Capítulo 03: Nunca entre na floresta à noite.
A cada dia que passava eu ficava mais preocupado. Sabia que ele tinha algum motivo, que algo devia ter acontecido, mas a questão era ... o que aconteceu? Todas as noites o sono demorava a vir e eu encarava a escuridão enquanto meus pensamentos tentavam se acalmar.
Era assim que eu estava quando algo surpreendente aconteceu.
Ouvi alguns corvos e corujas voarem para longe, sinal de que algo os incomodara. Levantei-me imediatamente e subi no topo da árvore enquanto usava meu olho esquerdo para ver se encontrava o motivo do desconforto dos animais e foi então que eu vi... uma claridade vários metros á frente.
Assim que confirmei sua localização, comecei a correr naquela direção. Aquela claridade se movia enquanto era carregada por alguém e eu só conhecida uma pessoa louca o bastante para vir até aquela floresta durante à noite... e seu nome era Naruto Uzumaki.
Meus temores foram confirmados quando cheguei até o local e encontrei o que não queria, um Naruto que parecia assustado, tremendo e quase chorando. Ele estava tão absorto em seus pensamentos que nem sequer me notou, só percebendo a minha presença em sua frente quando toquei levemente o seu rosto para enxugar uma discreta lágrima que escorria ali, fazendo-o então olhar para mim.
Usei a mão livre para segurar a lanterna que tremia em suas mãos e depois disse-lhe delicadamente. — Não chore.
— Eu não estou ... chorando — respondeu enquanto outra lágrimas descia pela sua face e para a minha surpresa ele se aproximou e com a mão livre segurou em minha camisa fortemente enquanto dizia apressado: — Desculpe, desculpe!... Eu queria vir, mas papai estava bravo... Desculpe — insistia em se desculpar, enquanto olhava para cima em uma tentativa de me encarar diretamente nos olhos e enquanto seu corpo tremia ainda mais.
Levei um tempo até finalmente compreender o significado de suas palavras. Ele não pôde vir como havia prometido e pensou que eu estava bravo... O medo que ele sentia naquele momento, não era da floresta ou da escuridão, e sim de que eu não quisesse mais a sua companhia. Tal descoberta realmente me surpreendeu, jamais poderia imaginar que minha amizade significasse tanto para ele... tanto quanto significava para mim.
— Eu jamais me afastaria por tão pouco — expliquei enquanto tocava sua cabeça em um leve carinho.
— Verdade? — perguntou com um pequeno sorriso, enquanto eu afirmava com um leve balançar de cabeça. Em seguida me abaixei e me virei de costas para que ele subisse e eu pudesse carregá-lo. Segurei a lanterna com uma mão e segurei-o com a outra enquanto ele abraçava-me pelo pescoço e escorava o seu queixo em meu ombro.
— Eu não sei o que aconteceu com seu pai, mas se ele descobrir que fugiu durante a noite, talvez as coisas fiquem ainda piores. Então vou te levar para casa — avisei já começando a andar, me mantendo alerta para qualquer perigo.
Depois de caminhar por vários minutos senti seu corpo estremecer, ele estava com frio, foi só então que percebi que apesar de ser noite ele vestia apenas bermuda e camiseta e ... não calçava sapato, estava completamente descalço. Respirei fundo tentando evitar dar-lhe uma bronca e resolvi me focar primeiro no pior dos problemas que havia surgido naquela noite.
— Naruto, você se lembra das regras da floresta que te ensinei? — comecei, chamando sua atenção e fazendo-o levantar sua cabeça para me encarar antes de acenar afirmativamente. — Muito bem, eu estou adicionando mais uma regra: Nunca entre na floresta à noite. Ela está viva e é um inimigo, e não se deve lutar contra um inimigo que não podemos ver. Entendeu? Se entendeu repita a regra para mim.
— Regra número 5: Nunca entrar na floresta de noite, porque não podemos lutar com o que não podemos ver — respondeu ele entendendo rapidamente. Agora um pouco mais calmo, resolvi tentar resolver o outro problema.
— Escuta Naruto, você não precisa vir me ver todos os dias, tudo bem? Eu não vou deixar de ser seu amigo por algo assim. Mesmo se algum dia for preciso nos afastar, ainda assim continuaremos amigos, por isso não crie problemas com seus pais. Se concentre nos estudos e venha me visitar apenas quando tiver tempo sobrando — esclareci calmamente.
— Certo — concordou sem objeções, parecendo contente. Aquelas poucas palavras, puderam tranquilizar o seu coração, enquanto agitavam o meu. Pois ao dizer tudo aquilo para ele, percebi uma terrível verdade... Não estaríamos juntos para sempre e talvez aqueles bons tempos não durassem muito. Não que eu já não soubesse disso, porém tinha me forçado a esquecer.
Levei-o até uma distância da onde podia avistar com clareza a sua casa, embora aquela "casa" fosse na verdade uma imensa mansão, pois seria muito perigoso se ele tivesse que andar por toda a extensão da trilha como fazia normalmente. Coloquei-o no chão e devolvi sua lanterna.
— Ah, já ia me esquecendo... Idiota! Se vier para a floresta descalço novamente, eu vou ficar realmente bravo — avisei depois de dar-lhe um pequeno cascudo e vendo-o esfregar a cabeça enquanto ria — Qual é a graça? — perguntei irritado ao vê-lo gargalhando.
— Eu senti falta dos seus cascudos — admitiu antes de sorrir e correr de volta para a sua casa. E enquanto via-o fazer o seu percurso, permiti que um sorriso surgisse sob minha máscara... um sorriso de felicidade. Eu não sabia quanto tempo ainda poderia desfrutar da companhia daquele garoto com quem surpreendentemente fiz amizade, mas ia aproveitar cada segundo.
O pai de Naruto estava bravo... não sabia a razão, mas se ele descobrisse o envolvimento de seu filho comigo, provavelmente tentaria nos separar. Afinal ele era Minato Namikaze, o atual Hokage, o líder daqueles que mesmo nos dias atuais ainda são chamados de ninjas. Ele era um homem correto, que odeia mortes desnecessárias, mortes como as que são causadas pelas Forças Anbu e como as que causei inúmeras vezes.
Para piorar ainda mais a minha situação, Minato já foi um amigo de meu pai e foi traído por ele. Se o fato de eu ser um assassino e ex-membro das Forças Anbu, não for o suficiente para fazê-lo me odiar ... o sobrenome Hatake com toda a certeza o fará.
Voltei para o meu acampamento e cansado pelas últimas noites de insônia, finalmente descansei, enquanto mantinha comigo a lembrança daquelas poucas lágrimas assustadas. Lágrimas tão assustadas em perder a minha amizade, como seriam as minhas por ele, se algum dia eu fosse capaz de chorar novamente.
