Cap 02 – Instinto Selvagem.
- Mas eu não posso me aventurar em uma jornada! - Disse Percival. - Tenho uma vida pra gerir!
- E que "vida" seria essa? - Perguntou o rei Elegast. - Você acha que vai poder continuar inserido no seu grupo social até quando? Mais cedo do que você imagina alguém perceberá que você não envelhece como deveria. - Percival não respondeu ao argumento do seu pai, simplesmente deu as costas para ele e se dirigiu para fora de Arcádia. - Se você me deixar falando sozinho pode esquecer que tem uma herança régia!
- Sem problema. Não faço questão da ajuda de um pai ausente. - Elegast esperava que seu filho titubeasse diante da ameaça, mas a sua atitude o surpreendeu.
- Ao menos ele demonstrou coragem. - Disse Nuala, a rainha.
- Quero ver até quando. Haldir! - O cavaleiro elfo que estava presente durante toda a conversa foi convocado pelo rei. - Siga o príncipe sem ser visto. O auxilie a perceber o tamanho do problema que ele mostra indisposição em lidar.
Já no turno da tarde, Percival deu as caras na empresa onde trabalhava. O seu chefe, um homem baixinho e robusto com cerca de sessenta anos, o esperava sem paciência. - Percival, você é um dos nossos melhores técnicos. Mas isso não significa que tem direito a tratamento especial.
- Sinto muito, senhor. Foi a minha mãe. Eu já contei sobre ela, né? - De fato, a mãe adotiva de Percival passava os seus dias em uma clínica psiquiátrica. Uma desculpa que ele sempre usava em casos de emergência.
- Tudo bem, mas da próxima vez, avise antes.
Em uma área recheada de cubículos, Percival sentou-se no destinado a ele e colocou um fone nos ouvidos. Em menos de três minutos houve a chamada de alguém que reclamava que seu PC estava travando. - Você já tentou desligar e religar o computador?
Tempos depois, aproveitando-se de uma brecha no trabalho, Percival se permitiu esticar as pernas com o pretexto de que beberia água. O bebedouro ficava encostado a uma parede, de junto de um quadro cheio de mensagens grudadas com taxinhas. Enquanto Percival enchia o copo para ingerir água, ele viu a faxineira do andar fixando um panfleto que parecia ter cunho religioso. - Você vai pro encontro de fé no final do expediente? - Perguntou a senhora.
Percival desejava falar um "não" seco, mas não queria ser indelicado. - É que… Eu tenho que ir pro…
- Tudo bem. - Disse a faxineira com um sorriso apaziguador. - Cada um tem o seu tempo.
- É... O que vai ser discutido no encontro? - Perguntou Percival, para não passar a ideia de que queria simplesmente fugir da reunião.
- Menino, vamos falar sobre feitiçaria e seus malefícios! Uma das nossas fiéis vai testemunhar sobre sua filha, que foi tentada pelo Inimigo e agora frequenta uma escola de magia e bruxaria. - Percival tentou não rir. Ele imaginou qual seria a reação daquela senhora carola se descobrisse que ele era um ser mágico com sangue do povo das fadas. "Ela não deve ser muito fã de cultura celta e New Age", pensou o rapaz.
Assim que voltou ao seu cubículo, Percival percebeu que a tinta da sua impressora havia acabado. O garoto respirou fundo, pegou o tôner que seria trocado e prosseguiu até o almoxarifado. Chegando lá não havia ninguém na recepção para atendê-lo. Percival gritou pelo nome do seu colega, mas ninguém respondeu. Xingando muito, Percival passou pela bancada e foi até a área onde ficavam guardadas as mercadorias. - O que é isso?! - Com muita surpresa, Percival descobriu por qual motivo o funcionário do almoxarifado não atendeu ao seu chamado: ele estava ocupado transando com uma funcionária do financeiro. De tão entretidos, o casal nem percebeu a presença de Percival. Por ser muito amigo dos dois, Percival saiu de fininho e fingiu que não tinha visto nada, mesmo sabendo que aquela não era a atitude mais ética a se fazer.
Aquele dia já dava sinais de que demoraria de acabar. Um som que lembrava o de um tiro se fez presente. Percival correu para o lado de fora e viu uma multidão se aglomerando na frente do prédio. Caído no chão, estava um homem que se atirou do quarto andar.
- Você não atendeu ao chamado do seu pai. A morte desse homem é de responsabilidade sua. - Percival tomou um susto tão grande que quase gritou por instinto. O elfo Haldir sorrateiramente apareceu ao seu lado.
- Eu nem conheço esse homem! Como posso ser responsabilizado?!. - A conversa sobre de quem repousaria a culpa pela morte do falecido continuaria se outro evento inesperado não acontecesse. Uma voz feminina gritou vinda do RH. Quando as pessoas foram até lá, atraídas pelo escândalo, presenciaram um estagiário esmagando o crânio do seu imediato com um institor de incêndio. A testemunha original, a psicóloga responsável por analisar os novos funcionários, estava sentada em posição fetal gritando.
- Percy! - Distraído com a brutalidade que presenciava, Percival precisou do alerta do cavaleiro elfo para perceber a ameaça que estava diante dele. As pessoas ao redor, todas elas, pareciam zumbis. Era como se dormissem em pé, com seus corpos balançando ao sabor do vento. - Tenho a impressão que é melhor a gente ir embora logo.
O circo começou quando a multidão despertou do transe. Como uma turba enfurecida, as pessoas começaram a se atacar sem motivo. Haldir se colocou entre os funcionários da empresa e Percival, a fim de protegê-lo. - Eles não sabem o que fazem! Não os machuque! - Por não ter consideração nenhuma pelas pessoas ali presentes, Haldir estava pronto para usar sua espada élfica. As lâminas de aço valiriano eram tão afiadas que nem precisavam tocar na carne de seus adversários para cortá-la. Para atender a ordem do príncipe, o elfo não retirou sua espada da bainha e a utilizou como cassetete. Os "zumbis" que tiveram a péssima ideia de tentar atacar Percival foram rechaçados e tiveram contusões em várias partes do corpo.
- Por que eles estão assim? - Perguntou Percival.
- Há alguma coisa no ar, algo estranho, que não tem origem mágica. Essa coisa está manipulando a mente desses mortais. Segundo nossos oráculos isso é só um teste. Se não fizermos nada o mundo todo ficará assim.
- Por que não fui afetado, então?
- Sinto muito, mas vossa majestade não é um humano. - Percival odiava ser lembrado disso. - É por causa de situações como essa que vosso pai, o rei, tenta te alertar.
- O que está acontecendo aqui tem a ver com minha jornada? - Haldir acenou positivamente com a cabeça. - Então diga ao meu pai que eu aceito. Eu vou liderar a missão.
Bem longe do prédio onde Percival trabalhava, em uma estação lunar, um jovem magnata lia os relatórios sobre o seu primeiro grande teste. - Fracasso! - Disse Elon Tusk. Ele esperava que as pessoas que recebessem seu sinal criptografado se tornassem mais racionais e produtivas, ao invés disso passaram a agir como animais.
- Talvez o cérebro humano não tenha sido feito para ser controlado. - Opinou o mordomo pessoal de Elon, que por sinal era uma cópia sua.
- Calado, E-800. Você foi feito para preparar meu chá, não para pensar. - Uma pequena expressão de desprezo passou pelo clone sem que seu molde original se desse conta. - E além disso eu não quero "dominar a humanidade". Só quero livrá-la de seus grilhões.
- Isso não seria a mesma coisa? - Mesmo sabendo que seria infrutífero, o clone perguntou.
- Você não estudou sobre os males que foram e são feitos por causa das religiões. Não tem como entender.
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A mãe de Alice fazia o tipo controladora, ao ponto de futucar as mensagens do celular da filha na surdina. Geralmente não havia nada no aparelho que a alarmasse, mas naquela noite foi diferente. Havia um convite que a deixou horrorizada.- "Escola de magia"?! Você não vai trazer o mal para dentro dessa casa!
- Mãe, entenda! Eu tenho um dom que precisa ser trabalhado!
- Então que trabalhe esse "dom" fora daqui. - Como uma adolescente rebelde, Alice contrariou a ordem da sua mãe e foi até o seu quarto arrumar sua mala. Ela não botou muita coisa lá dentro: uma muda de roupa, um laptop e alguns itens de higiene. - Mocinha, se você cruzar essa porta não haverá mais volta! - Sempre quando brigava com sua filha, a mãe de Alice usava essa ameaça. Geralmente funcionava, mas não naquele momento.
Alice estava sentada no ponto de ônibus mais próximo. Era madrugada, um horário péssimo para uma garota de dezesseis anos estar sozinha ali. Ela estava tão abalada pela briga com a mãe que demorou de perceber o ônibus escolar amarelo estacionado na sua frente. - Ei, entra logo. - Disse o motorista, que também fazia o papel de cobrador.
- Mas eu não pedi um ônibus.
- Prefere ficar aí sozinha? Boa sorte, então. - Naquele instante Alice se sentiu a mercê de muitos crimes que podia sofrer estando exposta ali e decidiu entrar no ônibus, que lhe pareceu uma melhor opção.
Alice sentou-se perto do motorista, em um canto afastado dos outros passageiros. O ônibus levava consigo mais cinco pessoas. Todas elas em idade colegial. - Onde estamos indo? - Perguntou Alice ao motorista.
- Você deve ter recebido nossa mensagem de admissão, do contrário, não estaria nos esperando. Você foi aceita na Escola de Magia e Bruxaria Crowley.
Alice conhecia razoavelmente bem a cidade onde morava, mesmo assim nunca tinha visto aquela mansão que se parecia com a casa branca. Algo estranho, por que ali havia metro quadrado demais para ter sido ignorado. - Que lugar é esse?! Por que eu nunca ouvi falar dele?!
- As respostas para suas perguntas são, respectivamente: "a escola de magia Crowley" e "por que o lugar é mágico". Agora vá, você não vai querer se atrasar na sua noite de iniciação.
Alice titubeou ao sair do ônibus, mas como sentia que não tinha outra opção, seguiu o fluxo. Sem pressa, ela esperou que os outros jovens caminhassem até o casarão. Não queria ser pega de surpresa então esperou para ver como os outros garotos do ônibus seriam recepcionados. A mansão recebeu os novatos de portas abertas. O primeiro cômodo do lugar era um salão que exibia um quadro em tamanho natural de um homem de meia idade, gordo e careca.
- Esse é Aleister Crowley, o fundador dessa instituição. - Disse um homem com idade o suficiente para ser um dos professores da escola. - Esse é o seu primeiro dia? Venha, por aqui. - Alice seguiu o professor até o que ele chamou de "cerimonia das varinhas". O ato era a iniciação dos meninos e meninas bruxas do local. - Você precisa ser forte o suficiente para dominar um demônio e prendê-lo em uma varinha, que passará a ser sua.
- E se algo der errado?
- Você fica preso no Submundo. Mas não se assuste, isso quase nunca acontece. - Alice então respirou fundo e se amaldiçoou por não ter escutado os alertas de sua mãe. Mas agora era tarde para voltar atrás. Alice entrou na fila indiana e esperou a sua vez. O ritual era breve, o jovem feiticeiro da vez, guiado pelo diretor, desenhou um círculo místico com giz no chão e falou um nome qualquer. Tal nome seria usado para batizar o demônio que se apresentasse. Pouquíssimos novatos escolhiam um nome que já existisse, pois demônios com nomes eram muito mais poderosos e difíceis de controlar. Como a maioria dos novatos não queria se expor ao risco de descender, o consenso era optar por entidades sem nome.
Protegido pelo círculo que desenhou, o garoto apontou a varinha que tinha em mãos para a entidade que se materializou. O monstro era asqueroso, principalmente por causa da boca em seu estômago. Alice ouviu o aspirante e o demônio conversarem, mas não entendeu uma só palavra. Mas isso não fazia muita importância, pois ambos desapareceram.
- É. Esse não teve muita sorte. - Alice engoliu em seco, logo seria a vez dela.
