Cap 03 – Andar de Baixo.

- Você não mudou o seu semblante desde que aceitou essa aventura. - Afirmou Haldir. - Continua carrancudo.

- Eu só aceitei essa "aventura" porque minha vida está uma merda. - Respondeu Percival. - Alias, foi muito conveniente ter acontecido aquela tragédia no meu trabalho.

- Está duvidando da palavra de seu pai? - Apesar de desejar responder aquela pergunta com uma afirmativa, o príncipe changeling ficou mudo.

O bar Irish Pub podia ser acessado de qualquer esquina do mundo terreno, desde que quem o procurasse tivesse sangue divino celta. Apesar de ter todas as características requeridas para o seu ingresso, Percival nunca havia sido convidado para passar uma noite de bebedeira ali. Grande parte disso se devia ao fato dele negar sua origem mágica. O príncipe feérico demonstrava um comportamento de desinteresse social tanto no mundo mundano quanto no mágico.

Haldir escolheu uma porta aleatória e falou as palavras mágicas em idioma élfico antigo. Imediatamente aquela passagem se transformou em um portal. Agora era só passar por ele para se ter acesso ao Irish Pub. Do lado de dentro, o bar não parecia ser diferente de qualquer outro. Pessoas com roupas normais bebiam, conversavam e, vez ou outra, comiam um aperitivo. O pequeno diferencial era que não haviam garçons. As bandejas de iguarias iam flutuando até os clientes.

- Haldir! O que traz de novo? - Perguntou o bartender, um anão que se equilibrava em um banco grande para conseguir se manter na altura do olhar das outras pessoas.

- Sucellus, dentre outras coisas, deus da cerveja. Eu trago o filho do rei que pede audiência com todos os seus súditos.

Um cliente que estava escorado em uma das paredes do bar veio ao centro do estabelecimento e mudou de forma. Deixou sua aparência mundana para se mostrar como uma entidade de grandes chifres de cervo na cabeça. - Esse é o príncipe changeling que prefere viver com os mortais?! Por que deveríamos prestar respeito a um governante que quer se afastar do seu povo?

- Não é bem assim, Cernuno. - Respondeu Haldir.

- Você fala pela boca dele?! Esse príncipe não tem voz?!

O próximo a pedir a palavra era ainda mais imponente do que o deus cervo. Percival pensou que ele era um ator ou modelo devido a sua beleza. Com um corpo musculoso, o "gigante escandinavo" era louro, de olhos azuis e possuía muitas tatuagens tribais. - Eu, Cuchulain, emprestarei minha lança de bom grado. Desde que vossa majestade prove ser digno.

- E como seria essa "prova"? - Perguntou Percival.

- No meu tempo eu fiz trabalhos para provar minha honra. - Disse Cuchulain. - Eu agora exijo o mesmo.

- Isso é idiotice. - Disse Haldir. - Não temos tempo a perder.

- Tudo bem, eu aceito. - Haldir tentou concertar o passo em falso dado por Percival, mas antes que percebesse o príncipe já tinha firmado um acordo.

- O trabalho será o seguinte. - Disse Cernuno, fazendo uma pausa dramática antes de terminar. - O príncipe, para provar o seu valor, deve trazer consigo uma prova de que conseguiu entrar e sair do submundo. - Haldir, ao ouvir a sentença, fez uma expressão horrorizada.

- Não deve ser tão difícil. - Haldir levou o príncipe até um ferro velho longe dali. Aproveitando do silêncio do ambiente, a dupla conversou sobre o que deveriam fazer.

- Você está maluco?! - Perguntou o cavaleiro elfo ao seu príncipe. - Fugir do submundo é algo dificílimo! Eu só me lembro de dois que conseguiram tal feito. Orfeu e Dante. Ainda há tempo de desistir.

- Se eu fizer isso nunca mais serei respeitado. - Como não podia negar a ordem de Percival, Haldir abriu um portal que levava ao submundo. Assim como aquele que era usado para entrar no Irish Pub, o portal do submundo poderia ser acessado em qualquer lugar da Terra. Porém, quase ninguém queria usá-lo. A começar, o submundo tinha um péssimo clima, quente e abafado. Pra piorar, sua companhia era das piores, demônios torturadores.

Percival tentou ignorar a baforada quente que saia do portal quando passou por ele. O céu daquele mundo era avermelhado e seu solo alaranjado. Parecia que ali nada se plantava. Não havia fonte de água a não ser a do rio Estige. Porém, ninguém se atrevia a aplacar sua sede nele. – Hei, você não está morto e nem é humano, o seu lugar não é aqui. - Disse um homem cadavérico que guiava uma canoa de madeira. Seu nome era Caronte e sua fama era grande demais para que alguém não o identificasse quando o visse.

Percival revirou os olhos, não gostava de ser lembrado que não era um mortal. Como filho do rei dos elfos, ele levava sempre consigo uma moeda do seu reino. Foi com ela que o príncipe changeling conseguiu pagar por uma carona. A viagem até a outra margem foi relativamente tranquila, porém, o lamurio dos mortos que se afogavam era bastante incômodo. - O que você sugere como uma forma de provar minha passagem por aqui?

- Não sei. Siga essa estrada de tijolos amarelos, talvez encontre alguma coisa.

- Obrigado.

- Só não saia muito desse caminho ou poderá se perder para sempre.

Durante o caminho, Percival viu coisas estranhas. Um cachorro gigante com três cabeças, um grupo de pessoas sendo devoradas por corvos e um deserto cheio de pessoas petrificadas. Foi nesse último lugar que ele ouviu um chamado. - Garoto fada, aqui! - A voz vinha de uma menina presa a uma rocha. A única parte de seu corpo que estava exposta era a cabeça.

- Quem é?

- Meu nome é Alice. Eu posso te ajudar com sua jornada.

- E por que eu confiaria em você? - Nos próximos quinze minutos, Alice contou a sua história. De como foi convidada a fazer parte de uma escola de bruxaria e de como foi condenada ao submundo em um processo de admissão que ela diz ter sido praticamente forçada a participar.

- Libertar uma condenada é uma baita prova de passagem pelo submundo. - Percival ponderou um pouco e chegou a conclusão de que aquilo fazia sentido.

- O que eu preciso fazer para te libertar?

- Só preciso de uma varinha.

- Eu vou achar uma onde?

- Você é bom com jogos de aposta?

XXXXXXX

- Mãe, entenda! Eu tenho um dom que precisa ser trabalhado! - Essa foi a frase usada por Alice antes de sair da casa de sua mãe. O que ela não teve tempo para explicar, era como se manifestava esse "dom". Alice era clarividente. A aspirante a bruxa podia prever o futuro com certa facilidade. De tão boa não precisava utilizar artifícios como baralhos de tarô ou búzios. Assim que ela entrou na fila dos novos alunos da escola Crowley, ela já sabia que seria derrotada. Alice só se deixou perder, pois, sabia que, ao contrário dos outros, tinha uma chance de retornar. Décadas se passaram e ela esperou pacientemente pelo seu salvador. Um homem vagando entre os condenados que não fosse demônio ou humano. Uma "pessoa" com um aroma muito peculiar de magia.

XXXXXX

Ninguém fazia um favor no submundo de graça. Qualquer ajuda só era ganha através de apostas ou barganhas. Seguindo as orientações de Alice, Percival pediu uma audiência com o primeiro demônio que encontrou e o desafiou a uma partida de pôquer. O demônio em questão era azul, tinha orelhas pontudas e rabo de cavalo, apesar de ser careca. O seu rosto era coberto por letras de um alfabeto antigo ligado a religião islâmica. A entidade dizia ser um djinn.

Uma mesa redonda se materializou do nada com fichas e cartas a vontade para se ter uma partida. O djinn e Percival se sentaram um de frente para o outro e começaram a jogar. A entidade foi mais feliz na primeira rodada, o que fez com que Percival aumentasse a aposta para seguir com o jogo. - É a primeira vez que vou ter um escravo do povo das fadas. Será que vocês aguentam mais dor do que os humanos? Eu acho que não.

Percival previu os movimentos do gênio e o derrotou com um Royal Straight Flush. Como acordado, qualquer um que apresentasse esse conjunto raríssimo de cartas ganharia imediatamente. - Pode entrar na varinha. - Disse Percival sorrindo. O djinn amaldiçoou o islã enquanto se transformava em um objeto que parecia um graveto.

Pouco tempo depois, no Irish Pub:

- Eu duvido que o nosso "príncipe" consiga realizar a sua prova. - Disse Cernuno entre uma golada de cerveja e outra. - Se ele assim o fizer serei o primeiro a se ajoelhar.

- "Ajoelhar"? - Percival se materializou no meio do bar acompanhado por Alice e sua recém-adquirida varinha. - Pela vergonha que me fez passar exijo nada menos do que a sua cabeça! - Resignado, o deus dos animais se ajoelhou e abaixou a cabeça, estava pronto para se fazer cumprida a sua sentença. - Não! Pelos deuses! Levanta, estava só brincando. - O bar veio a baixo com uma sonora gargalhada que fez uma parte de Cernuno desejar ter sido sacrificado.

Cuchulain foi o segundo a se ajoelhar, o restante do bar o acompanhou. - Nós, os seus leais súditos, esperamos as ordens de vossa alteza. - Pela primeira vez em sua vida, Percival viu mais vantagens em seguir com sua vida mágica. Haldir, que também esperava o seu príncipe no Irish Pub, aplaudiu em um misto de orgulho e alívio.

XXXXXX

Enquanto Percival lidava com seus problemas divinos, no plano mundano, a vida seguia. Em um canal de grande relevância mundial, um padre famoso era entrevistado. George era conhecido pelas suas palestras motivacionais, livros de autoajuda e canções que, segundo ele, revigoravam o espírito. - Então é verdade que o senhor decidiu desistir de sua fé? - Perguntou o entrevistador sentado confortavelmente em um sofá. Em reação a sua indagação, a maioria dos presentes no auditório ficou indignada.

- Minha intenção não é a de ofender ninguém. - Disse George, também sentado em um sofá, esse posicionado ao lado daquele ao qual o entrevistador usava. - Desde que eu ingressei na santa igreja, eu fazia um tremendo exercício mental para relativizar um histórico cheio de hipocrisia e crueldade. - A plateia entrou em alvoroço, muitos dentre eles se sentiam traídos. - Elon Tusk abriu os meus olhos. O futuro da humanidade é esquecer as superstições e abraçar o progresso. - O padre se levantou, tirou o colarinho clerical de sua batina e o jogou no chão.

- Mas você não teme ser considerado um traidor?

- Antes eu traia a mim mesmo. Agora não mais.