Cap 04 – Deicídio.
- Não acredito que você conseguiu usar um Royal Straight Flush. - Disse Alice. - Não sei nem se tem combinação no pôquer mais difícil do que essa.
- O povo fada é conhecido por sua sorte. - Respondeu Haldir.
Meio sem jeito, Percival confessou um segredo. - Sendo bem honesto, minha "sorte" teve uma "ajudinha".
- Você trapaceou no submundo?! Nem quero imaginar o que os demônios fariam com você se descobrissem. - Pareceu que o djinn preso na varinha de Alice ouviu a conversa, pois ela sentiu o objeto balançar vigorosamente. - Agora não adianta reclamar, ninguém tem culpa de você ter sido lerdo.
O próximo passo na jornada de Percival e sua trupe era negociar com o povo de Asgard. A escolha pela visita desse panteão se deu pelo fato do príncipe ter um amigo entre eles. Fenrir, ou Bjorn, como era conhecido no mundo mortal, vivia sem muitas preocupações como vocalista de banda. Foi no frio da Islândia que o quarteto encontrou a cabana isolada onde o lobo gigante em pele de gente morava. Ele dividia espaço com seus colegas da RagnaRock. O baterista, baixista, guitarrista e o responsável pelos instrumentos regionais eram todos gigantes de gelo.
- Asgard e os nove reinos não são mais os mesmos. - Disse Fenrir, enquanto bebia cerveja na boca da garrafa. - O Ragnarok enfim aconteceu. A maioria dos deuses, gigantes e anões morreram. A perda é muito recente, não se passou nem duzentos anos. Duvido muito que o que sobrou dos aesir ainda tenha energia e disposição o suficiente para mais uma guerra.
- Uma linhagem de guerreiros nobres corre pelas veias dos aesir, eles têm que ajudar. - Disse Haldir.
- Eu posso levá-los até eles. - Respondeu Bjorn. - Não prometo muito. - Do lado de fora da cabana, Alice, Haldir, Percival e Bjorn formaram um círculo enquanto este último chamava por Heimdall. A divindade que tinha o dom de ver os nove reinos em sua completude ouviu o chamado do lobo gigante e enviou uma luz que tinha as cores do arco-íris. A luz engoliu os quatro e antes que se dessem conta foram teletransportados para uma dimensão superior.
Percival olhou para o que sobrou de Asgard e sentiu uma forte decepção. O castelo dos deuses que, em seu tempo de glória, exibia um suntuoso tom de dourado, agora parecia meio desbotado. A morada dos aesir se converteu em ruínas, poucas paredes permaneceram em pé. A visão do lado de dentro era ainda mais avassaladora, o poderoso Odin Pai de Todos foi substituído por um jovem ruivo que se escorava no trono para tirar um cochilo regado a hidromel.
- Quem é esse?! Onde está Odin e Thor?! - Perguntou Haldir
- Meu avô e meu pai morreram no Ragnarok. Meu nome é Magni, o novo regente de Asgard. - Apesar do novo deus do trovão ter uma barriga saliente, seus braços trabalhados deixavam claro que ele era um guerreiro.
Percival e Alice tentavam prestar atenção na conversa do rei, mas era difícil fazer isso diante da cena a qual eram expostos. Os dois, apesar de terem em suas vidas uma concepção de mundo pagã, tiveram uma criação calcada no cristianismo. Pra eles, como lhe foram ensinados, não era normal que pessoas cometessem atos sexuais diante de qualquer um. As valquírias, belas guerreiras aladas que protegiam o trono de Asgard, depois do Ragnarok foram reduzidas a "acompanhantes" do que restou dos deuses.
- Nem em meus tempos mais libertinos eu agia assim. - Comentou Fenrir, que no plano asgardiano exibia sua real forma de lobo gigante. - Asgard se tornou uma vergonha.
- Viemos pedir ajuda. - Disse Percival. - Já temos o apoio dos celtas e dessa bruxa que eu salvei do submundo. - Ao ser mencionada, Alice corou.
Magni levantou do trono e pegou o seu martelo que guardava em seu cinto. - Como não me considero mais um guerreiro, o Mjolnir não me serve para nada. Peguem-no! Se vocês forem dignos, o martelo será de grande serventia como ferramenta de construção ou arma de guerra. - O rei deus então arremessou o seu martelo e o fez viajar por várias dimensões até cair na Terra.
- Precisava jogar tão longe? - Perguntou Percival, baixinho, pra si mesmo. Enquanto o príncipe changeling se perguntava como chegaria até o martelo mágico do rei, Alice teve uma visão.
- Vocês vão procurar o Mjolnir. Eu ainda tenho um assunto pendente aqui. - Disse Alice. Percival e Haldir ainda tentaram dissuadir sua colega, mas a bruxa estava convicta. Ela afirmou, sem deixar claro o motivo, que sua presença em Asgard podia mudar os rumos do conflito que se aproximava.
Enquanto as entidades conversavam em Asgard, um evento estranho acontecia nos EUA, na parte rural do Kansas. Um casal de idosos voltava para a sua propriedade em uma caminhonete vermelha quando avistaram o que parecia ser um cometa. O objeto voador não identificado aterrissou com estardalhaço, formando uma cratera e fazendo muito barulho. - O que será isso?! - Perguntou o marido, que estava no volante.
- Não sei, mas vou lá ver.
- Você está louca, Marta?! Pode ser perigoso!
- Pode ser valioso! Você e sua covardia só faz com que a gente perca oportunidades. - O objeto que caiu dos céus não estava quente, algo que era estranho tendo em vista que, em tese, ele passou pela atmosfera. Sem se importar com isso, a matriarca caminhou até o que acabou descobrindo ser um martelo. Movida por curiosidade, mesmo sabendo que poderia não ser seguro, ela pegou no cabo da arma e a puxou. Seu lado consciente sabia que o objeto era pesado demais para ela empunhar, mesmo assim ela o fez. Um raio desceu dos céus e acertou a senhora curiosa, mas ela não morreu. Ao invés disso rejuvenesceu até os seus vinte anos e passou a ter um corpo escultural que jamais teve. Ela não era mais uma velha fazendeira, mas sim a nova herdeira do deus Thor trajada para a batalha.
- Marta? - O velho pai de família não conseguiu acreditar no que estava vendo. Sua esposa se transformou em uma beldade. Para deixar a cena ainda mais inacreditável, ela voou com a velocidade de um supersônico. A onda de choque do seu deslocamento fez com que o idoso caísse para trás. O velho ficou olhando para cima com cara de bobo por um longo tempo.
XXXXXX
Alice se afastou do castelo em ruínas dos aesir e seguiu viagem por uma rota que ela só sabia ser a correta por instinto. A sua clarividência também a alertou que o melhor seria se ela fosse até o destino a pé, sem utilizar sua magia. Em uma oca no meio da mata, a bruxa encontrou quem procurava. A maioria das pessoas acharia aquela idosa repugnante. Principalmente por causa do seu jeito mal cuidado e dos olhos cegos por queimadura. - Você é a bruxa que voltou do submundo. - Disse a idosa. - A maioria enlouqueceria após passar um século preso lá.
- "Um século"?!- Pensou Alice. -Foi tanto tempo assim?
- Sabe quem eu sou?
- É uma das videntes de Odin, Volva. - A bruxa velha sorriu e mostrou todos os seus dentes cariados e quebrados.
- Você é uma vidente do nível das grandes oráculos. - Disse Volva. - Isso é raro no mundo dos deuses, ainda mais no dos mortais.
- O que quer comigo? Por que sinto que nossa conversa é importante?
- Assim como eu tive a visão, você também a terá. Chegará o momento em que você descobrirá qual é a verdadeira ameaça. Quando esse momento chegar você terá que decidir qual mundo defenderá. O dos deuses ou o dos homens.
- Mas eu sou só uma pessoa comum!
- Que é a vidente atual mais poderosa da Terra e que conseguiu fugir do submundo. É comum aos humanos que são destinados a serem heróis passarem por uma fase de negação. Não se preocupe, você vai trilhar o caminho correto como todos os que te precederam. Agora vá para Midgard, seu mundo precisa de você. - Volva revelou que embaixo dos seus trajes esfarrapados ela escondia uma varinha. Com o seu objeto mágico ela fez um gesto no ar que deu origem a uma luz que teletransportou Alice para a Terra.
XXXXXX
Lunar Max.
O complexo tecnológico tinha um sistema de alarme que muitos achavam ser obsoleto. A maioria dos seus empregados não acreditavam que apareceria algo que fosse capaz de ameaçar a base lunar. Mas esse dia chegou. Analisando os radares, os vários clones de Elon Tusk ficaram se indagando o que seria aquele objeto voador que trafegava tão rápido. - Um cometa?
- Que surgiu assim tão de repente? E ele parece muito "inteligente", vem direto pra cá. Eu acho que é teleguiado. Um míssil, talvez. - O debate entre os clones chegou ao fim quando a mulher voadora se revelou. Com uma girada forte em seu martelo, ela criou trovões que ecoavam até mesmo longe da atmosfera terrestre.
Dos monitores da central de operações, um dos clones teve uma reação imperdoável. - Ela é uma deusa! - O deslumbramento daquela cópia foi paga com um tiro na cabeça. Elon considerava aquela atitude como um erro de lote. Nesse caso era só se desfazer do equipamento falho.
- Nós somos preparados para isso. - Disse o Elon Tusk original. - Unidades de defesa aos seus postos. - O magnata não precisava de microfones ou aparelhos rústicos para que suas ordens fossem ouvidas em toda a Lunar Max. Para isso ele implantou no próprio corpo chips multitarefas.
Os canhões mais próximos de She Thor começaram a disparar projéteis lasers de luz incandescente vermelha. Ela, com pouco esforço, rebateu as investidas com o seu martelo. Alguns dos raios jogados contra ela voltaram aos seus agressores, destruindo material bélico e matando clones.
- Mortais, se ajoelhem e peçam perdão aos deuses. - Disse She Thor. Ao ouvir aquela ameaça, Elon Tusk sentiu um asco só equiparado a quando, anos antes, um padre fez as considerações finais no enterro de sua mãe.
-Já basta, acionem o Experimento X. - Uma comporta foi aberta e algo único saiu. Era mais um clone, porém, este era especial. O Experimento X voou até alcançar a altura de sua rival. Ele não possuía nenhuma energia mágica que o propelisse ao voo, mas isso não o deixava de ser capaz.
- Ajoelhe-se! - She Thor apontou seu martelo para o céu e fez com que um raio descesse até ele para energizá-lo. Com a sua arma carregada, ela apontou na direção do Experimento X e descarregou sua fúria. A luz emanada pelo ataque fez com que a maioria dos ali presentes ficassem cegos momentaneamente. Quando a claridade passou, o resultado do ataque ficou evidente. O raio chamuscou um pouco a roupa especial do clone. Nada mais.
O Experimento X voou até She Thor com a fúria e a velocidade de um foguete. Seu soco, tão potente quanto várias bombas, acertou o estômago da deusa e fez com que ela se curvasse. Quando a guerreira se recuperou, ela usou o seu martelo para um ataque mais direto. A martelada mirava a cabeça do clone, mas este, com sua mão direita, agarrou a arma e em um segundo ataque a separou de sua usuária.
- Isto é impossível!
- Não! Isso é ciência! - Usando o martelo dela contra ela própria, o clone a acertou na cabeça com tanta força que ela despencou no chão. Criando assim mais uma cratera na Lua. Assim que a poeira baixou, a jovem guerreira, já sem energia, se transformou na velha senhora de outrora e deu seu último suspiro.
- O que eu faço com isso, mestre? - Perguntou Experimento X ao Elon original utilizando-se de um chip de comunicação. - Ela deu a entender que essa arma é mágica. Devo descartá-la?
- Não, de forma alguma. - Disse Elon. - "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia". Quero estudar esse martelo. Talvez dê para a gente aprender algo com ele.
XXXXXX
Enquanto isso, na Islândia.
- Como vamos encontrar esse bendito martelo? - Perguntou Percival ao seu guarda costa, Haldir.
- Um objeto de tamanho poder dificilmente passa despercebido. - Respondeu o elfo. - Talvez esteja na hora de usar sua caixinha mágica.
- Não é uma "caixinha mágica", é um celular. E ele não dá todas as respostas. Mesmo que as vezes pareça.
Enquanto caminhavam pela estrada, Alice se materializou entre eles. Percival tomou um baita susto. Haldir nem tanto, ele estava habituado com aquele tipo de coisa. - Esqueçam o Mjolnir, ele caiu nas mãos do inimigo.
- Mas como isso é possível?! - Perguntou o elfo.
- É melhor nós não nos preocuparmos com isso agora. Vamos focar no próximo panteão.
