Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Abby Green, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books.
Capítulo 4
Orihime tremeu de raiva.
- Tem razão, Ichigo. Seduzi meus professores e orientadores para obter o título. Eu sou mesmo boa na cama e eles são extremamente corruptos.
Ichigo corou. Ele jamais cutucara uma mulher daquele jeito, mas nenhuma o provocava tanto. O problema é que saber que ela realmente recebera o título de excelência em Bordeaux arruinava a opinião que formara a respeito de Orihime Inoue. Constrangido, ele perguntou:
- Foi para lá que foi todo o seu dinheiro ?
Por um instante ela não falou, e ele não podia culpá-la. E, quando ela respondeu, sua voz estava tensa.
- Eu estava trabalhando em uma vinícola em Bordeaux, e o proprietário financiou o meu curso - ela evitava olhar para ele. Ichigo queria levantar-lhe o rosto para ver seus olhos, mas receava tocá-la. Tinha medo de perder o controle, como fizera na noite anterior, e de derrubá-la no chão. Orihime levantou os olhos cinza, que faiscavam - E, antes que você pergunte: não, eu não dormi com ele para fazer com que ele me patrocinasse. Ele mantinha bolsas de estudo na Universidade de Bordeaux para os empregados, e eu me candidatei. Foi muito simples.
- Que sorte você teve - resmungou Ichigo, mas o seu desejo latejava insistentemente, fazendo com que ele não prestasse atenção. Orihime respirou profundamente e seus seios repuxaram a camiseta. Ele viu uma faixa de pele na sua cintura, acima do jeans. Ela trançara os cabelos, mas alguns cachos soltos haviam se grudado no seu rosto. Ela estava mais bela que qualquer outra mulher que ele já vira, e Ichigo sentiu o coração se contrair dolorosamente. Na noite anterior, quando a abraçara, sabia que parte do seu desejo se devia a querer provar algo para si mesmo.
Queria vê-la se desmanchar. E ela se derretera, ficara tonta depois do beijo. Ele precisara recorrer a todo o seu controle para parecer coerente, mas sua cabeça também se desmanchara em pedaços, e tudo que havia desejado fora levantá-la sobre os ombros e levá-la para o quarto, como um homem das cavernas. Mas saber que ela o desejava não lhe dera a satisfação que ele esperava. Porque ele queria mais, muito mais. Queria satisfazer a necessidade de conhecê-la intimamente. Queria terminar o que começara há oito anos.
Por que ele olhava para ela como se a avaliasse ? Orihime não estava gostando disso, e nem da maneira como ele se mostrava à vontade no seu território. Ela cruzou os braços.
- Quero que você vá embora agora. Você não é bem-vindo aqui.
Ele franziu os olhos como se acabasse de lhe ocorrer uma idéia.
- Quero ver as cartas que você disse que foram assinadas por mim.
Ela se surpreendeu, abriu e fechou a boca, mas concluiu que não havia motivo para recusar. E aquilo o afastaria das vinhas.
- Tudo bem. Elas estão em casa - ela percorreu a alameda entre as videiras, sabendo que ele a seguia. À distância, Byakuya inspecionava outras videiras e se mostrou surpreso, mas Orihime lhe fez um sinal de que estava tudo bem. Ela viu o jipe reluzente de Ichigo parado ao lado do seu jipe decadente. Evidentemente, ele abriu a porta do belo jipe. Orihime hesitou, mas acabou por tirar o chapéu e entrar. Enquanto dava a partida, Ichigo olhou para o velho jipe e comentou:
- Aquela coisa é uma armadilha mortal.
- Que você deve aprovar totalmente.
- Eu não desejo que você morra, Orihime, só que vá embora. Há uma grande diferença - ele mudou a marcha - Então, quanto tempo você passou na França ?
Ela hesitou, odiando revelar algo da sua vida pessoal.
- Eu fui para lá aos vinte e um anos, depois de passar um ano em Londres.
- Deve ter sido quando eu a vi naquela boate.
Encolhendo-se, ela recordou o desgosto que vira no rosto dele, naquela noite. Ele a observara de cima a baixo e fora embora. Ela sentiu vontade de lhe contar que só estivera lá porque esbarrara em velhos colegas da escola de Londres, que tinham insistido para que ela participasse da comemoração de aniversário de um deles e até haviam lhe emprestado uma roupa. Por isso ela usara o vestido de lamê prateado que não deixava muita margem para a imaginação. Toda vez que encontrava com Ichigo, parecia não ter sorte com as roupas. Ela simplesmente respondeu que sim e se voltou para a janela, sem notar que ele a olhava desconfiado.
Ele achava que escondia algo. Mas o quê ? Claro que ela se esbaldara durante um ano em Londres, e talvez o seu dinheiro tivesse acabado e ela se vira forçada a trabalhar na França. Mas algo não batia. Com certeza, ela achara que ganharia mais se voltasse e assumisse os negócios da família. Talvez ele tivesse subestimado a sua ambição.
Ichigo se lembrou de que ela dissera que sempre desejara trabalhar na vinícola. Há oito anos, ele não teria acreditado, mas agora que sabia que ela se formara em Enologia e Viticultura, precisava admitir a possibilidade de que fosse verdade. Ela ainda estava ali, como bem enfatizara, e ele acabara de vê-la de joelhos, pondo as mãos na terra sem medo de se sujar. Ele também precisou admitir que tinha ficado impressionado com o estado lastimável da propriedade dos Inoue. Já percebera os sinais de cansaço debaixo dos olhos de Orihime, e não o agradava que isso tivesse lhe despertado um estranho instinto de proteção.
Eles chegaram à casa, que estava em péssimo estado, mas que ainda mantinha a grandeza dos seus melhores dias. Enquanto esperava que Orihime o fizesse entrar, ele percebeu que a reviravolta da sorte entre as duas propriedades se tornara evidente, mas isto não lhe proporcionou nenhuma sensação de triunfo.
Orihime agradeceu silenciosamente a presença de Hisana, que viera recebê-los, e lhe pediu para servir um café. Era importante que Ichigo não percebesse como as coisas iam mal. Se ela lhe desse a impressão de normalidade, ele não iria rodeá-la como um abutre espreitando a carniça. Ela já falara demais na noite passada, de várias maneiras… ficou corada ao se lembrar do beijo e disfarçou, levando-o até o escritório e esperando que ele não notasse como estava empoeirado. Ela foi diretamente até a mesa, pegou as cartas e entregou a ele, curiosa para ver a sua reação. Hisana trouxe o café e Orihime o serviu, enquanto Ichigo se sentava e lia as cartas. Ela se sentou do outro lado da escrivaninha e se deu conta de que suas pernas tremiam. Até o momento, o rosto de Ichigo se mantivera impassível, mas, quando ele chegou à última carta, ela o viu contrair as narinas e ficar muito vermelho. Ela sentiu uma pontada no estômago: já percebera que ele estava furioso.
- Esta assinatura não é minha.
- O seu nome está embaixo.
- Eu sei - disse ele bruscamente - Mas a assinatura não é minha - ele pegou um papel e uma caneta sobre a mesa, assinou seu nome e entregou-o a ela - A minha assinatura é bem diferente porque eu uso a mão esquerda.
Ela constatou que a assinatura era completamente diferente, que não passava de um rabisco arrogante. Não precisava investigar se ele mentia. Ele era orgulhoso demais para negar, se tivesse mandado as cartas: odiava-a e queira que ela fosse embora.
- Então, quem as mandou ?
- As primeiras são do meu pai e de seus advogados, mas, depois que ele morreu, alguém começou a falsificar a minha assinatura. Acho que sei quem foi, mas preciso confirmar antes, se você concordar.
Orihime assentiu. Ichigo tomou o café de um só gole.
- Já tomei demais o seu tempo - os dois se levantaram, e ela ficou aliviada por ele estar indo embora.
Sentia-se constrangida por saber que não fora ele quem mandara as cartas. Levou-o até a porta e perguntou, hesitante:
- Isso quer dizer que a pressão para que eu venda a propriedade vai parar ? - ela se deu conta de com quem estava lidando, quando ele se voltou e lhe deu um sorriso em que não havia nem um traço dê cordialidade.
- Na verdade, nada mudou, Orihime. Eu ainda quero que você vá embora, porque nunca mais quero ver um Inoue. Existem outros meios de persuasão, além de cartas. Meios muito mais agradáveis.
Orihime amaldiçoou a própria ingenuidade e a maneira como o seu corpo reagira quando ele dissera "agradáveis".
- Eu disse uma vez e repito, Kurosaki: só sobre o meu cadáver. Eu não vou a lugar algum.
- E nós estávamos indo tão bem… usando nossos primeiros nomes. Encare os fatos, Orihime. Você precisa de um investimento maciço de capital para fazer com que as vinhas voltem a ser lucrativas e, mesmo assim, serão precisos anos de boas safras para recuperar os danos que já foram feitos. Apesar de louvável, o seu diploma de nada adianta quando você não tem vinho e vinhedos férteis. Você não tem sequer eletricidade.
Ela deu um sorriso, apavorada por ter lhe contado tanta coisa.
- Na verdade, nós temos eletricidade. Eu consegui pagar uma parte das contas. Não estamos tão mal. Agora, se já terminou a sua investigação, eu gostaria que você desse o fora.
Orihime ficou satisfeita por bater a porta na cara de Ichigo, e só respirou sossegada ao ouvir o ruído do jipe se afastando. Apoiou-se na porta e afastou os cabelos do rosto, enquanto Hisana aparecia, ao vir da cozinha.
- Precisamos de mais diesel para o gerador. Ele parou novamente.
Orihime teria rido se não temesse acabar chorando. Mentira a respeito da luz para que Ichigo não soubesse como estava vulnerável. A verdade é que as coisas estavam muito piores do que ele desconfiava. Ela precisava realmente procurar um investidor e sabia exatamente quem não deveria procurar… ela estremeceu levemente ao pensar que os outros métodos de persuasão de Ichigo teriam muito a ver com lhe mostrar o quanto ela o desejava e, enquanto isso, em se vingar pela maneira como ela o rejeitara oito anos antes. E pelo caso entre sua mãe e o pai dele, que desencadeara aquela guerra. Sabia que, se permitisse qualquer intimidade entre ela e Ichigo, ele teria o poder de destruí-la, e não queria lhe dar aquela satisfação.
Ichigo apertou o volante com força enquanto ia embora. Não duvidava que Orihime estivesse mentindo a respeito da luz e não gostava da sensação de tê-la encurralado a ponto de ela precisar mentir. Droga ! Ele bateu no volante. Só quando saía do escritório do pai dela, percebera a dimensão do que estava fazendo. Fora o primeiro membro de sua família a entrar na propriedade dos Inoue e o fizera com a displicência de quem dava dois passos porque queria vê-la. Aquela vontade ultrapassara a desculpa de devolver os sapatos e de questionar Orihime a respeito do seu diploma. Assim que chegara perto dela, desejara-a tanto que quase sentira o seu gosto na boca. Depois de tantos anos, ele ainda se lembrava do perfume e do gosto dela, apesar de ter mantido sempre a sua cama ocupada. Ainda que fosse cego, seria capaz de localizá-la entre várias mulheres. E ele nem dormira com ela. Ainda.
Droga ! Ele percebera a obstinação em cada curva do seu corpo. Sabia, porque era algo profundamente entranhado também no corpo dele: um impulso para a vitória e para o sucesso.
Ichigo fora uma criança doente. Sua mãe sofrera complicações durante o parto e nunca mais engravidara.
Seu pai se entregara à tristeza por saber que o seu legado pesaria sobre os ombros de um filho único debilitado. E, ainda que Ichigo tivesse se tornado forte e saudável, seu pai jamais acreditara totalmente em sua capacidade. Nem quando ele conseguira o admirável feito de se tornar Mestre de Vinho aos vinte e oito anos - quando a média de obtenção do título na primeira tentativa era apenas de sete por cento. Ichigo sabia, agora, que a superproteção da mãe se devera à sua fragilidade na infância, quando ele precisava vencer a letargia e as alergias que o enfraqueciam. Mas ele lentamente as superara com determinação e pelo desejo de ver o pai olhá-lo sem mostrar decepção. Quando completara doze anos, era maior que seus colegas de classe, a asma desaparecera e ele se mostrava forte como um touro. O médico que o atendia comentara que nunca tinha visto algo de semelhante em sua vida.
Ele sabia que não havia sido um milagre: fora a sua determinação de vencer. Ninguém soubera da luta ferrenha e pessoal que ele travara para se fortalecer e vencer, até que ele contara a Orihime, no orquidário. As palavras haviam escapado de sua boca sem que ele percebesse, e ele ainda se lembrava dos enormes olhos cinza cheios de empatia, que lhe aqueceram o coração.
Apertou novamente o volante com força, furioso por ter sido tão ingênuo, por ter se deixado enganar por um rostinho bonito e por um corpo atraente, por aquela sensação de afinidade… teria estado tão desesperado que a imaginara ? A dúvida sempre o perturbara. Como conseqüência, ele nunca mais deixara uma mulher se aproximar: no instante em que alguma mulher tentava conhecê-lo mais intimamente, ele a despachava.
A declaração que fizera a Orihime, de nunca mais querer vê-la, tinha mais a ver com se livrar da crescente obsessão que sentia por ela do que com aumentar a extensão do império dos Kurosaki. Ele sabia que a queria, mas também sabia que, em nome da sua sanidade, precisava resistir. Por outro lado, sabia que a única maneira de recuperar o bom senso seria tê-la deitada sob ele, contorcendo-se e implorando por alívio.
Quando ele chegou em casa, estava extremamente irritado e resolveu aproveitar o mau humor para ter uma conversa com o seu futuro ex-advogado a respeito das cartas. Sentiu-se furioso novamente ao pensar no que o homem fizera em seu nome.
Dois dias depois, Orihime estava exausta e sentia que travava uma batalha perdida. Voltava de Villarosa trazendo uma quantidade parca de alimento para ela, Hisana e Byakuya quando percebeu que o tanque do jipe estava quase vazio. Ela pensou em como seria mais fácil desistir, telefonar para Ichigo e dizer que ele vencera. Com o dinheiro da venda, poderia proporcionar conforto a Hisana e Byakuya pelo resto de suas vidas.
Viu os limites da propriedade à distância e sentiu um nó na garganta. Embora seu pai a tivesse proibido de trabalhar na vinícola por ser mulher, ela a amava. Desde pequena, ficara fascinada por todo o processo. Lembrava-se de, erguida sobre os ombros magros do irmão, esticar-se para tocar as uvas com reverência, admirada de como aqueles frutos suculentos podiam se transformar em vários tipos de vinho. Ali, o seu coração se alegrava e ela se sentia ligada à terra e às estações. O cenário de fundo, formado pelos magníficos picos nevados dos Andes, fora a imagem que a sustentara durante os seus anos de exílio. E agora que voltara, não deixaria que Ichigo Kurosaki a expulsasse novamente só por querer aumentar o seu império. Mas Orihime sabia que enfrentava uma batalha difícil. Acabara de sair do banco, em Villarosa, onde o gerente levara duas horas explicando por que seria impossível lhe dar um empréstimo, na atual conjuntura econômica.
O banco fora o seu último recurso: durante os últimos dias, ela procurara outros viticultores da região, e todos haviam lhe dito não estar interessados no investimento. Um deles tinha sido bastante franco para dizer que não podia desafiar Ichigo Kurosaki e que, se ele soubesse que alguém a ajudara, seria o mesmo que ter agitado a capa vermelha diante do touro; que ele era poderoso demais, e que os outros não podiam se arriscar a ser engolidos pelo seu império.
Sem levantar um dedo, Orihime se vira condenada pela sua relação destrutiva com Ichigo. Para sempre.
Quando ela se aproximou de casa e o viu encostado no jipe brilhante, de braços cruzados, o seu sangue ferveu. Desceu do jipe e pegou as compras, segurando-as à sua frente como escudo. Ele esboçou a intenção de ajudá-la, mas ela se agarrou aos pacotes.
- Pensei ter lhe dito que não era bem-vindo aqui.
Ele teve a coragem de sorrir.
- Você é sempre tão mal-humorada à tarde ? Preciso me lembrar disso no futuro. Talvez você seja do tipo matinal.
Orihime percebeu que ele a seguia até dentro de casa. Colocou as compras em cima da mesa e voltou-se, pondo as mãos na cintura.
- Você não é bem-vindo aqui, Kurosaki. Ouvi o seu nome tantas vezes, esta semana, que foi o suficiente para o resto da minha vida. Portanto, por favor, vá embora - ela sentia vontade de empurrá-lo, mas receava tocá-lo. Tinha medo do que já começava a sentir, do desejo de prová-lo, de saboreá-lo. Ele vestia calças largas de algodão e uma camisa branca: tinha a aparência típica de um vinicultor de sucesso. Ela também se vestira bem para ir ao banco. Pensando no comentário que Ichigo fizera, ela usara um pouco do seu dinheiro minguado para comprar algo que lhe servisse.
Ele parecia ter adivinhado o que Orihime pensava. Examinava atentamente a saia justa, os sapatos scarpin e a blusa clássica. Ele levantou os olhos e observou os cabelos, que ela prendera num coque.
- Gostei da sua aparência de executiva… muito discreta.
Ela crispou os punhos. Não queria se sentir modesta: todo o seu corpo fervia. Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, ele continuou:
- Parece que você tem procurado um investidor. Pela sua fisionomia, posso dizer que não teve sorte.
Ela engoliu um impropério e tentou manter a calma.
- Não é surpresa que a comunidade local não queira desafiar seu vizinho mais poderoso. Como é se sentir o dono da região, Ichigo ? Você se sente poderoso ao saber que as pessoas têm medo de investir e provocar a sua ira ? Isso dificilmente irá encorajar uma competição saudável, não acha ? É muito mais fácil ter sucesso no vácuo.
- Se o seu pai ainda fosse vivo, poderia lhe dizer tudo a respeito desse assunto. A sua família foi a primeira a esmagar a competição local, preferindo manter tudo simples e entre eles próprios. Se você tivesse investigado, saberia que mais vinhas floresceram depois da queda da sua propriedade do que antes, e eu realmente investi em algumas delas.
Orihime ficou corada. Mais uma vez, ele fazia ou dizia o oposto do que ela esperava. Ela não gostava do fato de que ele sempre a deixasse com o pé atrás.
- Eu vim aqui lhe dizer que quem escreveu as cartas foi o advogado do meu pai. Eles foram amigos por vários anos e, sem que eu soubesse, ele prometeu ao meu pai que continuaria a pressionar o seu pai para que vendesse as terras. Eu desconfio que ele estava apaixonado por minha mãe, e que, depois que ela se suicidou, ele tenha resolvido se vingar do seu pai por ter lhe contado a respeito do caso.
Ela sentou-se em uma cadeira, sentindo uma sensação de inutilidade. A situação embaralhada que havia entre os dois nunca deixaria de espalhar veneno ?
- Obrigada por me contar - ela olhou para ele e pensou ter visto um brilho preocupado nos seus olhos, mas fora tão rápido que deveria ter sido imaginação.
- Também tomei a liberdade de pagar o que você devia e as próximas contas previsíveis de luz.
Orihime se levantou, exaltada.
- Por que você fez isso ? Eu lhe disse que estava tudo bem.
Ichigo se aproximou de um interruptor e o ligou. Nada aconteceu, e ela ficou muito vermelha. Ele falou com indiferença:
- Eu sabia que você estava mentindo. Eu fiz isso porque é uma questão de segurança e de saúde. Não posso ficar parado e esperar que haja um acidente, quando poderia tê-lo evitado. A luz será religada a qualquer momento.
Sentindo-se impotente de raiva, ela começou a tremer: não poderia dizer nada porque, quando Byakuya fora ligar o gerador, tropeçara no escuro e quase se machucara seriamente. Ichigo a deixara de mãos atadas. Como poderia arriscar a segurança dos empregados, recusando o seu favor ? E como poderia aceitar ?
- Como eu disse, Orihime, eu só quero que você vá embora. Não quero vê-la morta - ele ergueu a sobrancelha - É tão difícil dizer: "Obrigada, Ichigo" ?
Orihime sentia a garganta se apertar, mas por fim conseguiu falar.
- O que você quer de mim ? - ela começou a tremer quando ele se aproximou com um olhar intencional. Quase podia ouvir a cabeça dele funcionando, quando ele respondeu calmamente:
- Jante comigo esta noite. Na minha casa.
Engolindo em seco, ela combateu o impulso de correr. Ele lhe mostrava o quão longe precisaria ir para compensá-lo. Ela queria dizer que não, recusar, mas estava encurralada e não tinha como escapar. A segurança dos empregados era importante demais.
- Tudo bem - disse ela por fim, constrangida. Por um momento o ar pareceu vibrar de tensão, mas ele se voltou e saiu. Orihime se sentou novamente, enfraquecida e com a cabeça latejando. Ele acabara de lhe puxar o tapete ao fazer algo de generoso, mas, ao convidá-la para jantar, Ichigo a confundira, reforçando que era um perigo para ela em outros terrenos, além do profissional. Talvez este fosse o plano de Ichigo: atingi-la em todos os pontos em que pudesse demonstrar sua fraqueza até que ela estivesse exatamente onde ele queria…
Ela estremeceu quando uma imagem lhe veio à cabeça: ela, deitada numa enorme cama, e Ichigo como um pirata à procura do tesouro. Naquela noite, teria de dizer a ele claramente que recusaria qualquer outro gesto de generosidade e que faria um plano para reembolsá-lo pelo pagamento da eletricidade. Como que para convencê-la, de repente a sala se iluminou. Ela pestanejou, enquanto Hisana entrava com um ar desconfiado e a abraçava, emocionada.
- Ah, niña, agora eu sei que tudo vai dar certo…
Orihime não teve coragem de lhe dizer que a espada de Dâmocles ainda pairava sobre suas cabeças.
- Boa noite, señorita Inoue. Entre, por favor.
Orihime controlou os nervos e entrou no saguão majestoso da casa de Ichigo. Uma luz suave banhava o ar de dourado, lembrando a ela o ambiente sedutor da primeira noite em que entrara ali. Ficar indiferente não era fácil. Ela e Kyouraku atravessaram o jardim, agora vazio, onde a fonte gorgolejava e os vasos de flores coloridas se espalhavam pelos cantos, e ele a levou até a sala principal.
- O señor Kurosaki logo irá recebê-la. Ele foi detido por um telefonema. Posso lhe oferecer uma bebida ? - perguntou ele gentilmente.
- Uma água com gás - respondeu ela com um sorriso tenso. Naquela noite, pretendia se manter alerta.
Kyouraku a serviu, disse que ela ficasse à vontade e saiu. Orihime viu o próprio reflexo no vidro de um quadro e ajeitou a saia. Era a mesma que ela usara antes, mas a combinara com uma blusa cinza de seda, solta e com um decote largo. Ela ajeitou a blusa para que não caísse pelo ombro. Depois de muito pensar, resolvera prender os cabelos para evitar que Ichigo pensasse que pretendia seduzi-lo.
Ela se aproximou de uma parede cheia de fotografias, examinou-a e ficou intrigada: o que via era claramente a história da família Kurosaki.
- Desculpe por tê-la feito esperar.
Orihime apertou o copo e se voltou. Ichigo estava parado na porta, vestindo uma calça preta e uma camisa azul-claro com o colarinho aberto. Seus cabelos alaranjados refletiam na luz e seus olhos castanhos ainda lhe tiravam o fôlego. Ela se sentiu inexplicavelmente tímida e ficou irritada. Precisara criar uma casca grossa para sobreviver aos últimos anos e não gostava da sensação de fragilidade que Ichigo Kurosaki lhe causava.
- Tudo bem. Eu não esperei muito.
Ele se aproximou e parou ao seu lado.
- A minha família - ele indicou as fotos com a cabeça - Desde o século XIX, antes de eles saírem da Espanha e virem para cá.
- Nós também temos uma parede semelhante a esta - disse ela, sorrindo - Eu sempre me pergunto por que os meus ancestrais pareciam tão sérios nas fotografias.
- Os tempos eram difíceis. Eles precisavam lutar para sobreviver.
Orihime olhou para Ichigo, lembrando-se claramente do momento em que ele lhe contara que tinha sido uma criança doente e como lutara para superar a sua fragilidade. Agora ele era tão viril, tão cheio de energia, que se tornava difícil de acreditar, e a maneira com que ele falara a atingira profundamente. Mas o momento passou e Ichigo se afastou, indicando-lhe o caminho.
- Vou levá-la até a sala de jantar.
Ela se adiantou, desajeitada, amaldiçoando Ichigo por lembrá-la de coisas que não desejava e por se mostrar tão cavalheiro. Era mais fácil lidar com ele quando o campo de batalha estava mais definido.
Ele puxou a cadeira e esperou que ela se sentasse, antes de se sentar do outro lado da mesa. Era uma mesa pequena, íntima, iluminada por velas, criando um ambiente sedutor demais para o gosto dela.
- Um aperitivo para apurar o paladar ? - perguntou Ichigo.
Levantando os olhos, ela combateu o impulso de puxar o decote da blusa para se refrescar: sua pele subitamente começara a ferver. Ele parecia espalhar alguma espécie de encanto sobre ela, e Orihime odiava admitir, mas estava curiosa para saber que vinhos ele iria escolher. Afinal, ela estava jantando com um Mestre de Vinhos e havia poucas centenas deles no mundo: o grupo era muito seleto.
- Só um gole. Eu estou dirigindo.
Ichigo serviu um vinho branco sem deixá-la ver o rótulo. Orihime levantou a taça, girou o copo e sorveu o seu aroma. Ficou muito pálida e não provou o vinho, colocando a taça sobre a mesa.
- Isto é uma piada ?
P. S.: Nos vemos no Capítulo 5.
