Cap 01 – A Criança Trocada.

- Tire isso de perto de mim! Essa coisa não é o meu filho! - A primeira memória de Percival foi, ainda como recém-nascido, ter presenciado a sua mãe o rejeitando. Os outros passaram a vê-la como louca, afinal, quem rejeitaria uma criança com bochechas tão rosadas e fofas? Mas, o que não sabiam, era que aquela rejeição tinha um bom motivo. Aquela memória o revisitava constantemente durante os seus sonhos. Percival sentou-se na beirada da cama e esfregou seu rosto com as palmas das mãos para espantar o sono. O rapaz dormia em uma cama de casal, para caso tivesse uma companhia. Porém, essas ocasiões pouco aconteciam, podendo se contar elas com os dedos.

Percival morava sozinho em um apartamento pequeno. Nele havia apenas o necessário para que um solteiro vivesse bem. Havia poucos luxos. Ao lado da cama, em um criado-mudo, havia um porta-retratos com a foto dele e do seu pai, sua única família de criação. Os dois estavam lado a lado, na frente da casa da fazenda da família. Os pais de Percival tinham algumas propriedades, mas o grosso da herança que o rapaz desfrutava não vinha de sua família mortal.

Depois de tomar uma rápida chuveirada, Percival olhou para o seu reflexo no espelho e se perguntou a partir de que idade o seu relógio biológico começaria a girar. Apesar de já ter nascido a mais de cinquenta anos, Percival tinha a jovialidade de uma pessoa próxima aos trinta. Rotineiramente ele revivia na memória o dia em que o pai lhe revelou a estranheza de sua concepção. - Sua mãe, Percival, era uma pessoa normal até o dia em que passou a acreditar em fadas e duendes. Segundo as crenças dela, você não é o nosso filho de verdade. Mas sim uma criança mágica que foi colocada no lugar do nosso bebê, que foi raptado. Eu, como todo mundo, achei esse papo absurdo, mas então… Os sinais. - O patriarca da família pegou um pé-de-cabra e o aproximou do seu filho de, na época, doze anos. O menino, como reação, recuou, temendo instintivamente o leve toque daquela ferramenta de ferro.

O único relógio de parede no apartamento era um redondo com fundo preto e números brancos. Ele ficava na cozinha e Percival costumava se guiar por ele. Ainda era cedo, Percival podia se dar ao luxo de fazer uma atividade antes de ir trabalhar. No único quarto do apartamento, havia uma bancada que era usada para consertar computadores. Percival não precisava do dinheiro daquele emprego, já que sua família sobrenatural era abastada, mesmo assim ele trabalhava com manutenção de computadores e as vezes levava o trabalho para a casa. O emprego mundano tinha a única serventia de ocupar o seu tempo. Seria difícil, pensava Percival, viver uma vida prolongada sem ter alguns compromissos.

Depois que ajeitou uma placa-mãe em um gabinete, Percival foi checar as horas. Ainda havia algum tempo sobrando. Próximo à bancada havia dois instrumentos musicais: uma guitarra (acompanhada de um amplificador, claro) e um violão. Percival pegou o primeiro e tentou dedilhar uma música qualquer. Enquanto a melodia invadia seus ouvidos, a sua mente o guiava até a adolescência, onde ele conheceu o seu primeiro amigo com origem sobrenatural. O show de rock rolava no fundo de um bar. O espaço era pequeno, era difícil de respirar por causa do cheiro de cigarro e o piso se tornou pegajoso depois de tanta cerveja derramada nele. Percival não curtia muito o estilo da banda que se apresentava, um Black Metal com temática pró-paganismo e de cunho anticristão. Porém, era o que tinha e para aquela noite e até que servia. A amizade entre Percival e Bjorn, o vocalista da banda, começou por causa de uma confusão em que um bebeu a bebida que era do outro. Bjorn foi o primeiro a se revelar. - Você fede que nem aqueles celtas. - Depois de ouvir a primeira frase ficou mais fácil para Percival aceitar que estava diante de Fenrir, a personificação do lobo gigante dos nórdicos.

O relógio de parede marcou oito horas. Chegou o momento de Percival se trocar para ir ao trabalho. Ele foi até o armário de seu quarto e vestiu o seu uniforme padrão: uma calça jeans quase preta, uma camisa azul desbotada e um par de tênis sem graça. Como último toque ele colocou o seu crachá no pescoço. O jovem trabalhador estava pronto para cruzar a porta de saída do seu apartamento quando algo mágico aconteceu. Do lado de fora da porta não havia um dos corredores do prédio, como era de se esperar. Ao invés disso havia uma passagem para uma floresta paradisíaca que parecia ter saído de algum sonho regado a entorpecentes. Uma pessoa comum reagiria com espanto diante daquele evento, mas Percival não era comum. Ele tinha sangue feérico correndo nas veias.

A figura se aproximou furtivamente. Como a maioria do povo feérico, ele sabia como se aproximar sem provocar estardalhaço. O elfo tinha um corpo longilíneo, sua pele era tão alva que parecia ser de porcelana e seus cabelos eram de um louro tão claro que chegava a ser prateado. Como a maioria dos seus, ele possuía orelhas pontudas. Para completar, a criatura estava vestida com uma armadura verde adornada com símbolos que remetiam a flora. - O rei Elegast solicita a presença do seu filho. - Disse o elfo.

- Sinto muito, Haldir, mas não posso ir. Tenho responsabilidades com o meu emprego. - Respondeu Percival.

- Quando você fala em "emprego", você se refere àquela perda de tempo consertando máquinas simplórias? - Poucos feéricos plebeus tinham a coragem de falar com sinceridade diante de um nobre. Era essa característica de Haldir que fazia com que Percival o tivesse em alta conta.

- É um dinheiro suado e honesto.

- Você abriria mão de seus privilégios como príncipe para continuar como um simples e "honesto" trabalhador? - Percival tentou responder, mas no fim ficou calado. - Foi o que pensei.

Quando Percival descobriu sua origem inumana, aos doze anos, ele foi apresentado à floresta feérica Arcádia. O primeiro contato se deu através de sonhos, mas não demorou para que o rei Elegast, seu pai biológico, armasse um encontro de corpo presente. Na primeira vez que Percival testemunhou a beleza da floresta tudo lhe parecia mágico, e literalmente era. Mas, com o passar do tempo, a cada visita nova, aquela selva encantada lhe parecia cada vez mais trivial. Mesmo havendo fadas, gnomos, centauros e outras criaturas desse tipo por lá, o Percival atual não via mais nada de deslumbrante ali. Para ele isso se devia ao fato de que não era mais criança.

Em Arcádia não havia castelos ou mesmo paredes, os tronos do rei e da rainha ficavam a céu aberto. Eles nunca foram incomodados pela chuva, pois no lugar a temperatura era sempre a mesma: um calor acolhedor de alvorecer. Olhados de frente, o trono do rei Elegast ficava a direita e o da rainha Nuala a esquerda. Ele parecia ter oitenta anos, apesar da disposição incompatível com sua aparência, ela tinha o rosto de uma jovem de vinte e poucos anos.

- O que foi dessa vez, "pai"? - Percival quase sempre se dirigia primeiro ao seu pai, o rei, pois sua mãe era de poucas palavras. Resumindo: Nuala era um tanto quanto submissa. Mesmo tendo o sangue dos feéricos, Percival se considerava mais filho dos seus pais adotivos mortais do que daqueles dois nobres elfos. Ele até dava mais valor a sua mãe mortal que o havia rejeitado. Pelo menos, na sua ótica, ela tinha convicções fortes.

- Os mortais perderam a sua fé nas coisas mágicas e no poder dos espíritos das florestas. - Disse Elegast ao seu filho.

- Do que você está reclamando?! A fé nas tradições celtas nunca esteve tão em voga. Os nossos seguidores estão espalhados pelo mundo e não mais apenas em algumas tribos espaçadas.

- Que seja. Porém, os deuses antigos não são mais tão respeitados quanto outrora. Não há glória em ser retratado como uma peça de entretenimento juvenil.

- Tá, pode até ser. Mas o que você quer que eu faça?

- Oráculos oriundos de diversos panteões alertaram sobre a mesma ameaça: "chegará o dia em que os mortais se esquecerão de tudo o que é mágico e de valor imaterial para louvar uma única coisa".

- O quê?! - Perguntou Percival, que passou a se interessar pela conversa.

- Uma coisa pela qual você se tornou perito. Está próximo o dia em que os humanos se tornarão seguidores da racionalidade e da tecnologia. É por isso que você, meu filho, é o feérico mais indicado para lidar com esse problema. Quero que você lidere uma jornada.

- Como assim?!

- Monte uma equipe com seres desse e de outros panteões. Eu quero que você acabe com esse problema antes mesmo dele existir.

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Enquanto Elon Tusk esperava pela chegada da nave que trazia os repórteres, ele se lembrava do momento de sua infância que motivou todos os seus esforços atuais. Quando sua mãe estava sendo enterrada, Elon jurou que mais ninguém passaria pelo que ele passou. Sua mãe foi diagnosticada com um câncer agressivo, mas, em vez de se tratar com os meios científicos tradicionais, ela preferiu por procurar uma "cura alternativa". Ela ficava deitada por horas, com o corpo coberto de argila. Como a quimioterapia era desconfortável por causa dos enjoos e outros efeitos colaterais, ela acreditou que o curandeirismo, que não causava transtornos, a salvaria. O resultado foi uma metástase que, quando descoberta, se tornou irremediável.

Na Lua havia um projeto ambicioso que se chamava Lunar Max. O seu principal propósito era abrigar os trabalhos científicos de Elon Tusk. A construção megalomaníaca tinha o tamanho de cinco vales do silício e continha, ao menos, sete vezes mais mentes pensantes. A tecnologia local era tamanha que os funcionários não precisavam ter treinamento de astronauta, já que ali tinha até gravidade artificial.

- O senhor disse em uma coletiva que mudaria o jeito da humanidade encarar o mundo. O que isso significa? - A nave estacionou no hangar e, logo que foi possível, despejou o grupo de quinze repórteres. Um Elon sorridente os esperava, apesar de internamente odiar a situação. Expressar carisma, mesmo não sendo sincero, era um dos conselhos do setor de relações-públicas. Algo que era importante para alguém que defendia algumas teses impopulares.

A equipe de repórteres foi guiada por aquele Elon para os locais onde a ciência mais avançada do complexo estava sendo aplicada. Na primeira parada, o grupo ficou diante de um refeitório. Não havia nada de diferente naquelas bandejas e pratos de comida. O que chamava a atenção era o fato de que todos os que ali comiam eram iguais a Elon. Clones. - Pode deixar, E-101. Eu continuo daqui. - O Elon Tusk original, que só se apresentou agora, deu uns tapinhas nas costas do clone que entretinha os repórteres e tomou o seu lugar.

- Mas a clonagem humana é proibida e…

- Proibida na maioria dos países da Terra, estamos na Lua. Esses clones de vida curta, quando feitos para desempenhar uma função, são mais eficientes do que qualquer humano. - Após uma breve discussão sobre ética, Elon guiou os repórteres até a sua segunda maravilha. De início os convidados não entenderam, pois o seu anfitrião mostrou a eles um computador dos anos 1980 como se fosse algo atual. - O que eu quero mostrar é que essa nova tecnologia funciona em qualquer hardware, mesmo nos mais antigos. - Disse Elon. O magnata ligou a máquina e como reação todos os ali presentes, menos ele, sentiram uma "coceirinha" embaixo do crânio. No lobo frontal.

- O que está acontecendo?! - Disse um dos repórteres, quase caído no chão.

- É o meu maior presente para a humanidade. Com essa nova tecnologia eu poderei moldar a mente da população e instruí-la a dar mais valor para a ciência e a razão. Crenças infrutíferas serão eliminadas.

- Isso fere as liberdades pessoais! Você é louco! A história prova que o destino não tem pena daqueles que desejam estar no lugar de Deus.

- "Deus"?! Esse conceito será apagado da memória do cidadão comum. Quando eu acabar ninguém mais se lembrará de uma reza.