Menos um capítulo! Restam agora "apenas" 44 para terminar em novembro! Devo postar mais uns ainda hoje. Lembrando que estou aceitando pedidos para fics do dia dos namorados de 2021 até o final do ano! Boa leitura.
Em alguns jarros que permeavam uma pequena prateleira acima da mesa de estudos estavam pedaços e mais pedaços de plantas em conserva.
Em algumas provetas nas laterais da mesma mesa estavam algumas amostras de sangue.
No quadro de avisos estavam penduradas folhas e mais folhas com informações e analises de dados.
No meio disso, Chopper observava pelo microscópio uma maçaroca de raízes-sangue-suga amassadas com um pouco de terra e o substrato de algumas outras plantas não comestíveis do Usopp diluídas em água.
Não para a sua surpresa, não havia ali qualquer nutriente que valesse o esforço.
Nenhuma das plantas que eram usadas como armas tinha proteínas digeríveis o bastante para obter sequer um rascunho de nutricional, quem dirá servir de suprimento.
E isso não mudou quando ele começou a combinar diferentes plantas numa solução pastosa. Mesmo quando ele dissolveu parte de seus remédios e usou seus estoque médicos para tentar encontrar alguma de manter seus corpos minimamente nutridos para que todos sobrevivessem, tudo resultou em falhas.
A verdade é que eles já haviam atingido o ponto crítico no qual já duvidava que pudesse reverter a situação.
O mais próximo de comida que havia agora no Sunny eram os restos de laranjas que deram das finadas laranjeiras de Nami e ele não podia se dar ao luxo de usa-las de uma única vez, tornando-as parte do composto base do remédio que ele tem usado para tentar remediar o jejum de seus colegas.
Uma batida de poucas laranjas com muitas raízes e um mundo folhas secas, sem diluição para que o composto se tornasse uma pasta verde, seca e amarga, comprimidos para serem consumidos ao longo de dias.
Isso, junto de um alguns outros remédios era tudo que tinha mantido todos vivos nos últimos dias.
Mas infelizmente, isso não estava sendo suficiente.
Com um suspiro, Chopper arrastou sua cadeira de rodinhas até o outro lado da sala, analisando o paciente da vez.
Quando perderam o Franky, Usopp insistiu que ele seguia vivo. Garantiu a todos que ele havia um mecanismo de emergência, uma espécie de bateria ou algo do tipo, que mantinha o corpo de ciborgue dele preservado até que ele voltasse à receber combustível e alimento.
Até ai, tudo bem, porém, insistir em levar o pesado corpo de metal para a oficina abaixo do convés não é outra coisa, se não estupidez. Agora aqui estava ele.
—Todos medicados, doutor.- disse Brook ao entrar pela porta da enfermaria.
—Bem na hora... algum deles reclamou?
—Não, mas Zoro-san continua se recusando a tomar os comprimidos.
Numa crispar de língua, Chopper desistiu do caso.
—Ao menos sobra mais comprimidos para os outros...- e por mais que ele esteja acumulando os que Zoro se recusava à tomar, eles já estavam ficando sem comprimidos também. —Você tem certeza de que não precisa tomar também?
Sobre o olhar de desconfiança do médico o esqueleto fez uma pose com os braços, como quem segue forte.
—Sim. Eu não preciso de comida para seguir em frente. No máximo um copo de leite para fortalecer os ossos, mas nada que seja urgente!- apesar de sua afirmativa, Chopper já conseguia identificar à olho nu algumas fissuras que estavam começando a se abrir nas omoplatas do música e ele percebera que o homem estavam demonstrando sinais de fadiga e cansado nos últimos dias.
—Certo... pega a prancheta.- foi a única resposta dele antes de se virar de voltar para o corpo de Usopp. —Paciente 3, trigésimo quinto dia de observação...- começou a narrar enquanto que Brook começava a escrever.
E situação era grave, como era de se esperar.
Não havia pele excedente e não havia flacidez em nenhum ponto do corpo de Usopp, o que queria dizer que o corpo dele já havia eliminado completamente os seus estoques de gordura.
Com alguns toques de mão pelos braços, pernas e peito do homem era possível identificar que os músculos distendidos na estúpida ideia de erguer o corpo de Franky estavam se degradando num ritmo acelerado enquanto que os demais músculos seguiam sendo consumidos pelo corpo do atirador.
Usando um estetoscópio e um esfigmomanômetro ele pode identificar que o coração ainda não havia sido danificado, mas os batimentos seguiam desacelerados e ele tinha uma leve dificuldade na respiração.
Nenhum sintoma grave de overdose.
Para o alívio de Chopper.
No atual estado em que se encontravam seus companheiros, uma overdose, por mais leve que fosse, seria fatal.
Ele jamais se perdoaria se um deles viesse a morrer por isso.
Ainda mais considerando que nenhum deles sabia que estava sendo drogado.
O coração de Chopper pesava e muito, pois ele sabia muito bem o que ele estava fazendo e sabia que isso era contra qualquer conceito de ética medicinal que Doctorine lhe ensinou, mas desde que ele fez os remédios para seus colegas ele vinha drogando-os com substâncias depressoras.
Eles não precisavam saber, era o que ele dizia para si mesmo todos os dias. Era pelo bem deles. Afinal, uma droga que os faz ficar sonolentos e diminui a atividade metabólica poderia ser um bom jeito de forçar seus corpos a gastar menos energia e sofrer menos as consequências do jejum prolongado.
Mas Chopper sabia que a verdade era outra.
Ele sabia que essas drogas gerariam uma forte dependência se fossem ingeridas por muito tempo e ele sabia que se não soubesse manipula-las com muito cuidado poderia gerar sequelas irreversíveis à eles, podendo até mesmo induzi-los ao coma ou leva-los à óbito.
Mas esse era um risco que ele optou por correr. Não porque era o melhor para seus companheiros.
Mas sim porque era o melhor para acalmar os medos de Chopper.
O medo do que a fome poderia fazer com seus amigos.
Por mais que ele não quisesse acreditar em tais coisas, ele sabia muito bem o que as pessoas eram capazes de fazer nos momentos de total desespero que a fome podia gerar.
Ele já tinha ouvido histórias de mães que mataram suas crianças para livrarem-nas da dor da fome. Pessoas que eram capazes de matar umas as outras por meras migalhas. Até mesmo Sanji havia lhe contado a história de seu mentor, que num surto durante um longo período de fome, decepou a própria perna para comer sua carne.
Ele não queria, não podia e não iria acreditar que seus amigos passariam por isso, mas não queria, não iria e não podia pagar para ver.
Ele não poderia se dar ao luxo de deixar seus companheiros se perderem para a loucura faminta, pois se o fizesse, quanto tempo ele mesmo poderia se manter vivo?
Quanto tempo até que deixassem de vê-lo como um companheiro, um amigo, um igual e perceber que ele era, na verdade, uma rena?
Quanto tempo até verem-no como um simples prato de comida?
