso depois que eu me mostrei tão hospitaleiro com você ontem à noite… estamos fazendo história, Orihime. É a primeira vez que alguém das nossas famílias ignora os limites - ele retorceu a boca - a não ser pelo caso sórdido entre a sua mãe e o meu pai, claro, e pela nossa… insatisfatória aventura pelo mesmo caminho.
Ela ficou aborrecida e desviou o olhar.
- Isso faz muito tempo - ela ergueu o queixo, mas estremeceu ao ver que ele endurecera o rosto.
- Você é realmente um enigma, não é, Orihime Inoue ? Realmente não consigo vê-la como sendo do tipo estudioso.
Orihime ficou gelada e se lembrou da conversa que tivera com Kisuke Urahara, o enólogo dos Kurosaki.
- Você fez com que seus empregados lhe contassem as conversas que tivemos ? Ou colocou escutas e nos ouviu ?
Ele ficou ainda mais admirado.
- Você realmente quer dizer que, entre as festas animadas, formou-se em Enologia e Viticultura ?
Orihime ficou furiosa e contra-atacou:
- A sua vida social agitada não o impediu de ser o mais jovem Mestre de Vinho do mundo.
- Você tem me investigado, Orihime ?
Ela corou e olhou para baixo, mas um profundo orgulho levou-a a levantar os olhos novamente. Não deixaria que ele a intimidasse. Ela ergueu o queixo desafiadoramente.
- É verdade. Eu me formei no ano passado e obtive grau de excelência. Se não acredita, consulte os registros da Universidade de Bordeaux.
- Quem pagou os seus estudos, Orihime ? Um amante generoso ? Ou talvez você tenha seduzido alguém para obter a excelência ?
P. S.: Nos vemos no Capítulo 4.
