Capítulo 02: Uma proximidade perigosa
Quando cheguei até lá, encontrei-o sentado em uma pedra, esperando pacientemente. Fiquei indignado por vê-lo ali tão desprotegido, mas não podia negar que ao mesmo tempo fiquei feliz por vê-lo bem.
— Ei pirralho, vá embora... Eu te disse antes, esse lugar é perigoso — lembrei-o enquanto chegava até ele e recebia um olhar furioso.
— Na-ru-to — disse-me sério enquanto cruzava os braços e me fuzilava com os olhos.
— O quê? — perguntei surpreso com aquele olhar hostil.
— O meu nome é Naruto, não me chame de pirralho, moço estranho... Ai, ai! Por que me bateu? — perguntou enquanto alisava a sua cabeça onde provavelmente cresceria um grande galo devido ao soco que acabei de lhe dar.
— Não me chame de estranho!... Agora vá embora — ordenei, antes de me virar e começar a andar, pararando ao sentir um delicioso aroma no ar. Ao me virar vi o garoto de pé e segurando um pequeno embrulho que continha comida, e não era carne ou uma fruta, tinha cheiro de... bolo!
— Vim agradecer pelas frutas de ontem. Pode pegar, foi minha mãe quem fez — explicou enquanto vinha até mim e me entregava o embrulho. — Qual seu nome? —perguntou de repente.
— Me chame de lobo — respondi automaticamente. Era a minha resposta padrão para aquele tipo de pergunta e respondi antes mesmo de perceber o que tinha dito.
— Que nome esquisito — comentou ele contendo um sorriso. — Eu preciso ir agora. Até amanhã, lobo — despediu- se com um pequeno sorriso e um aceno de mão, já indo novamente em direção aos arbustos que escondiam a trilha que ele usava para chegar até ali.
— Ei! Espere — pedi fazendo o jovem loiro se virar e me encarar.
— O quê? — questionou curioso.
Era agora que eu devia dizer "Não volte mais", porém ao lembrar do seu olhar triste, não consegui dizer aquela frase.
— Obrigado pela comida... Naruto — Agradeci do modo mais gentil que consegui e embora não tivesse muita confiança em ser gentil, pareceu dar certo, porque naquele momento o seu rosto se iluminou. Um grande sorriso apareceu e por um momento vi o brilho nos seus olhos... obrilho de verdadeira felicidade.
Ele estava feliz... e eu era o motivo? Era difícil de acreditar, porém se aquilo era um sonho, eu queria continuar sonhando apenas um pouco mais. Um sonho onde eu encontrei um pequeno pontinho de luz, que mesmo que por pouco tempo e em pouca quantidade, iluminava a minha escuridão.
O bolo estava delicioso, era um gosto que eu nunca poderia esquecer. Cada pedaço me fazia lembrar da gentileza, carinho e inocência do pequeno garoto, e quando ele infelizmente acabou... senti falta do bolo e da sua companhia.
Pela primeira vez naqueles anos, esperei ansioso pelo próximo dia e como havia me prometido ele apareceu no dia seguinte, e no seguinte, e no seguinte e em todos os dias por quase dois meses. Sempre nos encontrávamos no rio, no lugar onde eu o conheci e dali íamos explorar a floresta.
Nesse tempo nos tornamos o que as pessoas chamam de amigos, pouco a pouco comecei a aproveitar cada vez mais a companhia dele e ansiosamente esperava pelo encontro seguinte. Estar na companhia daquele garoto me fez perceber a falta que eu sentia de poder conversar com alguém e que a capacidade de sentir que abandonei em minha adolescência, tinha retornado naturalmente naqueles anos em que estive isolado na floresta.
Quanto mais tempo passava com ele, mais descobria o quanto estava mudado e mais descobria sobre ele, pois Naruto sempre respondia a tudo o que eu perguntava, era um tipo de "livro aberto" e não tinha segredos, ao menos não para mim.
Naruto Uzumaki, doze anos, filho de Kushina Uzumaki e Minato Namikaze. Ele era extrovertido, hiperativo, curioso, gentil e muitas vezes inocente. Confiava em mim seriamente e sempre escutava tudo o que eu lhe dizia. Eu gostava desse seu lado inocente, mas também me preocupava muito com ele ao imaginar alguém tirando proveito de sua confiança.
Passei a maior parte do nosso tempo juntos lhe ensinando. Primeiro ensinei-lhe sobre a floresta, o que podia e o que não podia fazer nela, afinal ele vinha frequentemente e precisava estar ciente de seus perigos. Depois comecei lentamente a prepará-lo para o mundo que iria enfrentar em alguns anos, já que tinha consciência de que não poderia estar ao seu lado para sempre... Principalmente depois que descobri quem era seu pai.
— Lobo, o que vamos fazer hoje? — perguntou com um sorriso assim que cheguei ao nosso ponto de encontro. Ele vestia tênis, calção e camisa, uma roupa confortável e apropriada para a floresta. Assim como eu havia sugerido, ele deixou de lado as roupas sociais e qualquer acessório desnecessário, para que isso não atrapalhasse ou tornasse difícil a sua movimentação enquanto me acompanhava em meus afazeres do dia a dia.
— Hoje vamos pegar lenha. O meu estoque está baixo e o tempo vai começar a piorar. Venha — chamei já me abaixando e sentindo-o subir em minhas costas. No começo me recusava a carregá-lo, mas acabei acostumando e era muito melhor do que ter que caminhar em seu ritmo.
— Como sabe que o tempo vai mudar, tem um sol muito bonito? — perguntou olhando para cima.
— Quando se vive muito tempo perto dos animais, você começa a entender as suas ações. Quando está para chover eles pressentem a chuva e a maioria dos animais começa a achar um lugar para se abrigar — expliquei calmamente.
— Entendi, isso é muito legal! — comentou fascinado. A sua curiosidade era uma de suas qualidades, estava sempre disposto a aprender sobre o que não sabia, porém para mim era um grande problema. Devido a sua curiosidade ele sempre me enchia de perguntas, perguntas essas das quais muitas eu não podia responder.
Por que eu usava uma máscara? O que significava a tatuagem em meu braço? Por que estava vivendo em uma floresta? Onde estava a minha família?
Eram tantas perguntas que nem eu mesmo conseguia entender como consegui evitá-las por tanto tempo. Ele queria me conhecer e eu compreendia um pouco este sentimento, mas a verdade era que eu tinha medo ... medo do que ele faria quando conseguisse as respostas que procurava. Pois apesar de não dizer a ele, a sua companhia era importante e não queria perdê-la.
Chegamos no local onde eu costumava pegar lenha, mas havia pouca madeira no chão que não estava verde, então precisei cortar alguns galhos, o que demorou mais do que eu havia previsto. No fim, não tivemos tempo para mais nada e eu o levei de volta ao rio.
— Ainda está cedo, por que não posso ficar mais um pouco? — questionou quando soltei suas pernas e lhe coloquei no chão, descendo-o de minhas costas.
— Não é bom ficar muito tempo por aqui. Se seu pai descobrir... Se seus pais descobrirem que você vem para essa floresta, talvez não te deixem mais vir — avisei me virando para ele, vendo seu olhar triste e ao mesmo tempo compreensível.
— Eu não gosto muito de ficar em casa — comentou algo que eu ouvia com bastante frequência.
— Os adultos frequentemente fazem coisas que não querem fazer... Acostume-se — disse fazendo um leve carinho em seu cabelo e apontando para a trilha, insistindo sem palavras para que ele fosse para casa.
Naruto se despediu com um pequeno sorriso e disse: "até amanhã", assim como todos os dias. Mas no dia seguinte... ele não apareceu. Assim como nos demais dias daquela semana.
