"Saudações, pestinhas e monstrinhos. Eis aqui seu famigerado anfitrião, o Guardião da Cripta, lhes trazendo mais um conto tão assustador que irão se molhar bem antes do meio da história. Ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha."
"Com certeza, uma ou outra vez na vida, já devem ter escutado 'não faria isso se estivesse em meu lugar', apenas pela fato dos outros não entenderem como seria estar na pele de outra pessoa. Bem, o conto desta noite irá dar às nossas protagonistas, Kiyone e Mihoshi, uma perspectiva bem literal desta expressão ao se depararem com uma senhora bem incomum. Eu os convido a escutarem este medonho conto intitulado:"
Troca Sinistra
Kiyone tinha acabado de chegar em casa. Depois da ligação que recebeu de sua namorada, veio o mais ligeiro que deu, especialmente ao notar o tremor de pavor notado na voz de Mihoshi.
"Mihoshi, estou em casa. Onde você está? o que aconteceu?"
"E-estou aqui, Kiyone, mas por favor, não corra nem grite que explicarei tudo."
"Correr? Gritar? Mihoshi, por favor. Deixa eu te ver." E em meio às sombras da sala da frente, delas saiu uma senhora idosa de uns 80 anos vestindo uma túnica negra. Seu rosto demonstrava um estado bem avançado de velhice. Kiyone ficou firme diante da anciã.
"Quem é você? O que faz aqui? E cadê a Mihoshi?" "K-Kiyone. Sou eu...Mihoshi." "M-M-Mihoshi? Isso é piada, senhora? O que acha que...?"
A idosa parecia que choraria, mas manteve-se firme. "Kiyone. Sou eu mesma. Não reconhece minha voz?" Nisso que a morena forçou um pouco sua audição e reparou ser a voz de sua namorada. "Meu Deus. É você de verdade, mas como...? O que foi que...?"
"Foi esta manhã, Kiyone. Aconteceu por descuido meu."
Flashback
Tinha acabado de secar as roupas e ia sair pra comprar os ingredientes pro almoço quando escutei um bater na porta. Atendi e era uma senhora bem idosa.
"Por favor, minha jovem. Pode ter misericórdia de uma pobre criatura que não come há 2 dias? Umas moedas ou resto de comida, eu lhe peço."
"Hã, claro, vovó. Aguarde um pouco, sim?" Me virei pra pegar minha bolsa e deixei a porta aberta e juro que se soubesse o que ia acontecer, nem teria atendido. De repente, senti minha mão ser agarrada. Era a velha e parecia mais forte do que parecia.
"Ei. Que está pretendendo?" "Eu vou lhe dizer. Olhe pra mim." Ela deu uma pausa. "Os anos me tomaram a juventude e a quero de volta. Dessa maneira, vou tomar seu belo corpo jovem e te deixar com o meu." Num momento, a mão dela mostrou um brilho roxo que ficava mais forte. Tentei fugir, mas não deu para me livrar. Ela tocou-me com a mão brilhante e cai inconsciente. Quando despertei, vi horrorizada que estava no corpo dela. Fui para fora ver se a achava, mas nada. Daí te liguei.
Fim do flashback
"Kiyone, acredite em mim. Sei o quanto isso pode soar como se fosse loucura, mas eu juro. Sou a Mihoshi. Estou tão assustada." A idosa pôs a mão no rosto pra conter as lágrimas. Kiyone a olhava fixamente, mas estava com dúvidas sobre o que escutara.
"Escute. Apesar do que me contou, ainda não sei se..." "Me pergunte, Kiyone. Pergunte algo que só Mihoshi, ou seja, eu, saberia. Algo que seja só nosso."
"Está certo. No meu aniversário, que foi semana passada, de que sabor era a torta que me preparou, já que não sabia fazer bolo?"
"Seu aniversário foi mês passado; era um bolo porque sei fazer bolo; e de chocolate branco com creme de avelã e amoras, seu favorito. Ah, e umas colheres de pó de canela porque sei como gosta de canela tanto em doces como no café."
As palavras a pegaram como se fosse uma descarga elétrica. Só Mihoshi podia ter dado tal afirmação e o fato de saber como a moça de cabelo verde gostava de canela já apagara qualquer traço de dúvida. Embora meio receosa, Kiyone veio para perto da velha, quer dizer, Mihoshi, e a abraçou.
"K-Kiyone? Então acredita...?" "Sim, meu amor. Eu creio, sim. Vai ficar tudo bem, eu juro." Toque do celular. Kiyone atendeu. "Sim?"
"Kiyone? Sadako." "Oi, Sadako. O que conta?"
"Não querendo me meter na sua vida, mas algo está errado entre você e Mihoshi?"
"Por que pergunta?" "Bem, Sakuya e eu acabamos de encontrá-la e não nos cumprimentou, como se não nos conhecesse. Pensei que talvez estivesse sentida ou aborrecida."
"Onde ela está? Por favor, Sadako, me conta."
"Na estação de trem. Estou vendo daqui. Ela acabou de comprar uma passagem para Osaka. Esse trem deve chegar em uns 15 minutos e pela quantia de malas, acho que será uma longa viagem."
"Sadako. Não diga mais nada. Fica de olho nela que chego aí logo. Valeu a ligação." Depois de desligar, se dirigiu à Mihoshi. "Boas notícias. Sadako achou seu corpo. Precisamos nos apressar, mas preciso fazer uma coisa. Confia em mim?" Mihoshi balançou a cabeça afirmativamente.
As duas foram para a rua e obedecendo as ordens de Kiyone, Mihoshi se deixou amarrar nas mãos e teve a boca fechada com fita e em seguida, colocada no porta-malas do carro. Kiyone tomou o volante e saiu em disparada, atravessando sinais e ultrapassando o limite de velocidade, sem ligar pra nada a não ser em salvar sua namorada.
"Caramba. Não duvido que aquela senhora é Mihoshi. Vou pegar o corpo dela de volta e azar de quem se intrometer no meu caminho."
Vendo no relógio ser quase 3 horas, a morena parou na estação e encontrou Mihoshi, quer dizer, o corpo dela. Seja quem fosse, iria pagar por tal maldade. Chegando bem perto, notou que a loira bronzeada não dava nem sinal de reconhecê-la, deixando claro não ser sua companheira. Foi que lhe veio um plano em mente, se aproximando dela.
"Ei, Mihoshi? Lembra de mim?" "Hã? O que?" "Eu...Munehiro. Fomos colegas no terceiro ano fundamental." "Mune...hiro? Oh, claro. Acabei de lembrar. Desculpe, mas faz tanto tempo."
"Não resta mais dúvida. Ela não é Mihoshi ou saberia que esse não é meu nome. Vamos ver se meu plano dá certo." Foi o pensamento de Kiyone.
"Eu soube de umas coisas à seu respeito e decidi vir te ver. Me contaram sobre sua doença terminal e que não tem mais que um mês de vida."
"D-doença terminal? Um mês?"
"Foi isso que seu médico me informou, Mihoshi. Olha, se eu puder te dar uma ajuda nesse tempo que te resta..." Kiyone fingia muito bem estar sendo solidária. A loira se estremeceu de pavor.
"Não. O que fui fazer? Tenho que pegar meu velho corpo de volta e já." A mão da loira tomou um brilho de cor roxa, exatamente como Mihoshi descreveu. Num instante, cessou-se o brilho e a mulher caiu desmaiada. Kiyone logo a amparou.
"Mihoshi? Você está aí? Por favor, me responde, Mihoshi." "Kiyone...é você?" A moça bronzeada abriu os olhos lentamente.
"Sim, sou eu, mas você é...?" Sem hesitar, Mihoshi agarrou a moça em seus braços e a beijou com forte paixão. Foram instantes de terno amor que as duas tinham desfrutados diversas vezes desde o dia em que o quanto se amavam e manifestaram o desejo e a vontade de ficarem juntas no amor.
"Foi ótimo, não? Tanto quanto nosso primeiro beijo no acampamento Ozora de verão, quando tínhamos 10 anos. Não foi isso?"
"Isso aí. Saímos quietinhas de noite e fomos à uma parte escondida do lago. Lembro de como tinha vontade de te beijar e foi uma delícia, mesmo com seu aparelho de dente." "Nunca usei aparelho. Sabe disso." "É mesmo, e você voltou para mim, querida." As duas se abraçaram carinhosamente. Sadako e Sakuya, que viam tudo, chegaram perto.
"Garotas? Já...ajeitaram tudo?" "Oh, sim, Sakuya. Foi um simples mal entendido. Agora temos que ir. Nos encontramos amanhã de noite pra um jantar na nossa casa. Vocês irão?" As duas amigas confirmaram.
Voltando pro carro, Mihoshi notou o barulho do porta-malas. Por um instante, pensou em checar, mas daí recordou de quem estava lá. Ela e Kiyone saíram pela cidade e pela expressão da garota esverdeada, parecia estar tramando algo. Pararam num posto pra pegarem um galão de gasolina e depois numa loja de artigos diversos. As duas se dirigiram para fora da cidade até chegarem num descampado na floresta.
"Kiyone. O que nós vamos fazer com...?" "A única coisa que dá pra fazer. Levá-la para a polícia, fora de questão, pois quem vai acreditar que ela troca de corpos? E se a deixarmos livre, vai fazer essa coisa hedionda de novo, se é que já não tenha feito. Sinto, Mihoshi, mas receio que a única saída seja..." Kiyone puxou um revólver do porta-luvas. A loira olhou um tanto apreensiva, mas essa sensação logo cessou quando percebeu que as palavras de sua namorada tinha fundamento.
"Kiyone...você está certa. Ela não pode continuar com essas coisas más. Vamos detê-la, custe o que custar, e que Deus nos perdoe pelo que faremos, mas é necessário." As duas desceram do carro e foram até o porta-malas, escutando as batidas cada vez mais fortes da velha presa.
"Você abre a tampa e sai da frente. Assim que abrir, eu taco fogo." "Ok. Vamos no 3. 1, 2, 3." Mihoshi puxou a tampa, mas quando Kiyone puxou o gatilho, não teve disparo. Foi que notou que esquecera de tirar a trava de segurança, mas antes de poder desengatilhar a arma, foi atingida por algo pesado: um macaco, arremessado pela velha que tinha conseguido se soltar, jogando-a no chão. Mihoshi tentou segurá-la, mas a idosa se mostrava bem mais forte do que aparentava e a lançou para o lado.
Kiyone tentou se erguer, porém notou ser presa ao chão e ao ver, era a velha, exibindo um sorriso maligno.
"He, he, he. Ainda não acabou. Vou ter seu belo corpo para mim e quando acabar, vou ter o gosto de matar você e sua amiga idiota." A diabólica velha fez sua mão emergir novamente aquela luz roxa de aspecto apavorante. Kiyone tentava se soltar, mas suas mãos não obedeciam. Faltando só um pouco para ser tocada, Kiyone fechou os olhos para não ver o fim terrível que teria, mas eis que um barulho de disparo, seguido de um grito de dor captado por seus ouvidos. Ao ver, era a bruxa que berrava de dor, segurando sua mão cujo polegar foi arrancado e do buraco do dedo, jorrava sangue. Kiyone pegou a chance e saiu de perto da bruxa, empurrando-a para o lado. Um pouco adiante, Mihoshi empunhava a arma que mostrava ser sido usada pela fumaça saída do cano. Seu olhar, antes cheio de doçura e inocência, estava repleto de força e determinação. Ela foi para perto de Kiyone e se ajoelhando perante ela, olhando-a com preocupação, mas em alerta.
"Kiyone. Ainda é você?" "Shampoo de menta." Kiyone sorriu puramente. "Hã?"
"Era shampoo com cheiro de menta que usava na noite do nosso primeiro beijo. O usou porque sabia que adorava essa flagrância e toda vez que usa, fico ofegante."
"Ohhhh." A loira de pele bronzeada deu um abraço na companheira e depois se virou, aproximando-se da velha que se contorcia de dor.
"N-não, por favor. Eu imploro..."
"Isto é pela Kiyone." BAM - Um tiro acertou-lhe a mão, estourando-a.
"Isto foi por roubar meu corpo." BAM - Tiro na barriga.
"Por todas as maldades que fez com quem mais só Deus sabe." BAM - Tiro no peito.
"E isto...por tentar me afastar de quem eu mais amo." BAM, BAM, BAM - 3 tiros na cabeça. O corpo caiu em meio a uma poça de sangue e sem se mexer, não restava nada para duvidar de que a bruxa estava morta.
Após terem certeza de que a velha tinha morrido mesmo, as duas carregaram o corpo até o meio da floresta e numa área longe o bastante de árvores, colocaram o corpo em cima de várias pedras, o encharcaram de gasolina e tacaram fogo. Ficaram por um bom tempo vendo a cremação até que finalmente as chamas cessaram, da onde da pira crematória nada sobrara além de cinzas, pouquíssimos fragmentos de ossos, pequenos trapos e restos derretidos de balas.
Recolhendo primeiro as balas e colocando-as num saquinho, logo varreram as cinzas e os ossos que mesmo bem pequenos, foram pisados e feitos em farelos. Indo mais para frente na floresta, chegaram até um grande barranco e nele, despejaram as cinzas e os restos carbonizados, levados pelo vento para bem longe dali. Voltando para a cidade, puseram as balas numa lata de refrigerante e jogaram num recipiente de recicláveis o qual um caminhão de lixo tratou de levar.
Com sua tarefa cumprida, voltaram para casa.
De noite em sua cama, Kiyone e Mihoshi só tinham olhos uma para outra depois de um bom sexo. Ambas sentiam um forte alívio depois do dia pavoroso que vivenciaram.
"Que bom que acabou tudo. Nem penso como seria se não tivéssemos conseguido. Só de pensar em viver no corpo daquela bruxa...ia preferir morrer." Mihoshi caiu em choro. Sua namorada veio em seu amparo, tomando sua mão.
"Mas o que importa é que tudo acabou, minha linda. Vou falar: se você decidisse morrer, eu faria o mesmo. Sem você, minha vida de nada vale."
"Oh, Kiyone. Eu amo você." "E eu também te amo. Aliás, notei que usou o shampoo de menta. Que cheiro divino." A morena deu uma aspirada no cabelo da amante.
"Que maravilha. Que tal um cafezinho?" "Com bastante canela?" "Sim, minha cabeça de bolha. Está vendo? Eu sou eu porque sei como te chamar carinhosamente. Você é uma cabeça de bolha, mas é minha cabeça de bolha."
"Vindo de você, é um elogio de muito amor." As duas deram um longo beijo antes de irem para a cozinha.
Na floresta, algo cintilava no chão, o suficiente pra atrair um lobo que estava nas proximidades. O animal se achegou mais perto e viu se tratar de um polegar.
Tomando o pedaço de carne em seus dentes, o brilho aumentou da boca do lobo até tomar seu corpo inteiro, derrubando-o. Ao se erguer, algo diferente via-se em seus olhos caninos.
"Que inconveniente, mas não posso reclamar. Ainda bem que mantive um pouco de minha magia no dedo. Não é como eu queria, mas de todo jeito, é um corpo jovem e vai servir até eu poder obter um mais...prestativo. E quanto a aquelas garotas...elas terão minha vingança. Não perdem por esperar. Ha, ha, ha, ha, ha, ha." E dando as costas, o lobo dominado pela bruxa correu floresta adentro, sumindo na noite...
FIM.
"Com certeza, Mihoshi e Kiyone aprenderam uma sábia lição: nunca se descuidar com doces velhinhas, principalmente se elas sabem onde põem as mãos. Ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha."
"Devem se perguntar o que houve com a simpática idosa. Bem, por que não perguntamos diretamente para ela?" O Guardião mostrou um lobo empalhado com a boca bem aberta, acariciando sua cabeça.
"Pois é. Que azar o dela ter se apoderado de um lobo justo na temporada de caça da região, e não é por acaso que sabia dessa história, pois quem pensam ter estado lá naquele dia e gentilmente a encontrado e lhe dado um lar permanente? Oh, e a propósito...que dentes grandes você tem, vovó. Ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha."
Originalmente seria só uma história de Tenchi Muyo, mas me bateu que pelo clima sobrenatural e o típico fim enrolado que esse tipo de conto tem, achei que daria mais certo fazê-lo crossover de Contos da Cripta.
