Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Abby Green, que foi publicado na série de romances "Paixão", da editora Harlequin Books.


Capítulo 5

Ichigo fez uma cara inocente.

- Por que seria uma piada ?

- Você me serviu um Inoue. Por quê ? Esperava que não o reconhecesse ? Isto é um teste ? - ela colocou o guardanapo na mesa e se levantou. Estava mais abalada que nunca. Ichigo segurou-a pelo pulso.

- Sente-se, por favor. Admito que estava curioso para saber se você reconheceria o vinho.

Orihime soltou o braço, mas não se sentou.

- Claro que reconheci. Cresci vendo diariamente essas uvas crescerem - disse ela com uma voz emocionada, sentando-se abruptamente.

- Eu não quis aborrecê-la - disse Ichigo.

- Não, só me testar para ver se eu conheço meu trabalho, ou se dormi com alguém para conseguir o meu diploma.

Ichigo ficou corado.

- Não acredito que você tenha manipulado os resultados.

Ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas, piscou furiosamente e o viu ficar horrorizado. Orihime sabia que suas emoções vinham de uma mistura do luto pelo pai e da pressão que estava sofrendo, além da paixão que Ichigo evocava sem esforço. Ela se controlou, pegou a taça e bebeu um gole. Fechou os olhos e deixou que o líquido escorresse pela garganta, macio como a seda. Abriu os olhos e olhou para ele.

- Se não me engano, é da safra de 99 e nos deu o prêmio de melhor vinho branco do New World Wines daquele ano.

Ele olhou-a com interesse.

- Você acertou. O meu avô comprou uma caixa de cada vintage dos Inoue para analisá-los, como o seu pai fez com os nossos, com certeza.

Orihime concordou e se acalmou.

- Desculpe… você me pegou de surpresa. Este vinho sempre foi um dos meus preferidos. Ele me faz lembrar de casa. Daqui. Quando eu sentia o seu aroma, sempre sentia nostalgia. Ele era pedido no restaurante onde eu trabalhava. Eu fingia não saber que deveria abri-lo na mesa, para poder abri-lo antes, sem que ninguém visse, e cheirá-lo - ela viu que ele a olhava intensamente e baixou os olhos - Eu ficava maravilhada ao pensar que a garrafa percorrera um longo caminho. Ele me fazia pensar em como fora o ano, se as estações tinham sido boas para as uvas. Só pelo cheiro eu sabia se fora bom ou ruim. Não acredito que não tenha sido despedida por tamanho erro, mas os fregueses sempre me perdoavam.

Ichigo observava as sombras das velas no rosto de Orihime. Corada, lábios volumosos, a blusa encostando-se ao pescoço e o movimento dos seios esticando a seda. Claro que os fregueses iriam lhe perdoar qualquer coisa. Ele nunca vira algo tão sensual como a maneira como ela segurava o copo. Estava fascinado com a sua beleza e sensualidade natural, mas de repente sentiu que voltava no tempo e divagou. O terreno em que pisava fora abalado. Ela estava lhe dizendo exatamente o que ele sentia pelos vinhos que cultivava. Cada ano, o vintage tinha uma personalidade, uma complexidade.

Orihime olhou para ele, viu o seu olhar fascinado e soltou o copo.

- O que foi ?

Ele balançou a cabeça e corou.

- Nada. Eu não deveria tê-la testado - ele sorriu constrangido - Você parece provocar o que eu tenho de pior.

Ela abafou uma sensação de vitória.

- Vou aceitar isso como um elogio.

- Saúde - disse ele, levantando o copo e bebendo um gole.

A virilidade do gesto inerentemente delicado deixou-a arrepiada. A entrada foi servida e os dois comeram em silêncio. Orihime se reprovou por ter ficado histérica por ele a ter testado e por ter falado da saudade de casa, como se isso fosse interessá-lo. Quando serviram o prato principal, ela se concentrou na deliciosa fatia de carne. Para sua surpresa, conseguiram manter uma conversa leve, e, quando Ichigo lhe passou uma taça de vinho tinto, ela a pegou, muito à vontade.

- Prove este. É um novo blend que eu estou introduzindo e este é o primeiro corte. Ainda não está no mercado.

- Tem certeza de que quer compartilhar seus segredos com o inimigo ?

- Depois de ver seus vinhedos, acho que não corro risco.

Ela corou ao ser lembrada da dolorosa realidade. Bebeu um gole de vinho e sustentou o olhar de Ichigo, mas, por fim, fechou os olhos para tentar distinguir os sabores. Quando os reabriu, ele a encarava.

- Bem, é um Malbec clássico, mas diferente de todos que já provei. Tem um toque de outra coisa.

- Impressionante...

- Gostei. Não é marcante como os outros Malbec… tem maior complexidade… Pinot ?

- Vejo como você conseguiu o seu título.

Orihime ficou orgulhosa. Um empregado entrou para tirar os pratos, Ichigo se levantou e levou-a para a varanda onde a beijara na noite da festa, e onde havia uma mesinha iluminada por velas. Ela teve vontade de recuar e ir embora, mas não queria lhe dar a satisfação de saber que a perturbava. Ichigo puxou a cadeira para ela, e um garçom lhes serviu tortinhas de limão. Ele abriu uma garrafa de vinho e ela ficou com água na boca para prová-lo com a sobremesa. Sentindo-se irritada com a facilidade com que ele a cativava, ela protestou:

- Não precisava fazer isso. Não está funcionando.

- O que não está funcionando ? - perguntou ele, sorrindo gentilmente - Você já estabeleceu os seus motivos, Orihime. É mais feliz na miséria que desfrutando de conforto comigo. Subestimei a sua capacidade de lidar com o desconforto.

O apetite dela sumiu.

- Você subestimou muito mais. Não sabe o que aconteceu quando eu fui embora. Você tem a idéia idílica de que eu fui para a Europa e passei o tempo esquiando e me divertindo.

- Por que não me conta o que fez ? - falou ele, com cuidado.

Orihime pensou em recusar, em dizer que não era da sua conta, mas queria que ele entendesse que ela era feita de material mais forte e que não iria desistir. Tinha também o perigoso desejo de que ele olhasse para ela sem desconfiança e sem zombaria.

- Quando eu e a minha mãe fomos embora, não tínhamos nada. O meu pai nos expulsou e nos esqueceu completamente. Passamos três anos em Buenos Aires, morando com minha tia, que, por fim, nos despejou. Àquela altura, minha mãe se divorciara e arranjara um namorado rico. Ela me deu uma passagem só de ida para Londres, para se livrar de mim - ela não disse que a mãe a culpara por não receber nada no divórcio. Orihime fitava a escuridão que cercava a propriedade - Eu fui para Londres e arranjei um emprego noturno num restaurante. Durante o dia, trabalhava como camareira. A noite que você me viu no clube foi um acaso. Eu nunca tinha ido lá, e nunca mais voltei - ela corou ao pensar no vestido que usara - Quando consegui juntar algum dinheiro, mudei-me para a França e trabalhei colhendo uvas, durante o verão. Acabei em um vinhedo de Bordeaux, onde Ryuuken Ishida me deu um emprego - Orihime olhou para Ichigo, na defensiva - Ele descobriu de onde eu vinha, que eu tinha algum conhecimento sobre vinhos, e resolveu me dar uma bolsa de estudos. Eu ainda estaria lá, se o meu pai não tivesse me mandado uma carta, pedindo que eu voltasse para casa. Ryuuken havia me oferecido um emprego estável.

A fisionomia de Ichigo nada mostrava.

- Aquele artigo na revista pintou um quadro diferente.

Já que revelara tanto, Orihime decidiu que podia lhe dizer a verdade a respeito do seu relacionamento com a mãe egocêntrica. E, com isso, ela reviveu a sua humilhação. Quando acabou de falar, ela soltou o copo e se levantou, admirada com a dimensão da própria ingenuidade ao pensar que Ichigo Kurosaki era tão gentil e charmoso quanto se mostrara naquela noite. Com outras mulheres, podia ser. Com ela, não. Ele só estava tentando abalá-la, e ela deixara.

- Quero que você saiba que eu não vou ser dissuadida ou seduzida pela armadilha do dinheiro.

Levado por uma onda de raiva ambígua, ele retrucou:

- Não subestime a minha determinação para conseguir o que quero, Orihime. Já provei a minha determinação várias vezes.

- Então voltamos ao ponto de onde começamos ?

O olhar de Ichigo se tornou ardente, enquanto se fixava na boca de Orihime. Ela recuou e levantou a mão.

- Não… - mas não adiantou, e ele se aproximou e puxou-a.

- Sim. Foi assim que tudo começou, e nós ainda não acabamos - ele abaixou a cabeça e lhe deu um beijo incendiário e devastador para o qual ela não tinha defesa. Não depois de ter se exposto tanto. Ela o agarrou pelos braços e se colou a ele, enquanto Ichigo a fazia arquear o corpo, cada vez mais, sob a pressão do beijo.

Lábios esmagados contra dentes, mordidas na pele macia. Orihime sentiu o gosto de sangue, mas não sabia se era dele ou dela. Era o que ela queria: teria dado tudo para prolongar aquele momento…

Subitamente, ele soltou-a e afastou-a.

- Vá embora, Orihime.

Ela ficou chocada, magoada e confusa, sem fôlego. Viu o sangue nos lábios de Ichigo: ela o mordera. A necessidade de retomar o controle a fez dizer, abalada:

- Será um prazer. Não pretendo me vender pelos meus vinhedos, Ichigo. Quanto mais rápido você perceber, melhor.


Ele sentiu a agonia da frustração sexual. Não entendia como conseguira soltá-la quando ela o beijara e mordera seu lábio com sofreguidão. E isso depois de tudo que havia contado sobre sua vida, deixando-o extremamente sensibilizado.

Ele presumira que Orihime e a mãe haviam recebido muito dinheiro. Não sabia que o pai as expulsara sem lhes dar nada, e que a mãe também lhe dera as costas e que ela tivera que trabalhar em dois empregos para se sustentar.

Ichigo foi até a balaustrada da varanda e respirou profundamente, tentando se controlar. Ter beijado Orihime naquele momento o lembrara vivamente de se perder antes no seu encanto sedutor. Ela passara uma semana envolvendo-o, fazendo com que ele acreditasse nela com facilidade. Só para, no fim, lhe mostrar como ficara enojada ao seduzi-lo. Depois que ele a tocara, ele vira como ela vomitara e se engasgara. Ele sentiu o peito se contrair. Ela deveria estar realmente muito entediada, para ultrapassar os limites do que poderia suportar ao fazer algo de excitante e proibido. Naquele dia, algo muito pessoal e frágil se quebrara dentro dele. Ichigo se tornara duro e impenetrável. E, desde então, nenhuma mulher conseguira trincar aquela casca protetora, ou desafiar o seu cinismo. Mas a maneira como Orihime o beijara, tão natural e intensamente como ele se lembrava, fora algo para o qual ele não estava preparado.

Achava que agüentaria beijá-la, mas havia sido realmente arriscado. Ele tivera a sensação de deslizar para longe de tudo que sempre o mantivera enraizado na realidade e na sanidade. Depois de uma mãe nervosa e superprotetora e de um pai sujeito a ataques de raiva, que não hesitava em usar os punhos, ele desenvolvera aversão a ser tocado, mas, quando ela o tocava, nunca era suficiente. De repente, ele percebera que achava o toque de qualquer mulher invariavelmente desagradável e invasivo, mas não o dela. Admitir este fato o deixara nervoso… fora por isso que a empurrara.

Algo dentro dele endureceu. Ele iria tê-la, mas nos seus termos. Iria forçá-la a ser honesta com ele e consigo mesma. Desta vez, não haveria dramas, arrependimentos e recriminações. Apenas satisfação e um desfecho.


Alguns dias depois, Orihime estava sentada no escritório, lendo um convite que fora dirigido ao seu pai, para o Baile de Gala Anual dos Viticultores da América Latina, dali a dois dias. O baile se realizava em uma cidade diferente a cada ano, e seria realizado em Buenos Aires. Tão perto e tão longe. Ela suspirou e pensou que era exatamente do que precisava: uma chance de encontrar pessoas que se lembravam dos Inoue como bem-sucedidos. Seria perfeito para procurar investidores. Mas não havia como ela voar para Buenos Aires porque, além de não ter dinheiro, as linhas aéreas estavam em greve.

O telefone tocou. Ela atendeu e corou ao ouvir a voz conhecida, mas esfriou ao se lembrar da maneira que ele interrompera o beijo e a empurrara. Odiava Ichigo Kurosaki por ter exposto a sua fraqueza e o seu desejo daquele jeito, por tê-la rejeitado.

- Você recebeu o convite ?

- Que convite ? - perguntou ela, de mau humor.

- Você é uma péssima mentirosa, Inoue. Deve estar olhando para ele neste momento e imaginando como chegar lá e atrair alguns pobres investidores para financiar as suas terras moribundas.

- Ah, você se refere a esse convite ? - perguntou ela com indiferença - Eu recebi. Por quê ?

- Você vai ?

- Claro que vou - afirmou ela irritada - Por que não iria ?

- Não precisa ficar na defensiva, Orihime… eu perguntei porque vou usar um jato particular e pensei em lhe oferecer uma carona.

Ela ficou boquiaberta, mas logo se recuperou. Depois do que acontecera, nada aceitaria daquele homem.

- Não, obrigada - ela adoçou a voz - Eu já fiz outros arranjos. Vejo você lá - ela o ouviu resmungar algo sobre mulheres teimosas e desligou. Agora precisaria ir: não iria mostrar a ele nenhuma fraqueza.


Quando Orihime chegou a Buenos Aires, dois dias depois, cansada e suada, estava toda dolorida. Fizera uma longa viagem de ônibus, a partir de Mendoza, e cada solavanco da estrada refletira em seus nervos. Ela puxou a mala e se dirigiu ao hotel mais barato que encontrara perto do hotel Grand Palace Buenos Aires, onde seria o baile, naquela noite. Quando ela se fechou no quarto e se olhou no espelho, percebeu que teria muito trabalho para parecer uma viticultora de sucesso.


Ichigo não gostava da sensação de antecipação, de intensa expectativa. Estava acostumado a ter o controle de tudo e se sentia inútil. Percebeu que era por não saber onde Orihime estava. Quase a procurara e a forçara a vir com ele, mas a sensação do desejo em carne viva o impedira. Como ela iria chegar ali ? Sabia que não deveria ser por ar, por causa da greve. Naquele momento, ele notou um rosto conhecido na multidão e sorriu calorosamente, agradecendo a distração.


Orihime sentia um nó no estômago. Tomou fôlego e entrou no salão de baile repleto. Conseguira descobrir mais um vestido da mãe, que lhe coubera perfeitamente. Era verde e cintilante, comprido, relativamente discreto, com mangas compridas e decote alto. Mas, quando ela caminhava, uma fenda do lado mostrava a sua perna. Ela praguejara quando a vira: quanto mais cedo aumentasse o seu guarda-roupa, melhor. Quase estourara o limite do cartão de crédito para comprar um par de sapatos baratos e para fazer o cabelo, que caía em ondas sobre um dos ombros. Ela ficou feliz por ter gasto aquele dinheiro ao ver a aparência imaculada dos demais convidados. Só esperava que ninguém notasse que os brincos de esmeralda eram bijuterias.

Quando ela viu Ichigo do outro lado da sala, crispou as mãos em torno da bolsa, que carregava como um escudo, porque odiava ter a sensação de excitação que ele lhe provocava. Mas ele não olhava para ela. Olhava para uma mulher que estava diante dele, e lhe sorria de um jeito que a deixava enciumada. E então, como se os dois estivesse conectados por uma onda telepática, ele levantou os olhos, olhou para ela e o seu sorriso se apagou. A mulher que estava com ele se voltou, e Orihime sentiu um buraco no peito ao reconhecer a linda loira que estivera com ele na noite em que o reencontrara em Mendoza.

Alguém passou com uma bandeja de champanhe e ela pegou bruscamente uma taça, porque acabara de ver Ichigo puxando a companheira e caminhando em sua direção. Ela não conseguia se mexer, e o amaldiçoava intimamente, porque sabia que ele iria lhe apresentar a amante e fazer com que ela se sentisse suja.

Ele se aproximou com um olhar de curiosidade. Orihime ficou paralisada como uma corça diante dos faróis. Nunca se sentira tão exposta, não deveria ter ido… deveria ter sabido que ele não perderia a oportunidade de humilhá-la.

- Orihime, você veio… vou resistir à tentação de perguntar como conseguiu.

Ela tentou falar, mas perdera a voz. Sentiu que a loira a observava curiosamente e corou. Nunca estivera naquela situação… beijara o homem de outra… e estava decepcionada: jamais esperara que ele tivesse aquele tipo de comportamento.

- Quero que você conheça…

Como se presenciasse um acidente de carro em câmera lenta, Orihime olhou para a loira e sorriu, um sorriso amarelo. Percebeu que a moça era mais jovem do que pensara, e que deveria ter no máximo vinte anos, e sentiu-se nauseada e, mais preocupante, teve vontade de arrancar-lhe os olhos.

- Esta é minha prima, Arisa. Você deveria tê-la conhecido na noite da degustação, mas ela precisou vir para Buenos Aires, onde trabalha como modelo e é muito solicitada. Depois de passar alguns dias no campo, ela costuma ter urticária.

A moça olhou adoravelmente para Ichigo e socou-lhe o ombro.

- Não é urticária, Ichigo. Como você gosta de exagerar…

Orihime percebeu que, além de muito bonita, a moça tinha senso de humor. E de repente se deu conta de que ele dissera "minha prima", e precisou disfarçar o alívio.

- Muito prazer em conhecê-la, Arisa.

- Eu digo o mesmo, Orihime - ela se voltou para Ichigo com um sorriso - Preciso encontrar meu namorado, ou ele vai organizar uma busca.

- Preciso conhecer este homem que finge que não vai dormir no seu quarto esta noite - disse Ichigo, olhando para Arisa com afeição.

- Sim, Ichigo, mas, por favor, não lhe faça um interrogatório. Ele é um cara realmente bom - ela beijou o rosto do primo e foi embora.

Orihime não estava preparada, quando ele se voltou para ela friamente.

- Reservei um quarto para ela no hotel porque não gosto da idéia de ela voltar para casa tão tarde. Pelo menos, desse jeito eu sei que ela estará em segurança. O pai dela era irmão da minha mãe. Ele morreu quando ela era pequena, e eu me tomei uma espécie de figura paterna para ela.

Ela sentiu o peito apertar ao perceber como ele se preocupava com a prima.

- Ela parece ser uma boa moça.

Naquele momento, alguém esbarrou em Orihime e ela se encolheu, sentindo dor no quadril.

- O que foi ? - perguntou ele, ansioso.

- Nada. Eu só estou meio dolorida depois… - ela se calou, mas ele percebeu imediatamente.

- Você veio de ônibus, não é ? Toda essa teimosia… - ele soltou uma praga - Quanto tempo ? Catorze horas ?

- Na verdade, dezesseis. Tivemos um pneu furado - admitiu ela, constrangida. Ele sacudiu a cabeça.

- Suponho que esteja aqui para procurar um investidor ?

Ela ficou vermelha.

- E que outra opção eu tenho ? É encontrar um investidor ou perder tudo para você.

- Você seria uma mulher muito rica.

Ela sentiu algo se contorcer no peito ao ouvi-lo reiterar que queria vê-la longe.

- Quando você vai colocar na sua cabeça dura que não se trata de dinheiro ? Eu amo as minhas terras e quero que elas voltem a atingir todo o seu potencial.

Ele se irritou e abriu a boca para responder, mas, naquele momento, soou o sinal do jantar. Orihime aproveitou e sumiu no meio da multidão, agradecendo por ele não tê-la segurado pelo braço. Pretendia conversar com tantas pessoas quanto fosse possível e ficar longe de uma em particular.


Durante o jantar, Ichigo observava Orihime do outro lado da mesa. Ela se sentara ao lado de Sousuke Aizen, um dos maiores viticultores dos Estados Unidos, um homem em quem ele não confiava e de quem jamais gostara, sem saber por quê. Era algo intuitivo e se tornava mais forte a cada segundo. Não conseguia se concentrar nas conversas em torno dele, e sentia vontade de rosnar na direção da desagradável cabeça ornamentada pelos cabelos castanhos, que parecia determinada a obter uma ampla visão do decote de Orihime. Só podia imaginar os enormes olhos cinza implorando para que Aizen investisse no seu pobre vinhedo, e precisava se conter para não se levantar, arrancá-la da cadeira e levá-la para longe.


Orihime olhou para seu companheiro de jantar sem poder acreditar.

- Você realmente gostaria de discutir esse assunto ?

- Claro, querida - disse o homem, exalando charme.

Para o seu gosto, ele era encantador, mas um tanto presunçoso. Ela não iria dispensar um investidor apenas por uma impressão duvidosa: tivera sorte de se sentar ao lado de Sousuke Aizen e de que ele se interessasse pela propriedade dos Inoue. Seria a solução de todos os seus problemas. Se conseguisse convencê-lo, se livraria de Ichigo. Ela percebera que ele não tirara os olhos dela a noite inteira e tentara ignorá-lo, mas naquele momento não resistiu, olhou para ele e sorriu satisfeita por vislumbrar o fim de seus problemas: os olhos dele chisparam de raiva.

O jantar acabou e todos começaram a se dirigir para o salão de dança. Sousuke Aizen ajudou-a a se levantar e segurou-lhe a mão por mais tempo que o necessário, mas ela disse a si mesma que deveria aproveitar a oportunidade.

- Desculpe, preciso dar um telefonema. Volto dentro de meia hora para continuarmos a nossa conversa - disse ele, fazendo um gesto antiquado.

- Eu gostaria muito, sr. Aizen - a ansiedade de Orihime era óbvia.

- Por favor, não me chame de senhor - disse ele, sorrindo - Por que não me encontra no meu quarto… digamos, dentro de trinta e cinco minutos ? - ele informou o número do quarto. Ela reparou que a conversa tomara um rumo inesperado e se apavorou.

- Desculpe… não seria mais fácil nos encontrarmos em um dos bares ?

Sousuke Aizen olhou para ela com um ar condescendente.

- Preciso telefonar do meu quarto. Seria mais fácil se você fosse até lá. Todos os bares estão cheios e muito barulhentos. Claro, se a conversa não é importante para você…

Ela percebeu que se arriscava a perder a chance.

- Não, não - disse ela depressa - Tudo bem se for no seu quarto.

Aizen se afastou, mas logo foi substituído por alguém mais alto e perturbador. Ela tentou desviar, mas Ichigo lhe bloqueou o caminhou.

- Eu não confio nesse homem.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 6.