Cap 05 – Incorporados.

Século XVI, em um barco português que navegou até o Japão para espalhar o cristianismo:

A missão era liderada por jesuítas, sendo que entre eles havia um africano de moçambique. Ele se destacava dos demais tripulantes por causa de sua cor de pele e por sua altura. Assim que a embarcação aportou em solo nipônico, os olhares dos locais se voltaram para o "gigante de carvão". Devido a maioria deles nunca ter visto alguém daquele grupo étnico, os menos esclarecidos passaram a acreditar que ele fosse um ser sobrenatural, um yokai.

- Quanto quer por seu guarda-costas? - Nobunaga ficou impressionado com a força do moçambicano e pelo fato dele aprender novos idiomas com facilidade. O xogum ofereceu uma alta quantia por ele e os portugueses foram unânimes em ceder o seu melhor guerreiro. - De agora em diante você será chamado de Yasuke. - Disse Nobunaga ao seu mais novo samurai.

A formação de um samurai normalmente acontecia em idades precoces, mas Yasuke surpreendeu a todos ao lutar como um guerreiro experiente apesar de poucos meses de prática. Infelizmente, a carreira de Yasuke como guarda-costas do xogum durou pouco. Um grupo rival de samurais invadiu a casa de Nobunaga e matou todos os guerreiros locais. No final o xogum praticou seppuku e Yasuke foi humilhado. - Estrangeiro, você não é um samurai de verdade. Não merece ter uma morte honrada. Saia daqui!

Depois que a casa que protegia foi destruída, o samurai africano se tornou um guerreiro sem mestre e passou os seus dias finais vagando sem destino.

Até que a morte o encontrou.

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Passar pelo portão de entrada não foi difícil. Apesar da casa de axé ser grande, ela não tinha muitos filhos de santo para protegê-la. Os quartinhos foram invadidos e os altares foram violados. Os autores da barbárie diziam que estavam atuando a serviço de um poder maior. Rotulavam as práticas do terreiro como sendo "coisa do diabo". Com essa justificativa muitas atrocidades já foram feitas. - Deixa eu adivinhar. - Disse o cavaleiro elfo. - "Cristãos". - Percival, na companhia de Haldir e Alice, havia chegado na próxima etapa de sua jornada. Voltando para o Brasil, o trio visitou um centro de candomblé que passava por dificuldades.

- Que lugar caído! - Falou Alice, sem perceber que estava sendo ouvida. - Como os deuses desse templo deixaram isso acontecer?

- Os responsáveis por essa afronta terão o que merecem. Tudo ao seu tempo. - O pai de santo que chefiava o terreiro era bem idoso. Ele estava vestido com uma roupa branca de algodão e fumava um cigarro feito com fumo enrolado. - Mas que assuntos trazem um elfo, uma bruxa satânica e um changeling até aqui?

- Espera! Como um mortal pode saber de tudo isso?! - Percival foi se aproximando do velhinho sem perceber o perigo que corria. Haldir tentou alertá-lo, mas a mensagem veio tarde. Com uma ginga de capoeirista, o idoso deu um chute alto que acertou o rosto de Percival e o derrubou.

- Vocês não são bem-vindos aqui! - A voz do idoso mudou para uma bem grave. Essa surpresa deixou a todos desprevenidos, menos Haldir.

- Como todo orixá ele só pode se manifestar nesse plano através de um médium. Esse é Exu, o mensageiro. Qualquer um que queira conversar com os outros deuses desse panteão tem que passar por ele. - O elfo sacou sua espada e tentou acertar o orixá, mas esse desviou de todas as suas investidas. Pra piorar, como forma de humilhar o seu oponente, Exu manteve os braços cruzados para trás. Com um giro rápido de pernas, a entidade nocauteou o elfo também.

- Já chega! - Alice pegou a varinha de sua cintura e apontou para o pai de santo incorporado. Ao mencionar um feitiço, ela fez com que o idoso fosse arremessado até a parede oposta com velocidade o suficiente para tirá-lo de combate.

- Quem está espancando o meu mensageiro? - De dentro da casa saiu uma mulher de trinta e poucos anos grávida. Assim como o pai de santo, ela também estava incorporada.

- Iemanjá, esses europeus vieram perturbar a nossa vida. - Disse Exu. - Como de costume. - Haldir, que era aquele que mais sabia sobre etiqueta no mundo das divindades, se ajoelhou perante a rainha das águas para apresentar sua comitiva e falar sobre a sua jornada.

- Vamos tratar disso com os outros. Exu, chame os filhos de santo da casa e prepare os atabaques.

No salão onde eram feitas as sessões, o trio de viajantes sentou no lugar reservado às visitas enquanto os médiuns iam chegando. Eles fizeram um círculo e começaram a dançar assim que os tambores soaram. Os responsáveis pela percussão, que não eram médiuns, cantavam várias músicas sendo que cada uma delas fazia referência a um orixá. Em pouco tempo a sessão foi invadida por gritos, era sinal que as divindades haviam atendido ao chamado.

- Percival, algum problema? - Perguntou Haldir.

- Sei lá, tô meio zonzo… - Percival foi acometido por enjoo e tontura. A sensação incomoda durou só até a incorporação ser concluída.

- Quem é você?! - Perguntou um dos médiuns incorporados. Oxalá era aquele que habitava o corpo do adolescente. A entidade se dirigia a Percival, mas não era com ele que ela estava falando. - Você não é um dos eguns da casa! Revele-se!

- Por muitos anos eu vaguei pelo mundo sem ter um propósito. Eu vi no pedido de ajuda desses aventureiros uma chance de recuperar minha honra.- Disse Percival, sendo usado como meio de comunicação de um desencarnado. - Caso os orixás não aceitem tomar partido na guerra, eu tomarei. Sou Yasuke e cedo a minha espada samurai ao príncipe changeling.

- Então que assim o acordo seja firmado. - Disse Oxalá. - Nosso apoio à guerra dos panteões será através desse egum.

- Mas isso é muito pouco! - Reclamou Alice.

- E tenho dito. - Os orixás liberaram os seus médiuns. Como prova de que passaram por ali, eles deixaram para trás um grupo de seguidores com tontura e enjoo. Percival estava entre eles. Assim que o príncipe despertou, ele ficou sem folego, como se tivesse participado de uma maratona.

- Não sabia que um feérico podia receber um orixá. - Disse Alice.

- Eu também não. - Respondeu Percival. - Eu pensava que isso fosse coisa de humanos.

A casa ao lado do terreiro era uma construção de quatro andares. Nela vivia cinco pessoas, mas agora todas elas estavam mortas. Foram assassinadas. Na laje, um franco-atirador posicionava sua arma na direção do salão. Ele era profissional, não se importava com quantas pessoas tinha que eliminar para cumprir com o seu objetivo. Quando o alvo ficou na posição perfeita ele atirou. A bala, que tinha incrustada nela o dizer "To Kill a God", voou a uma velocidade absurda, mas mesmo assim não foi o bastante. Houve uma incorporação poucos milissegundos antes da bala chegar a tocar na vítima. Com uma katana espiritual em mãos, Percival conseguiu rebater o projétil.

Percival não era capaz de voar. Mas, devido a incorporação com Yasuke, ele ganhou a habilidade de pular muito além da capacidade humana.

O matador largou seu fuzil no chão antes de se levantar e pegar um revólver de sua cintura. Seu profissionalismo deu sinais de fraqueza assim que ele viu um nerd "voando" em sua direção. Pra piorar, o sujeito parecia que dividia o mesmo espaço físico com um espadachim afrodescendente. - Elon Tusk?! - Por acreditar ter visto uma figura famosa, Percival perdeu sua concentração antes de atacar o assassino profissional. O resultado disso foi que ele bateu o pé direito na lateral da laje e ficou impossibilitado, pelo menos por um tempo, de ficar de pé.

- Meu mestre me avisou que coisas estranhas poderiam acontecer. - Disse o suposto Elon Tusk. - Que se foda! Nada consegue sobreviver a um tiro a queima roupa de uma boa arma. - O clone apontou seu revólver para a cabeça de Percival, mas seu disparo foi evitado por Alice que, com um feitiço, fez a arma ir parar longe.

Apostando suas fichas em um último recurso, o clone pegou de seu cinto uma granada de mão e tentou jogá-la no seu alvo. A investida foi interrompida por uma flecha que atravessou sua têmpora direita antes dele tirar o pino da arma. - Você tem uma boa mira para um mortal. - Disse Haldir, se referindo ao morto. - Mas nada supera a mira élfica.

- Você gostou mesmo do meu Ofá. - Disse Oxóssi que, apesar de ser uma entidade feminina, ocupava o corpo de um homem. A orixá havia cedido o seu arco e flecha para o elfo abater o assassino de elite. Impressionada com a desenvoltura do cavaleiro com sua arma, ela tomou uma decisão. - Pode ficar com meu arco, guerreiro elfo. Você vai me devolvê-la quando essa crise tiver finda.

Antes de irem embora, Alice curou o pé de Percival com magia. - Vamos para onde agora? - Perguntou o príncipe. No início ele não gostou de ter que dividir o seu corpo com outra persona. Mas no fim acabou sendo convencido de que aquela era a melhor opção.

Haldir consultou sua lista mental antes de dar o seu parecer. - Se não me engano só falta as entidades asiáticas. Há um deus dragão que…

- Não! - A conversa do trio foi interrompida por um fantasma. O desencarnado tinha origem africana e se vestia com tanto ouro que dava a impressão que era um rei. - Os iorubá não são os únicos deuses que nasceram no berço da humanidade. Vocês podem pedir ajuda a outros panteões que residem no continente. Além disso vocês podem contratar ajuda paga.

- Desculpe, mas quem pediu sua opinião? - Disparou Alice.

- Sou Mansa Musa, imperador do Mali. Estou disposto a custear sua expedição.

- Como um fantasma pode nos ajudar com dinheiro? - Perguntou Percival.

- Quando vivo eu fui o homem mais rico do mundo. - Respondeu Musa. - Até mesmo os milionários de hoje não fazem frente a minha riqueza de outrora. - A entidade deixou cair no chão várias moedas de ouro. - Mesmo depois de morto eu continuo sendo um homem de posses. Tenho renda o suficiente para contratar mercenários, por exemplo. - Haldir sorriu, estava disposto a negociar.

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A máquina preditiva de Lunar Max operava usando o cérebro de cem clones como processador. A E-1000 usava sua capacidade intelectual para calcular os eventos futuros e apontar quais ações seriam mais lucrativas para os planos de Elon Tusk. Sempre que encontrava uma variável pertinente, a máquina imprimia o local e a hora que uma atitude deveria ser tomada. Porém, apesar de sua grande inteligência artificial, ela não tinha a capacidade de dialogar. Sendo assim não dava para saber o motivo que levava a máquina a destacar certas ações.

- Por que você quer que eu mate esses três? - Perguntou o Elon Tusk original a sua máquina, mesmo sabendo que ela não responderia.

- Senhor! - Um dos clones adentrou a sala de comando. - O combatente de elite fracassou. Ele foi eliminado. - Os clones de elite de Elon são feitos para não serem facilmente superados. Aquela notícia fez com que o magnata prestasse mais atenção naquele grupo.

- Quero que vocês sigam os passos dos alvos de E-426. Preciso saber porque eles são importantes.

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- Por que aquele atirador tinha a cara de um cientista famoso? - Perguntou Percival.

- Foi tudo tão rápido. - Disse Alice. - Você deve ter se confundido.

- Não sei. - Argumentou Haldir. - Ainda me perturba o fato de um mortal ter conseguido quase nos matar.